29 de março de 2016

O meu primeiro beijo.


    Ao percorrer alguns blogues, soube que se iniciara uma breve sequência de textos referentes ao primeiro beijo. Não que seja partidário destas correntes, que não o sou; no entanto, reportaram-me a uma era de inocência pueril e de magia, que não podia deixar passar em vão.

     O meu primeiro beijo teve o romantismo expectável na adolescência. Ainda assim, tive direito a mão no pescoço, a afago na perna, a sorrisos e a um abraço. Deu-se num vão de escadas, no colégio, no final das aulas, numa tarde quente de Maio. Há muito que o desejo pairava sobre nós. Da minha parte, julgo ter havido o que vulgarmente designamos de amor; da outra, um misto de curiosidade e de notória excitação - quando digo notória, abarca as diversas acepções do termo.

    Beijámo-nos bem, sem choque entre dentes, sem saliva a mais. Anos e anos de beijos técnicos na televisão hão-de ter a sua utilidade. Um beijo sôfrego, prolongado, muito pouco estático, inquietado pelo barulho em redor e pelo receio de sermos observados.

   Haveríamos de o repetir noutras ocasiões. Até que nos afastámos, naturalmente. O momento ficou gravado nas minhas recordações. É raro socorrer-me dessas memórias, mas elas perdurarão indefinidamente.

26 de março de 2016

Páscoa.


     A tradição cristã, mormente a católica, leva-nos, cá por casa, a comemorar a Páscoa. É a festividade religiosa preferida da mãe, que não gosta particularmente do Natal. Devo dizer que a Páscoa nunca assumiu significativo relevo para mim. Não goza do brilho do Natal, com todos aqueles enfeites, luzes e brilhos. Como passo bem sem amêndoas e nem sou fã de chocolate, a Páscoa resumia-se, e não era pouco, aos quinze dias de férias, que a faculdade fez questão de reduzir.

      Entretanto, fui percebendo o que a Páscoa implicava. Não que não o soubesse em pequeno, que o sabia, mas não determinava o seu alcance. É uma época de comunhão, como o é o Natal, revestindo-se de especial importância para os crentes. Jesus morreu para a redenção dos nossos pecados, permitindo-nos obter a vida eterna.

      É-me importante acreditar. Não somos um fruto do acaso, que nem o acaso seria inteligente. Haverá uma fonte primária. Bem sei que nos tempos actuais é moda criticar-se a religiosidade alheia, associando-a ao fanatismo. Como se crer na palavra de Jesus fosse antiquado, extemporâneo. Confundem os conceitos. Religião com Deus, com Jesus, assumindo que são uma mesma realidade - que não são. Eu diria que cada um tem o seu rito pessoal, a sua fé, manifestando-a ao seu jeito.

      A palavra de Jesus propagou-se pelo Império Romano pelo seu carácter inovador. Pela primeira vez, um homem teve a coragem de desafiar a autoridade do Imperador e do seu Cônsul, arguindo que o poder que detinham provinha do Altíssimo. Fez-nos a todos iguais, irmãos de sangue, com o dever de nos amarmos; de amar não só a quem nos ama, que nenhuma recompensa traria, mas amar aos nossos inimigos. Um profeta dos escravos, dos doentes, dos oprimidos, dos criminosos - Jesus prometeu o Paraíso ao bom impostor crucificado a seu lado. Que trouxe a salvação consigo. A esperança justificou a adesão, e em poucos séculos Roma estava rendida a Cristo.
        Não há maior pecado do que aquele que possa ser perdoado, assim confiemos na misericórdia infinita de Deus.

23 de março de 2016

De Havana a Bruxelas.


    São três, de entre vários, os assuntos que marcam a actualidade nacional e internacional, em dias particularmente profícuos em acontecimentos. E se anteontem todos tínhamos motivos para sorrir, com a reaproximação entre Cuba e os EUA, esbatendo-se a barreira de décadas que se interpôs entre os dois países, esta terça-feira trouxe a dor, o pesar. O luto.

