20 de março de 2026

A mudança de género antes da maioridade.


   Mais do que uma questão de convicções políticas, aqui está em causa uma questão de maturidade e de auto conhecimento. Não me parece que um miúdo ou uma miúda de 12, 13, 14 anos, e por aí em diante, tenha essas capacidades em grau suficiente para decidir sobre algo definitivo e irreversível, e dou o meu caso como exemplo, o que me leva a ter alguma autoridade sobre o assunto, de certo modo: eu era bastante feminino na infância e adolescência (hoje sou menos), e cheguei a crer, quando tinha 12 anos, que era transexual, sobretudo após conhecer o caso da Roberta Close, que ali em torno do final dos anos 90 foi bastante comentado em Portugal. Se naquele momento eu tivesse optado por mudar de sexo/género, com terapias hormonais, ter-me-ia arrependido, porque hoje em dia sinto-me plenamente um homem. Teria arruinado tudo. Isto é lógico. A adolescência é um período em que crescemos física e mentalmente, e esse tipo de decisões não podem ser tomadas num período tão frágil, tão inconstante, tão volátil. Eu só lamento que haja uma esquerda absolutamente cega que põe os seus interesses políticos e ideológicos à frente do interesse daqueles jovens. Que façam o que quiserem quando tiverem maturidade para isso.

19 de março de 2026

Seremos todos um pouco bissexuais?


    Lembram-se da famosa escala de Kinsey? Falou-se muito dela durante uns anos. Para os distraídos, essa escala dizia que entre o estritamente homossexual e o estritamente heterossexual, que são muito poucos, há várias tendências. Que nem tudo se resume a heterossexuais, bissexuais e homossexuais, e que no fundo a grande maioria da população humana é bissexual ou com tendências bissexuais, isto é, que apenas uma ínfima minoria é exclusivamente heterossexual ou homossexual. A mim começou-me a fazer sentido, e explico-vos o porquê.

    Eu nunca me sentira fisicamente atraído por uma mulher. Jamais. A sexualidade humana vai-se definindo durante a adolescência. Eu em tudo ando sempre um pouco atrasado: maturidade, por exemplo. De há uns anos para cá, apercebi-me de que o corpo da mulher me excita. Não a mulher enquanto pessoa, não a personalidade feminina. O corpo. Excita-me, por exemplo, a ideia de estar com uma mulher na cama, de chupar-lhe os seios, de penetrá-la, de lambê-la. Mas sei que não sou bissexual. Duvido que conseguisse ter uma relação com uma mulher. Simultaneamente, sim, seria totalmente capaz de ter sexo com uma; a ideia excita-me imenso. Portanto, sim, a escala de Kinsey faz-me sentido, e demonstra que estas pessoas que dedicam uma vida a estudar certo tema, alguma razão terão. Eu sou homossexual, mas não a 100%. Há uma parte de mim mais bissexual: a dita escala, que é tipo uma palete de cores: entre o branco e o preto (que na realidade nem são cores), há muitas outras no meio. E vocês, sentem alguma atracção exclusivamente física por mulheres, sendo homossexuais? Se houver algum heterossexual a ler, a pergunta é adaptada no mesmo sentido; se, sendo heterossexual, sente alguma atracção física por alguém do mesmo sexo.

18 de março de 2026

Rob Jetten.


   Este senhor é o primeiro Primeiro-Ministo abertamente homossexual dos Países Baixos. Tem um sorriso encantador, não se pode negar. O que acham dele?


Foto e notícia retiradas da página de Instagram do Público 

16 de março de 2026

O(s) armário(s).


   Há gays que vivem no armário, há gays que vivem no fundo de um baú. Há gays que vivem num armário com portas de vidro, em que se vê tudo lá para dentro. E há gays, finalmente, que nasceram fora do armário, e viveram sempre fora dele. Eu, por exemplo. 

  Antes mesmo de saber o que era ser homossexual, heterossexual, fosse lá o que fosse, já era discriminado socialmente, na rua e na escola, porque os demais intuíam a minha sexualidade apenas pela forma livre e espontânea com que me expressava: uma delicadeza nos modos, uma feminilidade, o que lhe quiserem chamar. É, o mundo é um lugar muito mau.

13 de março de 2026

Cozinhar.


   Adoro cozinhar. Detesto lavar a louça e arrumar a cozinha. Mas cozinhar realmente é uma actividade que me dá prazer, e tenho bastante jeito. A minha mãe cozinhava muito bem. Já a sua mãe, minha avó, também, e a minha tia, irmã da minha mãe, o mesmo. E eu cozinho sem receitas. Os ingredientes vão todos a olho, como se costuma dizer, excepto se se trata de algum prato mais elaborado ou que não tenha por hábito fazer tanto. Eu faço bacalhau de várias formas (com natas, à bràs, à gomes de sá), lasanha, arroz de pato, carne no forno, peixe, sopa, tudo. Só não me aventuro na doçaria, embora há uns anos tenha feito uma tarta de queijo deliciosa. Passo-vos algumas fotos.


Arroz de pato

Entrecosto no forno 

Feijoada à brasileira 

Francesinha à moda do Porto

Bacalhau à Brás

12 de março de 2026

Quatro anos.


   Mãe, passaram-se quatro anos. Demasiado tempo sem te ouvir, sem te ver, apesar de estares sempre presente no meu pensamento. Não há um único momento do dia sem que me lembre de ti.

    A nossa relação esteve marcada por altos e baixos. Não foi perfeita. Assim mesmo, eu creio que nenhuma relação onde haja amor é perfeita, porque quem se quer briga, discute, bem-quer, tudo em simultâneo. E a nossa relação era assim, imperfeita, como nós também o fomos, tu como mãe e eu como filho.

   A tua memória é assim, imperfeita. Por vezes uma saudade imensa, outra vezes uma revolta. Foste a mãe que soubeste ser, disso não tenho qualquer dúvida, o que não te redime dos erros, alguns graves, como bem sabes. A mãe que pudeste ser, digo-o para mim, num género de mantra.

    A verdade que fica, impoluta, é esta: amo-te.

11 de março de 2026

Vera Lagoa (1917-1996).


  Vera Lagoa foi o nome pelo qual ficou conhecida a jornalista Maria Armanda Falcão. Vera criou e dirigiu o jornal O Diabo desde 1976 até à sua morte. Figura incontornável do jornalismo português das últimas décadas do século passado, Vera foi uma mulher de personalidade fortíssima. O seu activismo começou cedo, quando o pai, um militar de carreira, oposicionista ao Estado Novo, foi deportado para a Madeira e depois para Cabo Verde. Oficialmente, Vera Lagoa não tinha mais do que a antiga quarta classe.

