6 de outubro de 2017

Outono.


   Eis que é chegada a estação de que mais gosto, o Outono. Em adulto, pois em criança adorava o Verão. Associava-o às férias grandes, à praia, ao descanso. Não há, todavia, melhor do que o Outono. O Outono, ao contrário da Primavera, diminui-nos os dias, que se tornam progressivamente mais frios, em contagem decrescente para o solstício de Inverno e para o Natal. É, portanto, no Outono que desço as avenidas para ver a iluminação; é no Outono que como as castanhas assadas; é no Outono que organizo as ideias para a minha lista de presentes, que me divirto com as decorações de Halloween - muito embora não ligue nada a essa festividade importada; prefiro as nossas tradições nortenhas. Também é no Outono que visito os meus mortos, que os tenho espalhados por três cemitérios da capital.

   Nos últimos anos, infortúnio meu, pelo aquecimento global ou pelo raio que nos valha, o Verão tem-se prolongado. Chegamos a Outubro com temperaturas de Verão, exageradamente elevadas, roubando-nos, pelo menos quanto a mim, o encanto da época, a ponto de nem se dar a queda atempada da folha, tão conotada ao Outono; talvez, diria eu, a primeira imagem que nos ocorre quando nos lembramos destes meses.

   Neste Outono, entretanto, pelo evento que irei realizar, terei, a par da faculdade - que ainda lhe devo algumas palavras - o tempo preenchido. Mais à frente, no início do mês que vem, adiantarei mais detalhes. Posso apenas desvendar que, tratando-se o Natal da minha quadra predilecta, é um período que convida à confraternização. Fico-me por aqui. Está em fase de maturação.

    Por ora, aguardo pelo fim da época quente. Este período de transição Verão-Outono / ócio-aulas está a ser particularmente turbulento e conturbado. Aguardo a acalmia.

2 de outubro de 2017

Autárquicas '17.


   Sem grandes surpresas ao centro, as eleições autárquicas deste domingo vieram confirmar as nossas suspeitas. O Partido Socialista, pela retoma económica do país, foi o grande vencedor da noite eleitoral, ao ter atingindo um resultado histórico em autárquicas, muito embora, em Lisboa, tenha perdido a maioria, o que obrigará a consensos. Nos antípodas, o PSD teve o pior  em quarenta e três anos de democracia. Um corte definitivo com o passado, a ruptura com Pedro Passos Coelho e com as suas políticas, que em verdade não deixaram saudades nos portugueses. O presidente do PSD prejudicou mesmo a marca "PSD" e alguns bons autarcas, que acredito que os haja, no seio do seu partido. É um homem teimoso, que insiste no suicídio político. Foi penoso ouvi-lo ontem, no seguimento do desastre em Lisboa, no Porto e em vários municípios do norte do país. Nos dois principais centros urbanos, posicionou-se como terceira força. A mensagem política é clara. Afastada que está a demissão, é provável que aguarde pelas primárias de Janeiro. Recandidatar-se à liderança é que não adivinho como possível, a menos que tenha perdido toda a dignidade e o que lhe resta, se restar, de bom senso.

    A estupefacção, quanto a mim, veio com os resultados da extrema-esquerda. O BE elegeu um vereador em Lisboa e aumentou a representatividade pelo país, mas a CDU perdeu bastiões comunistas no Alentejo e no distrito de Setúbal, como Almada e o Barreiro desde 1976. As forças de suporte ao Governo, pelo bom desempenho deste, saem prejudicadas. Para favorecer o PS, o eleitorado retirou peso político à CDU. Imagino a inquietação entre os comunistas, e estou de certo modo curioso para ver quais serão as suas relações com o PS a partir de agora. A extrema-esquerda portuguesa é, por natureza, contrapoder. A "geringonça", como lhe chamam, surgiu da necessidade de quebrar com um ciclo de austeridade. Com a economia estabilizada e com uma derrota eleitoral no saco, não vislumbro um PCP submisso, em consonância como até então, embora Jerónimo de Sousa evite traçar o paralelismo.