      Comecemos pela visita histórica de Barack Obama a Cuba, o primeiro Presidente dos EUA a fazê-lo em perto de noventa anos. Após o reatamento das relações bilaterais, no final de dois mil e catorze, a administração Obama tem vindo a estimular os contactos entre os países desavindos. Estivesse Fidel Castro à frente dos destinos cubanos e, provavelmente, não teríamos a oportunidade de visionar a belíssima foto, que certamente ficará nos arquivos históricos da humanidade, de Obama, em sentido, com a imagem do guerrilheiro Che Guevara à sua retaguarda. Um dos últimos bastiões do socialismo dá sinais da abertura ao Ocidente e, quem sabe, à economia de mercado. Obama foi explícito ao reconhecer que a mudança caberá ao povo cubano, e somente ele terá a responsabilidade dessa empreitada. Washington e Havana não serão os melhores amigos a partir de agora. As divergências persistem, mas um primeiro importante passo está dado. Vislumbra-se o levantamento do embargo comercial, imposto desde os anos sessenta do século passado, para muito breve. Não obstante, foram assinados alguns acordos de cooperação em áreas específicas.

    Cuba terá um longo caminho a percorrer. Conhecemos as fragilidades no respeito pelos direitos humanos na terra de Fidel. Não há qualquer liberdade de participação cívica e política. Os cubanos desconhecem os direitos à livre expressão, à livre opinião, à livre manifestação. Ainda que Raúl Castro o evite, há presos políticos. No dia da chegada de Obama, ironicamente, uma manifestação foi reprimida, desanimando todos aqueles, onde me incluo, que se regozijam com estes tímidos avanços.
       Em todo o caso, Obama finalizará o seu mandato, que está a meses de findar, com uma viragem de página nas relações que se querem fraternas entre os povos.


       Gostaria ainda de reservar umas palavras para a polémica em torno da celebração da missa, um ritual religioso católico, em escolas públicas, com alegadas repercussões negativas aos alunos que se recusem a participar. Não me parece correcto que em estabelecimentos de ensino oficiais se realizem cerimónias de culto, sendo, contudo, sensível ao argumento da tradição católica enraizada nas comunidades. O Estado não pode, por dispositivo constitucional, programar a educação dos alunos segundo directrizes religiosas. E a Constituição consagra, sem equívocos, a laicidade do Estado.
      Incomoda-me, também, saber que as homilias têm lugar durante o horário lectivo, o que se me assemelha inaceitável. Vivemos num Estado que não é confessional, que não pode impor aos alunos a submissão a rituais com carácter religioso. Não veria com maus olhos que fosse facultada aos alunos católicos a possibilidade de participarem na missa fora do horário escolar, e que o mesmo não implicasse qualquer desvantagem para os demais que optassem por não se associar.


       A Europa acordou, na manhã de ontem, com as notícias dos hediondos atentados em Bruxelas, já reivindicados pelo Daesh. Será prematuro avançar com informações, é tudo muito recente, sabendo-se, porém, que estará pelo menos um autor a monte. As mortes ascendem a mais de três dezenas; os feridos são às centenas. Impressionou-me imenso os gritos assustados das crianças enquanto abandonavam as carruagens e se encaminhavam para o recinto, que presumo ser o da estação de metropolitano.
        Estes homens vivem indiferentes ao sofrimento alheio, agindo em nome de um deus que decerto rejeita tais banhos de sangue; que não é o deus dos cristãos, nem dos muçulmanos ou dos judeus. O deus desta gente é o deus do terror, da barbárie. Um deus sanguinário que existe nas suas mentes perversas.

          Nós, europeus, vamos perdendo a longa guerra contra o terrorismo. Não nos acostumámos a viver em assombro, teimando em encarar os dias com naturalidade. O inimigo não está à porta; ele habita entre nós. Tornámo-nos mais securitários, mas como conjugar as liberdades individuais com a necessidade que o Estado tem de a todos controlar? É um exercício que temos de encarar com seriedade: se preferimos prescindir um pouco mais da liberdade em prol da segurança. Estamos na defensiva. Lidamos com homens e mulheres que agem sorrateiramente, que estão dispostos a perder a vida por uma guerra que dizem santa.
          Não quero acreditar que este será o nosso dia a dia daqui para a frente. Não nos reconhecemos nesta Europa. Desde o início do século, com os atentados em Nova Iorque, a maior ameaça à paz global é este fenómeno que vai deixando de ser tão novo assim. Actos isolados, cobardes, perpetrados por verdadeiros facínoras.
          Os palcos da instabilidade deixaram de ser aquela realidade distante dos confins do Médio Oriente. Como François Hollande diz, «estamos em guerra». Eu acrescentaria mais: desorientados, cheios de medo, sem saber o que fazer. Eles conhecem o nosso medo e o que temos a perder. Já ganharam. Estamos, desde há muito a esta parte, permanentemente em sobressalto.

