12 de fevereiro de 2019

Cultural Sunday (take 28).


   Este domingo cultural foi especial. Fui ao Museu Nacional de Arte Antiga, MNAA, ver a exposição, patente até ao final do mês de Março, de Joaquín Sorolla, o célebre pintor espanhol, Terra Adentro. Uma visita precedida, na quarta-feira, porque é o único dia em que está aberto, ao Museu da Saúde, ali perto do Campo dos Mártires da Pátria, mais quem vai em direcção ao Hospital dos Capuchos. O Museu da Saúde era o último museu lisboeta que me faltava conhecer, a par de um que não me suscita interesse algum, o Museu Cosme Damião, que todavia não rejeito conhecer, um dia.

  Talvez seja melhor começar pelo Museu da Saúde, sediado nas traseiras do hospital, no antigo edifício reservado ao serviço de neurocirurgia. Tem uma exposição permanente, sobre os "800 Anos de Saúde em Portugal".

Um dos corredores do Museu da Saúde

   É um museu pequenino. Estava quase vazio, não fossem umas ruidosas senhoras de alguma idade que se passeavam por ali, afinal, pouco viam. Desde que tenho ido mais ao cinema e aos museus, passei a valorizar o SILÊNCIO, em maiúsculas, assim mesmo, pois é uma virtude. É uma pena que as pessoas não saibam apreciar uma peça, um filme, em silêncio. Acredito que o facto de estarmos acompanhados nos impulsione a conversar, mas, ainda assim, no silêncio também há partilha.

Um esfigmomanómetro antigo

   O museu tem interesse por alguns objectos antigos, como um estetoscópio ou um esfigmomanómetro, material hospitalar, entre muitos outros. Também os livros médicos, a maioria do tempo de Dom João V. Tenham em atenção os anúncios afixados nas paredes, de prevenção em matéria de saúde, impecavelmente escritos na segunda pessoa do plural. Outros tempos... Não sendo deslumbrante, é bom para se passar parte de uma tarde. Por ali, também, temos o simpático jardim de Arroios, com patos e galinhas.

A Natureza tem destas. Trio Odemira?


   Ontem, finalmente, fui ver o Sorolla. Temendo que estivesse cheio, por ser domingo, não estava. Acredito que o preço, que nem é nada por aí além, desmotive as pessoas.

   Posso-lhes dizer que foi, de todas as exposições de pintura que vi, entre temporárias e permanentes, aquela de mais gostei. Primeiro, lá está, pelo silêncio, que ainda julgo impossível ter conseguido. Em segundo, pela qualidade do artista. Sorolla era incrível. O jogo de luzes, os reflexos, os temas escolhidos. Deslumbrante.

Terraço com Neve, 1885

   Sorolla, nas artes, ajudou a construir o conceito de Espanha-Nação, que, como sabemos, é de difícil aceitação e está longe de ser entendido e pacífico. Se o Mediterrâneo foi a sua paixão, Castela, bem assim como outras regiões do país, tais como a Andaluzia, desempenhou um papel predominante. Sorolla pintou-a, de Toledo a Burgos, passando por Segóvia e Ávila. Castela, uma região histórica tida como desértica e árida, adquiriu outro encanto nas suas telas. O tempo e a atenção dedicados pelo artista à Natureza, à arquitectura, à sua Espanha, no fundo, que tanto o apaixonou, permitiram-nos este acervo belíssimo, que os aconselho a visitar.

Campos de Trigos, Castela, 1913

   O mar e as representação de nus junto a ele também mereceram o olhar artístico de Sorolla. E é curioso quando verificamos que as figuras humanas são quase inexistentes quando pinta os vales castelhanos. Junto ao mar, na rebentação, retrata pessoas e animais, nas praias. Um mar que sentimos ondular sobre os nossos pés. Efectivamente, o jogo de luzes é o grande truque do mestre, que nos ilude e inebria.

Bois no Mar, 1903

   Sorolla viveu numa época em que Espanha perdia o seu vastíssimo império. Em 1898, com a perda de Guam, Porto Rico, Filipinas e Cuba, Espanha vai sendo expropriada de quase tudo. Urgia recuperar uma consciência nacional. Sorolla foi peça-chave nesse processo, pois predispôs-se a pintar o país e os seus habitantes. Espanha deixa de se procurar nas gestas do passado, reencontrando-se em si.

A Vindima, Jerez (de la Frontera), 1914

   Foi um dia muitíssimo bem passado. Aproveitei e dei uma vista de olhos pelo museu, que conheço de uma ponta à outra, detendo-me, aí sim, na Maria Madalena de Ticiano, que recebemos directamente da Rússia, do Hermitage de São Petersburgo.

Maria Madalena Penitente, c. 1560

   Não é a única Maria Madalena de Ticiano, mas, pela expressão da santa e pela paisagem que a envolve, é a mais emotiva e bem retratada

    Até para a semana, com a última visita cultural antes do regresso às aulas.

Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone. Uso sob permissão.

