Há gays que vivem no armário, há gays que vivem no fundo de um baú. Há gays que vivem num armário com portas de vidro, em que se vê tudo lá para dentro. E há gays, finalmente, que nasceram fora do armário, e viveram sempre fora dele. Eu, por exemplo.
Antes mesmo de saber o que era ser homossexual, heterossexual, fosse lá o que fosse, já era discriminado socialmente, na rua e na escola, porque os demais intuíam a minha sexualidade apenas pela forma livre e espontânea com que me expressava: uma delicadeza nos modos, uma feminilidade, o que lhe quiserem chamar. É, o mundo é um lugar muito mau.
Mark,
ResponderEliminarDepois de alguns anos sem te ler, ao comprar um novo computador, voltei a aceder aos meus antigos favoritos e lá estavas tu :)
Decidi deixar-te um comentário; é possível que tenha deixado alguns no passado, mas não tenho a certeza. Fiquei muito feliz por te redescobrir, percebendo que continuas a publicar com regularidade, que estás casado e muito feliz, e que encontraste estabilidade junto do teu marido, que forma agora a tua família.
Faço 31 anos no mês que vem e recordo-me de ter começado a ler-te por volta de 2011, então com 15/16 anos. Eras uma referência! Escrevias tão bem; queria ser capaz de escrever tão bem quanto tu. Escolhias temas que me interessavam, nos separadores Opinião ou Cultura (bastantes ensaios sobre história, por exemplo). Contudo, era mesmo o Lado Intimista que me mantinha mais ligado, sendo eu próprio um adolescente gay a passar por uma contínua jornada de discriminação e bullying. Não tinha amigos e, quando te lia, sentia que poderia ser teu amigo; revia-me nas tuas experiências.
Recordo-me dos teus tempos na Faculdade de Direito; eu estava perto, no ISCTE. Era um tempo de skinny jeans coloridas! :)
Lembro-me de outros bloggers, como o hammering in my shell, mas não me recordo do seu nome. Também me recordo de que tinhas, na tua página, uma lista de blogs, sendo o primeiro o Da Literatura, do Eduardo Pitta, que morreu em 2023.
A partir de agora, começarei a deixar alguns comentários sempre que te ler.
Um abraço!
Diogo
Olá, Diogo.
EliminarEm primeiro lugar, deixa-me que te diga que o teu comentário me deixou de certa forma emocionado. Digo-o com sinceridade. Que alguém se lembre de mim, do meu eu de há tantos anos, é extraordinário, e para mais de forma minuciosa. Eu já não me lembrava dessa lista de blogues, mas realmente tinha-a, sim, e lá estava o Da Literatura, do Eduardo Pitta, que desconhecia totalmente que morrera. Quando eliminei essa lista, acabei por perder o rasto a muitos desses blogues.
Relativamente ao blogue, é certo. Era um espaço mais erudito, diferente; tinha outra categoria. Nada de perde, tudo se transforma, não é assim? Também eu me adaptei, caso contrário fecharia o blogue, porque, como já disse várias vezes, faz-me sentido escrever para ser lido, naturalmente. Se mantivesse essa linha de há 15 anos, provavelmente ninguém o leria. Já não há público para isso aqui.
As minhas skinny jeans amarelas! Isto é incrível. Ainda hoje, ao repassar objectos antigos, as vi, por lá, pela arrecadação.
Olha, gostei mesmo muito de receber este teu comentário; mesmo, mesmo muito. De coração.
Um abraço!
Mark,
EliminarObrigado pela tua resposta tão bonita e dedicada. De coração.
Decidi comentar porque, ao ler os teus posts mais recentes, fiquei com a sensação de que sentias não estar a ser lido. Quero provar-te que não é verdade: eu leio-te, e gosto das duas vertentes do teu conteúdo: mais leve ou mais ensaístico. Fica a promessa de que visitarei o teu espaço com frequência e deixarei um comentário sempre que tiver algo a acrescentar.
As memórias que guardo dessa altura são, de facto, muito vivas talvez porque a minha vida era então mais monótona. Durante a faculdade, e mesmo depois, já não consigo recordar com tanto detalhe; a vida foi-se tornando mais preenchida, mais densa, com outros significados. Eras uma excelente influência — divertias-me muito! Também me lembro de uma fase em que começaste a conhecer alguns rapazes (sempre com o teu habitual recato, claro. És uma mulher séria!).
Que coincidência! Em casa, continuo a gostar de vestir roupa antiga. Skinny jeans é que não.
Quanto ao Eduardo Pitta, soube pelos jornais. Durante algum tempo ainda acompanhei o marido no Instagram, mas custava-me vê-lo sem o Eduardo, depois de tantos anos juntos, e acabei por deixar de visitar a página. Pelo que sei, o Jorge leva agora uma vida tranquila.
Do Eduardo
“enquanto te entreabro / as pernas altas / enquanto te humedeço / o musgo tenro”
Bom dia, Diogo.
EliminarSim, há uma certa mágoa por julgar que ninguém me lê, afinal, um blogue é um espaço aberto aos leitores, e -pelo menos no meu caso- sabe bem receber algum feedback.
O blogue está mais leve, é certo; de quando em vez, lá vem uma crónica ou algo do género, porque não consigo anular-me, o meu eu, e nem isso me seria possível.
Ahahah, “és uma mulher séria”. Talvez não devesse ter sido tão “séria”. Ter-me-ia divertido mais. Mas é certo, o meu marido foi a primeira pessoa a quem me entreguei por completo, e já estava avançado nos 30…
Eu gosto de calças mais apertadas. Engordei muito quando vim para Espanha, e adaptei o vestuário. Agora emagreci imenso devido a um tratamento que faço e voltei a usá-las (não as amarelas, que já não há idade para isso).
Obrigado pelo excerto do poema. És um rapaz muito sensível. Isso nota-se, sobressai. :)
Eu vivo dentro de metade do armário. Embora quando era miúdo, as pessoas já sabiam mais sobre mim, do que eu próprio. Mas com o passar do tempo, as agressões físicas, as bocas, as humilhações, comecei a guardar tudo e tornei-me um pessoa super fechada, desconfiada e de certa forma, amargurada. Ainda assim, julgo que consegui não me tornar em alguém zangado, mau, horrível e mesquinho.
ResponderEliminarEu sou amargurado, mau, mesquinho, horrível. Não vou mentir. Estou cheio de traumas. Também é certo que poderia esforçar-me para ser melhor pessoa. Em todo o caso, não tenho fé nenhuma na humanidade. Fizeram-me muito mal.
EliminarCreio que todos passámos pelo mesmo, e a idade diz-me que temos de melhorar a cada dia que passa. Senão ficamos velhos ressabiados, rezingões com a vida.
ResponderEliminarHoje estamos cá, amanhã não sabemos
Tenho aquela máxima: Isto que me preocupa tem importância daqui a 5 anos?
Abraço amigo
Tens razão. É uma forma interessante e útil de reduzirmos as preocupações com mesquinhices.
EliminarUm abraço.