21 de março de 2016

A queda de um anjo.


    A recente crise política no Brasil ultrapassou as suas fronteiras, recebendo Portugal as ondas de impacto; pelos laços históricos que nos unem à Terra de Vera-Cruz e pelas alegadas implicações da Operação Lava Jato com um processo que decorre actualmente na justiça portuguesa, a Operação Marquês.

   Lula da Silva, um dos inúmeros nomes envolvidos nestes mega processos judiciais, vê-se confrontado com a indignação dos seus opositores e com o apoio velado de quem acredita que tudo não passa de uma perseguição política àquele que foi um líder incontestável no Brasil. Lula, com o PT, e durante os anos dos seus mandatos, ajudou a construir uma classe média até então inexistente; com os programas "Bolsa Família" e "Fome Zero", milhões de brasileiros puderam estudar, saciar a fome crónica que teimava em colocar o país nos números cimeiros de todas as listas de desigualdades sociais. Em suma, Lula da Silva foi o obreiro de um país mais justo, mais humano, mais igualitário. Dilma, sua sucessora, seguiu os seus planos, não possuindo, todavia, o carisma do ex-Presidente.

    De modo a escapar à investigação judicial e a uma possível detenção ou até mesmo prisão preventiva, Dilma pôs à disposição de Lula um cargo ministerial, e Lula aceitou-o. Sendo ministro, Lula responderia tão-só perante o Supremo Tribunal Federal. Na prática, ganharia uma quase imunidade, em virtude de escapar à alçada do juiz Sérgio Moro, tido como implacável e que tem em mãos este processo que visa também Lula. Dos onze juízes que compõem o STF, oito foram nomeados por Lula e por Dilma. A promiscuidade avizinhava-se.
     Qualquer cidadão cumpridor, honesto, com a sua consciência tranquila, pelo contrário, colaboraria com a justiça, sem temê-la e sem receios. Já diz o povo: «Quem não deve, não teme». Lula, com a sua atitude, encorajou as vozes críticas, quase que se incriminando. Se tanto, deu azo a que incrementasse a desconfiança que paira sobre si.

   O que se seguiu foi todo um espectáculo degradante que humilha o Brasil. Acções e providências cautelares infindáveis por um lado, pronunciamentos favoráveis dos magistrados por outro, até que o Supremo Tribunal Federal se decidiu, e bem, a meu ver, pela suspensão de Lula da Silva, que poderá, entretanto, recorrer ao plenário do Supremo. Ao que a imprensa veicula, o STF pronunciar-se-á definitivamente no final deste mês. Inocente ou culpado daquilo de que o acusam, não é digno, seja em que democracia for, que um suspeito da prática de um crime exerça qualquer cargo político. Diz-nos o bom senso. O mesmo bom senso que não orientou correctamente Lula. 

     Há quem fale em politização judicial. A independência de alguns magistrados ligados ao processo tem vindo a ser questionada, nomeadamente de Moro e dos juízes envolvidos nas decisões sobre a suspensão ou não do mandato de Lula enquanto ministro do governo de Dilma Rousseff - sobre quem há muito recai um descontentamento generalizado, pedindo-se o impeachment da "Presidenta". Um caso longe de ser pacífico, arrastando o nome do Brasil para as páginas dos jornais de todo o mundo.

     O risco que os intervenientes correm é notório: Lula pode perder todo o prestígio que conquistou com o seu legado. De bestial, passar a besta, manchando o seu nome na história, em particular na história do Brasil; Dilma seguir-lhe-á os passos, com a agravante de poder vir a ser destituída. O que me preocupa mais, devo dizer, é o risco que o Brasil corre, de descrédito, de estar na mira de todos os organismos internacionais, incluindo aqui a imprensa - que já vai estando. O povo brasileiro não o merece, não depois de tantas décadas de exploração e de sacrifício. Um país que ultrapassou a crise, cuja economia crescia, catapultando-o para o lugar mais que devido de potência. O «impávido colosso» que agoniza com o que lhe têm feito, com a corrupção que se propaga pelos seus alicerces e os corrói, impedindo-o de lograr «a grandeza» vitoriosa que evoca o seu belíssimo hino.

       Que tudo não vá além de um sonho ruim para a querida Nação-irmã.