25 de abril de 2015

25 de Abril.


   Quarenta e um anos volvidos,  já muito se disse sobre o 25 de Abril e a sua relevância histórica. Portugal carecia de uma democratização urgente, isolado que estava no plano internacional. Descolonizar, outro dos objectivos de Abril, foi conseguido a sacrifício dos colonos e dos nativos, imersos, a partir de então, em guerras civis que arruinaram por completo as infraestruturas daqueles territórios, favorecendo a ascensão de facções de cariz autoritário, em que a tónica no desrespeito pelos direitos humanos continua a ser uma constante.
    Desenvolver foi outro dos vértices de Abril. O de mais difícil concretização. Abril permitiu a adesão às Comunidades Europeias, pese embora a cooperação institucional que já havia entre Portugal e a antecessora da UE. Os fundos comunitários ajudaram à reestruturação da economia portuguesa, permitindo um desenvolvimento acentuado ao longo da última década do século XX. Todavia, Portugal manteve o atraso crónico face aos demais países do espaço comunitário. As políticas de proteccionismo da economia e favorecimento dos monopólios, o desincentivo à escolarização, a parca abertura à informação e à livre expressão, mesmo considerando algumas mudanças durante a vigência do Estado Novo, foram suficientes para impedir o acompanhamento da marcha europeia.
    Os problemas que detectamos têm, seguramente, origem no regime obsoleto a que, por cá, a II Guerra Mundial não pôs cobro. E tanto que Oliveira Salazar a evitou. A visão do estadista estava claramente desfasada da realidade, sobretudo no pós-guerra. Num exercício de análise à origem das nossas dificuldades estruturais, podemos recuar no tempo, indo até aos tratados que fomos assinando com a Inglaterra, primeiro, depois o Reino Unido, e que comprometeram o surgimento de uma indústria coesa, dinâmica. Geograficamente longe do centro da Europa, estar na periferia foi outro factor.
     Portugal tem um elevado potencial. Somos a porta de saída para o Atlântico, que nos socorreu perante uma Castela ambiciosa e tão próxima. Hoje podemos aproveitar esses recursos, os laços culturais que fomentámos pelo mundo, não me referindo aqui apenas aos territórios que ocupámos e colonizámos, como também a todos aqueles com os quais nos cruzámos pelos séculos, desde países do sudeste asiático passando pelo norte de África e península arábica. Temos dirigido as prioridades para a UE, equivocados, quando o carácter igualitário dos Estados-membros não passa de um acordo de boa vontade, e isso verificou-se com o resgate financeiro dos últimos anos.
      A par da vertente cultural, podemos apostar no turismo, quer de veraneio, quer rural, tendo em conta a multiplicidade de realidades que coexistem, paradoxalmente, num país pequeno. E ainda investir no turismo histórico, recuperando património degradado e tornando cidades como Lisboa, Porto, Évora, Coimbra, a título de exemplo, não se esgotando aqui, em verdadeiros centros de arte e cultura, redes que já existem em outras cidades europeias.
      De entre os nossos recursos, valorizar os produtos nacionais, a indústria vinícola, olivícola, corticeira, onde nos destacamos. Tentar reduzir a nossa dependência energética, estimulando, nomeadamente, a energia solar.
   Criar postos de trabalho, contornar a forte tendência para a emigração de valiosos contributos, incentivar a natalidade, não esquecendo os seniores.
      Portugal não se trata de um caso perdido, assim o queiram. Os pais de Abril, ao devolverem a liberdade que nos foi negada, acreditavam num país de oportunidades. Tendemos a esquecer o passado. Nove séculos de história, de luta por quantas vezes pela independência, provaram do que os portugueses são capazes.

16 comentários:

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  2. Só quem viveu em ditadura pode aquilatar com total alcance o que se conseguiu nesta data gloriosa.
    Não há palavras que consigam exprimir as diferenças, pese embora os escolhos que fomos encontrando ao longo destes 41 anos, quase tantos como os longos 48 anos de falta de liberdade, de opressão e de uma quase total falta de tudo que só existia para a classe dominante.
    Hoje já quase não se fala nos militares que fizeram a revolução, infelizmente, pois é a ele que devemos o que hoje temos.
    A situação caótica em termos económicos que temos vivido nos últimos tempos e a consequente austeridade que ultrapassou em muito o que era exigido, e recaindo sempre nos mesmos, faz-nos acreditar na necessidade urgente de "renovar Abril", não na forma como aconteceu em 1974, mas de outra, varrendo quem tem contribuindo para um contínuo empobrecimento daqueles que menos têm.

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    1. João, evidentemente que viver a revolução na primeira pessoa é uma experiência única, que jamais viverei. Bom, nunca se sabe...

      Concordo contigo quando dizes que alguma coisa tem de mudar. Renovar o espírito de Abril. E é lamentável que os capitães que tanto fizeram por nós tenham caído no esquecimento.

      um abraço.

