24 de setembro de 2017

100 Men / Queer Lisboa 21.


   Pela primeira vez, neste ano, fui ao Queer Lisboa, aceitando o convite de um amigo. Iríamos assistir a um documentário que, mal eu suspeitava, seria criativo, nada enfadonho, pouco se detendo naqueles temas-base de qualquer longa, curta ou documentário que versa sobre a dita comunidade. Bom, houve clichés, sim, mas não podemos desvirtuar o objecto que pretendemos explorar. Falar da comunidade homossexual é, necessariamente, falar da promiscuidade, da epidemia da HIV, da fragilidade das relações amorosas, do preconceito social... O que há neste documentário que não há noutros é a sequência pouco morosa. O documentário, melhor, os homens sucedem-se com as suas histórias pessoais, tragédias, características. Há uma linha cronológica e uma contagem decrescente que não permitiram ao director demorar-se com um determinado tema. E houve muitos. Quebrou-se com aquela tendência quase irresistível para retratar os oitenta como a década da morte. Claro que, a dado momento, houve quem contasse que passava os dias vestido de preto porque os enterros se sucediam. E ficou-se por aí.

   Cada homem que o director foi conhecendo acrescentou-lhe algo de novo. Cada um fê-lo vivenciar situações, cometer excessos. Aí surgiram os dilemas, entre os quais o da monogamia. O director estabelece uma relação com um homem, que sucumbe a engates, aos anos, não sem antes se ter transformado numa relação aberta. Retomariam posteriormente.
   Somos confrontados com as nossas idealizações: se calhar, diz-nos Paul Oremland, o príncipe encantado não existe, ainda que o queiramos encontrar. Existem homens de carne e osso, frustrados, psicologicamente desequilibrados, fetichistas, com mazelas físicas e morais. Um por um, todos o marcaram. O exercício inusitado de os descobrir levou-o a fazer uma retrospectiva curiosa. E é quase tudo desfiado com leveza - a contagem ajuda - como se tivesse sido uma juventude vivida no fio da navalha, mas muito divertida.

    À medida em que o documentário avança, percebemos que as inquietações mudam. Já não é a epidemia, que o cocktail medicamentoso resgatou a muitos da morte, senão o progressivo esvaziamento de uma comunidade e de um activismo que vêm perdendo a razão de ser. Quanto à primeira, as apps de encontros ditaram uma nova forma de os homens se conhecerem. Fará ou não sentido haver bares dirigidos especificamente a homossexuais? No activismo, as causas vão cedendo diante da aceitação social. Perdeu-se o espírito de grupo, a combatividade. Saíram dos guetos e da clandestinidade para as avenidas das grandes metrópoles. Sobeja o show off.

    Eu gostei, e aconselho a que o vejam.

10 comentários:

  1. Interessantíssimo. Se tiver oportunidade quero ver ... Sua sinopse, como sempre, impecável e arrebatadora ...

    Beijão

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É um documentário neozelandês. O Paulo irá gostar muito, estou certo disso. :)

      Muito obrigado!

      um beijinho.

      Eliminar
  2. Também gostei muito

    Abraço amigo

    ResponderEliminar
  3. Muito interessante esse documentário :)

    abraço amigo

    ResponderEliminar
  4. Adorei o relato! Fiquei com a pulga atrás da orelha, a ver se o filme é exibido no Queer Porto, evento que também nunca fui, mas espero conseguir ir este ano. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É provável que seja exibido.

      Sim, vais gostar!

      Obrigado. :)

      Eliminar
    2. Mas, João, eu já havia ido ao Queer noutros anos. Foi a primeira vez deste ano. Primeira e única.

      Eliminar
  5. HUm, fiquei com curiosidade sobre o Doc.

    ResponderEliminar

Um pouco da vossa magia... :)