28 de março de 2014

O mau jornalismo.


    De que Portugal tem uma péssima classe jornalística, isso ninguém duvida. Torna-se habitual fugir à isenção, sofrer pressões de forças ocultas, tomar partidos... Desde há dias, acrescenta-se mais um nome há já longa lista: José Rodrigues dos Santos. Para quem não sabe, ou não está a par, faço menção ao novo espaço de comentário de José Sócrates, na RTP1, transformado, ao menos a julgar pela primeira emissão, em entrevista política de qualidade duvidosa.

  Não vi aquando da sua transmissão original. Tendo conhecimento da polémica surgida nos meios de Comunicação Social, fiz uma busca incessante na net para dar com a malfadada entrevista. Ontem, já sossegado, pude assistir a meia hora de algo degradante para o jornalismo, até para um jornalista acima de quaisquer suspeitas, que julgava competente, profissional e imparcial.

   Sendo sucinto, ao longo do espaço de comentário, José Rodrigues dos Santos fez ataques ultrajantes a José Sócrates. Sócrates, evidentemente, é um hábil estratega político e soube contornar a situação, admitindo mesmo que não estava preparado para aquilo. A tudo rebateu com elegância e convicção. Mais tarde, perante críticas que surgiam, Rodrigues dos Santos tentou desculpar-se, ou, melhor dizendo, sustentar o seu procedimento num qualquer quadro deontológico da BBC!... Precisa de ir buscar critérios estrangeiros para maquilhar aquilo que fez, a quebra inadmissível na postura que um jornalista deve adoptar perante qualquer entrevistado ou interlocutor. O problema, José Rodrigues dos Santos, é nunca ninguém o ter visto tão acutilante com outros convidados / entrevistados.

   Como resposta às inúmeras críticas, Rodrigues dos Santos mostrou uma petulância que lhe era desconhecida, afirmando que aprendeu jornalismo na BBC, como se isso fosse selo de garantia! Foi mais longe ao dizer que, e cito, «não faz sentido esperar que um jornalista do "Avante", por exemplo, seja isento». De facto. Mas é de se esperar que um jornalista da RTP, por exemplo, o seja. E não o foi. Já sabemos que é controlada (tutelada), e tenho noção do peso desta palavra, pelos sucessivos governos. Não esperava que fosse tanto. Todavia, mantenho a principal objecção que referi anteriormente: este estilo do jornalista é desconhecido com outros entrevistados. Nunca ninguém o viu assim. Espero que o repita... com Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e outros que tais, quando não mais ocuparem cargos governamentais! Diria mesmo que é um imperativo de consciência; de outra forma, a sua reputação de jornalista, que já nada num curso de águas da chuva rumo à sarjeta, sumirá de todo.

    O que eu vi - eu e muitos - foi um ataque quase pessoal a José Sócrates. Por momentos, o direito à resposta e ao contraditório teve de ser invocado por Sócrates. Rodrigues dos Santos, e notava-se claramente, estava agressivo, alterado, utilizando um tom de voz e trejeitos inéditos. A pseudo-entrevista está pela net. Não vi o papel de "advogado do Diabo", compreensível e ético. Rodrigues dos Santos foi muito além disso. Roçou-se o pessoal, o ideológico. Só não vê quem não quer.

  Ainda que encontrasse contradições no discurso do ex-Primeiro-Ministro, cabia-lhe questioná-lo com tranquilidade e, sobretudo, deixando-o responder. Posteriormente, veio a público dizer que, num almoço, avisou José Sócrates das mudanças no seu espaço de comentário. Bom, as mudanças foram tão significativas que eu não vi qualquer espaço destinado ao comentário político. Eu vi uma entrevista conduzida por alguém afecto ao PSD / CDS-PP, travestido de jornalista. Sócrates tampouco estava à espera daquilo. Não houve qualquer isenção numa emissora de televisão paga por todos os contribuintes. Risque-se aquela meia hora da história da nossa televisão. A RTP veio defender a actuação do seu jornalista. Seria estranho se não o fizesse!

    Sócrates, e bem, continuará com o seu espaço de comentário semanal - ao que tudo indica mais interventivo, a partir de agora, da parte do jornalista / moderador que assumirá o controlo. Desistir seria fugir ou dar razão a Rodrigues dos Santos, justificar aquilo que fizera, sair pela porta traseira. Acredito que não esteja «divertidíssimo com o programa», como declarou, já todos conhecemos a personalidade de Sócrates, mas outra reacção não seria de esperar.