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  3. Ainda hoje Portugal é um país de oportunidades mas só para alguns, e para quem tem sorte. Acho que após o 25 de Abril muita coisa mudou, mas com tanto entusiasmo com a liberdade que se teve, faltou organização e fico por aqui, até porque a política é um tema que não me puxa.

    Apenas mais uma coisa, nos anos 80 fez-se muito, gastou-se muito, Portugal "entrou" na Europa e hoje é o que somos. Acho que poderíamos estar bem melhor!

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    1. Como disse há uns dias, e no artigo, inclusive, o atraso de Portugal é secular. E a realidade não se altera como com um passe de mágica.

      Desperdiçou-se oportunidades, sim, e melhor podíamos estar.

      um abraço.

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  4. Portugal é uma democracia madura. 41 anos já, nossa muito tempo! Claro que tem problemas, que país não tem? Mas vocês vão conseguir, com certeza, ultrapassar isso afinal como você disse são 900 anos de história!

    Abraços!

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    1. É uma democracia madura, sim, mas com problemas estruturais graves. Uma democracia não se mede apenas pela liberdade de expressão que contempla ou pela existência de eleições plurais. Mede-se, também, pela justiça social, por condições igualitárias no acesso à saúde, ao trabalho, à educação, à habitação condigna.

      Os novecentos anos de história confortam-me um pouco. Já passámos por muito, é facto.

      um abraço.

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  5. Ainda há muito medo, as pessoas tem medo de se manifestar de dizerem o que lhes vai na alma

    Mas, graças ao 25 de Abril, eu posso escrever os meus pensamentos e publicar gajos Jeitosos lolololol

    Grande Abraço amigo Mark

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    1. Na Madeira, por exemplo, era "perigoso" enfrentar publicamente Alberto João Jardim. Até se dizia, com relativa frequência, que a liberdade não havia chegado lá...

      Já viste? O 25 de Abril para isso serviu. :) Mais tarde, porque Galvão de Melo, pouco tempo depois da revolução, disse que o 25 de Abril não tinha ocorrido para homossexuais e prostitutas. Só no início da década de oitenta, e por coincidência quando os militares se afastaram da vida política, é que houve maior abertura.

      um abraço, amigo.

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  6. Acredito que em geral as mudanças nunca ocorrem na velocidade e muitas vezes da forma que gostariamos, mas o importânte é não deixar o espírito se perder...

    Você já sabe que tenho um imenso carinho pelo povo e pelo país e espero que continuem a prosperar e a escrever a história de vocês, que ao meu ver nada perde para os demais paises.

    Abração.

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    1. Bem sei do teu carinho, amigo Latinha, e muito o agradeço. Muitos brasileiros amam Portugal intensamente. Também estimo o grande país-irmão Brasil, essa terra belíssima, única.

      um abraço enorme!

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  7. como o João tão bem refere, 'renovar' é a palavra correcta. algo mudou, bem, muito, a crise sobre os mesmos, as cunhas que continuam a pulular nos serviços públicos, a corrupção que grassa um pouco por todo o lado, crime, desrespeito pelos valores essenciais, arruinado áreas essenciais como a educação e a saúde, privilegiando-se outros interesses, Portugal está à venda. como li algures, agora é Angola que nos coloniza, fora os chineses a entrar em tudo quanto é mercado. mas qual é a solução quando temos um índice alto de abstenção, criticam-se os partidos do 'arco do governo' mas nem foram votar... isto tem de dar uma grande, grande volta.
    bjs.

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    1. Em parcas linhas referiste os traços essenciais do descalabro de Portugal, Margarida.

      Pois tem. O país, assim, está insustentável.

      um beijinho.

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  8. É como dizes Mark, temos um enorme potencial. Pena é, que aqueles dignos de valor se afastem dos poderes de decisão porque são enxovalhados por "dá cá aquela palha". Muitos, dos mais válidos, vivem acossados noutros sítios porque não há possibilidade (pelo menos para já) de termos uma classe política impoluta (será que algum dia a teremos? ou será pura utopia?) e digna. É claro que os malefícios de uma ditadura como a do Sr. Salazar deixou muitas marcas (veja-se o caso do "vai'sandando" e da coscuvilhice gratuita) mas não poderá ser desculpa para tudo. Ainda temos gente muito válida por ai. Temos que a procurar, acarinhar e dar a oportunidade de nos ajudar a construir um mundo melhor. Sim. Eu sei. Sou um idealista.

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    1. Oh, eu digo tantas vezes "vai-se andando". É tipicamente português: não ser optimista ao dizer que se "está bem" e não querer ser incomodativo ao desfiar-se as dores todas. :)

      Sim, custa ver tantos valores a partir para outros países. E parece que lá fora até jogamos boas cartas. Foi este governo que incentivou a emigração. A propósito, li, há dias, que a filha do falecido Salgueiro Maia viu-se obrigada a emigrar. Caricato! Nunca aquele homem poderia imaginar que participaria numa revolução que, quarenta anos depois, não evitaria que a sua filha procurasse melhores condições no exterior.

      Não és um idealista, querido amigo. Esperas o que é exigível. :)

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Um pouco da vossa magia... :)