31 de dezembro de 2017

O ano em revista.


   Dois mil e dezassete dá os seus derradeiros suspiros. Um ano mau a nível pessoal, como mencionei recentemente numa publicação. Figurará, até ver, entre os piores que vivi - sim, foi assim tão mau. O primeiro trimestre, para mim, foi pavoroso. Ali entre finais de Janeiro e meados de Março, vivi dias difíceis, por motivos que agora não vêm ao caso, mas que até me custam recordar.

   No que ao blogue respeita, e fugindo à tendência da blogosfera, decrescente e de apatia, 2017 foi um ano razoável. Escrevi mais do que em 2016 e em 2015, também porque saí mais, fui mais vezes ao cinema, ao teatro, a exposições. Em termos culturais, foi um ano razoável.

   À semelhança do que fiz quer em 2016, quer em 2015, também este ano acabei por me decidir por um apanhado geral dos temas mais importantes abordados no blogue, e foram muitos, com as respectivas hiperligações para leitura rápida. Começando por Janeiro, mês frio, não posso dizer que tenhamos sido surpreendidos com o falecimento do Dr. Mário Soares, que há muito estava doente, e a cujas exéquias fúnebres compareci. Após a vitória de Trump, Barack Obama preparava-se para se despedir da Casa Branca, o que me mereceu alguma reflexão. António Costa viajou até Goa, terra dos seus antepassados, aproveitando, eu, a deixa para escrever um pouco sobre esse antigo território, português por quatro séculos e meio. Pela política nacional, insurgi-me com o aproveitamento político do maior partido da oposição.

   Fevereiro começou mal, com a tomada de posse de Donald Trump. Iniciei o meu ciclo de cinema com dois dos nomeados aos Oscars do ano: La La Land, Moonlight, Jackie e Manchester by the Sea. A meio de um mês vocacionado para o cinema, aclarei a relação histórica entre Portugal e o Brasil e relatei o que se passou num dos sábados culturais.

   Março, mês da Primavera, mantive-me fiel às salas de cinema. Dissertei sobre um tema fracturante em Portugal, a legalização da prostituição. Continuei a abraçar os programas culturais. Perfez um ano desde que Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse, fazendo um balanço do seu primeiro ano em Belém. O Tribunal de Justiça da UE emitiu uma decisão polémica sobre o uso de símbolos religiosos, que tanta celeuma causou. Já no final do mês, assisti a um documentário sobre Mário Cesariny, não deixando que Março findasse sem assinalar os sessenta anos do Tratado de Roma.

   Por Abril, assisti às peças Caveman e Quem Tem Medo de Virginia Woolf?. O Chefe de Estado turco e o seu extremismo foram o tema da crónica do dia 20. No dia 25, como vem sendo habitual, mas fugindo um pouco aos tradicionais clichés, fiz uma análise ao 25 de Abril de 1974.

   Doce Maio, dias cada vez maiores e temperaturas que os acompanham. Comecei com uma menção ao Dia Internacional da Língua Portuguesa. As eleições francesas e a temida deriva à extrema-direita jogaram-se no dia 8. Fátima e os seus mistérios, por ocasião do centenário das aparições, foram, pela primeiríssima vez, abordados por mim no blogue. Também pela primeira vez, após décadas de participação, Salvador Sobral levou Portugal à glória na Eurovisão. Com o mês a findar, o blogue atingia o número histórico de mil publicações.

   Junho, de veraneio, com uma dissertação histórica à união das coroas de Castela e Aragão. O mês seria trágico para o país, com a tragédia de Pedrógão Grande a provocar a dor e a consternação em todos. Pelo desporto, Portugal encerrava a sua jornada na Taça das Confederações.

   Em Julho, tivemos o ainda por explicar furto de material militar em Tancos. Porque valeu a pena, assisti ao filme Tom of Finland, que aconselho, no momento em que progressivamente comecei a ir menos ao cinema. Numa primeira de duas publicações, que a segunda ainda espera vez a luz do dia, dediquei a crónica do dia 17 à tomada da Bastilha, em França. O ano foi profícuo em polémicas relacionadas a decisões judiciais. Uma delas, que levou Portugal às instâncias internacionais, encerrou o mês.

