1 de dezembro de 2017

Zé Pedro (1956 - 2017).


   Este será um dos obituários mais difíceis para um português fã do bom rock que por cá se produz. A notícia não causou estupefacção. Exactamente no mesmo dia, numa visita hospitalar à minha avó (que fracturou o fémur mas está bem), vieram à conversa os Xutos, acerca do estúdio imponente que têm, realidade tão diferente da do início da banda, no bairro dos Olivais, e até fui eu quem disse que, mais dia, menos dia, teríamos a informação do falecimento do Zé, que há muito lutava contra uma doença do foro hepático. Tristes coincidências. Se soubesse, não teria aberto a boca.

   Gosto dos Xutos. São uma banda paradigmática na música portuguesa desde o início dos anos 80. O álbum Circo de Feras, de 1987, e o que se lhe seguiu, de 1988, intitulado simplesmente 88, contêm as canções mais conhecidas, e popularizaram-nos. Gerações cresceram a ouvi-los. Os Xutos têm aquela capacidade de encher estádios, trinta anos depois, com velhos e novos à mistura. Serão, talvez, a banda mais intemporal e consensual. Quem tem coragem de não gostar dos Xutos?

   Eu, entretanto, pela minha idade, passei a adolescência com o Ai Se Ele Cai, do álbum Mundo ao Contrário (2004), mas Chuva Dissolvente, de Dizer Não de Vez (1992) faz parte daquele rock old school de que não prescindo.

   Não sei como ficarão os Xutos após esta partida. Perdeu-se o espírito do grupo - Zé Pedro era um membro carismático. Temos vários exemplos de bandas que se souberam reerguer. Os Queen, sem Freddie desde 1991, ainda actuam em parcerias com este ou aquele intérprete.
   Zé Pedro era mais do que o guitarrista da banda; não sendo o líder, sabia puxar pelo público como ninguém. Assumia sem pudores o seu passado ligado ao álcool e às drogas, e preocupava-se com essa mensagem pedagógica junto dos jovens.

   Nunca fui festivaleiro. Nunca vi os Xutos ao vivo. E só agora me dou conta dessa falha. Com o Zé Pedro, não mais será possível, infelizmente.
    E que ele possa dar os seus acordes lá na dimensão em que estiver.


* Uma pequeníssima nota de rodapé para dizer o seguinte: termina amanhã, dia 2, o prazo para que quem quiser participar no jantar de Natal, que estou a organizar, ainda o possa fazer. Cliquem neste linkou no gadget que encontrarão logo abaixo da minha foto de perfil, se se decidirem a vir. Despachem-se! :)

29 de novembro de 2017

Galiza.


   Descobri recentemente a Galiza. Em verdade, não a conheço. Aproximei-me gradualmente do povo galego através de incursões minhas em grupos temáticos que exaltam o nacionalismo galego. Espanha, que sabemos ser uma realidade forjada, tem muitos nacionalismos periféricos. O catalão será o mais conhecido, mas o galego, antigo, sobrevive. A Galiza é a comunidade autónoma espanhola na qual o idioma autóctone é mais falado do que o idioma do Estado, o castelhano. Os mais recentes estudos indicam que a situação está prestes a mudar. Vive-se, na Galiza, em diglossia. O idioma de prestígio empurra o idioma autóctone para uma condição de ostracismo conotado à ruralidade, por um lado, ou ao nacionalismo galego, pelo outro. Falar-se galego, na Galiza, cada vez mais é associado a uma destas realidades. Nos grandes centros urbanos, fala-se castelhano; os jovens, também eles, adoptam progressivamente o castelhano em detrimento do galego, num processo lento de linguicídio, prática comum em Espanha.

   A Galiza - tão bucólica - pela mansidão do seu povo e pelas suas paisagens de incontornável beleza, deveria representar bem mais para os portugueses. O nosso idioma nasceu na Gallaecia, que outrora o norte do país e a actual Galiza conformaram. Em jeito de peregrinação, como os islâmicos fazem a Meca, na Galiza descobrimos as nossas origens, até quanto ao idioma. Pelo norte do país, identicamente. E constatamos em como a fronteira política, imposta pelo Estado espanhol, é, a par de um erro grosseiro, uma farsa. Os falares de uma e de outra margem do rio Minho confundem-se. E é na Galiza profunda que descobrimos que o nosso idioma comum ainda não morreu, pese embora haja políticas agressivas por parte do Estado espanhol, com a cumplicidade dos órgãos galegos, como a Xunta de Galicia e a Real Academia Galega, esta última com competências no domínio da linguagem, tendo procedido a reformas que aproximaram o galego do castelhano, numa união anti-natural, quando o certo teria sido aproximá-lo do português, idioma com o qual divide séculos de história. Para mim e para outros reintegracionistas, o galego e o português são duas variantes de um mesmo idioma, e as diferenças que lhes encontramos prendem-se aos séculos de imposição e de influência nefasta do idioma castelhano.

