12 de novembro de 2014

A Queda do Bloco Soviético.


   Comemorou-se, há dias, o vigésimo quinto aniversário sobre a demolição do muro de Berlim e a reunificação da cidade. Corria o ano de 1989. O muro, construído nos anos sessenta do século XX, era mais do que uma linha imaginária que separava os dois pólos antagónicos. Era, efectivamente, um marco que delimitava as partes ocidental e oriental de Berlim. 
       Mil novecentos e oitenta e nove foi um ano de viragem para o bloco soviético. A par do derrube do muro, já em Novembro, a vitória de Lech Walesa na Polónia e a célebre e pacífica Revolução de Veludo na então Checoslováquia prenunciavam o fim de um regime que se via diante de uma derrota na sua ideologia e expansão.

     Com Brejnev, sobretudo, a União Soviética começou a demonstrar fragilidades e indícios de declínio. A competição com os E.U.A na saga pelo armamento nuclear e a intervenção militar no Afeganistão agudizaram os problemas económicos que se vinham sentindo, a que se juntou o fracasso nas políticas que defendiam a reconversão gradual da produção industrial de bens de equipamento para bens de consumo. Gorbatchov chegou a secretário-geral do PCUS em 1985 e cedo se apercebeu de que reformas eram urgentes, empreendendo assim uma certa abertura à privatização e ao individualismo, negados pelo regime soviético, tendo em vista modernizar e reestruturar não só a própria URSS como também o regime, que estava em causa. A reestruturação económica ficaria conhecida, em russo, por perestroika, e a transparência por glasnost, significando a abertura política e o fim da burocratização estatal. Estes dois pilares, decisivos, reflectiram numa mudança de atitude, nomeadamente em relação aos media, menos controlados, o que permitiu aos cidadãos soviéticos terem acesso a informações que eram terminantemente proibidas até então. Atenuou-se as perseguições políticas aos opositores e defensores dos direitos humanos, dos quais André Sakharov é um exemplo, Prémio Nobel da Paz em 1975, regressando do exílio. No ordenamento jurídico, a Constituição soviética foi revista e pôs-se cobro ao monopólio do poder do PCUS. Houve ainda algum combate à corrupção e um importante estímulo à participação cívica dos cidadãos, falando-se até de eleições livres e pluralistas.

     Não se pense que este clima de reformas foi pacífico. Enquanto que no ocidente Gorbatchov granjeava popularidade junto da opinião pública, no seio da URSS o líder conheceu alguma oposição por parte das forças mais conservadoras, na sociedade e no aparelho do PCUS. O carácter reformista do seu mandato verifica-se facilmente com a assinatura do Tratado Sobre Forças Nucleares de Médio Alcance, com os E.U.A, em 1987, e a retirada do Afeganistão em 1989. No ano seguinte, Gorbatchov receberia ele mesmo o Prémio Nobel da Paz. Nesse ano, a reunificação alemã, por fim, viu a luz do dia. A República Democrática Alemã juntava-se à República Federal da Alemanha, derrubando-se o regime comunista na ex-RDA. Também a Hungria e a Roménia, na última muito pouco pacificamente, os regimes comunistas chegavam ao fim.

   As Repúblicas Bálticas foram as primeiras a libertar-se do jugo soviético, em Dezembro de 1989, proclamando-se independentes de Moscovo, seguindo-se progressivamente as restantes repúblicas soviéticas, uma após a outra. A implosão da União Soviética estava iminente. Gorbatchov sofreu uma tentativa de golpe de Estado em Agosto de 1991 por comunistas reaccionários. Os acontecimentos precipitaram-se. Sendo contra a desfragmentação do Estado, Gorbatchov demitiu-se no dia de Natal de 1991, arrastando o PCUS para a extinção e, finalmente, a dissolução oficial da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, fundada quase setenta anos antes pelo líder Lenine. O caminho para a hegemonia sem rivais à vista, pelos E.U.A, ficou desimpedido.