  Fez inimizades com políticos, e tinha amigos fiéis. Ramalho Eanes e Pinto Balsemão foram dois dos seus alvos. Sobre o primeiro, escreveu um livro em 1980, “Eanes nunca mais!”, e foi a primeira pessoa a ser processada por um Presidente da República. Condenada a pagar uma indemnização ao antigo Chefe de Estado, chegou a dizer, sobre o assunto: “É muito feio viver-se às custas duma mulher”.




     Dizia que os comunistas eram os heróis do seu tempo, mas após o 25 de Abril tornou-se anti-comunista primária, nas suas palavras. Conotada com a extrema-direita, definia-se independente, nem de esquerda, nem de direita, porque nenhuma lhe interessava.

    Vera Lagoa morreu de ataque cardíaco em 1996, na decorrência de doença cardíaca provocada por quatro atentados à bomba de que sofreu, designadamente um no seu jornal O Sol, reivindicado por forças terroristas de extrema-esquerda operacionais na década de 80. É uma mulher que, além de me suscitar admiração, me intriga e fascina.

10 de março de 2026

A saúde mental.


    Os problemas de saúde mental foram, durante décadas, negligenciados pela sociedade, em geral, e inclusivamente pela medicina, em particular. Como se fossem algo menor. Só recentemente, nas últimas décadas, começámos a entender os problemas de saúde mental como uma faceta mais do bem-estar de qualquer indivíduo; que, quando existem, devem ser tratados, acompanhados. Quem não se lembra do tempo em que literalmente nos metiam um género de picador de gelo no lobo frontal para destruir conexões cerebrais e, assim, tornar-nos mais “calmos”? Chamava-se lobotomia, hoje em dia está considerada um dos períodos mais negros da história da medicina, e curiosamente foi desenvolvida por um português.

  Eu padeço deste há muitos anos a esta parte de problemas de saúde mental. Durante anos, demasiados anos, sem qualquer tipo de acompanhamento ou medicação. Já há uns sete, seis anos, comecei a fazer medicação para controlar determinada sintomatologia, nomeadamente as minhas mudanças de humor e, na altura, uma agressividade derivada em grande parte da minha frustração com situações em concreto pelas quais passava naquele momento. Essa medicação supôs uma enorme alteração para mim, na medida em que fiquei mais calmo e com o humor mais estabilizado. Psicoterapia não faço porque não sinto essa necessidade. Frequentei alguns psicólogos e até psiquiatras e não senti que beneficiasse dessas sessões. Coisa distinta é a medicação, que de facto me é essencial para conseguir manter o mínimo de normalidade e tranquilidade.

    As causas deste meu quadro de saúde mental são por mim conhecidas: disfuncionalidade familiar, discriminação que começou numa idade precoce e componente genética. Digamos que se juntaram todos os factores. As minhas avós, de ambas as partes, não eram exactamente um modelo de estabilidade mental; já os meus pais herdaram algumas características, e por inerência eu também.

9 de março de 2026

António José Seguro.


  Eu não votei no actual Presidente da República. Entretanto, em Portugal, ao contrário do que sucede aqui em Espanha, o Chefe de Estado é eleito democraticamente pelos cidadãos, pelo que me resta desejar um mandato auspicioso a António José Seguro, o que, por conseguinte, seria bom para Portugal e os portugueses, onde me incluo.

     Gostei do seu discurso de tomada de posse. Foi coerente com o que demonstrou na campanha eleitoral, estabelecendo prioridades, apontando desafios e comprometendo-se a procurar encontrar soluções, em cooperação com os demais órgãos de soberania. O tempo dirá se é letra morta, ou não. Por enquanto, será o meu Presidente da República. Demos-lhe margem de acção. Que desfrute deste período de glória, enquanto ele durar.

7 de março de 2026

Os sobreviventes.


   Eu, o Namorado e o Francisco somos como aqueles resistentes das séries apocalípticas. Entendamos a blogaysfera como o mundo. Algures por 2016/2017 d. C., caiu um meteorito que arrasou estes meios (o meteorito Tik Tok, entre outros), e apenas sobreviveram uns. Somos nós. Andamos assim, no meio do mundo pós-apocalíptico, a tentar reconstrui-lo. Ajudamo-nos mutuamente, visitando os espaços um dos outros, e fazemo-lo, creio eu, de forma altruísta. Pelo menos falo por mim. Eu não visito os seus espaços porque espero que eles visitem o meu. Eu visito os seus espaços porque gosto de saber como vão e o que fazem, da mesma forma que gosto de interagir com eles. De 2008 a 2010 o meu blogue não recebia visitas, porque eu também não visitava ninguém. Era um exercício de escrita essencialmente para mim.

   Claro que, como em todas as séries, há alguém que destoa. Aqui também. Há um personagem que se crê melhor do que os outros, que não lê ninguém e que apenas gosta que o sigam e o comentem. E que, de quando em vez, faz umas visitas de circunstância, “para não parecer mal”. Entretanto, se ainda existe uma blogaysfera, se ainda há sobreviventes que insistem em que este espaço merece a pena e que há que ser reabilitado, esses somos nós os três, e mais ninguém.

6 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2006).


   A morte de António Lobo Antunes deixa um silêncio profundo na literatura portuguesa. Parte um dos maiores escritores da nossa língua, uma voz única, intensa e implacável, que transformou a experiência humana, a guerra, a memória, a culpa, a família, o amor e a solidão em literatura de uma força rara.



   O eterno Prémio Nobel da Literatura que nunca o recebeu. Uma injustiça enorme cometida contra um dos maiores escritores de sempre da língua portuguesa. Em todo o caso, ele também dele não necessitava, e enjeitou-o, inclusivamente.


5 de março de 2026

A queda da Ponte de Entre-os-Rios, 25 anos.