    Nem tudo está perdido. Há uma nova geração orgulhosa do seu passado e das suas origens, consciente de que a Galiza deve olhar a sul. Porque a Galiza, que não tem a pujança económica e social de uma Catalunha, tem o que mais nenhuma região de Espanha tem: uma ligação fortíssima a outro Estado soberano, neste caso Portugal, que lhe pode seguir de guia e de exemplo. Há grupos galegos que defendem essa aproximação a Portugal, à língua portuguesa e à Lusofonia, através da CPLP. Em 2008, fundou-se a Academia Galega da Língua Portuguesa, que nos seus estatutos reconhece que o Português é o idioma da Galiza, e que foi recentemente aceite na CPLP como observador consultivo. Afinal, galego e português são dois nomes para um mesmo idioma. Divergências políticas levaram a nomenclaturas distintas. Como disse, a seu tempo, Carvalho Caeiro, «o galego, ou é galego-castelhano ou é galego-português».

27 de novembro de 2017

As fragilidades do decrépito regime.


    Estávamos em finais de Novembro de 1967. O ano havia sido chuvoso, mas nada fazia prever a hecatombe que se seguiria. Naquela madrugada, de 25 para 26, choveu, choveu muito. Lisboa e a região centro acordaram alagadas. Os mortos, mais que muitos. Sete centenas, na pior das tragédias desde o terramoto de 1755. O Estado Novo já se via em mãos com a Guerra Colonial e com o descontentamento generalizado. Oficialmente, morreram umas trezentas ou quatrocentas. Saber-se-ia, mais tarde, a dimensão real do que acontecera.

    O Portugal dos anos 60 não era aquele país bafejado pelo Maio de 68 e pelas conquistas sociais e tecnológicas da Europa civilizada. Era um país parado no tempo, isolado, com enormes desigualdades. Na Casa Portuguesa de Salazar, faltava o pão e o vinho sobre a mesa. Havia fome, miséria. Crianças desnutridas. Inúmeros analfabetos (cerca de 30 % da população). O crescimento económico, à custa das províncias, soçobrara com os esforços para manter uma guerra inútil. Naquela noite, não foi apenas a natureza a culpada da mortandade; foi-o, também, a insalubridade da habitações, a escassez de posses. Péssimas infraestruturas levaram a que muitos morressem dentro das suas casas. De Europa, muito pouco tinha Portugal.

    Não era fácil contornar o lápis azul do censor. O regime impunha expressamente uma política restrita de informação disponibilizada ao público. Claro que, em finais da década de 60, já havia uma imprensa pungente, sobretudo lá por fora, que não se coibiu de fotografar e de enviar para as redacções de todo o mundo o que se passava no pequeno rectângulo peninsular, como esta foto bastante expressiva.


24 de novembro de 2017

Um mês para o Natal.


    Celebraremos a Consoada exactamente de hoje a um mês. Os edifícios começam a vestir-se para a época. Lisboa já tem luzes dispostas pelas ruas e avenidas, ainda desligadas. É provável que as liguem hoje. Natal é isto: luz, magia, frio, músicas da quadra. Toda a envolvência cria este espírito natalício que, a mim, continua a encantar.

    Este ano, como sabem, tive a ideia de organizar um jantar, que está a ser um sucesso em termos de adesão. Somos, ao momento, onze pessoas, com uma provável décima segunda a juntar-se a um grupo bem disposto. O restaurante está escolhido. Um espaço agradável, requintado, tradicional, no coração de Lisboa. Mais: a reserva está feita, sendo que continuarei a aceitar integrantes até ao dia 2 do mês que vem (e fiz a salvaguarda no dia da reserva, a quem me recebeu). Mais uma semana, portanto, para que quem se sinta indeciso ainda possa decidir.

    Também fiz o roteiro, previamente comunicado aos participantes. Lancharemos (quem quiser) numa confeitaria de excelência, descendo de seguida a avenida para ver as luzes de Natal, terminando o percurso, claro está, no fantástico restaurante que nos irá receber. E também a madrugada nos espera...


    O jantar terá um sabor muito especial - vários sabores, atente-se, pelas iguarias que estarão à nossa disposição! - porque alguns vêm de longe, do norte do país, e do estrangeiro, até. Um evento internacional, não se circunscrevendo apenas às pessoas de cá, por assim dizer. Mais um motivo para que a noite seja especial e verdadeiramente inesquecível.

    Há gente com blogues e sem blogues. Pessoas cujo único intuito é o de conhecer, confraternizar, aproveitando o embalo do Natal, que estimula ao convívio. Haverá, portanto, um saudável equilíbrio, como se quer.
    Eu sou apenas o organizador. No dia 16, serei um entre todos, sem protagonismos, sem imposições, promovendo a interacção - e não segregando, como num por outro jantar em que participei recentemente. Quero apenas que quem participa se sinta bem. Não duvido, no entanto, de que será uma noite memorável.