    O fim da URSS teve um impacto significativo nas artes e na cultura. Até na música, com os Scorpions cantando, no início dos anos noventa, o hino à mudança Wind of Change.

10 comentários:

  1. Amei! Eu amo a história do século XX e você a narra muito bem.
    O mundo mudou sim, não sei se pra melhor. Eu acho que não. A União Soviética ajudava a balançar o peso dos Estados Unidos no mundo. Claro que era um país que não respeitava os direitos dos cidadãos, era uma tirania só e acho que isso ajudou ao fim triste e sem glória.

    Abraços!!

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    1. Sim, tendo a concordar contigo. O regime soviético assentava num desrespeito total pelos direitos humanos, muito embora os E.U.A não sejam exemplo para ninguém nessa matéria... Claro que duas superpotências permitiam um maior equilíbrio na ordem internacional, mas o clima permanente de guerra, "fria" (Guerra Fria), não compensava. Estivemos perto de uma III Guerra Mundial, mormente no tristemente célebre caso dos mísseis em Cuba.

      um abraço.

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  2. Adoro este canto, a forma como tu escreves :)

    Abraço amigo

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    1. Obrigado, Francisco. :)

      um abraço carinhoso.

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  3. É sempre mais fácil contar a História quando os anos já a sepultaram totalmente.
    Nos casos mais recentes, nomeadamente a partir da segunda metade do século XX, ou seja logo após o final da II GG, o pó ainda não está totalmente assente e nalguns casos vivemos ainda hoje não de uma forma directa as consequências da História desse tempo.
    Nos casos que aqui relatas a propósito dos 25 anos da queda do muro de Berlim e que se referem também ao final da Guerra Fria e à implosão do comunismo de origem soviético, a memória ainda é muito curta, pelo menos para aqueles que, como eu, viveram esses acontecimentos já com uma visão esclarecida, na altura, e portanto os sentem agora como acontecimentos da sua geração.
    Eu próprio, visitei Berlim, pela primeira vez, um mês e meio após a queda do muro, e ainda pude ver in loco, como era Berlim "oriental", tão diferente de como está agora, apesar de nalguns pontos mais distantes do interesse turístico, se mantenham testemunhos vivos dessa época, mormente nas construções e numa desproporção do estado de riqueza com o resto da cidade.
    Mas é inegável que o mundo europeu e mundial mudou muito após esta queda do muro de Berlim.
    A tua análise está correcta, resta apenas saber, hoje em dia, se não haverá algum retrocesso para vivências passadas, quer no que respeita a uma espécie de segunda Guerra Fria que parece cada vez mais eminente, e que desta vez tem não como protagonista principal do lado ocidental, os EUA, embora sendo o país ainda líder mundial e que se viu durante estes 25 anos alcandorado a uma posição de única super potência, mas sim uma Europa, cada vez menos importante no contexto mundial, mas, e uma vez mais, comandada por uma Alemanha que sempre renasce das cinzas e que, quer se queira ou não admitir, tem o sonho de comandar um continente, hoje impossível sob uma forma política, mas muito concretamente pela via económica.
    Se por um lado, Ângela Merckl não é Hitler, também Putin não é Lenine...

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    1. João, em primeiro lugar, muito obrigado pelo teu comentário e pela atenção despendida. Como costumo dizer, poucos, mas muito, muito bons. :)

      De facto, caminhamos para uma nova "Guerra Fria", com a Rússia não se conformando com o papel secundário, quando comparada aos E.U.A, no teatro mundial. E temos a Alemanha, voraz, sempre pronta a dominar a Europa, sonho que perfilha e que, ainda que implicitamente, persiste. Não por vias militares, por vias económicas, igualmente prejudiciais.

      um abraço e, uma vez mais, obrigado.