   Nutro uma simpatia pessoal por José Sócrates. Tivesse Rodrigues dos Santos coragem para admitir a sua antipatia. No entanto, fui imparcial nesta análise. 
   Abriu-se um precedente. Que outras figuras se sentem diante de José Rodrigues dos Santos e por ele sejam confrontadas, de forma igual, em directo. É o que espero a partir de hoje. E tenho tempo.

32 comentários:

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    1. Oh, não perdes nada. Tenho:

      http://humorbizzarru.pt/entrevista-de-jose-rodrigues-dos-santos-e-jose-socrates-na-rtp/

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  2. Não vi a entrevista, por isso não vou opinar. Contudo, concordo contigo que temos uma péssima classe jornalística em Portugal. E a todos os níveis. Eu estive envolvido na campanha das autárquicas, e o jornal local fez entrevistas a todos os candidatos, menos a dois dos nossos (o da câmara e um de uma freguesia).

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    1. Isso acontece com frequência. E mesmo nas legislativas, só têm direito ao debate televisivo os partidos com assento parlamentar. Patético! Como hão-de ter assento se as pessoas não os conhecem?

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    2. Concordo contigo, Mark.
      Mas aqui foi mesmo má vontade. Tipo, eram cinco ou seis candidatos a cada órgão. Mais um menos um. As perguntas eram transversais. Acho que seria medo que nos desenvencilhacemos muito bem...

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    3. Que má vontade e medo de perder! Só o medo justifica isso.

      O Herman é que tem razão quando diz que o que faltou a Portugal foi um corte como aquele que se verificou na Alemanha. Após a II G. M., a Alemanha ficou completamente destruída, em todos os sectores, e teve de renascer das suas próprias cinzas. Aqui, não. Houve uma revoluçãozinha, mas muito passou para o novo regime dito democrático. Os PIDE, era suposto serem julgados e condenados; aliás, o mesmo está expresso na nossa Constituição. Conheces algum caso? Assim conheço eu... Mesclaram-se pacificamente e sem sobressaltos na nova ordem instituída...

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    4. Eu vou votar no camarada do Horatius para as europeias só por causa das coisas. Não preciso de entrevistas para decidir. Embora se o PCP sorteasse entre os votantes nesse candidato um jantar com o mesmo, parece-me que o resultado seria bem melhor LOL

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    5. Namorado, andei a investigar, e ele é casado com uma gaja. Apesar de eu achar que ele está sempre a tempo de conhecer o outro lado da vida. Voluntários para lhe mostrar não faltarão... Lolololol

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  3. quando e SE eu for jornalista isto melhora logo :P

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    1. Se tu fores jornalista? Aposto que melhora. :)

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    2. haha obrigado pela confiança :D
      depois digo-te o canal haha

      r. pois e eu ando todo "furado" haha / eu dispensava..

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  4. O problema que mais denoto - e que me deixou sempre um bocado reticente em seguir este caminho, que me atrai muito - , é a incapacidade que os jornalistas vão tendo de analisar os casos imparcialmente, sem tecer juízos de valores. E curiosamente vês mais isto naqueles que já têm algum "renome" e que o fazem porque pensam que têm carta branca para tal.
    Embora por vezes "ataquem" o entrevistado - e para mim o melhor exemplo disto dos últimos tempos há de ser sempre o malfadado Lorenzo qualquer coisa e a Judite de Souza - e façam acusações e críticas - pouco - veladas, há também muitos casos em que "tomam o partido" do entrevistado.
    E parecendo que não quer um caso quer o outro influenciam muito a forma como a audiência vê todo o caso.
    Não tenho nada a favor do Sócrates, nem contra, que para mim a classe política Portuguesa é literalmente toda a mesma coisa lá no fundo, mas acho um bocado ridículo quando são assim nomes com tantos anos de experiência a fazer estas figuras.

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    1. Os jornalistas são pessoas como quaisquer outras, mas têm de se esforçar por manter a dita imparcialidade. Não podem tomar partido nem isso evidenciar. E, claro está, como bem dizes, os de "renome" tendem a abusar, talvez por vedetismo.

      Recordo-me dessa entrevista ao Lorenzo qualquer-coisa. Vergonhoso. Como se o rapaz tivesse obrigação de ajudar fosse quem fosse. O dinheiro é dele. Abomino a Judite de Sousa. É uma péssima jornalista.

