21 de outubro de 2017

Klaus Nomi.


    Este post será ligeiramente contracorrente. Há muito que não me dedico a intérpretes ou canções; melhor dito, há muito que nenhum, ou nenhuma, me merece um destaque especial. Por estes meses, entre as minhas pesquisas, redescobri Klaus Nomi. Já lhe tinha passado os olhos há anos, sem me deter o suficiente. Klaus Nomi foi um artista ímpar. Hoje mesmo, se vivo fosse, estou em crer que seria incompreendido.

    Klaus era alemão. A carreira teve tanto de curta quanto de meteórica. No final dos anos 70, seria catapultada quando se mudou para Nova Iorque. Enquanto esteve na sua terra-natal, actuava na Ópera Alemã. Já nos EUA, impressionou a todos pelas suas vestes histriónicas, pelo penteado exuberante e pelas performances inusitadas e teatrais. Klaus, que era contra-tenor, soube conjugar o canto clássico e a pop-rock, uma junção que, na sua voz, soava sublimemente. Nos finais da década de 70, em torno de 1979, o não menos carismático David Bowie assistiu a uma das suas apresentações e convidou-o para actuar ao seu lado no programa televisivo Saturday Night Live. A comparência no programa tornou-o conhecido para o grande público norte-americano, permitindo-lhe gravar um álbum sob o selo da RCA, de título homónimo, encetando uma breve tour pela Europa e pela América, além de ter colaborado em projectos paralelos com outros nomes do meio.

    Em 1983, a sua saúde começou a acusar sinais de debilidade. Enfraqueceu, emagreceu, surgindo-lhe umas manchas estranhíssimas na pele, sobretudo no pescoço, que prontamente disfarçou ao usar uma gorjeira, adereço muito comum nas cortes europeias pelos séculos XVI e XVII. Acabou por falecer em consequência de complicações causadas pelo então desconhecido HIV.

    Antevendo a morte iminente, Klaus interpretou, em meados de 1983 (haveria de morrer em Agosto do mesmo ano, com trinta e nove anos), a ária Cold Genius, do Rei Artur, por Henry Purcell, compositor. Tratou-se de um momento emocionante e pejado de simbolismo. Um homem que, a morrer, canta a morte.

     Eis o depoimento, duro, de um dos poucos amigos que não o abandonaram durante as suas últimas semanas, Joey Arias: « Os médicos obrigaram-me a usar um traje de plástico quando o visitei. Eu estava proibido de lhe tocar. Depois de algumas semanas, pareceu ter melhorado. Tinha força para andar. Então, saiu do hospital e foi para casa. O seu gerente fê-lo assinar todos os papéis, como se a sua vida valesse quinhentos dólares. Ele desenvolveu kaposis (um tipo de lesão associada ao sarcoma de Kaposi, que é uma forma estranha de cancro de pele relacionado à SIDA) e começou a tomar interferon. Isso afectou-o terrivelmente. Tinha marcas em todo o corpo e os seus olhos tinham fissuras roxas. Era como se alguém o estivesse a destruir. Só costumava brincar com isso: "Agora chama-me o Nomi de pontos". Então, ele realmente enfraqueceu e nós levámo-lo para o hospital. Não podia comer comida por dias porque tinha cancro de estômago. O herpes brotou-lhe por todo o corpo. Ele tornou-se um monstro. Doía-me muito vê-lo assim. Falei com ele na noite de 5 de agosto, e ele disse-me: "Joey, e agora o que é que eu faço? Eles não me querem mais no hospital. Já me desligaram de todas as máquinas. Tenho de parar com tudo isto porque não estou a melhorar". Tive um sonho de que Klaus ficaria melhor e cantava novamente, só que desta vez um pouco deformado, de modo em que ele tinha de estar atrás de um ecrã ou algo assim. Eu disse: "Agora serás o fantasma da ópera. Vamos fazer apresentações juntas", e ele respondeu: "Sim, possivelmente". Mas Klaus morreu naquela noite enquanto dormia. »

       Deixo-vos o vídeo e algumas fotos deste artista tão ignorado.






11 comentários:

  1. Definitivamente um artista e como sempre sofreu por conta da estupidez e mesquinhez dos homens. Uma justa lembrança e homenagem.

    Beijão

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    1. Gosto muito do Klaus. Há outro vídeo, dele num programa alemão, em que se vê bem o quão doce era. O apresentador segurou-lhe na mão, e ele todo tímido.

      Sim, andava há semanas para falar dele.

      Um beijinho.

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  2. O António Variações lá do sítio :)

    Abraço amigo

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    1. Com todo o respeito pelo António, que adoro, parece-me que o Klaus jogava noutro nível.

      Um abraço, amigo.

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  3. O testemunho do amigo é algo que nos deixa KO. Não conhecia, Mark, obrigado pela partilha. :)

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    1. O Klaus foi das primeiras vítimas do HIV. Naquela época, nem sabiam do que morriam.

      Ora essa. :)

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  4. Oi Mark! Também não conhecia e fui pesquisar mais sobre ele. Esse depoimento do amigo me deixou sem palavras. Que terrível era. :(

    Abraços!

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    1. Olá, Ty!

      Só por ter dado a conhecer o Klaus a mais pessoas, já valeu a pena. :)

      um abraço.

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  5. Conhecia-o desde há bastante tempo, e a sua presença está praticamente esquecida, pois permaneceu num limbo donde não soube, ou talvez não tivesse tempo de sair.
    Não pertencia ao mundo da música erudita, apesar de ter uma voz de contra tenor que, não sendo a de um Jaroussky ou de um Scholl, estava muito bem posicionada com belíssimos "falsetes" e uma amplitude única, parecendo estar à vontade em qualquer altura de voz.
    A sua tentativa de se posicionar em vários géneros musicais não lhe tornou a vida fácil, mas caso tivesse vivido mais, seguramente a sua qualidade justificaria o seu posicionamento único no mundo da música.

    Fico-lhe reconhecido por tê-lo trazido aqui.
    Creio que o público não sabia muito bem como classificá-lo, e ficou à espera que o futuro decidisse onde se posicionaria, para lhe dar o lugar que bem merecido seria ... infelizmente não teve futuro para tal.
    Uma boa semana
    Manel

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    1. É, ele tinha uma tessitura e uma extensão vocal apreciáveis. Na última fase da sua vida, talvez se apercebendo da morte, já que os primeiros casos da doença misteriosa surgiram em 1981, afectando homens heterossexuais, adoptou um estilo mais clássico, sóbrio; barroco mesmo.

      Concordo inteiramente. Andava a ver se se encontrava, mas o HIV levou-o antes de que ele ou o público chegassem a uma conclusão.

      Obrigado pelo comentário, Manel.
      Uma boa semana!

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