14 de maio de 2017

Amar por todos.


    Uma noite inesquecível para Portugal, semelhante àquela que vivemos nem há um ano, com a vitória no Europeu de futebol. Porque estes eventos, ainda aos que não lhes atribuem qualquer significado, colocam-nos sob a mira de milhões, dão-nos alento, são quase que o grito que damos ao mundo. Existimos. Conseguimos ser os melhores.

     Eu, particularmente, não aprecio a Eurovisão, mas deixei-me embalar no bonito poema que Luísa Sobral escreveu para que o irmão o cantasse. Há aquele coração dela que pode amar pelos dois, sobretudo pelo dele, por todos os problemas que vieram a público. É um poema que, cantado, acompanhado pelos violinos, ganha uma dimensão que não parece resultar das suas palavras aparentemente tão simples.

     A língua portuguesa brilhou em Kiev. Pôs estrangeiros a chorar ao som da voz de Salvador, muitos dos quais não compreendendo nada. É a linguagem universal da música, a capacidade de nos comover. Amália teve a experiência pela União Soviética e pelo Japão, quando entoou grandes poetas portugueses.

      Amar Pelos Dois conseguiu, ainda, transportar para a Europa toda a alma portuguesa, nostálgica, melancólica. É o triunfo do Portugal português, sem adornos, sem danças histriónicas e maquilhagens pesadas. Um homem e um microfone. A voz e a sua expressão corporal tão peculiar comunicaram com a Europa de lés a lés. Não precisámos de mais. Limitámo-nos a ser o que verdadeiramente somos: simples.

      A nossa língua e o Salvador estão de parabéns. E a irmã do Salvador. A vitória é-lhes inteiramente merecida. Obrigado por levarem a portugalidade até à Hungria, à Lituânia, à Geórgia e a tantos outros. Imprimimos o nosso nome na história do maior evento musical anual europeu.

10 de maio de 2017

Fátima.


   Fátima tem sido, pelos tempos, um assunto tabu para mim, a ponto de, presumo, nunca o ter abordado aqui. Na família, tenho de tudo: crentes, menos crentes, a mãe é crente. E eu nem sei como me hei-de posicionar. Por temor reverencial, assumo, provavelmente tenho evitado debruçar-me sobre as aparições. Evito pronunciar-me, não vá ser verdade. É cobardia, é, mas também é respeito. Tive uma fase mais esquerdista na minha adolescência, antes de me ter posicionado, e em definitivo, assim espero!, ao centro. Ainda assim, jamais afrontei a religiosidade alheia. É disparatado. Podemos discordar, sim - devemos, aliás, se é o que a nossa consciência dita - mas, em matérias tão sensíveis como a religião, devemos ter um cuidado redobrado. A fé não se explica. É tão forte que chega a curar, a melhorar sintomas de doenças. Até pelos seus aspectos positivos, deve ser respeitada e reconhecida como potencialmente importante. Dos seus efeitos perversos está a História cheia, e bem os conhecemos.

    Sou católico. Deixo-o aqui de forma clara. No tal período de indefinição, típico da adolescência, passei a agnóstico, quase ateu. Estava mesmo chateado com Deus. Quando os pais se separaram, aumentou essa desconfiança sobre uma figura qualquer que nos vendiam desde pequenos, sobretudo procurando atemorizar-nos com castigos. Crescer fez-me bem, até na religiosidade, porque percebi que não havia mal algum em acreditar em Deus e em até ser católico, podendo expurgar o que considerava estar errado na Igreja. Ser católico, pelo menos quanto a mim, não implica perfilhar de todas as orientações doutrinárias da Igreja. Oponho-me a algumas, concordo com outras tantas. E identifico-me como católico porque acredito na pedra angular, se me permitem, do catolicismo, que me reservo a não explorar aqui porque não é pertinente. Noutro momento, se se proporcionar, não terei problema algum em fazê-lo.

     Fátima é um dos enigmas que não dou por garantido. Ponho em causa a sua veracidade desde que me conheço. Não que desconfie da palavra dos pastorinhos, mas tento explicar Fátima contextualizando-a no tempo. As aparições foram oportunas. A anticlerical I República havia arrastado Portugal para a I Guerra Mundial - o erro que ditaria ao seu fim. O país precisava recuperar a crença, então perseguida pelos republicanos. E Fátima sustentaria o golpe de 1926 e, sobretudo, o Estado Novo de Oliveira Salazar, fortemente inspirado na doutrina social da Igreja. Fátima, pelas décadas, configurou um dos pilares do regime. Cresceu em importância e em volume de negócios. Hoje, é um fenómeno que gera milhões. Lembra-me, às vezes, os vendilhões que Jesus expulsou do templo. Quando olho para o santuário, vejo muita fé verdadeira de milhares de pessoas que para lá se deslocam, e que isso lhes faça bem; em contrapartida, há ganância, oportunismo e visível cinismo, arriscar-me-ia a dizer, por parte das entidades que gerem, e é este o vocábulo apropriado, aquele manancial de dinheiro.

