O autoproclamado Estado Islâmico, sem qualquer reconhecimento internacional, nunca me mereceu a menor atenção. Mais um grupo jihadista, fundamentalista, pronto para propagar e fazer impor pela força as suas convicções, na lógica da linha a que organizações terroristas como a Al-Qaeda nos vêm habituando. O que, todavia, distinguirá este grupo é a sua bem sucedida campanha militar, aproveitando conflitos armados e cenários de instabilidade política para ir conquistando, cidade em cidade, reduto em reduto, parcelas de território pelo Iraque e pela Síria.
A intolerância religiosa, que é tónica em organizações desta índole, sobressai no designado Estado Islâmico. Minorias católicas são perseguidas, convertendo-se forçadamente ao Islão, sob pena de morte. Também minorias dentro da grande família islâmica, como os xiitas, são alvo fácil da repressão e do extermínio. E se a igualdade entre o homem e a mulher não passa de uma miragem na generalidade dos países de maioria muçulmana, não laicos, nas áreas controladas pelo Estado Islâmico as mulheres estão subordinadas às estritas e rigorosas leis da Sharia, agravadas, recrudescidas, sujeitas a todo o tipo de humilhações e sevícias, inclusive sexuais, vítimas de estupros e de sequestros.
Tão-pouco o património cultural do Iraque escapa à fúria jihadista. Monumentos são destruídos impiedosamente, em tentativas de fazer sucumbir as idiossincrasias de um povo.
A comunidade internacional apaticamente vem reagindo, com declarações superficiais, carecendo de efectivos esforços na luta contra tamanha barbárie.
Como todos os grupos que defendem a conquista de um espaço vital, agora como no passado, também o Estado Islâmico faz referência, frequentemente, ao que designa como o seu califado. Amplos territórios que englobam todo o Médio Oriente, Magrebe e ainda um bom pedaço da África ocidental, central e oriental; a Ásia Menor e boa parte da Europa de Leste, bem como Estados a sul da Rússia, outrora pertencentes à União Soviética; e... a Península Ibérica, ou a Al-Andalus, como a denominam, na senda dos seus antepassados.
Não somos povos estranhos aos muçulmanos. Pelo contrário, surgimos, portugueses e demais povos da Hispania (hoje espanhóis), nas guerras pela reconquista peninsular, desde a conquista islâmica iniciada em 711 e só travada por Carlos Martel em 732, na Batalha de Poitiers. Durante séculos, debatemo-nos na reconquista cristã, logrando nos nossos intentos e fazendo o território da Al-Andalus diminuir, progressivamente, à medida em que os muçulmanos iam perdendo o Algarve (conquistado por D. Afonso III em 1249), Córdova, Sevilha e, por fim, Granada, em 1492, o que veio permitir apenas uma reunificação tardia das Españas, porém sem Portugal. Desde então, a reocupação da península paira como um desejo ardente em algumas facções islâmicas extremistas, incorporadas pelo actual Estado Islâmico, que adoptou esse objectivo nas suas intenções.
Incauto será aquele que procurar subestimar a capacidade do Estado Islâmico em conseguir provocar o pânico e até, levando vantagem, poder perturbar os nossos Estados democraticamente constituídos, assentes em sociedades plurais e livres. As alianças que firmámos poderão não ser suficientes para suster a ameaça. Não temos um longo oceano que nos proteja, como os E.U.A, e nem os Pirenéus a servir de barreira. Agora como dantes, o estreito de Gibraltar não é entrave.
Desdenhar do adversário tem provocado sérias derrotas ao longo dos tempos. Precaução, alianças, visando um entendimento e consensos estratégicos, particularmente entre Portugal e Espanha, os alvos, mas também alargados, com a Europa - que é parte interessada (não podendo esquecer que a cobiça estende-se à Europa de leste), são indispensáveis para podermos falar de algum grau de segurança e de tranquilidade que perdure.