13 de junho de 2017

Santo António já se acabou.


    Ontem, e porque não desgosto de arraiais, passei uma noite agradável num dos bairros típicos de Lisboa. A bem dizer, o que me motiva não é a música, como se calcula, nem a confusão; gosto de me inebriar naquele espírito folclórico, tão tradicional e carismático. Os Santos Populares são uma das imagens de marca do país, que fizemos o favor de exportar para o Brasil, nomeadamente.

    Não consegui arrumar uma mesa num dos inúmeros restaurantes. Foi mais divertido assim, porque saciei a fome com uma bifana e duas farturas, numa das barraquinhas alinhadamente dispostas pelas ruelas. Diverti-me imenso. Mais do que em jantares, do que em saídas repetidamente programadas. E tive a melhor das companhias. A noite e a tarde deram, também, para perceber quem quero e não quero na minha vida, quem deixei entrar e de quem me pretendo afastar, porque não me sinto bem quando estou por perto. E mediante que sou um ser solitário, muito auto-suficiente nos afectos (compensando a falta dela noutros), pelo menos sei que estou a salvo da malícia alheia.

     Demorei-me pouco. Cheguei a casa a horas decentes. Não dou os Santos por encerrados, não, porque pretendo repetir. Estamos no mês das festas, e ainda me falta comprar o manjerico.

8 de junho de 2017

A união das coroas de Castela e Aragão.


    No dealbar do século XV, mais concretamente em 1412, invocando-se razões dinásticas e de relação de forças nobiliárquicas e militares, havia-se chegado a um acordo, o Compromisso de Caspe. Através dele, determinava-se que o trono vago de Aragão seria ocupado por um nobre castelhano, Fernando de Antequera, à época regente de Castela devido à menoridade de João II, e desde então, também, rei de Aragão. Esta conjuntura vem sido entendida como um primórdio do que viria a ser a união das coroas castelhana e aragonesa.

    O filho de Fernando de Antequera, I de Aragão, Afonso V de Aragão, preferiu dar preferência aos seus interesses na península itálica. Ao tornar-se rei de Nápoles, deixou-se envolver a tal ponto pela cultura renascentista, que despontava, que não mais regressou à sua pátria. Entretanto, o seu sobrinho, Fernando, e futuro monarca daquela coroa, teria um papel determinante no processo histórico dos reinos peninsulares.

     Os laços de parentesco que uniam as diversas entidades peninsulares eram intrincados. Surgiam movidos pelos recorrentes matrimónios. Assim se estabeleciam alianças políticas. O Reino de Castela, num turbulento processo que não abordarei agora, coube a Isabel, no seguimento da morte do pretendente varão melhor posicionado e de ter sido afastada da sucessão outra candidata, a famosa Joana, a Beltraneja, cuja filiação sempre foi posta em causa e que colhia o apoio de D. Afonso V de Portugal, vencido na Batalha de Toro, em 1476, e que viria a reconhecer, três anos mais tarde, pelo Tratado de Alcáçovas (1479), a realeza de Isabel, casada com Fernando de Aragão. Estes dois monarcas ficariam irremediavelmente ligados à história de Espanha, pois o esboço do que seria a moderna Espanha que conhecemos deu-se por acção destas duas personagens.

     Levantara-se, antes, o problema de saber com quem deveria casar a jovem princesa, uma questão que envolvia os três reinos peninsulares, uma vez que a escolha do esposo equivaleria a unir Castela a Aragão ou a Portugal. Coube, aqui, a habilidade de João de Aragão e dos partidários castelhanos. Isabel aceitou Fernando em 1469. A nobreza castelhana, que ora apoiava Joana, casada com D. Afonso V de Portugal, ora Isabel, casada com Fernando II de Aragão, aquietou-se. Com a morte de Henrique IV, pai de Joana, em 1474, a guerra tornou-se uma inevitabilidade.

     O enlace de Isabel com Fernando, os Reis Católicos, não correspondeu à completa realização da tendência unificadora de Castela, mas a situações que poderiam sofrer alterações. Não havia, de jure, uma unidade. Castela e Aragão, e o mesmo se poderia dizer de Navarra, conquistada e incorporada em Castela três anos antes, mantiveram os seus foros e as suas prerrogativas separadamente. Nesse sentido, o matrimónio não configurou, pois, um remate do processo desencadeado, mas o surgimento de uma fase de unificação histórica, cujo destino dependeria da relação de forças e da vontade política orientada para uma entidade una. Castela, na união, assumiu um papel de preponderância. Possuía maiores recursos e depressa se tornou o epicentro da união. Foi Castela que dirigiu a política externa dos Reis Católicos, sem prejuízo de se considerar também as possessões mediterrânicas de Aragão, e não só os domínios atlânticos de Castela.

