18 de novembro de 2015

O homem e o cão.


    Um homem senta-se num banco de madeira, de cor verde carcomida pelo desgaste. Acompanha-o um cão, rafeiro, pequenino, de olhar sadio, brilhante. Deixou-o preso a um saco desportivo, preto, enquanto se dirigiu à superfície comercial. Saiu, minutos mais tarde, carregando um sumo de marca branca e uma caixa, que presumo contendo alimentos já confeccionados. O cachorrinho empoleira-se com as patas dianteiras nas pernas do dono, abanando freneticamente a cauda envolta na pelagem seca e suja.

      Acaricia a cabeça do animal, que cerra os olhos, sentindo o afecto, o carinho de um indivíduo a quem a vida já fez das suas. Alto, de meia-idade, cabelo louro, comprido, amarrado atrás da cabeça por um elástico. Traços caucasianos, sem dúvida, mas não do sul da Europa, eu diria. Enverga um casaco roçado, que pouco desce a cintura, realçando umas calças de padrões quadriculares, castanhos e brancos, excessivamente curtas em baixo.

      Vi-os mais do que uma vez. Têm-se por companhia. Passam indiferentes à vida que os circunda. Aquela que, pelos reveses que lhes foi impondo, os terá impelido à marginalização. Não contribuem, não votam, não existem. Não têm cabimento nos enunciados políticos de boas vontades. São um imenso nada numa sociedade injusta e desigualitária.

       Tornou a sentar-se para se levantar de seguida. Pegou no cão pela trela. Dissiparam-se na névoa da noite.

29 comentários:

  1. Tens o dom de lidar de forma lírica com as palavras.

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    1. É verdade...

      Muito obrigado, amigo Paulo.

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  2. "Não contribuem, não votam, não existem."

    existem um para o outro. parece pouco, mas é tudo o que há de relevante.

    gostei muito da história e do modo como a contaste.

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    1. Efectivamente. Foi uma clara "alfinetada" ao poder político, se assim se pode dizer.

      Obrigado, Miguel.

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  3. Se tivesse um papel e caneta, acesso à internet, que histórias teria para contar?!

    Só Deus o sabe :)

    Abraço amigo

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    1. Pode escrever com um lápis de carvão, numa folha. :) Era como se fazia antigamente, ainda antes do advento das máquinas de escrever.

      um abraço, amigo.

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  4. Uma história bonita, real e emocionante. Retrato de um mundo que muitos teimam em não ver, fechando os olhos ou ignorando. Têm-se por companhia, serão amigos fiéis um do outro, até perecerem.

    Abraço :)

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    1. Quando perecerem, não carecerão de amigos, nem de companhia. :)

      um abraço, amigo Mikel.

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  5. Amo sua escrita. Tão pormenorizada e sensível. Eu pensei que era uma história, só depois vi que aconteceu de fato. Triste realidade. Aqui tem muitas pessoas vivendo assim, no limiar da pobreza.

    Abraços!!

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    1. Aguardemos pelo dia em que tudo não passe de histórias.

      um abraço, e obrigado.

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  6. Quando não se têm mais nada nem ninguém, é nesses companheiros que se encontra conformo.
    Belo texto.
    Abraço

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    1. Acredito que aquele cãozinho seja o seu único amigo, ou pelo menos o melhor.

      Obrigado. :)

      abraço.

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  7. :-) Eu por duas vezes comecei a escrever sobre coisas que vi e que não tinha necessariamente a ver comigo, mas não consegui e tu fizeste isso muito bem, da forma que melhor sabes com a subtileza que as palavras permitem.

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    1. Obrigado, No Limite.

      Claro que consegues. É só deixar a tua intuição falar.

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  8. Bela capacidade essa de ser observador. Muitos devem ter passado sem notar todos esses detalhes.

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    1. Sabes, sentei-me num banco adjacente e detive-me a observar aquele homem e o seu doce animal. Sem os perturbar, sem que se sentisse, no caso do homem, constrangido. Gosto de ver o que poucos vêem.

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  9. E, um dia, acabar por te descobrir por aqui.
    Escrita irrepreensível. A mesma capacidade de prelúdio de algo que nunca chega a concretizar-se. A mesma que te reconhecia.
    Já vai sendo tempo de sorrires, por fim.
    Um abraço.

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    1. Obrigado, Vítor, pelas simpáticas palavras.

      um abraço.

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  10. Uma vez na Sérvia (mas podia ser em qualquer outro país) enquanto chegávamos de madrugada e pelo parque uma senhora varria e limpava o lixo, foi iuso que me chamou a atenção: o pormenor de alguém a limpar o que os turistas e transeuntes limpam quando ainda nem a luz do dia chegou...

    Estar atento a estas coisas torna-nos solidários e mais compreensivos da vida e do mundo...

    Gostei que também o fizesses :)

    Abraços

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    1. Ironia.. O que subjaz ao turismo, tão enriquecedor para o Estado, tão dignificante para um país. Há sempre quem pague um preço duro.

      É verdade. Encaro assim. Como se aqueles breves instantes me transportassem para a realidade dessas pessoas. Ainda há pouco atentei num varredor municipal e no seu sorriso rasgado. :)

      um abraço.

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  11. Tem olhos "de ver" meu amigo!
    Uma belo forma como descreveste o momento, melhor de tudo é que conforme vamos lendo a cena se faz diante aos nossos olhos!

    Grande abraço.

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    1. Tentei tirar uma fotografia com os olhos e gravá-la na memória.

      Muito obrigado, amigo Latinha, e um grande abraço desde Lisboa.

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  12. Vês-te assim daqui a uns anos?
    Eu penso sempre nisso, quando vejo casos destes. :(

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    1. O futuro a Deus pertence... Nunca sabemos o que o amanhã nos trará. Mas espero que não. Para isso estudei e estudo. :)

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Um pouco da vossa magia... :)