6 comentários:

  1. Quanto ao Museu da Saúde, não conheço, nem sabia a existência. Ainda bem que informou. Conheço o Museu da Farmácia, naquele belo palacete a Santa Catarina, mas este, não.
    Quanto ao MNAA, bem, este é quase uma segunda casa.
    Realmente agora está lá o Sorolla, um naturalista que me faz lembrar os nossos Malhoa ou Silva Porto, este último morreu relativamente jovem. Aliás, são todos contemporâneos, e a sua pintura tem linhas diretrizes que não me parecem muito afastadas.
    No entanto, e não querendo parecer chauvinista, gosto muito mais do nosso Malhoa, cuja pintura me parece mais natural, menos trabalhada. A "Praia das Maçãs" de Malhoa é uma obra que ocupa um lugar de destaque no nosso panorama artístico.
    Claro que Columbano também é também contemporâneo destes todos, mas este é um DEUS do meu Olimpo! As caraterísticas da pintura deste último já apresentam diferenças acentuadas, é alguém que se encontra numa posição destacada pela sua originalidade. O seu retrato de Antero de Quental, que se encontra no Museu do Chiado, é algo que nos impressiona pelo que nos contam aqueles olhos, que parecem furar-nos a alma.
    E a composição do "Grupo do Leão", igualmente no Museu do Chiado, não nos deixa escapar a uma lição de história.
    Continua em grande, nas suas visitas. Fico encantado.
    Um bom final de semana
    Manel

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    1. O Museu da Farmácia é interessantíssimo, e figura entre os meus favoritos.

      Estou em crer que Sorolla não era exactamente um naturalista, mas sim um impressionista. Claro que há pontos em comum entre Malhoa e Sorolla. Conheci Espanha através dos seus olhos.

      Tem razão, Manel. Columbano foi um mestre e tanto. Só tenho pena de que essa obra esteja no Museu do Chiado, de que não gosto muito, confesso.

      Sim, é verdade. E estou cheio de ideias para novas visitas. Vamos lá ver. Também ficam um pouco caras, dependendo do local que escolher.

      Bom final de semana.

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  2. Sabe que a classificação de um artista num estilo/movimento não parece fazer muito sentido em algum tipo de arte. É um pouco redutor, no meu ponto de vista.
    Claro que há um conjunto de caraterísticas (e é importante que existam, para haver algum rigor na história da arte) que definem os limites de determinado período/estilo/movimento, e muitos autores ou obras não colocam dificuldade na sua classificação, no entanto, outras há que nunca se sabe bem onde "colocar". Extravasam essas "gavetas".
    Para esse efeito há um conjunto de "doutores da arte" que, qual sapato da Gata Borralheira, cortam os limites, limam as arestas, para que as obras de determinado autor "caibam em determinada gaveta" - estou a ser irónico, é verdade, mas por vezes custa-me a perceber onde é que se baseiam para fazer esta classificação, mas, quando ela é aceite pelos especialistas, então nós, os leigos, temos de baixar a cabeça e aceitar.
    Bem, não será exatamente o meu caso, pois, apesar de ser leigo, tenho ideias e opiniões que, ainda que particulares, me permitem fazer os meus próprios juízos e classificações com base no paralelismo entre a obra de outros autores em diversos países/sociedades/contextos artísticos.
    Claro que um "doutor da arte" olhará para mim de alto e dir-me-á que não tenho "estatura" para me arrolar este papel (não sou nem doutorado nem mestre neste campo, é verdade), e ele até terá razão, não obstante, isso não me impede de fazer os meus juízos, ainda que, à luz do que é aceite, seja controverso.
    Dou-lhe um pequeno exemplo no pintor Edward Hopper, que me atrai muito. É considerado, na história da arte, como um dos realistas americanos, mas confesso que tenho alguma dificuldade em considerá-lo só isso.
    Não há uma gaveta hermética onde se devam colocar pessoas ou coisas, antes, são os artistas que apresentam caraterísticas que podem situar-se em diversos movimentos ou tendências. Observo a pintura de Hopper também com algo de metafísico, com laivos até de surrealismo - há alguns autores que até aceitam vê-lo por esse prisma também, mas não é pacífico.
    Claro que não irei contra os investigadores em história da arte, nem quero meter-me nesse assunto, que, em realidade, não me interessa muito (discutir o "sexo dos anjos" nunca foi o meu forte, prefiro coisas mais consistentes e reais), mas tenho as minhas opiniões, e não me coíbo de as exprimir.
    É o caso de Sorolla, que em algumas pinturas tem alguns laivos que me parecem impressionistas, no entanto, muito da sua obra está ancorada no período anterior. Na Península Ibérica o Impressionismo nunca me parece ter tido um amplo desenvolvimento, e até creio ter havido razões para isso, mas não vou entrar nesse caminho, que daria um livro! Terei muito gosto em falar consigo sobre isto, mas num outro contexto :)
    Manel

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    1. Tem razão, e eu tão-pouco sou um "doutor da arte". Muito longe disso, muito mesmo. Tenho uma colecção de livros de História da Arte, aprecio arte e pouco mais. Falta-me conhecer muito.

      E as pessoas também não são catalogáveis. O que presumo que os "doutores da arte" façam é reunir os estilos em categorias até para ser mais fácil estudá-las. Os pintores inspiram-se mutuamente. Sorolla também se deixou inspirar por outros nomes. Embora tenha lido sobre eles, confesso que não os tenho presentes.

      Cumprimentos, Manel, e obrigado.

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