7 de julho de 2014

Degradação.


      Os costumes tendem a ser alvo de especial protecção por parte do Estado. Práticas seculares que o tempo não removeu da memória colectiva, mantendo-se por gerações. Alguns cederam perante o progressismo; outros continuaram porque, no senso comum, não contrariavam as bases de uma sociedade moderna, actual, voltada para os direitos da pessoa humana. Não sendo atingidos quaisquer direitos humanos, o esforço com vista à eliminação dessas práticas não foi além de meros debates, colóquios, pairando aqui e ali em correntes ideológicas.

    As associações que defendem os direitos dos animais desempenham um papel relevante. Partem de um objecto que não existe - os direitos dos animais. Os animais não têm direitos. Só as pessoas são sujeitos de direitos e deveres, pessoas singulares ou colectivas. Os animais são ainda uma indefinição jurídica. Custará considerá-los coisas, todavia são comercializados (comprados, vendidos, alugados). São uma propriedade humana. Seres vivos que o Homem considera seus, alienando-os como artefactos que produz. Na Natureza, estão em pé de igualdade. As capacidades do homo sapiens tornaram-no dominante sobre as restantes espécies animais, o que não significa que possa e deva explorá-las, ameaçar a sua existência, destruir os seus habitats. Deve, isso sim, protegê-las da fúria e ambição naturalmente suas. O que seria do mundo sem a beleza do canto de um belo pássaro, as gracinhas de um golfinho, o companheirismo de um cão ou de um gato.

   Nesse sentido, há quem ainda condene a utilização dos animais como suporte à vida humana, seja na alimentação ou no vestuário. Admitindo-se que o Homem pode - e deve - matar para se alimentar, uma vez que os animais também matam para prover à sua subsistência, será difícil consentir que disponha da vida animal para entretenimento, infligindo dor, sofrimento, ansiedade - que há muito a neurociência reconhece que existe nos animais vertebrados, mormente na classe dos mamíferos.

    Espectáculos como as lutas de cães e galos, os rodeos, as touradas e análogos não são próprios de uma sociedade humana que respeita e protege a vida dos demais animais. E o Direito está em transformação nesta matéria. Progressivamente, os diversos ordenamentos jurídicos vão reconhecendo um direito dos animais ao respeito e à protecção contra abusos. Daí que, meio que hipocritamente, haja regras nos matadouros quanto aos abates. Delicada matéria que carece de aprofundamentos. O respeito que a vida animal nos merece implicará, no limite, a proibição das touradas, o que terá a veemente oposição de todos quantos lucram com a tradição. Levará décadas, talvez um século, acompanhando a sensibilidade da opinião pública. Reduto não é - e a transmissão de sucessivas touradas na estação pública, oficial, paga por todos os contribuintes - evidencia isso mesmo. Em Portugal, e falo da realidade portuguesa, é aceitável ver um animal a ser maltratado até à exaustão física para deleite de centenas nas praças de touros e uns quantos milhares em casa. A sua morte, o corte da orelha e do rabo, tão comuns em Espanha, estão proibidos, sabendo-se que o touro será morto logo depois. Permite-se a diversão na agonia, proibindo-se de seguida a exposição pública dos momentos finais. E Barrancos tem um regime de excepção, onde a tradição, mais uma vez, justifica os touros de morte.

     Uma discussão que está longe de ser encerrada. Manifestamente, a tauromaquia é degradante, inadmissível nos dias que correm. O caminho é longo. Como tudo o que é controverso, adia-se um problema, uma fractura que existe entre os portugueses. A solução, a meu ver, passaria por impor aos cidadãos normas que regulassem a actuação sobre os animais, normas muito concretas, restritivas, estabelecendo-se como e em que circunstâncias os animais poderão estar à disposição do Homem. Não será a derradeira solução. Outras se adivinham, num longo, longo prazo.