   Eu sou muito atento, e tenho uma capacidade de reter informação mesmo quando não necessito dela. É normal que saibamos onde estávamos quando caíram as torres gémeas, mas quem é que se lembra de onde estava quando caiu a ponte Hintze Ribeiro? Lembro-me de ter chegado a casa do colégio, quando comecei a regressar sozinho e a prescindir do transporte escolar. Liguei a televisão e soube do acidente que ocorrera na noite anterior. Uma ponte, algures no norte, caíra, vitimando dezenas de pessoas. Na altura, aventaram-se diversas explicações: as fortes chuvadas dos dias anteriores, que aumentaram o leito do rio e arrastaram areias dos alicerces da ponte; porém, pouco depois soubemos que houvera extracções de areia ilegais, que poderão ter ajudado à erosão. Outro factor, quiçá o mais determinante, foi o da falta de manutenção. Há muito que se sabia que a ponte necessitava de uma reestruturação profunda, que estava velha e gasta. O seguro morreu de velho. Às vezes -demasiadas- é preciso que haja uma tragédia para que se faça algo. Entretanto, demitiu-se um ministro, e pouco mais se soube. Ninguém foi julgado. 

    Senti a necessidade de assinalar esta efeméride porque foi uma tragédia que me marcou particularmente; que retive. E não sou ingénuo relativamente aos motivos por detrás disso: não só o número de perdas humanas, mas principalmente o desmoronar de uma estrutura. Um certo encanto pela engenharia, e talvez algo mais: um paralelismo com a minha vida, que começaria a desmoronar aí, em torno de 2001, ou, pelo menos, a descarrilar. Mas hoje não é tempo de se falar de comboios, senão de pontes, e desta ponte.

4 de março de 2026

Decência.


   Ultimamente, multiplicaram-se as mensagens, e por conseguinte as opiniões, sobre uma tal de monogamia, poligamia, e por aí fora. Quando há muitas opiniões sobre um mesmo assunto, geralmente também há muita estupidez. A multiplicidade de designações não oculta o que cada coisa é na sua génese. Não, a dita monogamia não é uma construção social. Há animais monogâmicos, e ainda que não os houvesse; o que nos distingue dos demais animais é a razão. É a mesma razão que nos impede de termos relações sexuais com os nossos pais, por exemplo. Portanto, não há relacionamentos que não sejam monogâmicos. Há pouca vergonha, ou falta dela; há falta de valores espirituais e morais. Há falta de respeito, por si próprio e pelo outro. Há falta de decência. E o que se aplica à dita não-monogamia, também se aplica às pessoas que não gostam de assumir compromissos. Não é porque queiram ser livres. Fazem-no -e estão no seu direito- porque são pessoas completamente desorganizadas emocionalmente, várias vezes com um histórico de múltiplos parceiros, com dificuldade para fixar a atracção por um sujeito e em criar um projecto de futuro a dois. É a tal crise de valores. Mas o que antes era um comportamento desviante, agora começa a ser tolerado. Não admira que haja quem se vista de cão e ande, com as suas parafilias, a ladrar na rua e a comportar-se como tal. Às vezes nem é preciso o traje canino. Há quem muito ladre, e pouco acerte.

3 de março de 2026

Timothée Chalamet.


   Desde que o vi em Call Me By Your Name, de 2017, tornou-se, também para mim, uma espécie de sex symbol. Eu acho-lhe piada. Tem um certo ar de rufia. Podia bem ser o boy next door, e talvez seja por isso que me atraia. E a vocês, diz-vos alguma coisa ou nem por isso?




2 de março de 2026

João Paneleiro.

    

      Hoje vou contar-vos uma história que nunca vos contei.

    A minha mãe nasceu e criou-se no Alentejo, em Estremoz. Anos 60. Um país fechado sobre si próprio, pesado, silencioso.

    Ela tinha um primo -não sei bem em que grau- chamado João. Era homossexual. Chamavam-lhe “João Paneleiro”. Era assim, cru, sem pudor, como se o nome fosse uma sentença.

   Imaginem o que era ser homossexual no Alentejo profundo dos anos 60.

    Metiam-se com ele. Gozavam-no. Humilhavam-no. Mas, quando se vive sob discriminação constante, aprende-se a sobreviver. E ele sobrevivia com uma espécie de insolência luminosa. A minha mãe viu-o muitas vezes fazer isto: quando o provocavam, dava uma palmada no próprio rabo e respondia: “Aqui ó, na rata!”

       Era o seu escudo. O seu bordão. A sua forma de não se deixar esmagar.


        Nunca o conheci. Sei apenas que morreu. E, no entanto, sinto por ele uma ternura estranha, como se fosse uma memória herdada. Porque a sua história não é assim tão diferente da minha.

        Eu não tinha um gesto teatral para responder. Não tinha um bordão. Mas enfrentei os homofóbicos que me amarguraram a infância e a adolescência. Também aprendi a resistir.

        Portugal, nessa época, era uma miséria em quase todos os aspectos. E essa é uma mágoa que carrego quando penso em Oliveira Salazar. A cultura da abnegação, o elogio da pobreza, o virtuosismo da resignação… tudo isso atrasou o país em décadas.

      A tal “casa portuguesa”, com pão e vinho sobre a mesa, pobrezinha e orgulhosa, que a Amália cantava. Enquanto o povo vivia mergulhado na ignorância e em condições indignas, mesmo para os padrões da época.

       Isso é algo que não lhe consigo perdoar. Jamais.


28 de fevereiro de 2026

Os últimos dias de Marcelo.


    Não é fácil resumir o mandato -dois mandatos- de um Presidente da República em poucas palavras, com ligeireza. Marcelo Rebelo de Sousa começou o seu primeiro mandato, em 2016, como o presidente dos afectos. Aproximou as pessoas do órgão de soberania Presidência da República. Humanizou-o. Abriu as portas do Palácio de Belém. Distribuiu beijos e abraços. Contudo, não o fez de forma inocente. Se no primeiro mandato colaborou com o governo de Costa, no segundo mandato, iniciado em 2021, pudemos ver quem era Marcelo Rebelo de Sousa na verdade: um homem maquiavélico. Dissolveu a Assembleia pela não aprovação do Orçamento do Estado, numa má tradição extra constitucional em Portugal, e ele sabe-o, como professor de Direito Constitucional. A Constituição não obriga a fazê-lo nessas circunstâncias. Também o fez pelas suspeitas que penderam sobre Costa, após a demissão deste último, gozando o PS de maioria absoluta. Uma decisão polémica, no mínimo. E eu não sou socialista, nem de perto, nem de longe. Marcelo foi um vector de instabilidade política. O país andou anos seguidos em eleições, quando o Presidente, até pelo seu poder moderador, deve garantir estabilidade.