   Quanto ao CDS, conseguiu mais um município e obteve uma votação muito favorável em Lisboa. Eu, todavia, refrearia estes ânimos na capital, salvaguardando o conjunto. Quem ouvir Assunção Cristas, julgará que está perante a nova presidente da câmara. Em abono da verdade, fez uma boa campanha em Lisboa, pelo que merece os louros. Pôs o PSD para trás e reconfirmou a liderança no partido. Vejo-a como uma potencial líder da direita, que está órfã de uma referência. O partido soube fazer a transição entre um Paulo Portas desgastado por quatro terríveis anos de poder e uma centrista carismática.

    No Porto, o independente Rui Moreira, com maioria absoluta, renovou o mandato. Será em Isaltino Morais, passando pelos independentes, que temos a prova inequívoca de que a fama bate a idoneidade. Eleito com maioria absoluta à frente de Oeiras.

    As autárquicas têm uma leitura política nacional, como bem se viu.  Não raras vezes servem de cartão amarelo à governação, sendo que estas, de 2017, ficarão para a história como um castigo ao maior partido da oposição pelas suas políticas de 2011 a 2015, pela retórica gasta e crispada de Pedro Passos Coelho e pela desorientação e falta de visão política do PSD.  Há muito que aludo a uma urgente mudança. Entretanto, ninguém dá sinais de querer assumir as rédeas do partido. Todos se divorciaram desse passado negro intimamente ligado à dita troika. O grande erro, ainda voltando a Pedro Passos Coelho, foi o de supor que ou o país naufragaria ou os acordos com a extrema-esquerda não iriam tão longe. Falhou em ambas as análises.

     E em Loures, cidade limítrofe tão falada ultimamente, e para terminar, André Ventura, o populista candidato, não foi além de um terceiro lugar. A retórica extremista, em Portugal, decididamente não tem espaço. Foi uma má aposta, perdida. Os costumes do país não se compatibilizam com discursos reaccionários, sem prejuízo, devo dizer, de lhe reconhecer alguma razão no que disse ao longo da campanha - e foi também o entendimento do eleitorado, que deu, em Loures, um vereador ao PSD.

28 de setembro de 2017

Angola (parte II).


   O título vem a propósito de um artigo, com pouco tempo, sobre o afastamento voluntário de José Eduardo dos Santos. Parte dois, também, pela nova conjuntura que se vive em Angola, com o recém-empossado Presidente, João Lourenço. Quanto a nós, mera continuação, o que justifica, por fim, a parte dois, porque não vislumbro qualquer mudança significativa nas relações bilaterais entre as duas repúblicas.

   A tomada de posse de João Lourenço foi uma paródia no que toca a Portugal. Marcelo foi vaiado, omitiu-se Portugal enquanto parceiro angolano na presença do Chefe de Estado português, ou seja, todos os condimentos para uma cerimónia de investidura surreal desde o ponto de vista da cordialidade e do respeito institucional. O comportamento de Marcelo Rebelo de Sousa roçou a infantilidade. Os banhos em Luanda, a negação do que é evidente ao mais desatento: a classe política angolana não só não nos estima como faz questão de pouco ou nada o disfarçar. Eu diria mais: sente prazer em escarnecer-nos. Por mais que queiram transformar assobios em aplausos, a persistência em convencer-nos do contrário denuncia-os.

   O nosso grave problema, admitido recentemente por um dirigente da UNITA, é vergarmo-nos. A Angola, particularmente, sucedendo ainda com o Brasil. Ou com Espanha. Continuamos os mansos e estupidamente modestos de sempre, desde os tempos do Estado Novo. A democracia não nos fez brotar respeito por quem somos, orgulho na nossa história. O politicamente correcto - a desgraça do politicamente correcto - torna-nos numa piada no palco internacional. Verdadeiros bobos da corte.

