27 de novembro de 2017

As fragilidades do decrépito regime.


    Estávamos em finais de Novembro de 1967. O ano havia sido chuvoso, mas nada fazia prever a hecatombe que se seguiria. Naquela madrugada, de 25 para 26, choveu, choveu muito. Lisboa e a região centro acordaram alagadas. Os mortos, mais que muitos. Sete centenas, na pior das tragédias desde o terramoto de 1755. O Estado Novo já se via em mãos com a Guerra Colonial e com o descontentamento generalizado. Oficialmente, morreram umas trezentas ou quatrocentas. Saber-se-ia, mais tarde, a dimensão real do que acontecera.

    O Portugal dos anos 60 não era aquele país bafejado pelo Maio de 68 e pelas conquistas sociais e tecnológicas da Europa civilizada. Era um país parado no tempo, isolado, com enormes desigualdades. Na Casa Portuguesa de Salazar, faltava o pão e o vinho sobre a mesa. Havia fome, miséria. Crianças desnutridas. Inúmeros analfabetos (cerca de 30 % da população). O crescimento económico, à custa das províncias, soçobrara com os esforços para manter uma guerra inútil. Naquela noite, não foi apenas a natureza a culpada da mortandade; foi-o, também, a insalubridade da habitações, a escassez de posses. Péssimas infraestruturas levaram a que muitos morressem dentro das suas casas. De Europa, muito pouco tinha Portugal.

    Não era fácil contornar o lápis azul do censor. O regime impunha expressamente uma política restrita de informação disponibilizada ao público. Claro que, em finais da década de 60, já havia uma imprensa pungente, sobretudo lá por fora, que não se coibiu de fotografar e de enviar para as redacções de todo o mundo o que se passava no pequeno rectângulo peninsular, como esta foto bastante expressiva.


6 comentários:

  1. Que registro memorial magnífico meu caro ... A própria fragilidade ...

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  2. Por isso, quando a Rainha de Inglaterra veio a Portugal. Salazar levou-a ao Restelo e disse que ali viviam os pobres deste país...

    Não estava longe da realidade, porque dizem as más línguas que por trás das verduras, eram erguidas muitas Foices e Martelos

    Grande abraço amigo

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    1. Pois, ele devia de a ter levado a conhecer o país real, isso sim. Só quem não viveu no Estado Novo é que pode defender aquele regime e essa personagem.

      um abraço, amigo.

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  3. Apesar de não ter sentido na pele toda esta situação, que foi realmente terrível, tive circunstâncias que me mantiveram algo alheado destas verdades, pois vivia no ex-ultramar português, encontrando-me à altura encerrado num colégio religioso e era filho de alguém que se encontrava inserido, e de acordo com o regime.
    Mas a minha restante família, que afinal aqui vivia no continente europeu, pôde ser testemunha de situações confrangedoras e acabei por vislumbrar, ainda que à posteriori e sempre por meias palavras (era muito jovenzinho na altura), o que tinham para dizer.
    Por muito que se diga, creio que estará sempre aquém da verdade. A memória, por muito lúcida, acaba por perder a força, chegando mesmo a transmutar-se com a passagem do tempo.

    Pessoas que consigam racionalizar e pensar por si mesmas e possuam o espírito aberto, ainda que vivam num saudosismo do passado (afinal muitas destas pessoas poderão ter sido muito beneficiadas por aquele), dificilmente poderão defender aquele ou outro qualquer regime político desta espécie.
    Se forem obstinadas e insistam em criar deste passado um "romantismo à luz da vela" do tipo, "antes é que era bom", quer porque foram beneficiadas, quer porque sempre lhe foi repetido que este passado é que era desejável, quer por ignorância do que realmente acontecia, ou porque o presente lhes tem sido desfavorável, ou ainda porque a educação não lhes foi de feição por forma a eleger o raciocínio como método para formação da personalidade, então ... nada a fazer. Não obstante, confesso que não consigo recusar-lhes o direito à opinião apesar de não comungar.
    Uma boa semana
    Manel

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    1. Subscrevo.

      Bom final de semana, que já está aí à porta.

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