28 de novembro de 2014

Memories.


   As lembranças. Elas trespassam-me como a luz no vidro. O eterno paralelismo com a pessoa que era imediatamente antes da separação dos pais e após. As imagens, que eram nítidas, começam a ficar esbatidas, como aquelas velhas fotos que passam de mão em mão. Os pormenores fogem à minha concentração. Ainda assim, e nove anos volvidos desde o início das hostilidades, vejo roupas, refeições, semblantes, dor. Indiferença. Consigo sentir a desconstrução do que julgava sólido. E não exagerarei se disser que perdi o pé.

    Era novo, demasiado ingénuo para perceber o que se passava. Julgava uma fase, como outras, de maior animosidade. Ou tampouco tinha opinião formada. Limitava-me a viver nesse manto de abstracção que me proporcionava a idade. O pouco conforto que conseguia extrair do que me rodeava provinha daí e de alguns sonhos que pairavam como uma nuvem branca, isolada, no meio do céu carregado.
    Não me questionaram acerca das minhas necessidades, dos receios. Do impacto que o turbilhão teria na frágil estabilidade emocional. Que nunca pedi sacrifícios de maior. Só cautela e cuidado. Foram céleres em desatar os laços. E, aí, tenho a agradecer. Um golpe único, certeiro, consegue ser um acto de misericórdia.

    Desconheço o que me leva a manter algumas tradições que já não farão sentido. O espírito de época, não tendo ainda esse soçobrado diante da realidade. Uma luta em vão, a de cultivar a aparência de normalidade, de comunhão, que não existe mais. Que, porventura, haverá cada vez menos.

   A hora dos silêncios, perturbados pelo som dos meus passos. Da casa vazia, inabitada. Imaculada e disfuncionalmente arrumada. Pelos corredores ecoam as vozes do passado. Onde fiquei.

16 comentários:

  1. Confesso que te leio há já algum tempo e gosto muito da forma como escreves :)
    Não é fácil viver o presente quando estamos presos algures no passado. Há marcas invisíveis que não desaparecem :)

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  2. Eu lembro que você falou um dia que quanto mais o tempo passa mais essas memórias retornam. Eu acho que você está no processo contrário. A maioria dos meninos da sua idade se libertam desses fantasmas, namorando, viajando.. Você é um menino especial. Não está conseguindo ultrapassar sozinho e é muito novo pra sofrer desse jeito por uma coisa que foi vítima e não culpado. Desculpa essa intromissão. Acho que você merece ser feliz mesmo não acreditando na felicidade (lembro disso também).

    Abraços.

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    1. Não há intromissão alguma. Eu escrevi e publiquei, não é? :) Pelo contrário, ajuda-me. Eu é que agradeço.
      Tirando a parte do "menino especial", que não me considero, concordo genericamente com o que escreveste.

      um abraço.

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  3. Estas a crescer e a amadurecer :)

    Abraço amigo

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  4. Mais uma introspecção muito boa e sentida.
    Por tudo o que dizes, e sem me querer meter na tua vida ou dar-te conselhos sobre uma vida que é só tua e és uma pessoa adulta e responsável, não deixo de bater numa tecla que já mais de uma vez referi - é a altura própria para iniciares a independência que talvez desejes, mas ao mesmo tempo talvez temas...por causa da solidão.
    Mas, nas tuas condições seria um passo fundamental na tua vida actual.

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    1. Não temo a independência, João. Nem estou acomodado. Eu compreendo, no entanto, o que dizes. Só não a atingi ainda por não querer descurar o mestrado.

      O mesmo se aplica à solidão. Eu sou uma pessoa naturalmente só, ainda que acompanhada. Vivo mais em mim do que nos outros ou com os outros.

      um abraço e obrigado.

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  5. Há que crescer.

    Não sei porque escrevi tão simples frase, talvez um misto entre concordar com o Sr. Roque (rsrsrs) e a oportunidade de me manter calado.

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    1. Aposto que, "crescendo", continuarei a sentir-me exactamente igual. Onde quer que esteja, o que quer que faça, a idade que tenha.

      Mas obrigado.

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  6. Creio que as desconstruções que sentimos e vivemos nas relações entre pais e avós nos servirão de lição (da pior forma) para um futuro nosso. Pelo menos é isso em que quero acreditar. Que não farei o que me foi feito. De qualquer das formas estou longe de imaginar a dor e sofrimento pelo que passaste. Mas posso enviar um abraço, embora virtual :)

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    1. Que assim seja, que possa ajudar em algo.

      Obrigado, Ricardo.

      outro abraço.

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  7. a separação dos pais é um trauma que permanece para sempre. tu eras um adolescente, eu tinha uma mão de anos.
    e por que repetes as tradições? talvez para te refugiares naquele tempo em que tudo era inocente...
    bjs.

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    1. É um trauma, sim. E custa-me cada vez mais, quando deveria ser o inverso. Parece que andei uns anos anestesiado...

      Eu gosto de decorar a casa, de encher-me de espírito natalício, embora de nada valha. Não há união.

      um beijinho, Margarida.

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