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  4. se há uma imagem que fica é a da queda do muro de Berlim. e agora, 25 anos depois, outros muros erguem-se um pouco por todo o mundo. o mundo está cada vez mais perigoso. protegem-se fronteiras, erguem-se barreiras imensas contra os imigrantes (há um muro que separa o méxico dos eua), contra os palestinianos.
    e há muros invisíveis, esses serão os mais difíceis de detectar e de derrubar...
    bjs.

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    1. Há uma cerca, numa praia, a separar os E.U.A do México. Chega a ser ridículo porque nadando consegue-se contornar. É ao ponto a que o absurdo chega!
      E quantos morrem por esse mundo ao tentar passar os "muros"? Enquanto que na Europa se levantam as fronteiras, com as adesões de novos Estados-membros à UE, por esse mundo fora constroem-se barreiras visíveis, que as invisíveis, bem, demorará séculos!...

      um beijinho e obrigado.

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  5. O fim da União Soviética representou o fim de um ideário de um mundo onde os meios de produção não fossem de alguns poucos em detrimento da maioria. Foi uma experiência de 70 anos que não se seguiu devido aos corruptos da Nomenkalutura e o seu reformismo que levou o estado soviético para o capitalismo, o que custou muito para os russos e demais partidos da cortina de ferro em termos humanos e financeiros. Foi um desastre humanitário a transição.

    É bom que se diga, que o sistema socialista não é ineficiente como a historiografia ocidental gosta de pintar, o que aconteceu foi que as forças produtivas do estado foi usada na guerra fria. Provavelmente se a URSS não tivesse se embrenhado nessa guerra ideológica tão fortemente ou simplesmente deixasse que os outros países seguissem sozinhos para o socialismo, talvez ela existiria até hoje. A União soviética teve um papel de suma importância na luta pela descolonização da África e para o desenvolvimento tecnológico. Não podemos negar isso.

    O que o pecou foi as violações de direitos humanos, o autoritarismo de alguns líderes e o centralismo soviético, o que levou a muitas revoltas dentro dos países que compuseram o bloco. Vale lembrar que essas revoltas não foram para acabar com o socialismo, mas para dar mais democracia ao regime, aliás, a grande maioria dos alemãs orientais não queriam o fim do socialismo, isso é lenda criados pelos capitalistas ocidentais. Vi isso em documentários de pessoas que viveram naquela época. O que as pessoas queriam eram o fim do totalitarismo, não do sistema socioeconômico.

    Trocaram um regime que lhes davam igualdade material por um que lhe deu a liberdade politica-partidária até a página 2.

    Não existe liberdade numa sociedade capitalista. O que a Europa tá vivendo, é uma demonstração clara disso.

    A resposta não foi o capitalismo, mas o socialismo soviético também não deu a liberdade de ser individual e de pensar diferente.

    Será que um dia teremos um mundo onde veremos a igualdade e liberdade andando juntas e de mãos dadas? Espero que isso, eu torço por isso.


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    1. Tenho a concordar contigo, Tiago, se bem que não estás inteiramente certo. Não foram apenas os gastos na Guerra Fria que concorreram para a queda do regime soviético. Apesar da guerra armamentista, a URSS estava obsoleta, nas indústrias e na inovação tecnológica (isto já nos anos 80). Não havia investimento em bens de consumo, o que fomentava as fugas para o ocidente. Digamos que o regime apostou mais nas aparências do que nas evidências, e a maior de todas era a de que o regime estava corroído nos seus alicerces.
      Nem falo dos direitos humanos.

      Mas reconheço o mérito de Estaline, que tirou a Rússia da pá e da enxada e a tornou numa superpotência, rivalizando com os "grandes". Esse mérito ninguém lho tira. E, com maquiavelismo típico dos estadistas, foi implacável. Esqueceu-se de ser humano. Foi um monstro.

      Concordo quando dizes que no capitalismo não há liberdade. E está longe de ser justo, anos-luz. Particularmente o que vivemos actualmente, o agressivo, predatório, desumano.

      um abraço!

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