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  5. nunca vi essas entrevistas na totalidade, eu não gosto do Sócrates, ponto final, não é por ser do PS, até podia ser amigo da filarmónica da minha terra. posto isto, só sei o que li nos blogues e leio blogues da chamada esquerda e da chamada direita. uns aplaudiram, outros repudiaram. li a justificação do jornalista num jornal, também não gostei, mas agora é a escola da BBC que manda no jornalismo aqui? a RTP está amarrada a este governo, temos as eleições europeias, depois as legislativas para o ano, está tudo a preparar-se, digo, o PSD, para minar a comunicação social como já o tem feito, mas agora com menos vergonha. é ordenar e a RTP e outros similares a ajoelharem.
    bjs.

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    1. Uma espectadora / leitora perguntou-lhe, em tom crítico, em que "escola de jornalismo" é que ele andou e ele, presunçosamente, disse: "(...) a BBC. Sei que se calhar não é suficientemente boa, mas foi o que se pôde arranjar.". Como quem diz: "Quem é que tu pensas que és? Eu andei na MELHOR, tenho toda a razão!". Patético!

      Bem o dizes, Margarida. Aliás, já se fala em interromper o espaço de comentário de Sócrates durante o período eleitoral para não haver uma discrepância qualquer fictícia na cabeça dos senhores que dirigem a RTP! Querem pôr cobro ao contraditório. É a censura do século XXI, por baixo da mesa, pela porta do cavalo, mas continua lá. Trejeitos que nem quarenta anos de Abril conseguiram eliminar.

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  6. Se calhar tinha bebido caro Mark! LOL

    Agora mais a sério, o José (Rodrigues dos Santos) já teve os seus dias. Como todos nós, quando passamos todos os dias a fazer a mesma coisa, sem qualquer inovação. A verdade é que nota-se o ar pesaroso com que ele apresenta o noticiário e a forma infantil com que faz perguntas no espaço que serve como pivô, seja a jornalistas, políticos, seja a quem for. Infelizmente já foi bem melhor do que é. E digo isto sem sequer ter visto a entrevista/ comentário político (odeio o José Sócrates).

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    1. É intolerável o que ele fez. Prestou um péssimo serviço ao jornalismo e revelou alguns traços de personalidade admiráveis, a meu ver... pela negativa! Quanta falta de humildade. Andou na BBC, mas aprendeu pouco, pouquinho.

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  7. Não me vou pronunciar acerca do assunto, para não entrar em hostilidades com os simpatizantes do Senhor lololololololololololol

    Abraço amigo Mark

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    1. Nunca te sintas constrangido em expressar o que sentes. :)

      um abraço, Francisco.

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  8. Eu começo por dizer que sou suspeito. Sim, sou suspeito porque gosto do Sócrates, que não sendo perfeito, fez uma primeira legislatura brilhante, enquanto a Europa o permitiu; quando se dá a crise das dívidas soberanas, e que coincide com a sua segunda legislatura, Sócrates encontra-se dividido entre o que queria fazer para Portugal e o que é obrigado a fazer.
    Fez coisas erradas? Com certeza, mas também fez coisas acertadas e se mais não fez, foi porque viu a oposição em bloco, com o "alto patrocínio" do silva de Belém, a tirar-lhe o tapete, quando chumbaram o PAC 4, já acordado com a Europa.
    Claro, só lhe restava a demissão e ceder o poder aos que o derrubaram. E Estes têm feito a merda que se vê.
    Quanto à "entrevista" em causa, pois isto é uma entrevista, é perfeitamente nojento ver um pivot de uma estação de televisão, a pretender enterrar uma mais valia (pelo menos foi esse o sentido que a RTP pretendeu obter com a crónica semanal de Sócrates) da estação que serve. Claro que JRS estava a falar por ele, pois não esconde nem nunca escondeu o seu interesse partidário, mas estava principalmente a falar por entrepostos e superiores interesses partidários para entalar Sócrates. Simplesmente, este sabe mais estar numa estação da televisão do que o próprio JRS, com todas as escolas da BBC incluídas, e deu-lhe uma lição de mestre. E não estava preparado para este ataque...
    Estou curioso para ver o que acontece no próximo domingo.

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    1. Que é um homem de visão e um estadista, que ninguém duvide. Quis modernizar Portugal, quis apostar nas energias renováveis, na tecnologia, colocando o país em lugares cimeiros, honrando a sua posição na Europa. Durante a década de 2000, os anos do seu governo, na primeira legislatura, foram os mais prósperos para o país - e até isso Rodrigues dos Santos não queria admitir, não fosse a insistência de Sócrates que o levou, vá lá, a assumir. Só referia os pontos e os dados desfavoráveis a Sócrates, esquecendo-se da conjuntura internacional e do PEC IV, como bem referiste.