  Curiosamente, chegou a Belém com um capital de esperanças, depois de um segundo mandato desastroso de Cavaco Silva, disposto a recuperar o prestígio da instituição e conquistar o seu próprio, e só não sai pela porta pequena porque os olhos do povo já estão postos no seu sucessor, António José Seguro. Caso contrário, e porque o povo anda distraído, terminaria o percurso de Chefe de Estado pior do que Cavaco. Ironias.

27 de fevereiro de 2026

Quem nunca?


   O meu amigo de quem vos falei recentemente deu match com dois rapazes ao mesmo tempo e está interessado em ambos. Diz que gosta dos dois. Eu não lhe disse categoricamente “olha, tu não gostas é de nenhum”, para não soar rude e demasiado directo.

  Eu também, nos meus tempos de apps, estive “interessado” em dois rapazes ao mesmo tempo. Quem nunca foi beber café com um e no dia seguinte com outro? Nem sei se não cheguei a fazer isso, com dois, no mesmo dia. Um café, atenção. Não me metia na cama de ninguém. O meu marido foi o meu primeiro homem, e foi mesmo. Não tenho necessidade de mentir, e menos ainda num blogue que é meu.

     Como quem muito procura, pouco encontra, não tive sorte nenhuma por esses meios, e evidentemente que desde que estou com o meu marido deixei de ter essas aplicações. Até mesmo porque, se as tivesse, que jamais as teria -o respeito e a lealdade são fundamentais num casamento-, só daria match com as vacas. Literalmente.

26 de fevereiro de 2026

As voltas que a vida dá.


   Se me dissessem há dez anos (e não há dez anos atrás, como escreve uma bichona por aí, e não só é feio como é redundante e errado) que estaria a viver em Espanha, no noroeste, num lugar rural e tranquilo, casado, com a minha casa com piscina, a conduzir, com um homem fantástico, médico, prestigiado, que me ama e que eu amo, não acreditaria. A minha vida mudou muito, muito mesmo, e não é algo que aconteça tão frequentemente assim. Vocês, por exemplo. Eu leio os vossos desabafos, o vosso quotidiano, e não sinto que as vossas vidas tenham mudado muito. E não me refiro a mudanças positivas ou negativas. Refiro-me a mudanças. Talvez vocês até estejam melhor do que eu, mas parece-me que nada muda nas vossas vidas; nada de significante. E é um padrão que se repete com a maior parte das pessoas. A minha vida não. Sempre foi uma avalanche; melhor dizendo, uma erupção vulcânica. Está anos na pasmaceira, e de repente entra em convulsão, mudando tudo. Se calhar o nome correcto seria terramoto. Arrasa tudo e constrói diferente, e quase sempre implica sofrimento, até estabilizar. E é imprevisível.

25 de fevereiro de 2026

Viver “atrás do sol posto”.


   Só o título já me dá vontade de rir. O Francisco é o culpado. Eu já o conheço há muitos anos, e certa vez, quando andámos meio às turras, ele mandou-me uma boquinha de que eu vivia atrás do sol posto. Não foi novidade para mim tal expressão. É corriqueira em Portugal. Ficou-se-me, entretanto, gravada na memória, como se me tivessem dito algo que já sabia, mas em versão flecha, ou seja, algo que vai directo ao alvo.

    Bom, viver atrás do sol posto tem muitas vantagens. E algumas desvantagens. Eu diria que as vantagens suplantam as desvantagens, vendo o mundo como está, cada vez pior. Tenho sossego. Não há ruído. Não há stress com os transportes públicos e os horários a cumprir. Alimento-me de forma mais saudável. O ar é menos poluído. Sem dúvida alguma, algo que, com praticamente quarenta anos, valorizo, e muito. As desvantagens serão não ter, por exemplo, universidade perto, para fazer um mestrado (que gostaria). Não vejo mais nenhuma, realmente, porque a 50 quilómetros tenho um centro comercial com tudo, e a menos de 10 tenho hipermercados, algumas livrarias, algum comércio, serviços básicos, centro de saúde e hospital. Não estou tão isolado assim. É certo, é rural, e eu estou habituado. O tempo passa. Vivo aqui há seis anos.

       E ter estas vistas não é para todos.



24 de fevereiro de 2026

Quatro anos de guerra.


   Foi há quatro anos que começou a guerra da Ucrânia. Como eu temia, a Rússia não vai ceder um milímetro. Quer não só o território ocupado ilegalmente à Ucrânia como quer ainda determinar a política externa e interna do país vizinho, que considera seu. Aí reside o problema. A questão ucraniana não é circunstancial; é de fundo. Para a Rússia, a Ucrânia não merece ser independente. Quando assim é, não há nenhuma chance de paz duradoura para os ucranianos. Ainda que a guerra termine agora, despoletará de novo em dez, vinte, trinta anos. Será sempre uma bomba prestes a estalar, porque a Rússia não respeita a existência da Ucrânia. Quer integrá-la no seu território, ou sujeitá-la totalmente, como sucede com a Bielorrússia, um Estado fantoche e cúmplice. 

  Tenho imensa pena pelo povo ucraniano. Nenhuma solução será boa. Só o fim do regime de Putin poderia trazer alguma tranquilidade na região, o que se vê difícil para todos os efeitos.

23 de fevereiro de 2026

Gisberta (1960-2006).


   Ontem passaram-se vinte anos desde a morte de Gisberta. Eu escrevi sobre a Gisberta em 2011 (texto que poderão ler aqui). Creio que a história pessoal e as circunstâncias da morte de Gisberta são sobejamente conhecidas pela população em geral, e a LGBT+ em particular. A Gisberta foi uma transexual brasileira, imigrante em Portugal. Figura destacada na noite portuense por ser uma mulher bonita e elegante no trato, caiu no mundo das drogas e da prostituição. Algures em 1996 contraiu o HIV, talvez pelas drogas, talvez pela prostituição que exercia na Rua de Santa Catarina. A degradação começou, e a queda foi abrupta. Gisberta deixou de ter dinheiro para ter uma casa e acabou na rua, como sem-abrigo. Ia a associações de apoio a pessoas sem recursos, onde comia e podia fazer a sua higiene. Padecia de tuberculose. A sua situação de seropositiva evoluíra entretanto para SIDA.

