17 de fevereiro de 2018

Evolucão/Involução.


   Há dias, numa publicação, abri a porta, passo a expressão, a que leitores me deixassem sugestões de espaços a visitar. Visava monumentos, museus, sobretudo. Entretanto, recebi um e-mail curioso de um leitor que me segue há três anos, mas que nunca comenta. Um leitor e seguidor fiel que me deixou uma ideia no ar. Juntei-a àquela que já tinha, de escrever sobre o blogue a propósito do ano comemorativo do 10º aniversário (mais uma vez, e outras se seguirão), e de fazer uma pequena reflexão sobre a linha que venho adoptando, um tanto ou quanto diferente.

   Comecemos pelos leitores que não "conhecemos". Há uns anos, era habitual (não rotineiro) receber e-mails de pessoas que me liam com atenção, sem todavia se darem a conhecer. Vulgarmente esquecemo-nos de que é possível, julgando que só nos lê quem nos comenta. Não corresponde, de todo, à verdade. Esse leitor, que não identificarei, deixou-me um desafio: enumerar os blogues que sigo e com os quais continua a haver interacção. Pensei em como responder a este desafio, e cheguei à conclusão de que não me sentiria à vontade a divulgar os blogues que leio. Não porque leia blogues de teor duvidoso ou que me possam envergonhar - até gostava, para animar - mas porque não me agrada fazer publicidade a ninguém. Também por outro motivo - o mais importante: não sigo verdadeiramente nenhum blogue. Sigo vários, se considerarmos seguir como tê-los na minha lista; em todo o caso, clico quando me apetece, esporadicamente. Às vezes, lembro-me de que há muito não visito determinado blogue, e lá decido aparecer. Serão em torno de uns cinco. Houve uns que deixei de seguir, e de acompanhar, quer porque já não existiam, quer porque deixaram de me interessar.


   No que respeita à reflexão, o blogue, desde o começo do ano (embora venha passando por transformações pouco perceptíveis e contínuas há muito), mudou um pouco, e não mudou deliberadamente. Mudou sobretudo, e o leitor também identificou esse aspecto, porque a blogosfera mudou. Gerir um blogue é quase como gerir um negócio. Temos de nos adaptar, senão a coisa morre sem glória, cedendo ao cansaço e ao desânimo (paradoxalmente, Janeiro de 2018 foi o mês em que mais publiquei desde Janeiro de 2012). Fez todo o sentido escrever sobre os reis de Portugal há uns anos, ou enquadrar o suicídio no ordenamento jurídico português; hoje, não o faria. As pessoas não se interessam, não lêem - não há público de blogues para isso, não na blogosfera em que me insiro. Também escrevia sobre pormenores da minha vida privada; actualmente, seria quase como dar o ouro ao bandido, quando os anos passam e ganhamos anticorpos, ou seja, pessoas que se divertiriam tendo conhecimento de cada desaire nosso. Há particularidades que ficam melhor guardadas connosco, e também aprendi isso - aliás, havia-o aprendido há muito, que há anos que deixei de escrever sobre o meu lado mais pessoal. Passei a dedicar-me a crónicas e, pontualmente, a um artigo histórico (inovei no ano passado, ao introduzir, com frequência, críticas cinematográficas). E as crónicas, essas, diminuíram drasticamente; ainda só abordei temas políticos uma vez.

   Continuo a escrever sobre História, adaptando-a aos meus roteiros. É um outro modo de fazer o mesmo. Se tiver interesse, torno a escrever sobre Direito, mas não exaustivamente numa publicação. Quem escreve um blogue, e ainda que o negue, não escreve apenas para si. Dar sem receber cansa e é injusto. Importante, sim, é que as pessoas continuem sempre a rever-me em cada linha que publico, escreva lá eu sobre o que escrever, que tudo o que faço, faço por gosto. Jamais tornaria o blogue numa plataforma alheia à minha personalidade e à minha postura pública e pessoal apenas pelo reconhecimento. Posso, dentro daquilo que sou, adaptar-me às circunstâncias, e é isso que venho fazendo.

8 comentários:

  1. Penso que sabes que admiro, e muito, suas perspectivas, seu conhecimento, sua formatação literária. Já o sigo a muito tempo porque gosto e aprecio. Todas as suas mudanças eu venho acompanhando. Elas não mudam a sua essência mas tornam o espaço mais dinâmico. Assim é o seu canto e pendo que assim deve ser sempre. Parabéns querido amigo.