      Sócrates, ainda que totalmente apanhado de surpresa, saiu-se muito bem e deu uma belíssima lição a José Rodrigues dos Santos, jornalista que risco na minha lista de credibilidade, que vale o que vale.

      Também quero ver se não perco. Estou curioso.

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  9. Vi pequenas histórias nas noticias sobre o assunto, mas ainda não tive tempo para ver o que se passou...

    O jornalismo em Portugal é, como bem dizes, muito pouco imparcial e há muito que isso está a ficar claro.

    Quanto a José Sócrates, eu simpatizo com certos aspectos e ideias dele, e de uma coisa não se pode negar, o senhor sempre foi bastante hábil para lidar com estas pressões e sempre soube sair por cima...

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    1. O jornalismo em Portugal é de parca qualidade e muito pouco isento...

      O Sócrates tem mais perfil de estadista do que Pedro Passos Coelho.

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  10. Não vejo telejornais.
    Esta notícia chegou-me por burburinho.
    Fui ver, de leve, do que se tratava, e acho que se perde tempo e energia com isto.

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    1. Também não vejo telejornais. Vejo pouquíssima televisão. Simplesmente não gosto.

      São situações sérias, Alex. Não podemos ignorar ou voltar costas, indiferentemente. Está em causa a credibilidade de uma estação pública e a sua isenção. Mais, possíveis episódios de censura encapotada numa democracia que temos por madura e garantida.

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  11. Ainda não vi a famosa entrevista mas parece-me pelo que tenho lido e mais agora, que não perdi nada...

    Estou surpreso com essa atitude por parte do jornalista. Isso faz lembrar-me quando a Judite de Sousa entrevistou aquele rapaz, o Lorenzo, e também foi bastante agressiva com ele... pergunto-me o que passará na cabeça destes entrevistadores para agirem assim.

    Beijinho :3

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    1. Não perdeste mesmo nada, João. :)

      Recordo-me bem dessa "entrevista" ao dito Lorenzo. A Judite de Sousa esquece-se de que não está ali para julgar, mas para questionar com isenção e imparcialidade. Não lhe compete desempenhar o papel de juíza de causas que não lhe pertencem. Por que motivo não doa uma parte do seu salário à solidariedade? Parece que ganha muito bem. Não sei, deduzo eu...

      um beijinho. :*

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  12. Tb não vi a entrevista nem vou perder tempo a ouvir o Sócrates. PS ou PSD no poder, é sempre a mesma coisa e sempre a mesma pressão sobre a comunicação social.
    Quanto ao jornalisno (não a esta entervista em particular), julgo que é injusto dizer que o jornalismo em Portugal é mau. Como em todas as profissões, há bons e maus.
    Abraço

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    1. Sim, sad, claro, mas visto que a maioria dos jornalistas, em Portugal, é má, paga o justo pelo pecador. É sempre assim. Claro que há bons profissionais. De momento não me ocorre nenhum nome, mas tenho certeza que há.

      um abraço. :)

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    2. Discordo completamente Mark. Temos muito bons jornalistas em Portugal, e talvez políticos maus de mais, que manipulam e influenciam os meus de comunicação social.
      Como disse, não vi nem vou ver a entrevista, mas li alguns artigos em jornais que fazem bom jornalismo, e as opiniões estão longe de unânimes sobre o "mau trabalho" feito pelo JRS nessas entrevista.
      Abraço

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    3. Eu disse que há bons profissionais. De momento não me ocorre nenhum nome porque não estou a pensar com esse propósito. Não o disse ironicamente. Olha, uma grande jornalista era a falecida Margarida Marante, por exemplo.

      Manipular a RTP, então, é habitual. Todos que chegam lá o fazem. Nem critico tanto os políticos, visto que se torna corriqueiro. Os jornalistas é que têm de manter a sua credibilidade acima de quaisquer suspeitas. Para veres, já há quem diga que o Rodrigues dos Santos dirigiu este espaço de "comentário" sob instruções da máquina social-democrata / populista. É mau para a imagem dele. Disto já não se livra. Os políticos passam incólumes. É mais ou menos como uma mulher bonita que é aliciada por homens; cabe-lhe mostrar a sua seriedade. Eles que a cortejem. Ela só sabe de si e responde pelos seus actos. É exactamente o que aconteceu aqui. :)

      Claro! Há quem diga que ele agiu muito bem. Há opiniões para todos os gostos. Eu não gosto de Paulo Portas e se o JRS agisse assim com Paulo Portas e fosse permissivo, condescendente, com José Sócrates, eu criticaria. Procuro ter um peso e uma medida.

      um abraço. :)

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Um pouco da vossa magia... :)