    Agosto, o mês mais quente do ano em polémicas. O Governo viu-se em mãos com o descontentamento que se seguiu aos casos mediáticos. Na América do Sul, o caos social venezuelano agudizou-se. Continuámos a ser assombrados por ataques jihadistas. Em África, os angolanos preparavam-se para a transição política com a saída de José Eduardo dos Santos da presidência da República. Duas tristes efemérides não pude deixar passar em claro: os vinte anos do desaparecimento da minha bisavó e da Princesa de Gales.

    Setembro outonal, Acordo Ortográfico que não me convence. Portugal, após anos de contenção, saía do lixo para uma das principais agências de rating. A Catalunha começava a preencher os nossos dias, com a subida de tom independentista. De novo em paragens africanas, João Lourenço tomava posse, em Angola.

    Por Outubro, tivemos, em Portugal, eleições autárquicas. Fiz uma análise ao acto eleitoral. Simultaneamente, Passos Coelho anunciou a sua não-recandidatura à liderança do PSD. Também tracei o perfil dos candidatos a sucessores. Cinema português, de novo, com um filme muito interessante sobre Al Berto. Em meados do mês, comprei o meu primeiro iPhone, um 8 Plus. Voltávamos a reviver uma tragédia semelhante à de Pedrógão, com elevado número de vítimas mortais. Nas artes, (re)descobri um velho nome, Klaus Nomi, artista único. Lembram-se de vos falar de decisões judiciais controversas? Tivemos outra, desta feita na Relação do Porto, que muita tinta fez correr... Aqui ao lado, o governo autonómico catalão declarava a independência, num processo conturbado e bem pouco pacífico.

    O ano caminhava para o fim. Nos cem anos da Revolução Russa, decidi escrever a respeito. Descobrimos, eu e a maioria dos portugueses, que os jantares nos panteões nacionais eram aceitáveis para os nossos governantes. A um mês do Natal, recebi a primeira de duas consolas clássicas: a Super Nintendo Classic Mini. Assinalei, porque achei pertinente, sobretudo num ano de catástrofes naturais pelo país, os cinquenta anos sobre as grandes cheias de 1967. Encerrei o mês com uma crónica sobre a Galiza.

    Dezembro, mês das festas, começou com a perda de uma personalidade ligada ao rock português, Zé Pedro, dos Xutos. Lá por fora, Donald Trump, sempre polémico, reconhecia Jerusalém como a capital de Israel, aumentando a tensão no Médio Oriente. Um querido amigo, o M., e eu andámos por Lisboa a passear, visitando vários monumentos.

    O grande evento do mês, e do ano, quanto a mim, foi o Jantar de Natal - Lisboa 2017, que tive a honra e o prazer de organizar.


    Foi um ano rico no que concerne a programas culturais. De igual modo, houve um aprofundamento na amizade com pessoas que conheci na e pela blogosfera, em contraposição com a agonia da mesma. Que assim se mantenha nestes domínios, e que 2018 melhore noutros.

     E fico-me por aqui. Obrigado a todos os que me acompanharam neste ano. Desejo-vos um final de ano excelente e uma entrada com o pé direito no novo ano que está prestes a iniciar. Feliz 2018!

A azul, as hiperligações para os artigos.

28 de dezembro de 2017

Unha semana marabillosa.


   Tivemos o jantar de Natal pelo meio, bem como o Natal propriamente dito, e muito ficou por dizer em relação à semana fantástica que vivi com o meu amigo galego, o M., que esteve em Portugal de segunda a segunda (de dia 11 a dia 18). Foi uma semana muitíssimo bem aproveitada, e só não o foi mais porque tive de ir visitar a minha avó no hospital, que estava internada devido a uma fractura no fémur.