       Por ora, mudar de canal e suspirar fundo, o que fiz há dois dias, é o possível.

22 comentários:

  1. Horrível né? Ainda bem que vocês não passaram pra gente esse costume bárbaro da tourada (eu até tive que ir ver o que era isso). No México tem. :/

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  2. Não poderia estar mais de acordo.
    Basta de espectáculos degradantes e selvagens.

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  3. Infelizmente, esses abusos existem porque há espectadores. O Campo Pequeno enche com uma Tourada ou um Toni Carreira.

    Só não enche para as pessoas mostrarem carinho umas pelas outras. Quantas Gajas e falo de gajas que compram casacos de pele, sabendo que animais morrem em vão só pela pele?!

    O Desejo do Homem é igual ao da Mulher. Enquanto ambos não perceberam o quanto podem aprender com os animais.

    É o mundo que temos...:(

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    1. Sim, exacto, e eu quando me referia ao vestuário nem aludia aos luxos egoístas humanos (casacos de vison, de pelo de coelho, raposa, etc - que a mãe tem alguns, infelizmente. Não mando nela).

      Que a Praça vá enchendo com o Toni Carreira, menos mal, menos mal!

      um abraço.

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  4. tenho animais e digo-te, enojam-me essas pessoas! detesto touradas, é mesmo degradante e desumano. e há aqueles que dizem que o touro é "mau" lol o animal apenas se tenta defender e age por instinto! mete mesmo nojo e a rtp devia ter vergonha de passar essas porcarias em horário nobre.

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    1. Assino por baixo. Surpreende-me que a RTP continue a pactuar com isto. Lá que fosse uma privada.

      Pois é, e de vez em quando levam umas "cornadas" do "bicho mau", e olha a minha cara de pena: :)

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  5. Belo Texto e muito oportuna tua reflexão, concordo contigo! Aqui no Brasil não temos as touradas, mas temos os rodeios, que vira e mexem estão no centro da discussão... por terem touros premiados e famosos, quero na minha inocência crer que apensar de todo o stress... eles ainda recebem algum tratamento digno... Mas é algo a se pensar também...

    Quem sabe um dia essa questão seja igual a escravidão e as pessoas entendam que não é possível aceitar tal comportamento, até lá o jeito é ir pé ante pé, tentando avançar na conscientização.

    Tenho para mim que Lisboa é uma das cidades mais belas que há... apesar de ainda não ter ido "pessoalmente", tenho amigos "Tugas" e sempre que temos a chance de nos encontrar aqui é uma festa! Tenho imensa simpatia pela cidade, pela cultura e pelo povo... em especial "aos gajos"... cof cof cof o bando de homem bonito cof cof cof... kkk

    Grande abraço para ti!

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    1. É incompreensível, irracional, o prazer que se obtém com o sofrimento de um animal. Recuso-me a aceitar esses "espectáculos", terminantemente, invoquem os argumentos que invocarem. Tradição alguma se sobrepõe ao bem-estar animal.

      Lisboa é bonita, sim. Uma cidade agradável, com uma luz única, dizem, pela Europa. Ahahah, gente gira, e menos gira, há em todos os lugares. :)

      um abraço grande!

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  6. Apesar de não deixar de concordar contigo, creio que a tourada, por enquanto, pode passar para um "segundo plano". O touro desde que nasce até entrar na arena é criado como um rei, e pouco depois creio que é morto. É reprovável, claro que é. Mas a situação dos animais dos circos, por exemplo, é bem mais gritante. Animais que são toda uma vida sujeitos a maus tratos, para exibição ao público. Creio que deveria ser para aqui que se devem virar as baterias, aliviando (mas não esquecendo) as touradas.
    é só, e apenas, uma mera opinião :)

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    1. Eu odeio circos, Horatius. Não os referi neste artigo porque, ao que sei, não são mortos nas arenas. São adestrados para entretenimento e lucro - e merece a minha reprovação total!

