5 de setembro de 2014

De perto.


     Por forma a encerrar as férias, se tanto oficialmente, combinei ir à praia com uma prima. Se pudesse desfrutar do mar sem passar pela praia, fá-lo-ia. Por Lisboa, então, evito. Ainda assim, escolhemos um bom dia, sabendo que o Setembro é, regra geral, menos congestionado.

      Estar de papo para o ar deitado numa toalha, torrando ao sol, além de pouco saudável não me satisfaz. Fui pela companhia e pela vontade incomensurável de sair. Optámos por um guarda-sol da área que está concessionada. Protegemos a pele e os pertences do calor.
     Foi divertido na água. Adoro nadar e nado com um à-vontade que não tenho em terra. Os anos de natação, interrompidos pelas crises de asma, aguçaram-me o gosto pelo mar, não necessariamente por piscinas, que evito. Só não tenho muito jeito em mergulhar ou fazer aquelas piruetas, o pino. Há sempre quem goste de mostrar as suas capacidades acrobáticas...

      Quase deserta, e num dia bom. Razoavelmente quente. Um rapaz estendeu a sua toalha ao nosso lado. Despiu a camisa, de cavas, e exibiu o seu corpo moreno. Reparei que colocava, de tempos a tempos, um líquido incolor, que suponho bronzeador, no corpo. Senti-me constrangido em falar com a prima. Às vezes olhava-nos com uma expressão atenta, compenetrada, como se analisasse o nosso tom de voz. Não serei uma pessoa desconfiada, mas não gosto que olhem para mim com frequência, sobretudo pessoas com quem divido o espaço. Uma vez que não dou atenção a quem me rodeia, por feitio, procuro passar subtilmente.

     O rapaz saía para mergulhar por instantes. Pouco se quedava na água. Notei que não se afastava da margem, quem sabe temendo perder o pé. Só me aventuro por zonas onde não tenho pé quando não há ondulação. Temo sempre que uma onda me apanhe, incauto. Herdei uma distracção da mãe, algo genético, incontrolável. Eu chamar-lhe-ia despistado. Tenho de ter cuidados redobrados para compensar.

      Deitou-se na toalha, puxou os calções de banho para cima e abriu as pernas. "Que lorde", pensei. Nas suas sete quintas apreciando as "babes" que passam (que não passou nenhuma; só senhoras flácidas de meia-idade, varizes nas pernas e efeito casca de laranja nos glúteos). Dava pequenos goles na Luso Limão, virava-se de costas e observava-nos de novo. Voltava à água. Agora mergulhou, destemido, deu braçadas, exibiu-se. Parecia que nos queria impressionar. A prima olhava, curiosíssima, a ponto de desconfiar se para os pinotes do rapaz ou para o corpo. A ele, é provável, aquece o ego. Será um qualquer jogo de sedução que desconheço, meandros do engate, when a man loves a woman or... a man.

- C., esquece, ele não deve ter mais dezanove anos.

    Indignada, ou apenas surpresa, encarou-me com um semblante nervoso. Sorri-lhe. Quis retirar o peso excessivo das minhas palavras, ditas com alguma revolta, incómodo.

     Saiu alguns minutos antes de nós. Almoçámos por ali mesmo e voltámos. Tenho a certeza de que houve um flirt na minha presença. Da parte dela. Lidei mal com isso. Admito que me causa estranheza e até certa repugnância. Como se aquele momento fosse estragado por sentimentos menores, torpes, carnais.

     Depois percebi que há lições que não vêm em livros de mil páginas. Chama-se vida. E temos de conhecê-la.

32 comentários:

  1. pareceu um dia à filme de romance.
    isso sim foi uma bela despedida ;)

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    1. Só faltou o romance. :)

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    2. Da minha parte, não. Quero estar sozinho. Um celibato voluntário. O problema do ser humano é não conseguir lidar com a sua própria solidão. Precisamos sempre de terceiros para nos sentirmos valorizados. Dependemos de carinho como de pão. Estou a aprender a ser auto-suficiente nesse aspecto. Fortalece-nos, sabes. Quem não sabe estar só, vendo-se na inevitabilidade de ficar, sofre muito mais. E na vida cada um conta consigo mesmo. No limite, é assim. Serás sempre o teu melhor amigo. Dos outros, terás decepções atrás de decepções.

      Bom, é assim a vida. Espero que a tua experiência seja diferente e cheia de alegrias. Eu nunca tive grandes decepções, até pelo pouco que vivi. No entanto, vejo e aprendo com o que me rodeia. Se puder contornar esse histórico, tanto melhor. :) Claro que cada um vive como quer.

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  2. Rsrsrsrsrsrs, aqui imaginando a sua cara assistindo a tudo isso :D Quase quase começando a primavera aqui, o outono aí. :)

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    1. O Outono, em boa verdade, quase que já começou. Hoje, em Portugal continental, está a chover. O céu todo nublado e chuva miudinha. :)

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  3. Ai, eu adoro esses jogos, essas conjecturas...