     Isabel de Castela revelou uma tenacidade que a levou a conseguir o que jamais algum outro rei castelhano havia conseguido. Munida de inquebrantável vigor, eliminou a desordem que se instalara entre a nobreza, e que tanta inquietação havia trazido ao reino. Ordenou pesadas sanções aos nobres que contra ela se haviam rebelado. Conseguiu até mesmo sujeitar as poderosas ordens da cavalaria, cujas riquezas começaram a servir os desígnios da Coroa, no seguimento do cargo de Grão-Mestre outorgado pelo Papa a Fernando, seu marido. As Cortes reuniam-se progressivamente menos, na política centralista que também se verificava em Portugal com D. João II, que subordinou a grande nobreza à Corte, tendo vencido o duque de Bragança e o duque de Viseu, em 1483 e 1484, respectivamente.

      De extrema importância para a política externa castelhana foi também a introdução, em Espanha, da Inquisição, bem assim como o recrudescimento da intolerância com os judeus e os mouros. Para os Reis Católicos, a religião católica, passo a redundância, representava um elemento fundamental na unificação. Era-lhes insuportável a convivência com o derradeiro reduto mouro na península, Granada, que havia conseguido sobreviver aos outros reinos mouros, muito devido à fragilidade da monarquia castelhana até então.
      A guerra teria uma duração de dez longos anos, até Boabdil capitular diante dos monarcas espanhóis, em 1492. Terminava, assim, um capítulo de oitocentos anos desde a ocupação muçulmana da península. No mesmo ano, Colombo descobria a América ao serviço dos Reis Católicos. Começava a desenhar-se um outro na história da nova potência peninsular, desta feita unificada.

5 de junho de 2017

Jantar de blogues.


    No sábado, realizou-se o jantar anual de blogues, um evento dinamizador da blogosfera. Venho participando desde a edição de 2013. Conheci alguns amigos, curiosamente os que se mantêm, nesse jantar. À distância de sete, oito anos, posso afirmar, com segurança, que alguns houve que recusei por não me sentir preparado. Preparado para me dar a conhecer. Não por temer, como muitos, perder a oportuna protecção do manto do anonimato, mas por não sentir afinidade suficiente para tal. Continuo a sentir-me confiante para abordar qualquer assunto, e o facto de progressivamente falar menos da minha vida pessoal prende-se ao processo evolutivo natural. As pessoas mudam, e a minha vida é pouco estimulante para que encha publicações.

    O jantar teve lugar num restaurante no Príncipe Real, o Frei Contente, a que faço publicidade porque considero um espaço acolhedor, com pessoal simpático e atencioso. A comida é boa, o preço é acessível. Gostei bastante. Já tinha gostado no ano passado.
    Confraternizou-se, revi um velho amigo. Sentaram-me à cabeceira. Foi fantástico, tive uma visão desafogada sobre os presentes.

    Seguiu-se uma visita curiosa, diria eu, ao bar de um hotel, o The Late Birds Lisbon. Não posso dizer que tenha ficado fã, todavia gostei do conceito e do sossego. A ideia, estou em crer, era a de proporcionar o diálogo, a partilha, o convívio. Ficámos comodamente instalados no piso de cima, com direito a música ambiente vinda de um arraial popular. Foi para lá que seguimos, onde estivemos por breves instantes. Um arraial dos Santos Populares, que Lisboa começa a ficar ao rubro. Muita gente nas ruas, pessoal jovem, sobretudo. Muito consumo de álcool, excessivo.

     A noite, pelo menos em grupo, terminou com a ida a uma festa, se é que lhe podemos chamar assim, a Conga. Foi a minha primeira, e seguramente a última, não porque tenha algo contra, nada disso, mas porque sofrerei, avento eu, de uma hipersensibilidade auditiva. Entrei, fiquei nem dez minutos e saí. Eu sinto dor nos ouvidos. Não se trata de não gostar de sons excessivamente altos; trata-se, isso sim, de um profundo desconforto. Felizmente, o segurança percebeu o meu incómodo e aconselhou-me a falar com a menina, que devolveu o dinheiro. Ainda estive uns minutos sentado num parapeito, à entrada, e fui alvo dos olhares indiscretos de um matulão moreno. Nada que deixasse de me fazer sentir como peixe fora d'água. Muito respeito para quem gosta, eu não me identifico. Prefiro barzinhos, cheguei a insinuar um, que não colheu o apoio necessário.

