11 de março de 2010

O Recomeço

O "amigo" chegou ontem. Como estava combinado, fui esperá-lo à gare dos autocarros com a mãe. À chegada, cumprimentou-nos com o seu sorriso habitual. Estranhei-o. Parecia outra pessoa. Não é de relativizar; o sofrimento dos últimos tempos imprimiu-lhe um ar desgastado.
Tomámos o lanche numa pastelaria simpática e combinámos a tão desnecessária romaria às pensões desta cidade. Tudo seria evitável se as pessoas fossem compreensivas. A mãe decidiu vir connosco, pois achou que não era uma boa ideia deixar-nos sozinhos à procura do inesperado. Senti-me confortado.
Depois de entrarmos em algumas pensões, ele escolheu uma que lhe pareceu a indicada. Nem se poderá chamar pensão; trata-se de um quarto alugado por uma senhora idosa que não tem meios para pagar os seus remédios, fazendo escolhas entre a alimentação ou a saúde. Menos mal.
Nunca tinha entrado em lugares semelhantes, mas pude testemunhar  as más condições e a insalubridade que existe por aí. Senti-o apático. Não raras vezes, perguntei-lhe se tinha reflectido o suficiente sobre o assunto e se, de facto, aquela era a atitude que racionalmente queria tomar. Disse-me que sim.
Terá outras preocupações, com a despesa do quarto e a alimentação. A mãe garantiu que iria tentar arranjar-lhe um emprego, tentar. É difícil. Não tendo carta de condução, não sabendo falar inglês ou espanhol, é muito complicado para a mãe conseguir que o coloquem como um simples estafeta na empresa. Era essencial outras qualificações.
Quando cheguei a casa, senti-me imundo. Fui tomar um banho bem demorado para tirar aquele ar de pensão barata e miséria de cima de mim. O que a homofobia pode fazer. Enquanto a água escorria pelo meu corpo, sentia os pingos a caírem em círculos redondos como se estivéssemos num dia de chuva. O terror para ele tinha começado, ou teria acabado? Perguntei-me. Enviei-lhe uma sms, perguntando como se estava a sentir. Descobri, por ele, que merecia ser feliz. Senti uma sensação de invasão a percorrer-me a mente, como se de uma força maior se tratasse. Ele teve, por breves segundos, o condão de decidir a minha vida e o meu destino. Era como uma força interior que permitia o acesso à felicidade, um desejo de alegria eterno. No fundo, presenteou-me com a única coisa que lhe resta: os desejos do bem para quem também lho fez.
Recompensou, mesmo sendo só um "amigo", com algumas aspas.

4 comentários:

  1. A história dele é mesmo muito triste, André.. :(

    ResponderEliminar
  2. Estou, como o André, extremamente sensibilizado com toda esta situação.
    Felicidades para ele, que bem necessita de reencontrar o sorriso.

    ResponderEliminar
  3. A sociedade em que vivemos... :(

    ResponderEliminar

Um pouco da vossa magia... :)