18 de abril de 2018

A Maldição da Casa de Winchester.


   Adoro terror. O problema dos filmes de terror actuais são os efeitos especiais. Têm-nos em demasia, e isso faz com que se perca qualquer medo que pudesse advir. Este filme, houvesse sido realizado há uns trinta anos, teria tudo para ser interessante; agora, não obstante Helen Mirren ter-se saído bastante bem, apenas tem o dom de nos pregar uns sustos, sobretudo quando entidades misteriosas surgem através de espelhos ou em vãos de escadas. A narrativa seria, a priori, boa: uma casa, cujas divisões são construídas incessantemente; uma maldição; uma mulher dada como louca, porque é do interesse de executivos ligados à sua empresa darem-na como tal; um médico que vai, em trabalho, aferir do suposto delírio mental da senhor Winchester e entidades do além.
   Reparei na preocupação com o suspense, nos planos a meia luz, nas fórmulas exploradíssimas de possessão, mas o filme não funciona. A determinado momento, perguntamo-nos: o que é que uma actriz conceituada como Helen Mirren faz ali? Provavelmente, o roteiro ter-lhe-á interessado, porque a histórica é verídica, passada nos inícios do século passado. Facilmente cairá no esquecimento geral.

    Já não há terror como antigamente.

16 de abril de 2018

Cultural Sunday [take 14].


   Visita molhada, visita abençoada. Não, que nem choveu. Chuviscou. Lisboa consegue ser encantadora nos dias cinzentos, como o de ontem. Fundação Ricardo Espírito Santo - Palácio Azurara pela manhã, com a tarde dedicada ao Museu Nacional de História Natural e da Ciência (e Jardim Botânico de Lisboa) e ao Reservatório da Patriarcal

   O Palácio Azurara situa-se em Santa Maria Maior, nas Portas do Sol. É um edifício do século XVII, que Ricardo Espírito Santo comprou para aí depositar a sua colecção particular. A entrada não é gratuita. Apreciadores de História, sobretudo daquele período, não o levarão, ao preço, em consideração. Gostei particularmente dos óleos de personagens da nossa história, como os de Dom João V, Isabel Farnésio ou Catarina de Bragança. De igual modo, adorei os exemplares da mais bela faiança que temos, assim como da prataria. O mobiliário, que decora o interior, é também ele riquíssimo. Um dos tesouros, por assim dizer, mais curiosos diz respeito ao estudo de um quadro maior, oferecido a Dom João VI, que se terá perdido no Brasil na sequência da saída da corte. Deixo-vos algumas fotos.




   Quando saí, chuviscava. Entretanto, não podia perder a oportunidade de ir ao miradouro das Portas do Sol e ao miradouro de Santa Luzia, a uns metros abaixo. A chuva afugenta alguns turistas. Alguns. Outros, por sua vez, passeiam-se literalmente sob ela, sem guarda-chuva.



   O tempo melhorou no decorrer do dia. Dirigi-me, de seguida, ao Príncipe Real. O Museu Nacional de História Natural e da Ciência encontra-se na Rua da Escola Politécnica. O edifício, antigo, albergou a faculdade de ciências até 1985. Antes disso, funcionou até como Real Colégio dos Nobres, até à sua extinção pelos liberais, no século XIX.
   O museu está dividido em várias salas, por dois pisos, cada uma delas com uma exposição. Não as contei, se bem que fiquei com a ideia de que são realmente muitas, a ponto de - julgo que terão a mesma sensação - se sentirem perdidos entre os corredores. Gostei muito da exposição sobre o surgimento do planeta e da vida, desde os seres unicelulares aos hominídeos, no contexto do sistema solar e do universo. Gostei de praticamente todas, em suma. Dos fósseis, dos minerais. Áreas completamente distintas da minha, ou das minhas. Eis algumas fotos.

               


   O Jardim Botânico de Lisboa, nas traseiras do museu, reabriu os seus portões ao público. Não iria, à partida, revisitá-lo, no entanto, uma vez que ainda tinha tempo, decidi fazê-lo. É lindíssimo, e encerra espécies únicas. É conhecida a minha predilecção por jardins. Recentemente, estive no Jardim Tropical de Belém, como sabem.


   
   O dia não terminaria sem uma passagem pelo Reservatório da Patriarcal. O reservatório, inutilizado nos anos 40 do século passado, foi projectado para resolver os problemas de abastecimento de água nas zonas mais baixas da cidade. Contempla passagens subterrâneas, algumas das quais com percursos que podem ser efectuados mediante inscrição prévia. O reservatório fica a meio do jardim do Príncipe Real, no subsolo.


   Um dia em cheio, com três visitas. Tenho imensos registos fotográficos, que irei partilhando convosco, sobretudo através do Instagram (isto para quem me segue - sabem que, aqui, apenas vos abro o apetite). Como é expectável, já tenho ideias para o próximo domingo. Ou sábado. Até lá!

Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone. Uso sob permissão.






12 de abril de 2018

Madame.


   Houve alguém que me disse que o filme valia a pena, e lá fui eu. É uma comédia, de narrativa superficial. Pretende-se que gargalhemos sem neuroses. Como é usual, há sempre um tema subjacente, no caso o da estratificação social. Determinada senhora da alta sociedade tem uma ideia aparentemente estapafúrdia, com consequências que a deixariam coberta de cólera e de inveja até ao limite. Estaremos destinados, por assim dizer, a servir ou a ser servidos? Os mais liberais dirão que sim, que as diferenças que encontramos na nossa sociedade são até saudáveis e devem ser estimuladas - a meritocracia levada ao limite, quando nem sempre há recompensa pelo esforço, como bem sabemos.

   Não me afasto mais do essencial. Gostei do final em aberto, sem certezas. Ficamos na dúvida em se Maria consegue ser feliz ao lado daquele homem ou se, pelo contrário, o preconceito dele pesou mais na hora de se afastar. O realizador envia-nos sinais dúbios. Por um lado, parece-nos que Maria, após abandonar a casa, recomeça uma nova vida; pelo outro, David, seguindo-se ao breve diálogo com Toby, poderá ter ido ao encontro da ex-empregada.

    As boas interpretações ajudaram ao resultado final.

11 de abril de 2018

Manifesto.


   Terça-feira de cinema, as usual. Não tenho muito a dizer deste Manifesto de Julien Rosefeldt, com a incrível Cate Blanchett. Chamar-lhe filme já é, per se, complicado; documentário anti-arte, ou anti-concepção tradicional de arte, assenta-lhe melhor. Compreendo a motivação: manifestos sociológicos, contributivos, críticos, artísticos, tendo Blanchett, aqui, vestido a pele, e os sotaques, de um sem-números de personagens, do sem-abrigo à sofisticada executiva. É um aborrecimento latente. Pela primeira vez desde que me conheço, vi alguém, no caso um casal (parece até que rima), a abandonar a sala. Alguns dirão que não eram dotados de sensibilidade suficiente para entender o que ali estava em causa; eu diria que o propósito de um filme não é o de entediar os espectadores a ponto de estes se decidirem por sair, jogando ao alto o dinheiro que gastaram e as horas que perderam. É um mau sinal, é um mau filme, que nem Blanchett e o interesse que os manifestos retratados poderiam suscitar salvaram.