18 de agosto de 2014

A planície.


    A viagem não seria longa. Vê-la assim, bem disposta, animou-me pela manhã.

   Acordámos cedo. Os pertences ficaram arrumados na noite anterior, com o cansaço apoderando-se do meu corpo. Os calções e as t-shirts, imaculadamente engomadas, que coloquei com todo o cuidado no fundo da mala; de novo, a sua ajuda foi essencial para que soubesse, pela milésima vez, de que essa roupa fica por cima, ao contrário das toalhas e peças interiores, que poderão preencher a base.
   Não me sentiu animado, talvez porque não esteja, diria em relação aos dias, que a temperatura melhora. Pedi bom tempo e fui ouvido.

    Quando partimos, a cidade dormitava. O carro ainda atravessava o espesso manto da fria poeira matinal, com alternâncias de sol, tímido, e sombra, estática. O dia brindava-me com um quadro de Verão. Permaneci assim, fitando a vida lá fora, lutando pela minha do lado de dentro do vidro.

     Não acelerou. Falámos durante o percurso. Do que faríamos e onde estaríamos. Identifiquei a paisagem após uma hora e meia. Sobreiros, orgulhosos, deixando pender, abaulados, os ombros verdes e robustos. Algumas cercas de arame, indistintas, por onde o matagal já revelava primaveras grandes e altas que não foram cortadas, estavam esburacadas por todo o comprimento. A dialéctica do sinal de perigo transportou-me para um monte isolado, desconhecido, com animais selvagens, bovinos, ameaçadores. Afinal, litoral, baixo ou alto, a maior de todas as regiões portuguesas mantém a sua identidade.

     Por fim, um oceano azul, ao fundo, reflectindo a cor da atmosfera nas suas águas infinitas, desmentia a minha imaginação. Uma camada de um azulão espesso, que fechei entre os indicador e o polegar. Contei uns cinco centímetros de sonho. As casinhas baixinhas, caiadas, continuam iguais, passe o tempo que passar. O parapeito arranjadinho, sob janelas de cortinas discretas e calhas em cruz, de madeira, com vasos de flores de que adivinhei o perfume. Comércio escondido. As bugigangas não carecem de estar expostas, que os olhos do consumidor vêem, mas a mão fica a meio caminho do bolso.

    Lugarejos pequenos em que todas as ruas dão ao centro. Depressa chegámos ao hotel, simpático, familiar. Quartos e apartamentos. Não será o nosso destino final. O gerente, dono, anafado e bolachudo, com um farto bigode, de camisa azul-pálido e calças de fazenda, apareceu cinco minutos, ou mais, depois da empregada ter-nos dito que iria chamá-lo. Senti o odor agradável do fresco assim que entrámos no hall. Vi o meu rosto reflectido nos mosaicos barrentos do chão. Tirei os headphones. Achou-nos piada e fez-nos uma atenção no preço. Não é insólito. Um homem adulto afugenta a simpatia dos anfitriões. Uma mãe e um filho inspiram desejos de protecção nos cavalheiros de meia-idade.

     Subimos ao quarto. O senhor mandou um rapaz carregar as malas. Ficando só, dormi cerca de uma hora. Desci à hora combinada para o almoço, no restaurante contíguo ao hotel.

     Pus a indisposição de parte e decidi que iria permitir-me estar feliz.

24 comentários:

  1. Que legal! Portugal deve ser lindo. Só pelo que você escreveu eu fiquei aqui todo empolgado. :D Curta bastante!

    Abraços!

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    1. Sim, é um país bonito, e eu conheço tão pouco... Meh, não ligo muito. Só mesmo para sair um bocado de Lisboa.

      um abraço. :)

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  2. Uma boa descrição literária - dir-se-ia o início de um livro - e eis que somos transpostos ao litoral alentejano, presumo.
    Boas férias e vai pondo uma ou outra foto do sítio, embora saiba que és avesso a fotos...

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    1. Não, início de livro algum. Não tenho aspiração a escritor, pelo menos nos próximos vinte anos. :) Sim, sim, Sines, onde ainda estou.

      Sou avesso a fotos em que conste. Não gosto de me deixar fotografar.
      Postarei, sim, mas no fb. Não gosto de pôr fotos no blogue, como notarás. É um espaço em que privilegio a escrita.

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  3. blue holidays, blue de azul :)
    bjs.

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  4. Mark! tudo bom contigo?
    Adorei o texto! Viajar com a mãe é vida!
    Espero que aproveite bem, descanse e se divirta.

    Abraço :)

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    1. Olá, Ti@go. Tudo e contigo?

      Só a tenho a ela, no fundo. :)

      Obrigado. :D

      um abraço!

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  5. Você descreve muito bem seus acontecimentos. A gente até imagina tudinho, a praia, o lugarejo, o hotel, tudo, até você tirando o headphone dos ouvidos hehe.


    Se cuida,querido. :) Beijos. <3

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  6. E espero que tenhas mesmo sido feliz nesses dias! ;D

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  7. Sines é giríssimo, e agora a refinaria apostou num projecto de turismo industrial que me anda a 'atazanar' o espírito. A tua descrição da entrada no Alentejo recorda-me uma expressão que o P usa sempre quando por lá passamos: "Já viste como é bonito o nosso Alentejo?".

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  8. Para começo parece-me bem Mark :P

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Um pouco da vossa magia... :)