      E por aqui ficou a minha noite, com uns imprevistos pelo meio, que se ultrapassaram.
      Reitero, uma vez mais, que gostei muito, principalmente pela companhia. Diverti-me, e isso compensa. Aprendi umas coisinhas por outras: noitadas, em circunstâncias análogas, não se repetirão.
      Uma palavra ao organizador, o adolescente, que está de parabéns; à leitora Magg, autora do banner, e a todos os que participaram.

31 de maio de 2017

The Circle.


   Abri uma excepção àquilo que havia dito, ou seja, que iria reduzir os artigos respeitantes às minhas idas ao cinema. Não deixei de ir; pelo contrário, tenho ido mais do que nunca. Não quero, até porque não levaria jeito, passar a ideia de que pretendo tornar-me num crítico de cinema. Falta-me bagagem cinematográfica (eu bem digo que serei um gajo interessante aos cinquenta anos).

   Este The Circle merece, então, a excepção. Desde o Lion, algures por Fevereiro, presumo, que um filme não me suscitava tanto o interesse. Não li qualquer sinopse. Sabia que tinha assistido a um trailer, mas tão-pouco me recordava de nada.

    A empresa / rede social Circle é um eufemismo de outra empresa que tão bem conhecemos. Com planos que deixariam Orwell corado, Bailey, protagonizado por Tom Hanks, acredita ser possível conectar o mundo na sua rede, deixando a descoberto a vida de biliões de pessoas. Mae Holland consegue uma entrevista para trabalhar na empresa, ficando com o lugar e apercebendo-se desde cedo que pouca ou nenhuma privacidade era permitida aos funcionários da Circle. Desde as actividades nos dias de folga até aos batimentos cardíacos, tudo era monitorizado por funcionários.

     Mae torna-se pioneira num projecto-piloto, quando passa a estar 24h por dia a ser seguida por milhares de pessoas através de câmaras devidamente instaladas no seu quarto e na sua casa. Umas microcâmaras, camufladas, inclusive, eram o último grito em tecnologia, que permitiria colocar o mundo online, encontrar qualquer pessoa em milésimos de segundo, votar em actos eleitorais, tornando cidadãos e governantes, países, a bem ver, reféns da Circle.

      O filme, como se adivinha, levanta problemas éticos. Até que ponto a tecnologia pode comprimir a nossa privacidade, expondo a nossa intimidade a estranhos. Um tema actual e nada fictício. Não haverá legislação alguma que consiga proteger-nos dos avanços tecnológicos. A tendência é para que progressivamente sejamos controlados. Recordo-me, em miúdo, isto em 2001, de instalarem duas enormes câmaras no recreio do colégio. Sentia-me permanentemente vigiado. Ainda que os tribunais se decidam por inconstitucionalidades várias, os benefícios sobrepor-se-ão. Governantes e governados, na deriva securitária, exigirão bases de dados, visionamentos permanentes. As microcâmaras farão com que nem saibamos que estamos a ser observados. Conscientemente, já partilhamos várias das nossas actividades online, onde estamos, o que fazemos e com quem. Eu mesmo.

      O interesse do filme reside aí. Faz, pelo menos foi esse o efeito que teve em mim, com que coloquemos questões básicas. Um acto tão comum como pegar no telemóvel e publicar que estamos no cinema X à hora Y pode ter consequências nefastas, por-nos em perigo, desde logo, e permitir que dados referentes à nossa vida sejam monitorizados sabe-se lá em que parte. As sedes pouco contam num mundo virtual. Clara Ferreira Alves, jornalista, tem-se pronunciado, e com ela concordo, sobre estas matérias. Convém que saibamos quando desligar. E, uma vez mais, aplico-me o conselho.

      Uma palavra para os actores: o Tom Hanks, as usual, fenomenal; a Emma Watson continua com aquele ar da miúda do Harry Potter, não cresce, decididamente, e não me pareceu ter uma actuação fora de série. Foi boazinha no que fez, esforçou-se. O filme vale pela inquietação que provoca.