    Beijão

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    1. Muito obrigado pelas palavras, amigo. Estou em falta com o seu canto. Há muito que não o visito. A ver se o faço em breve.

      um abraço desde esta margem do oceano.

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  2. O meu canto para mim, é um diário ;)

    abraço amigo

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    1. Obrigado, Francisco.

      Um abraço, amigo.

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  3. Gosto de ler estas suas introspecções.
    Conheci o seu blog através de outro que, em alguma altura, lia de forma mais ou menos continuada.
    Como tenho uma vida privada um pouco isolada, e sem grandes contactos com o exterior - evidentemente, profissionalmente tenho estes contactos, mas não misturo as duas vertentes, pessoal e privada - faço por tentar perceber as coisas que me rodeiam, ainda que por reflexo (leio o que me rodeia, outros dão-me a sua perspetiva e tenho alguma hipótese de fazer a súmula de vários reflexos recebidos e componho uma das abordagens possíveis ao mundo que me rodeia).
    O mundo em primeira mão tive-o no passado, vivido em pleno (dificilmente seria possível viver com mais intensidade), hoje evito-o, escolhendo cuidadosamente aquilo que me interessa. A tendência leva-me a um isolamento controlado.

    Concordo plenamente consigo quando refere que vai evitando entrar na sua esfera privada. Não creio ser muito avisado entrar por este campo pois acaba por se expor em demasia, e nem sempre isso é saudável. Mas reconheço ser um "canto da sereia".
    Claro que quem está deste lado acaba por interagir consigo, pois há um certo conhecimento e confiança, ainda que controlados.
    Sabe-se que são coisas virtuais, que não têm o "poder" das coisas em primeira mão, onde, quando se gosta, se aceitam o bom e o mau que, necessariamente, se acompanham.

    Claro que não tenho pretensões em indicar-lhe o que quer que seja, pois quem faz algo fá-lo pelo prazer que disso tira, mas gosto de o ler e interagir, consoante tenha ou não algo a partilhar.
    Saberá com certeza que tem da minha parte um leitor atento, assim queira partilhar o que lhe vai na mente.
    Como não sei comentar sucintamente ... nada a fazer :-)
    Uma boa semana
    Manel

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    1. Olá, Manel.

      Agradeço-lhe, antes de mais, por me acompanhar. Sei que o faz, que está desse lá, e fico contente.

      Há uma parte no comentário do Manel que não entendi («Não creio ser muito avisado entrar por este campo pois acaba por se expor em demasia»). Eu? Há anos que não me exponho; em boa verdade, nunca o fiz. No início, era mais miúdo e acabava por me exceder, mas nunca me comprometi, creio.

      Cada vez mais aprendo a estar só. Também aprendemos. E a estar só sem que essa condição acarrete sofrimento. Tenho passeado muito, na minha companhia, e é excelente. Este domingo, uma vez mais, saí. Esteve um dia tão solarengo e quente que seria quase um pecado ficar em casa.

      O Manel não sabe comentar sucintamente, e eu não sei responder sucintamente. Estamos bem. :)

      Boa semana e obrigado.

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  4. Referia-me à exposição pessoal em termos genéricos, não me referia a si em particular.

    Também este final de semana visitei o Museu da Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva, para matar saudades, pois numa altura do meu passado frequentei as oficinas dos mestres de restauro de mobiliário e passei ali bastante tempo.
    Foi uma visita ao passado.
    Mas fiquei deveras preocupado, pois durante as duas horas que ali passei não houve qualquer guarda ou acompanhante a gerir e a controlar aquele espaço.
    Poderia facilmente ter agarrado em qualquer uma das pequenas peças que se espalham por todo aquele espaço. Algumas peças estão a recato, outras, nem por isso.
    A decadência pode ter um elevado preço!

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    1. Aproveito e corrijo uma gralha no primeiro comentário: onde se lê « (...) que está desse lá », dever-se-ia ler « (...) que está desse lado ».

      Não conheço esse museu. Olhe, ainda que sem querer, acabou por me deixar uma sugestão involuntária. :)

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Um pouco da vossa magia... :)