Fomos, enquanto europeus, partilhando uma matriz cultural comum, surpreendidos com as notícias que nos chegaram de Itália. As autoridades italianas, num assomo servilista, resolveram cobrir algumas estátuas que pudessem ser consideradas chocantes ou ofensivas ao líder iraniano, o seu Presidente, Hassan Rouhani, numa visita que efectuou a Roma por forma a se encontrar com o Primeiro-Ministro italiano.
A atitude provocou reacções diversas. Itália é uma referência, território de onde emergiu um dos maiores impérios que a humanidade conheceu, que se espalhou pela Europa, pelo Médio Oriente e pelo norte de África, propagando a sua hegemonia cultural e linguística, da qual somos herdeiros. A sua arte, pelos séculos, inspirou artistas oriundos de toda parte. No Renascimento, assistimos a uma recuperação do legado latino que se havia perdido. Actualmente, pela arquitectura, pela literatura, pela filosofia, pela política, pela escultura, pela música, designadamente, encontramos expressões do espólio romano, primeiramente, e das inúmeras realidades políticas que dominaram o território que hoje compreende a Itália, unificada no século XIX.
Com efeito, a Europa demonstra a sua tolerância, a sua capacidade quase inumana de ceder. Impelidos por uma necessidade de redenção dos pecados de um passado não tão longínquo assim, a tudo somos complacentes, permissivos.
Há, porém, um factor que explicará melhor esta opção das autoridades italianas: os negócios de somas avultadas, de milhões de euros, que estiveram subjacentes à visita do Presidente do Irão. Após o levantamento das sanções económicas impostas ao país islâmico, pela ONU, alguns Estados europeus apressaram-se a procurar vantagens para as suas empresas.
Adversamente, os fluxos de refugiados do Médio Oriente confirmam o interesse que o Velho Continente continua a suscitar nas populações. Os casos que nos chegam através dos media relançam o debate em torno da convivência pacífica de culturas tão distintas entre si. Os movimentos de extrema-direita agudizam-se, recrudescem o seu discurso odioso, incentivando à revolta. A Dinamarca, insuspeita de ser um Estado intolerante, aprovou um pacote legislativo que contempla o confisco de bens dos refugiados, medida que está a ser severamente criticada pelos seus parceiros europeus, onde Portugal se inclui. Mais a norte, a Suécia prepara uma expulsão massiva de refugiados, como natural consequência da rejeição dos pedidos de asilo.
Bem como salientei há meses, os países europeus desvalorizaram o impacto que teria, nos respectivos tecidos sociais e económicos, a chegada de milhares de pessoas em vagas descontroladas. Aos tradicionais discursos de boa-vontade e de hospitalidade, seguiu-se o confronto com a nossa incapacidade de integrar costumes e comportamentos tão próprios, embora nos comprometêssemos em respeitá-los.
Na generalidade dos Estados islâmicos, não há leis que protejam, com eficácia, as singularidades religiosas e culturais das minorias. Desconhece-se a separação do Islão do Estado. Direito e Corão misturam-se. Naturalmente, as pessoas que provêm desses países não compreendem o caminho que trilhámos e que culminou na tolerância e na demarcação bem clara do papel que a religião deve assumir na sociedade. Os conflitos são, nesse sentido, uma inevitabilidade.
Mantemo-nos politicamente correctos, flexíveis, transigentes. Não exigimos reciprocidade.
Confundimos respeito com subserviência, cordialidade com submissão. Trocamos valores por dinheiro.
Estamos sem rumo, e perdemos progressivamente o controlo das nossas acções.