   Marcelo, Marcelo Rebelo de Sousa, deve aprender a ser menos descontraído. A descontracção em demasia pode ridicularizar a sua imagem pública. Há momentos em que um Chefe de Estado deve saber assumir uma postura de maior rigidez e circunspecção. Assistimos, e eu considero particularmente danoso, ao achincalhamento de Portugal e das suas mais altas figuras. Portugal é a antiga potência colonizadora de Angola. O respeito mútuo, até em honra dos laços que partilhamos, deveria ser incondicional, estar acima de processos judiciais, designadamente, e aqui reside o epicentro deste mal-estar entre Portugal e Angola: as investigações portuguesas que visam individualidades do MPLA. Angola interpreta como ingerência o que eu, e todos de bom senso, interpreto como a independência do poder judicial e a actuação livre, e responsável, dos órgãos judiciais.

    O discurso de tomada de posse, regra geral, desvenda as linhas programáticas do titular do cargo em questão. Mencionar Portugal entre suspeitas, e de modo implícito, encerra uma mensagem subliminar clara: não contamos convosco. Só uma democratização empenhada em Angola poderia reverter este progressivo afastamento entre os dois países. E não sei se será com João Lourenço que Angola vai encarrilhar.

24 de setembro de 2017

100 Men / Queer Lisboa 21.


   Pela primeira vez, neste ano, fui ao Queer Lisboa, aceitando o convite de um amigo. Iríamos assistir a um documentário que, mal eu suspeitava, seria criativo, nada enfadonho, pouco se detendo naqueles temas-base de qualquer longa, curta ou documentário que versa sobre a dita comunidade. Bom, houve clichés, sim, mas não podemos desvirtuar o objecto que pretendemos explorar. Falar da comunidade homossexual é, necessariamente, falar da promiscuidade, da epidemia da HIV, da fragilidade das relações amorosas, do preconceito social... O que há neste documentário que não há noutros é a sequência pouco morosa. O documentário, melhor, os homens sucedem-se com as suas histórias pessoais, tragédias, características. Há uma linha cronológica e uma contagem decrescente que não permitiram ao director demorar-se com um determinado tema. E houve muitos. Quebrou-se com aquela tendência quase irresistível para retratar os oitenta como a década da morte. Claro que, a dado momento, houve quem contasse que passava os dias vestido de preto porque os enterros se sucediam. E ficou-se por aí.

   Cada homem que o director foi conhecendo acrescentou-lhe algo de novo. Cada um fê-lo vivenciar situações, cometer excessos. Aí surgiram os dilemas, entre os quais o da monogamia. O director estabelece uma relação com um homem, que sucumbe a engates, aos anos, não sem antes se ter transformado numa relação aberta. Retomariam posteriormente.
   Somos confrontados com as nossas idealizações: se calhar, diz-nos Paul Oremland, o príncipe encantado não existe, ainda que o queiramos encontrar. Existem homens de carne e osso, frustrados, psicologicamente desequilibrados, fetichistas, com mazelas físicas e morais. Um por um, todos o marcaram. O exercício inusitado de os descobrir levou-o a fazer uma retrospectiva curiosa. E é quase tudo desfiado com leveza - a contagem ajuda - como se tivesse sido uma juventude vivida no fio da navalha, mas muito divertida.

    À medida em que o documentário avança, percebemos que as inquietações mudam. Já não é a epidemia, que o cocktail medicamentoso resgatou a muitos da morte, senão o progressivo esvaziamento de uma comunidade e de um activismo que vêm perdendo a razão de ser. Quanto à primeira, as apps de encontros ditaram uma nova forma de os homens se conhecerem. Fará ou não sentido haver bares dirigidos especificamente a homossexuais? No activismo, as causas vão cedendo diante da aceitação social. Perdeu-se o espírito de grupo, a combatividade. Saíram dos guetos e da clandestinidade para as avenidas das grandes metrópoles. Sobeja o show off.

    Eu gostei, e aconselho a que o vejam.