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    1. Faz-me um bocadinho de confusão, mas faz parte da vida. O errado sou eu, eu sei, e reconheço-o no final. :)

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  4. Idade boa, ué... dezenove... rs

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    1. Sim. Eu disse-o para chamá-la à razão. Ela estava "viajando", como se diz no Brasil. Sendo ela mais velha, quis alertá-la para o facto de o rapaz ser, muito provavelmente, imaturo. :)

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  5. |||||
    Esses "joguinhos" do que é, do que parece ser, e não é, ou talvez enche-nos sempre a cabeça de incertezas. Maravilhoso o teu texto. Eu ainda teria o descaramento de lhe piscar o olho e ver o que acontecia, mas que não fosse ir até à água "arrefecer" alguma ideia mais perturbante.
    Abraço

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    1. Não sei se ele estaria interessado na minha prima. Deu-nos muita atenção, de facto. "Pareceu-me" hétero (isto do parecer tem muito que se lhe diga...). De qualquer forma, a "loja" nunca chegou a abrir. Estou a leste desses cenários. :)

      Fui muito à água. Passo mais tempo lá do que na areia. :)

      um abraço, João, e obrigado pela tua visita!

      p.s.: Procurei pelo teu blogue, mas não encontrei. Tampouco sei se tens algum actualmente. Se tiveres, passa-me o link para te poder acompanhar. :)

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    2. Aí está o link:
      http://bandalarga2.blogspot.pt/

      Abraço

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    3. Lá irei. :)

      um abraço.

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  6. Bem, não se pode dizer que tenha sido um mau fim de férias! ;D

    P.S.: Gosto da nova fotografia;)

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    1. Foi um final de férias marcado por esta situação insólita.

      Oh, obrigado, Rúben! :)

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  7. Neste momento, sou incapaz de dizer algo inteligente (não que alguma vez seja capaz, claro), mas só me apetece dizer: attention whore!

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    1. Creio que essa expressão se adequa bem ao rapazote, caro Ine.

      Btw, as tuas intervenções são sempre inteligentes. :)

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  8. Verdade quando você contou tudo isso, percebi também o quanto me cansa todos estes "jogos" de quem tem lá seus dezenoves anos ou por aí. Acho que estou bem velho para estas coisas. Mas me deu uma certa vontade de voltar a praia. Gosto de praia. De andar na areia e ter um sossego. Não tanto de entrar na água. A última vez foi há uns 4 meses, já está mais do que na hora! Rs

    Abraço!

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    1. Eu não gosto destes "jogos".

      Já eu prefiro estar na água. :D

      um abraço. :)

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  9. mais do que o flirt, mais do que as senhoras com varizes, gostei. escrita minuciosa e muito pessoal. de facto, gostei muito. :)
    bjs.

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    1. Obrigado, Margarida.

      um beijinho. :)

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  10. Penso que sentiste algum ciúme naquela partilha de afetos com a prima. Simultaneamente, nesses momentos, há uma sensação de vazio quando não nos sentimos desejados, evidenciando a diferença de um provável futuro solitário.
    Confesso ter dificuldade em expressar a leitura que fiz. Também eu passei /passo por esses momentos, e muitas vezes surgem os sentimentos que expressas no final. Mas, para ambos, não obstante a nossa diferença de idades, tal não é salutar :(
    Que bom seria na praia, junto à prima, poderes ser tu e falar abertamente acerca do rapazote. Todavia, quase sempre, a liberdade é-nos vedada.
    Abraço

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    1. Não creio, Paulo. Há muito que sei o que quero e que tomei uma decisão, ainda sabendo o quão efémeras e ridículas são todas as decisões de carácter hipoteticamente "definitivo" que tomamos em jovens. Não estou receptivo a paixões. O provável "futuro solitário" não me assusta. Só é solitário quando vivemos na expectativa de encontrar alguém. Todos os dias agradeço pelo facto de estar cônscio da realidade. Evito uma leva enorme de decepções e angústia. Dás uma leitura por vários blogues de rapazes homossexuais e verás ao que me refiro. :)

      Cada um procura a sua "felicidade" como quer. Acho, como direi, lindo que se aposte em relacionamentos, quem se entrega de corpo a alma. Eu quero estar só. Não quero depender de ninguém para ter... carinho.

      O rapaz não merecia grandes comentários. :)

      um abraço.

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  11. Gostei deste momento intimista, um dia banal com uma prima que até se tornou um dia interessante, passado na praia, com os dois a serem "cobiçados" por um rapaz misterioso! Um óptimo tema para começar uma história, ahahah! ;)
    Abraço :3

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    1. Assim tivesse eu a tua fecunda inspiração, João. :)

      um abraço!

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  12. 19 anos? Isso são hormonas aos saltos... LOL

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  13. Vai na volta não a prima que ele queria... lol

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Um pouco da vossa magia... :)