    Foi num cenário de total miséria humana que, algures no início de 2006, um grupo de delinquentes começou a parar no edifício em obras onde Gisberta se abrigava. Da curiosidade inicial, vieram os ataques. A determinado momento, agrediram-na. Vinham todos os dias bater-lhe, ofendê-la, sujeitá-la a sevícias (foi sodomizada com um pau). Gisberta, cada vez mais fraca, só lhes pedia que a deixassem em paz. Quando, certo dia, já não se mexia, julgaram-na morta e atiraram-na para um poço para se desfazerem dela. Gisberta estava viva. Morreu afogada.




  O caso ganhou uma enorme repercussão nacional e internacional. Gisberta é, hoje, merecidamente, um símbolo da causa LGBT+. Não será despiciendo dizer que é uma mártir. Foi agredida, violada e assassinada por ser uma transexual; uma pessoa que estava numa situação de absoluta pobreza, doente, enfraquecida. O que aconteceu a Gisberta pode ocorrer a qualquer um de nós. É difícil subir, conquistar um espaço seguro e uma vida digna; é muito fácil cair-se em desgraça e perder tudo.

      Eu não esquecerei jamais a Gisberta.

22 de fevereiro de 2026

Já cheira a Primavera.


   Foi uma frase dita pelo meu marido, ontem ou anteontem. “Já cheira a Primavera”. Sim, é verdade, mas ainda virá por aí muita chuvinha - desculpem, é uma constatação. Estamos fartos dela, o que não significa que o calor esteja à porta. Os dias são mais quentes. Em contrapartida, as manhãs e as noites continuam frescas. Os dias também são maiores. Há luz por mais tempo. Os passarinhos cantam. O sol entra-se-me pela casa. Aquece-a. As flores florescem, passo a redundância, quer no jardim, quer na minha varanda. É o M. quem cuida do jardim. Ele adora. E sim, cheira a Primavera.





21 de fevereiro de 2026

Sushi.


   A 50km aqui da minha casa, abriu, há uns meses, um restaurante de comida japonesa. Eu poderia dizer de sushi, mas na realidade é de comida japonesa, porque não tem apenas sushi; tem uma quantidade enorme de comida japonesa, incluindo carnes, sopa miso, wakame, tataki, carpaccio, etc, porém, do que eu mais gosto é do sashimi. Vamos várias vezes. É quase um ritual de fim-de-semana. Aproveitamos e vamos à livraria, compramos livros, ou apenas os folheamos, e de vez em quando compramos roupa de que não necessitamos. É aquele vício compulsivo. Bem, e é tudo. Hoje fomos ao sushi e adorei, como sempre. Estava muito fresquinho.






20 de fevereiro de 2026

É bom, mas não é p'ra ti.


   Coitada da bicha quase sessentona. Diz que só segue dois blogues no activo, quando toda a gente sabe que não é verdade. Para tentar engatar-me, aí já me seguia (e como se eu precisasse que ela me seguisse - é muita presunção). Enviava-me e-mails, aos quais eu respondia, como sempre fiz com todas as pessoas, educadamente, percebendo as segundas intenções, contudo, mantendo o devido afastamento. O curioso é que a maricona continua com o meu blogue na lista de blogues dela. (risos) Tens de actualizar a lista, moça.

    É bom, não é?


Mas não é para ti. Já não tens pedalada para isto.



19 de fevereiro de 2026

Rita Slof Monteiro.


   Este é um daqueles casos mediáticos de desaparecimento de pessoas que mexeu comigo. Houve outros que também me intrigaram muito, nomeadamente o do Rui Pedro, porém, o caso da Rita, até pelos contornos, é um daqueles que frequentemente me vem à memória. Não foi preciso terem passado vinte anos, anteontem, sobre o seu desaparecimento. O facto de a Rita ser apenas um ano mais nova do que eu talvez tenha influenciado.

   A Rita nasceu em 1987 (irei fazer uma breve introdução para quem não conhece o caso, o que duvido, dado o seu mediatismo). Em 2006, no dia 17 de fevereiro, tinha uma visita de estudo programada e combinou encontrar-se com umas amigas para irem todas até Serralves. Desencontraram-se, e a Rita acabou por ir sozinha. Nunca lá chegou. Ela foi vista num café perto da estação de Matosinhos. Entrou, foi à casa de banho, saiu. Depois foi até à estação de autocarros, pediu umas informações ao motorista, e saiu. Essas imagens foram gravadas pela câmara do autocarro. Até hoje. Nunca mais se soube nada da Rita. Alegadamente, foi vista a falar com uma mulher perto da estação de autocarros, segundo foi captado por uma câmara.

    A investigação teve inúmeras falhas policiais. O caso foi reaberto em 2009, três anos depois, quando a boa praxis diz que estes desaparecimentos devem ser resolvidos em 48h/72h, senão nunca mais o são: perdem-se provas, as pessoas esquecem-se de detalhes, os alegados criminosos (raptores ou homicidas) conseguem fugir ou destruir indícios, etc.

    Desta vez, vinte anos depois, surgiu pela primeira vez na comunicação social a suspeita da PJ, na pessoa que investigou o caso de 2009 até ao arquivamento de 2014: que muito provavelmente a Rita se terá suicidado. Sim, a Rita tinha problemas de saúde mental, mas não é estranho que uma miúda que se queira matar entre num autocarro para saber como chega a Serralves para ir ter com as amigas? E não é estranho que nunca tenha aparecido o corpo? Como é que uma miúda de 18 anos, na altura, se suicidaria de uma forma tão minuciosa que nem o corpo aparece? E o último sinal de GPS do telemóvel detectado a 7km do local? Não me convence. Algo, no entanto, aconteceu à Rita, e foi grave. Sem querer tirar a esperança à família, não acredito que alguma vez se saiba o que de facto sucedeu naquela manhã. Enquanto isso, tenho a imagem da Rita presente na minha cabeça, porque é um daqueles casos onde não há a mínima pista. Não há nada.


18 de fevereiro de 2026

Vinte anos depois.


   Ontem passaram-se exactamente vinte anos desde que os meus pais se separaram. Foi, talvez, um dos piores dias da minha vida. Outros dias igualmente maus vieram logo a seguir, nas semanas e meses seguintes. Esse dia teve um impacto tão profundo que, passados vinte anos, ainda consigo associar a separação dos meus pais a um dia concreto: 17 de fevereiro de 2006. Eu tinha 19 para 20 anos, era extremamente imaturo a diversos níveis, e esse dia marcou uma mudança que me virou do avesso e assinalou o início de uma nova era. Há um antes e um depois desse dia. Foi um dia que fragmentou, que separou as águas. Um dia que, mais tarde, percebi que foi fundamental e decisivo; que me salvou da morte, inclusive (e não estou a ser dramático). Na altura, no entanto, foi um terramoto enorme que se abateu sobre um jovem frágil, em todos os aspectos. Todos.