    Na primeira publicação em que dei conta da sua vinda a Portugal, expus sucintamente o que fizemos na segunda e na terça (dias 11 e 12). Logo na quarta, dia 13, levei-o a Belém. É um bairro paradigmático da capital, pela história ligada aos nossos descobrimentos, e o M. também tinha muita curiosidade. Como já chegámos tarde, só passeámos pelo bairro, à beira-rio, mas ainda o pude levar ao Museu da Presidência. O M. é republicano, nacionalista. Sente um profundo desprezo por Espanha e pela monarquia dos Borbón. Saber mais sobre o nosso regime e o nosso sistema, semipresidencial, agradou-o muito.


    Ainda entrámos na igreja dos Jerónimos. Esteve perto dos cenotáfios de Vasco da Gama e Camões. De seguida, fomos aos pastéis de Belém, quentinhos e deliciosos, fazendo todo o percurso de regresso a pé, a conversar, de Alcântara ao Cais do Sodré.





    Na quinta, à partida iríamos a Sintra, mas fez-se tarde. Escolhemos, então, o Palácio de Queluz, uma jóia da arquitectura portuguesa do século XVIII, mandado edificar por Dom Pedro III. Percorremos todas as galerias e os imensos jardins, belíssimos.

O quarto em que nasceu e morreu Dom Pedro IV de Portugal / I do Brasil



    No dia seguinte, bem cedo, fomos, finalmente, à mágica vila de Sintra: um dia em cheio. Quem julgar que consegue visitar o Palácio da Pena numas poucas horas, desengane-se. Julgávamos que daria tempo para visitar o Palácio e a Regaleira, e só conseguimos ir ao palácio e passear pela vila.  Apanhámos um dia cinzento, com muita névoa. Chuviscou, o que com a neblina tornou o passeio ainda mais especial. Indescritível.






   A entrada é cara, sim, mas compensa. O palácio é maravilhoso, por dentro e por fora, e os jardins, verdadeiros bosques, são encantadores. Perdemos o dia inteiro a desbravar cada torre, cada recôndito, cada vale. Ainda passeámos pela vila, passando, claro está, pelos tradicionais travesseiros da "Piriquita", passo a publicidade.



   Já no sábado, no dia do jantar, fomos, da parte da manhã, ao Museu dos Coches, em Belém. À tarde e à noite, como se sabe, dedicámos o tempo ao evento. Tivemos sorte, porque o recinto antigo do museu, encerrado por anos, já abriu ao público, e ainda contém alguns exemplares.

Recinto novo.

    Domingo seria, tudo indicava, o dia em que o M. se despediria de Portugal, voltando à Galiza. Por um percalço no horário, acabou por adiar o vôo para o dia seguinte, permitindo-se a explorar um pouco mais de Lisboa. Uma vez que se tratou de algo inesperado, nesse dia só tivemos tempo de ir ao Museu de Arte Contemporânea da Gulbenkian.


    Na segunda, por fim, tempo das despedidas. O M. partiu, com a promessa de que o visitarei, em breve, na Galiza. Será a minha vez de me deixar encantar por uma nação tão rural e mágica.
    Foram dias fantásticos na companhia do M., um rapaz culto, interessante, médico respeitado. Os amigos do jantar puderam conhecê-lo e testemunhar o quão afável e educado é. Oito dias que guardarei na memória. Pessoas assim valem muito a pena.

Todas as fotos foram captadas pelo meu iPhone. São minhas e de minha autoria. Uso sob permissão.

26 de dezembro de 2017

Catalunha 2.0.


   No dia 21, realizaram-se as eleições regionais catalãs, após a aplicação do artigo 155, tendo o governo central assumido o poder na Catalunha até à convocação de novas eleições. A Europa e Espanha, principalmente Espanha, após a campanha de terror que empreendeu, esperavam que os partidos unionistas obtivessem a maioria dos assentos no parlamento catalão, o que não se verificou: o Ciudadanos foi o partido mais votado, mas, em contrapartida, os partidos pró-independência têm a maioria para formar governo. As detenções ilegais, as perseguições políticas e a cargas policiais não intimidaram o povo catalão, que foi chamado a pronunciar-se e que democraticamente confirmou que quer a independência. O partido de Puigdemont, o líder catalão refugiado na Bélgica, garante que só assume o poder se o seu cabeça de lista puder regressar a Espanha. Puigdemont sabe, entretanto, que será detido se o fizer. Vivem-se, na Catalunha, dias de incerteza.