     Não quero entrar muito pelas questões que se prendem mais à fé: a senhora mais brilhante do que o sol, o dito milagre - que a ciência tem procurado esclarecer, com argumentos muito lúcidos - os segredos. Tudo é possível nas efabulações. As pessoas precisam de acreditar em alguma coisa. Em religiões da palavra, como o são as religiões abraâmicas, não há, tendencialmente, símbolos e imagens. E os crentes precisam disso, precisam de orar defronte a uma imagem, de acender uma velinha, de ostentar uma cruz que os proteja. É tudo compreensível. Faz tudo parte desse grande mistério da fé. E Portugal precisava de ter um importante local de culto, como Lourdes. Um país tão católico, tão absorto na sua religiosidade e na sua tradição, não poderia passar sem.

     Simultaneamente, as manifestações de crendice e os exageros que as rodeiam não deveriam surpreender. Em mim, entretanto, continuam a provocar certa consternação. Não me sinto confortável quanto vejo o meu Chefe de Estado a beijar a mão ao Papa, um líder religioso, da religião maioritária em Portugal, seguramente que sim, mas que representa determinada instituição, sendo que o Chefe de Estado, investido como tal, representa o Estado português, laico. Incomoda-me, ainda, ver um militar, no exercício das suas funções, referir-se a um líder religioso com deferência excessiva, demonstrativa da sua crença pessoal, quando pertence às forças armadas do Estado português, laico, repito, bem como me incomoda que se suspendam acordos internacionais, que vinculam o Estado português, na recepção a um líder religioso. Se a ameaça terrorista o exige, pois ela existe para todos os cidadãos, não apenas para alguns, lá que sejam sucessores de Pedro. Se os acordos que prevêem a liberdade de circulação não protegem os direitos constitucionalmente previstos, termine-se com eles. E, aqui, de nada releva estarmos perante um Chefe de Estado estrangeiro. Vários Chefes de Estado estrangeiros têm vindo a Portugal e, que me conste, não se repôs o controlo fronteiriço.

     Fátima continuará a suscitar opiniões díspares, umas mais racionais, outras espirituais. Encontrar-se-á o equilíbrio ao manter o Estado equidistante o suficiente. Deixar com Deus o que é Deus, e limitar-se a ficar com o que é de César.

8 de maio de 2017

La France.


    Temi, assumo, temi que verificássemos o mesmo resultado que nos aguardou nos EUA. A Europa tem conhecido uns desvios à direita mais intolerante um pouco por cada país, desde os Países Baixos à Itália, à Turquia, inclusive, mas a França representa para todos bem mais. É a pátria da igualdade, da liberdade e da fraternidade, valores que presidem à Europa continental democrática. A França foi a primeira a enterrar o Antigo Regime, não sem passar por períodos políticos muito convulsos, afirmando-se como potência europeia e mundial. O expressivo império que ergueu prova a sua hegemonia. No campo das ideias, poucas nações como a francesa terão contribuído tanto para o nosso enriquecimento no direito, na filosofia, na politologia, na sociologia, áreas do conhecimento que influenciaram decisivamente épocas e regimes.

    A França representa, ainda, o empenho solidário do bloco europeu. É um baluarte na União Europeia, o seu sustento ante uma Alemanha economicamente dominante. Com o Brexit, que é uma evidência, a esperança de um eixo Paris - Berlim que permita contrabalançar o poderio da Alemanha desvanecer-se-ia, confirmando-se a vitória da Frente Nacional. O sistema francês é semipresidencialista, todavia, e inversamente ao português, com a tónica no presidencialismo. O Presidente da República é, efectivamente, o chefe da nação francesa, o definidor das orientações políticas no relacionamento da República com Estados terceiros.

     Le Pen, com o seu programa populista, poria a Europa numa crise de sustentabilidade política jamais vista. Se a UE agoniza, a líder da FN, numa França dominada tradicionalmente pelo aparelho estatal, de tudo faria para afastar o país da organização, deixando-nos a todos num impasse: sair ou ficar, condescender ou enfrentar. A decisão dos franceses nas urnas foi sábia. Emmanuel Macron tem fragilidades. Representa o sistema, com todos os seus vícios, mas soube - e ele próprio situa-se no centro político - manter um discurso equilibrado, nada excludente, pelo contrário, integrador. Enfrentou Le Pen, não a subestimando - o grande erro que se cometeu nos EUA, e conseguiu que se comprovasse nas câmaras a fragilidade das ideias de Le Pen, demagógicas, que procuram sempre aquele travo de intolerância que todos teríamos com atentados quase semanais à porta de casa. A obsessão securitária, tão previsível, e que Le Pen assumiu frontalmente, foi desconstruída. A França que a FN vendia não era a França tolerante, europeísta, laica e secular que os franceses querem ver assegurada.

