16 de junho de 2011

Perdeste-me...


Ainda me recordo do frio que senti ao entrar na banheira naquela tarde que principiava. O sol entrava pela janela do quarto e cobria todo o macio tapete branco. A água corria, tépida, mas o meu coração gelava e toda a minha pele se arrepiava a cada pensamento. A vontade era a de adormecer, talvez para sempre, dentro da água.
Lá fora havia vida. Existiam pessoas a  lancharem nos cafés, namorados a beijarem-se sob o sol quente, alegria nas ruas, vidas que se agitavam no tempo. Em casa, no banheiro, derramava todas as minhas tristezas. Oh, como queria sair para fora e deixar a tristeza dentro das paredes que conheciam tão bem o que sentia. Por que razão não podemos deixar a tristeza como uma simples camisa que se muda a todo o momento?
A vida não se compadece de infortúnios ou estados de alma. Lá fora sorria a todo o custo. Segurava o choro tímido de um menino que nem chorar pode. Ninguém compra tristezas alheias. A alma despontava a cada sinal de algo que também queria.
O calor aquecia o corpo, mas não o interior. O olhar ficara perdido há muito tempo num horizonte até então desconhecido. A apatia tomara, por fim, conta de tudo.
A cada passo, o peso do mundo parecia não ter fim. A raiva de sorrisos de terceiros sobrepunha-se à inveja. A certeza da indiferença, de um mundo ao qual não pertencemos. A incerteza do amanhã, a convicção do alheamento.
Perdeste-me. Tinhas-me perdido mais uma vez, era tão clara a verdade. Perdias-me a cada dia, a cada ocasião, a cada minuto que afundava mais o pouco que restava. Agora, porém, o perigo era outro. Também eu me perdia. Perdia-me incessantemente.
O tempo passou, passa sempre. Hoje, vejo que me perdeste. Eu - e agradeço-te por isso - não me perdi.

12 comentários:

  1. o tempo acaba por sarar tudo. por mais que pareça impossível naquele momento.

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  2. o tempo passa para sempre. só temos que continuar a viver sem arrependimentos

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  3. Temos de ser fortes para podermos superar as adversidades da vida... mais um textinho lindo Mark! Beijinhos

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  4. Caro Mark,
    Antes de mais agradecer-te (finalmente) pela tua visita ao meu blog parece-me uma evidência. As tuas palavras foram agradáveis e calorosamente recebidas.
    Não consigo deixar de sentir-me familiarizado com a tua escrita também, quiçá a tua seja mais poética.Não sei se é autobiográfica, contudo carregada de emoção e significado.
    Será um prazer ver-te com mais frequência no meu blog.
    Até já :)

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  5. Gosh... Devias publicar um livro. Eu ia comprá-lo sem dúvida. E lê-lo vezes e vezes até me perder. *.*

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  6. Uau... Obrigado pelo carinho! *

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  7. Um amigo virtual17/06/2011, 13:54:00

    Mark, tens o dom de reunir as tuas dores e as dores de terceiros. O texto está lindíssimo de tão dramático.
    "A vontade era a de adormecer, talvez para sempre, dentro da água."
    Quem nunca o quis?...

    Abraço do Amigo Virtual.

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  8. Outro fã!

    Be strong (e n deixes que o tempo passe como... eu fiz)

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  9. O teu blog tem vindo a crescer, em tudo: em interesse, pois sem deixar de ser muito pessoal (como eu gosto), também opinas sobre variadas coisas; estás menos elitista e a universidade tem-te feito bem nesse sentido; estás a prender a gostar e a precisar de alguém.
    E estás a conquistar uma merecida e crescente audiência.
    Este teu texto, se alguma dúvida houvesse, confirma-te como uma pessoa com uma rara habilidade de escrever, com uma enorme sensibilidade e com sentimentos...
    Sim, porque nos dias de hoje, os sentimentos contam pouco no dia a dia das pessoas, infelizmente.

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  10. Pinguim: Muito obrigado pelas tuas palavras. É interessante ver como a blogosfera permite que se vão conhecendo as pessoas que estão por detrás de cada blogue e as suas consequentes evoluções...
    É, terei mudado, possivelmente. Todos mudamos. (:

    És alguém que muito admiro e por quem nutro um enorme carinho e respeito.

    Mais uma vez, obrigado. ^^

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