   A líder do Ciudadanos na Catalunha, Inés Arrimadas, nem coligada conseguirá governar, uma vez que os partidos independentistas, juntos, incluindo o Junts per Catalunya de Puigdemont, têm a maioria. Trata-se de uma tripla derrota: de Rajoy, do PP (que teve um péssimo resultado autonómico) e do Rei de Espanha, que não poderão manter a recusa em assumir a escolha que os catalães há muito fizeram. A Catalunha, à sua maneira, vive o que Portugal viveu em 2015, quando o partido mais votado, o PSD, não conseguiu formar governo, abrindo portas a uma maioria de esquerda. Uma maioria. Importa frisar. Há, na Catalunha, uma maioria favorável à independência, o que significa que a maioria do povo catalão é favorável à independência. Parece claro.

   O Rei de Espanha, a quem é atribuído, pela Constituição, um papel unificador, foi profundamente infeliz na primeira declaração, há meses, em meio da sublevação catalã. Desta vez, no tradicional discurso de Natal, aparece bem mais sereno e conciliador, porque saberá, de antemão, que é o que se espera de um Chefe de Estado de uma monarquia. Tomar posição, seja ela qual for, afasta-o do seu propósito. Como não desempenha qualquer função executiva, deve agir de acordo com aquilo que é, ou seja, rei de todos os espanhóis, ainda que daqueles que não o querem ser.

   O impasse não tem fim, tudo indica. Há um ciclo pernicioso, a menos que os partidos independentistas refreiem os ímpetos. Não sabemos até que ponto Puigdemont está disposto em pôr em causa a sua liberdade para assumir a liderança da autonomia catalã. Admitindo que o faça, e que as autoridades espanholas não lhe dêem ordem de prisão, não sabemos se manterá o discurso de cisão face ao poder central, que é como quem diz, Madrid.

   A sociedade catalã está dividida. Eu, que só pró-independência da Catalunha, não poderei ignorá-lo. O que lamento, sim, é que haja uma tendência para se simpatizar pelos unionistas, como se os independentistas não merecessem que as suas súplicas fossem atendidas. A Europa vira-lhes a cara, os Estados também, e a opinião pública, a portuguesa, que é a que me interessa, suporta Madrid. Temos milhões de catalães que querem poder decidir o seu futuro de forma soberana.  Não temos qualquer legitimidade, sendo livres, para impor a submissão a outros povos. Essa arroganciazinha de quem não teve de lutar por nada nos últimos séculos - o nosso caso - era desnecessária, e até não nos dignifica.

24 de dezembro de 2017

Feliz Natal.


   Uma quadra. Mil desejos. As famílias reúnem-se. Há a quem já pouco lhe diga o Natal. A mim, continua a configurar a época mais bonita do ano. As luzes, o espírito, a azáfama. Natal é comunhão, partilha, sorrisos. Vai sendo menos Deus, infelizmente. O alcance é tal que contagia não-religiosos e até quem segue outros credos. O Natal é mais do que o nascimento de Jesus. É economia, retalho, crescimento económico. Repercute-se em tudo. Poucos lhe são imunes.

   Natal também é tristeza, pelo que vivemos e só recuperamos na nossa memória. Pelos amigos e familiares que partiram. No que a mim respeita, oscilo entre a saudade e o momento. Há horas do dia em que me recordo das consoadas no Alentejo, entre os tios e os primos, rindo e brincando. E agora eis-me aqui, com a família reduzida a umas unidades, em meio do desânimo e ainda me perguntando sobre o porquê de insistir em valorizar o Natal.

   Não me demoro mais. Desejo-vos, aos meus leitores e seguidores, um Feliz e Santo Natal, na companhia daqueles que vos forem mais queridos. Com harmonia e presentes no sapatinho.



Mark