17 de fevereiro de 2026

Uma cara nova ao blogue.


   Decidi, dezoito anos depois, dar uma cara nova ao blogue. Jamais o fizera. Algumas vezes mudei a cor de fundo, das letras, a ordem do menu, e pouco mais. Esta mudança -efectivada no ano em que o blogue cumpre a maioridade (não me dêem já os parabéns, por favor, que ainda faltam três meses)- reflecte o que eu quero para o blogue nesta nova fase: mais ligeiro, menos denso. No seguimento da publicação anterior, evoluir para sobreviver. E há muitos, muitos anos que não alterava nada na estética do blogue, nem sequer na minha foto de perfil. Desta vez, operei uma mudança radical, que envolveu também o código HTML (um inédito). É realmente uma cara nova para um período distinto; uma evolução. Espero que gostem. Um novo Mark nasce agora.

16 de fevereiro de 2026

O que é que o Mark de 2012 diria ao de 2026?


   Mark, aqui, entenda-se como a minha persona nos blogues. Eu creio que o Mark de 2012 -aquele que escrevia ensaios de História, de Filosofia, de Direito, e crónicas- não gostaria deste. Sinto-me tentado em não afirmar que o blogue perdeu qualidade; perdeu-a toda a blogosfera. Sendo sincero, a minha blogosfera nunca foi muito culta. Eu destacava-me entre os demais. Mas destacava-me. Havia interesse em escrever sobre determinados assuntos, e havia quem me lesse. Já uma vez escrevi sobre isto: eu não utilizo o blogue para escrever para mim. Eventualmente haverá quem o faça. Para tal, usaria um diário. Eu utilizo o blogue como catarse, mas também para receber algum feedback, e é nesse sentido que este blogue foi mudando ao longo do tempo: evoluiu, transformou-se, para não desaparecer, como dezenas deles, que tão bem conhecemos. Não foi um processo de perda de qualidade eventual; foi uma programação para sobreviver. Ou mudava a “linha editorial”, ou fechava o espaço. E eu gosto demasiado dele para ceder. E adaptei-me. Imagino que o rigor só o mantenha na escrita, procurando usar um vocabulário cuidado e correcto; no demais, já foi chão que deu uvas.

15 de fevereiro de 2026

O Dia das Frustradas.


   A blogosfera entrou em estado de choque com o Dia dos Namorados, ou Dia de São Valentim (de facto, aqui em Espanha conhece-se sobretudo pela última designação). Ficaram todas histéricas. Umas porque viraram bichas celibatárias (daquele “celibato” que termina em qualquer local de cruising ou bar foleiro); outras, porque querem namorado e não têm; e ainda há as que se sentem rejeitadas. Hey, amigas, vocês não precisam de provar a ninguém que conseguem ser felizes sem homem. Aliás, se calhar dou-vos uma novidade, mas vocês podem ser felizes sem homem, e sem estar a pensar no que faziam anos atrás, quando tinham um bom naco de carne para meter no olho. Virem a página. Eu estou junto há 9 anos, casado há 6, e se não fossem vocês nem me lembrava que tinha sido Dia dos Namorados, ou lá o que isso é. O melhor presente que recebo e dou é amor e cuidado, e é todos os dias do ano.

13 de fevereiro de 2026

11 de fevereiro de 2026

And I can't pretend that that doesn't mean a thing to me.



“Hop on the back of my bike

Let the good wind blow through your hair

With an ass like that

And a smile so bright

Oh, you're killing me

You know it ain't fair


Ride on

Through the middle of the night

Let the moonlight kiss your skin

When you dance like that

Your jeans so tight

Oh, you're killing me

Baby, do it again”


10 de fevereiro de 2026

As intrigas da blogosfera.


    Quem não gosta de uma boa intriga? Só quando não estamos envolvidos nela. A blogosfera, como qualquer meio feito por pessoas, foi um espaço de intrigas. Agora não sei se ainda o é, dada a sua situação de rede social obsoleta (eu acho que, mais dia, menos dia, a Google põe fim a isto).

   As intrigas, quando comecei a dar por elas, surgiram ao conhecer determinados bloggers. Reparei que falavam uns nas costas dos outros, e como diz o povo, “nas costas dos outros vejo as minhas”. Logo num jantar, organizado por uma velha glória destas paragens, falaram imenso do Francisco. Que o blogue não interessava para nada, que era feito de lugares comuns/extremismo político, e de fotos de homens nus. E eu a assistir àquele ninho de víboras ardilosas. Também se falava do Namorado. Que era baixinho, que tinha a mania que era bom e não “valia nada”. E eu sem nunca ter visto sequer uma foto sua. Ficava abismado com a maldade alheia. Não sendo eu nenhum santo, confesso que a maldade alheia me incomoda bastante. O pior estava por vir, quando soube de uma cena tórrida de sexo oral, dentro de um carro, entre a bicha zen e uma bicha qualquer escanzelada que andava aí. E de bichas blogosféricas que se cruzavam em locais de cruising… Poderia continuar.

     Se pudesse voltar atrás, jamais me teria dado a conhecer. A primeira vez que o fiz foi em 2013, e tudo pareceu especial à primeira vista. Não obstante, conhecer as pessoas, ver como elas são, não só afasta o encanto destes meios -onde podemos ser quem quisermos, livres-, como também nos faz querer estar longe delas. E não me refiro só às intrigas que ouvi e às quais assisti; refiro-me a várias situações de injustiça, incompreensão, egoísmo, egocentrismo. Sem sacudir a água do capote. Provavelmente também participei disso sem me dar conta. Se calhar também magoei e fui injusto. Aliás, é bastante provável. 

     Passados estes anos, não valeu a pena. De forma alguma. Não só não ficou a amizade, na esmagadora maioria dos casos, como ficou uma péssima impressão. Compreendo perfeitamente o porquê de muitos bloggers terem simplesmente desaparecido, sem deixar rasto.

9 de fevereiro de 2026

O (In)seguro.


