O ex-Primeiro-Ministro caiu, definitivamente, em desgraça. As investigações judiciais de que é alvo vieram demonstrar, se tanto, que sobre ele impendem fortes suspeitas da prática de ilícitos, e são muitos. Cova da Beira, Freeport, BES, licenciatura e currículos fraudulentos, enfim, um sem-número. O caso paralelo, mas que se toca, de Manuel Pinho, ministro de Sócrates, foi o rastilho, o que faltava ao PS para se demarcar do seu ex-dirigente, que prontamente entregou o cartão de militante, num divórcio abrupto após longo casamento. Há manifesto oportunismo do partido. As eleições legislativas terão lugar no próximo ano.
Manuela Moura Guedes, que em tempos foi das poucas a denunciar os casos ligados a Sócrates, deu uma bofetada de luva branca à sociedade portuguesa e às vozes que contra ela se erguiam, acusando-a de encetar uma perseguição, movida pelo ódio, a José Sócrates. Demonstrou que o Jornal Nacional, populista, sem dúvida, se pautava pela investigação, em simultâneo com as tentativas do então Primeiro-Ministro de calar a Comunicação Social, ou pelo menos de domá-la. Conseguiu-o, efectivamente, com a TVI, pressionando o grupo Prisa para que este emprateleirasse Moura Guedes. Já se falava, na altura, do quão mal Sócrates lidava com o contraditório. Aliás, a irascibilidade de Sócrates era visível nas sessões parlamentares. Aceitava mal o jogo democrático. Nunca, como naqueles anos, a democracia esteve tão em perigo. A justiça estava manietada. A teia de interesses montada. Os procuradores-gerais faziam vista morta aos indícios. E nós, o povo, reelegemo-lo, a Sócrates. Fomos tão fáceis de enganar.
Eu fui enganado também, e não, não conheci Sócrates. Não tive qualquer tipo de relação pessoal com o anterior Primeiro-Ministro, e tão-pouco defendo, ou acho moralmente correcto, que se ataque alguém já enfraquecido. Em todo o caso, estimava-o. Julguei-o um homem determinado, de personalidade vincada, forte, que granjeara inimigos. Era mais do que isso. Os casos sucediam-se vertiginosamente.
Não me deixarei levar pelo populismo fácil. Não julgarei Sócrates antes de os tribunais, quem de direito, o fazerem. Mas não mais me verão a tomar o seu partido. Fui, enquanto português, uma vítima da sua personalidade manipuladora. Eu, como tantos, que agora só pedimos que se faça justiça. Exemplarmente.