     A distância que separou Le Pen e Macron, nesta segunda volta, foi expressiva. Não devemos, contudo, ignorar os onze milhões de eleitores que confiaram em Le Pen. Foi o melhor resultado da Frente Nacional, superior ao obtido em 2002, quando o pai da actual líder, Jean-Marie Le Pen, defrontou Jacques Chirac numa segunda volta. Analisando os resultados da Frente Nacional, observamos uma tendência crescente, preocupante, considerando que muito em breve os franceses terão eleições legislativas. E Macron, que há um ano ninguém diria que este desfecho seria ponderável, tem a seu favor o resultado de hoje, não acreditando eu numa surpresa a tão pouco tempo. Independente, afastou os partidos do poder da luta pelo Eliseu. É um fenómeno. Espera-se que o movimento que lidera consiga um número muito apreciável de assentos na Assembleia Nacional, mas não o suficiente para se afastar uma convivência difícil com um Primeiro-Ministro de outra cor política ou com uma composição parlamentar minoritária e adversa, o que obrigaria, como bem conhecemos em Portugal, a alianças que permitam a condução governativa do país.

     Por enquanto, e porque estes actos eleitorais das potências europeias têm sempre repercussões nos pequenos Estados periféricos, podemos suspirar de alívio. Macron é pró-europeu, segue a linha da continuidade. Uma continuidade que nos é favorável. O resto é com eles.

5 de maio de 2017

O Dia da Língua Portuguesa.


     Há uns poucos anos, o dia 5 de Maio foi institucionalizado como o Dia da Língua Portuguesa no seio da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Cada país comemorá-lo-á na sua data. Em Portugal, por tradição, a 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades; no Brasil, a 5 de Novembro, Dia Nacional da Língua Portuguesa. O dia de hoje passou relativamente despercebido entre os cidadãos lusófonos, acompanhando a fragilidade da própria CPLP. Irei falar pouco da organização, que, recordo-me, escrevi sobre ela há uns meses.

     Em que patamar estamos quanto ao nosso idioma? Pelo que venho percebendo, a língua portuguesa vem suscitando o interesse de milhões de não-lusófonos. Pela China e pelo Japão, ganha adeptos. O desditoso Acordo Ortográfico, que jamais logrou o consenso e que ainda carece de ratificação por parte de alguns Estados-membros da CPLP, está em vigor com lacunas e com falta de suporte popular, aqui e no Brasil, que os PALOP e Timor têm mais em que se preocupar. No plano das ideias, é bom ter um idioma unificado, idealmente uniformizado. Quem conhece o Acordo, sabe que a uniformização é uma falácia. As omissões são mais que muitas. A eliminação de sinais gráficos e de determinadas consoantes tornou, em alguns casos, vocábulos em aberrações ortográficas, esteticamente feias, linguisticamente intoleráveis.

     A despeito das polémicas, é de saudar a unidade da língua. É ainda de saudar que os países africanos que foram antigas províncias ultramarinas a tenham adoptado como seu idioma oficial, veicular. Que o Brasil a use, ao seu jeito, com desinvestimento dos sucessivos governos na educação e com milhões que a dominam mal, mas que a use e que lhe chame aquilo que ela é, portuguesa. Que os timorenses a queiram aprender cada vez mais. Em quinze anos de independência, passámos de 5 % para 20 % de timorenses que conseguem expressar-se em português, provavelmente longe do domínio aceitável, mas encarando-a como elemento identitário e diferenciador. Ora, temos, lusófonos, de observar o lado positivo. Temos um idioma uno. Há, por parte das entidades governativas, vontade em mantê-la coesa. Em ensiná-la. O Instituto Camões, que vem-se substituindo em competências ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa, está presente em variadíssimos países. Centenas de milhares de alunos aprendem-na com avidez. Namíbia e Uruguai são dois exemplos de países que, pela proximidade a Angola e ao Brasil, respectivamente, vêem uma mais-valia na inclusão da língua portuguesa nos seus currículos.

     Um dos principais desafios para as próximas décadas, a par da propagação do idioma em países alheios à lusofonia, é o de se cimentar a língua portuguesa nos falantes maternos, procurando-se que estes atinjam um domínio culto do idioma, que consigam formular raciocínios bem estruturados, com uma ortografia e uma sintaxe aceitáveis. Não basta saber falar; há que saber falar bem. O futuro da língua portuguesa depende do grau de domínio dos seus falantes, sob pena de uma crioulização, uma simplificação rotineira que, a longo prazo, poderá comprometer a existência do idioma tal qual o conhecemos.