   Nem a chuva os desmotivou. O masoquismo pode ser verdadeiramente chato. É uma parafilia, nos casos mais graves. Os portugueses enquadram-se. Queixam-se da incompetência dos que os governam, mas votam sempre pela continuidade. Só isso pode explicar que tenham escolhido, para Presidente da República, um tipo que foi corrido pelos próprios socialistas, considerado incapaz pelo seu líder histórico (Mário Soares) e, aqui entre nós que ninguém nos ouve, um autêntico banana. Mais uma jarra de flores para Belém, porém, esta sem carisma, sem mérito, sem obra conhecida e reconhecida, sem nada.

6 de fevereiro de 2026

Porque é que os gays são assim?


   Tenho um amigo gay. Tem 35 anos. É magro, alto, musculado. Até bastante discreto. Passa perfeitamente por heterossexual. Em contrapartida, anda em todas as aplicações e não consegue arranjar um namorado em condições. Só lhe saem tarados que querem sexo e que lhe enviam nudes. Ele não é nenhum santo nem púdico, mas quer algo sério. Algo estável. A sua estória levou-me a pensar no seguinte: se ele, que é um rapaz que cumpre determinados estándares de masculinidade, físico, etc., tão valorizados no meio gay (ou deveria dizer, nojento meio gay) e mesmo assim não tem sorte, como será a situação com rapazes não tão bonitinhos, não tão perfeitinhos, não tão masculininhos?

   É, o meio no qual se movimentam os gays pode ser muito cruel. Devora-se a si próprio. Está cheio de gente mal resolvida que procura o que não há. Como diria o António Variações, em duas das suas mais emblemáticas canções, “só quero quem não conheci” (Estou além) e “eu sou melhor que nada” (Canção do Engate).

3 de fevereiro de 2026

Engates frustrados.


   Do que me fui lembrar… Fui dar uma vista de olhos ao e-mail do blogue e inclusive ao meu e-mail pessoal, a que alguns -poucos- bloggers tiveram acesso. Recuei no tempo. Fui lá atrás. Bem lá atrás. Aos recônditos mais escondidos, porque eu não apago nada. Sou muito conservador nesse aspecto. Tanto e-mail de tentativas de engate, e tanto engatatão de meia tigela. E eu, não é para me fazer de púdico, a dar-lhes com os pés, de forma educada, porque sempre soube muito bem o que queria. Nunca quis andar de cama em cama, de mão em mão. Quis alguém que me amasse e respeitasse, e esse alguém foi o meu marido, a primeira pessoa a quem me entreguei por completo numa cama. Sim, a primeira com quem fiz tudo. E já estava avançado nos trintas. Adiante. Dei com um e-mail de uma santa do pau carunchoso que anda aí nos blogues, muito zen e muito senhora de si, que há dez anos tentava engatar-me a enviar-me e-mails a elogiar as minhas mãos (risos). De todas as tentativas, quer na blogo, quer fora dela, esta foi das mais originais - honra seja feita à bicha. Isto são muitos anos na blogo. São muitas histórias. Ui, se estas “paredes” falassem…




2 de fevereiro de 2026

Segunda volta.


   Está decidido. Há semanas, aliás. Eu não irei votar na segunda volta das eleições presidenciais, por motivos óbvios, que até já referi em publicações anteriores: o Estado dificulta-nos o voto, aos emigrantes. Temos de fazer centenas de quilómetros para poder exercer o nosso direito. Somos cidadãos de segunda. Simultaneamente, todos sabemos quem irá ganhar (eu até pensava que o voto era secreto, mas parece que não; enfim), portanto, o meu voto tão-pouco faria grande diferença. Não faria diferença nenhuma, melhor dizendo. As sondagens deturparam completamente o espírito democrático. Viciaram-no. Sendo sincero, mesmo com a urna ao lado da porta, nem merece a pena.

29 de janeiro de 2026

Expectativas.


    Este ano cumprirei 40 anos. Se lá chegar. Dizem os entendidos que entramos na chamada ternura dos quarenta. Eu não sei se é terna ou não, mas não trocaria os meus 40 pelos meus 20. Há vinte anos, por esta altura, sensivelmente, os meus pais já estavam em adiantado processo de separação. Iniciava-se 2006. Eu tinha quase vinte anos, mas psiquicamente era muito mais imaturo. A separação, em Fevereiro, abateu-se sobre mim como um terramoto. Dois mil e seis foi, para todos os efeitos, o pior ano da minha vida até agora. Em termos globais -sofrimento, inquietação, instabilidade-, nem o ano da morte da minha mãe se lhe pode equiparar. No ano em que ela morreu, 2022, eu sofri por ela; em 2006, sofri por mim, e em grande parte por culpa dela.

     Há vinte anos, em Janeiro, fazia um frio de rachar. Eu estava muito doente. Não vem ao caso, mas tinha -e tenho- uma doença auto-imune que hoje está controlada, mas que naquela altura nem sabia que a tinha. Basicamente, todo o meu organismo estava a colapsar. A qualquer altura caía para o lado e puff, acabava-se tudo. A essa minha condição física, juntou-se toda a instabilidade familiar, psicológica, estrutural mesmo. As expectativas não eram nenhumas. Só via sofrimento diante de mim.

   Vinte anos transcorridos, estou muito melhor, a todos os níveis: saúde, maturidade, tranquilidade, estabilidade. E não posso afirmar que tudo isto tenha sido uma expectativa. Não o foi. Era demasiado pessimista. O futuro assemelhava-se-me negro. E agora, que entro na dita ternura, tenho uma paz de espírito como nunca antes tivera, salpicada, aqui e ali, por problemas pontuais. Faz parte da vida. 

     Não criem expectativas.


26 de janeiro de 2026

Obituário (Paulo Bratz).


   Não me alongarei muito. O Paulo era um blogger brasileiro que, a partir de determinado momento, começou a acompanhar e comentar o meu blogue. Eu não sou elitista e, por educação, passava de vez em quando no seu blogue para devolver a simpatia dos seus comentários neste espaço. Não é o “comentas no meu, comento no teu”; é uma questão de cortesia. Eu vejo-o assim. Agora isso de nada importa, porque a blogosfera morreu, mas eu, geralmente, tenho esse gesto de cortesia com quem me visita. 

     Sinceramente, o blogue dele não me dizia nada. Não era um espaço interessante para mim e segundo os meus gostos. Houve um dia em que comentei qualquer coisa no espaço dele. Creio que ele não gostou do que eu escrevi, não publicou, e desde aí nunca mais houve qualquer interacção entre nós. 