      Criado como um rei para engordar, ficar forte e dar mais luta. O objectivo é matá-lo. Que prazer retirariam de matar um animal raquítico e esfomeado?

      As baterias têm de se virar em todos os sentidos. Como disse, normas muito restritivas que elenquem, ponto por ponto, em que circunstâncias os animais podem ser utilizados pelo Homem.

      Respeito a tua opinião. :)

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  7. Eu gosto de ver pegas.
    Tenho origens no ribatejo e páro tudo ficando em alto suspense quando vejo uma pega entre um grupo de homens de collants *.* e um touro. Sem ofensas ao animal, sem espadas, sem maltrato. Tourada por mim podia ser só pegas - e homens em collants justos *.* (estou a ser repetitivo? xD). O resto não faz sentido. Até que enfim que existe legislação que defenda direitos para os animais - sobretudo que combata o sofrimento desnecessário, muito em particular o derivado do entretenimento e da ganância dos humanos.

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    1. Ahahahah :D

      Bom, é uma legislação muito incipiente. Criminaliza os maus-tratos a animais de companhia e o abandono, mas não resolve a problemática das touradas. Pelo menos tentam pôr cobro a algumas situações que estão na ordem do dia. Começando o Verão, aumentam os abandonos, que há em todo o ano, bem como a violência sobre animais, diga-se de passagem.

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  8. Concordo plenamente e subscrevo o que disseste. Sempre me incomodou esse tipo de coisas a que as pessoas chamam de "espectáculo". Onde raios está o espectáculo? Porque não vão elas para o centro da arena e deixam que lhes espetem lanças até se esvaírem em sangue? Enfim...está é das coisas que me revolta. Assim como aquelas "inteligências raras" que aqui há uns anos, colocaram um cão preso, para morrer à fome e à sede, num museu, porque era "arte". Existem pessoas que simplesmente mereciam viver afastadas de tudo e de todos... :/

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    1. Que horror! Não sabia isso do cão. Que desumano, que bárbaro, que monstruoso!

      Tempos houve em que humanos eram lançados nas arenas aos leões famintos. Na época de Nero, por exemplo, nas perseguições aos cristãos.

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  9. Ninguém nasce ensinado, e no caso das touradas, aprendi a não gostar. Os meus pais adoram, e cresci a ver lides, faenas, bandarilheiros, rabejadores, picadores (os que mais detesto). Acho piada ver uma ou outra pega, até porque tenho amigos forcados, mas dispensava todo o restante espetáculo. Pode ser um dia tomemos uma decisão como a Catalunha tomou há dois anos, de banir as touradas.

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    1. Não conheço a maioria dessas "posições" (poderei chamar-lhes assim?). Pois, por "picador" vejo o que será...

      A Catalunha foi muito corajosa, num país aficionado como é Espanha. Nós, entretanto, proibimos os "touros de morte" com um regime de excepção para Barrancos, por exemplo, que assenta na tradição. Patético.

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    2. A "coragem", como lhe chamas, foi apenas motivada pela ruptura com Madrid. Nós dizemos 'De Espanha, nem bom vento nem bom casamento'. Os catalães só trocam 'Espanha' por 'Madrid'.

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    3. Sim, sim, os catalães não suportam o centralismo castelhano 'personificado' em Madrid. Desse-se a primazia a Barcelona e à Catalunha, em Espanha, e outro galo cantaria... Primazia política, que económica já tem.

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  10. Concordo em absoluto contigo. Como o Coelho também cresci a ver as coisas e adorava ir a uma tourada com o meu avô materno. Contudo, fui ficando mais maduro e hoje em dia acho um espectáculo degradante tendo em mim um paralelismo com o que os romanos faziam nas suas arenas quando colocavam os cristãos perante os leões.

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    1. É... eu também faço sempre esse exercício de comparação com o que os romanos faziam...

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Um pouco da vossa magia... :)