     Não venho aqui dizer que estou tristíssimo com a morte dele; não o conhecia de lado nenhum, nunca falámos, excepto nalgumas trocas de comentários. Achei, porém, que me merecia umas palavras respeitosas neste momento, afinal, a nascer e a morrer somos todos iguais. Paz à sua alma.

19 de janeiro de 2026

A Noite Eleitoral.


   Antes de falar da noite eleitoral, convém dizer que sim, fiz quatrocentos quilómetros para votar. Creio que os deputados do CHEGA têm sido dos poucos a alertar para a vergonha que supõe sujeitar os emigrantes -milhões, como eu- a fazer centenas de quilómetros para ir votar. Eu voto em Vigo, a duzentos quilómetros. Fui e vim, de carro. Conduzi eu. Cansaço, gasolina, mas senti que tinha de ir, ou ficaria a ruminar. A minha consciência é forte.

    Votei Cotrim de Figueiredo. Não tenho problema algum em falar do meu voto. Fi-lo por estratégia. Sabia que Ventura passaria, e quis evitar ao máximo que Seguro passasse. Não se confirmou. Nesse sentido, e como todo o sistema se vai unir para que Seguro ganhe na segunda volta, decidi, também em consciência, não ir votar na segunda volta. Parece que os portugueses são masoquistas, além de estúpidos. 

     Esta eleição presidencial foi a mais conturbada que vivi. Acho sinceramente que Seguro beneficiou das sondagens, que as houve todos os dias para todos os gostos. Recordo-me que quando se começou a falar em presidenciais, era quase certo que ganharia o Almirante. Não passou. Depois, Marques Mendes era o grande favorito. Não passou, e não só não passou como foi uma estrondosa e sonora derrota pessoal e da AD. E Seguro, que partiu cá de trás, subestimado, foi galvanizando apoios e simpatias. Ninguém dava nada por ele.

    Sei também que se os emigrantes portugueses se mobilizassem todos para votar, Ventura ganharia. Ele é querido nas comunidades portuguesas. Às vezes há que sair de Portugal para ver como a sociedade portuguesa está dominada pelo socialismo tóxico que tem arrastado o país para a cauda da Europa desde há cinquenta anos. Arejar faz bem. É como ver desde cima. Temos outra perspectiva.

   Quanto a mim, cumpri com o meu dever. Vocês que se amanhem, que vivem aí.

16 de janeiro de 2026

Sinceridade, Amizade e Eleições.


     Um amigo aqui dos blogues está numa relação. Uma relação confusa. Por aquilo que ele vai escrevendo, expondo publicamente, eu disse-lhe que não me parecia que aquilo tivesse futuro. Eu acho que a amizade é isto. Não é bater nas costas, dizer que está tudo bem, quando não está, quando o amigo ou a amiga vão numa direcção errada; amizade é alertar. Não é influenciar: é dizer o que se pensa; é dizer “tem cuidado”, “pensa melhor”, “eu acho que…”. A outra pessoa terá sempre a oportunidade de decidir pela cabeça dela. Isto é a amizade. É isto que eu espero de um amigo. Cobra o seu preço? Sim. Quantas vezes fui mal-interpretado, considerado invejoso, sei lá mais o quê, quando apenas fui sincero e tentei ser amigo. Não tenho motivos para invejar ninguém: graças a Deus -mesmo graças a Deus- tenho uma vida bastante boa, um marido que me ama, a minha casa, o meu carro, as minhas coisas. Faço-o de coração. Mas adiante.

    Amanhã é provável que faça 200 km para ir votar a Vigo. Creio que, neste momento de indecisão, em que temos 5 potenciais candidatos a Presidente da República, todos os votos contam, e não podemos delegar essa decisão nos outros. Devemos participar, mesmo que estejamos fora do país; mesmo, aliás, que o próprio Estado português não proteja e defenda a participação cívica dos emigrantes, facilitando-nos o voto à distância (para as presidenciais, temos mesmo de ir pôr o papelinho nas urnas). Ainda assim, o nosso país e o nosso povo valem o sacrifício.

9 de janeiro de 2026

As sondagens.


 Estamos a uma semana, sensivelmente, das eleições presidenciais. Eleger o Chefe de Estado deveria ser encarado, por todos, com maior sentido de responsabilidade. É um cargo importante, mais do que se crê, e para isso muito depende também da personalidade de cada presidente, ou não fosse um órgão unipessoal. Quando me refiro por todos, é evidente que incido o foco na comunicação social e nas empresas de sondagens que, com as redes sociais, são a maior ameaça à democracia; porém, em relação às últimas, falarei, se acontecer, noutro momento.

    Todos os dias temos sondagens para cada gosto. Os candidatos dançam ao som das vontades de quem está por detrás destes esquemas. Isto não é um exercício de esclarecimento ou informação; isto é um ataque deliberado à consciência individual e à livre formação da opinião de cada um. Isto condiciona o acto eleitoral. Ganha-se e perde-se nos posts das redes sociais dos órgãos de comunicação antes de o povo se expressar nas urnas, o que é totalmente inaceitável. Esta matéria, que não é recente e sobre a qual já se ouviram algumas vozes públicas, tem de ser encarada com seriedade e regulada, e o que poderá parecer, aqui, uma compressão do poder político sobre a imprensa, na verdade é um estímulo ao bom funcionamento da democracia, sem interferências nefastas.

1 de janeiro de 2026

Quarenta anos de Europa.

   No dia 1 de janeiro de 1986, Portugal tornou-se oficialmente membro da então Comunidade Económica Europeia (CEE), junto com Espanha, num processo que marcou profundamente a história política, económica e social do país. 

   O Tratado de Adesão fora assinado a 12 de junho de 1985 no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, depois de quase uma década de negociações iniciadas formalmente em 1977. 

   Esta adesão significou a entrada de Portugal no coração do projecto europeu de integração, abrindo caminho a fundos estruturais, investimentos e reformas económicas que aceleraram a modernização de infraestruturas, a economia e a sociedade portuguesa. 

   Ao longo destes 40 anos, a pertença à Comunidade -que evoluiu para a União Europeia- foi entendida como um factor decisivo para o reforço da democracia, do comércio e da mobilidade europeia, embora também tenha colocado desafios de convergência económica.

      É indiscutível que, pese embora tudo o que de mau possamos apontar ao projecto europeu, há um Portugal antes de 1986 e um Portugal depois de 1986. Este último é claramente melhor.