Paris, 13 de Novembro de 2015. Um grupo de homens armados dispara indiscriminadamente sobre inocentes que seguem calmamente as suas vidas. Fazem reféns, gritam palavras de ordem, aludem à Síria e ao Iraque. Matam centenas; comovem milhões. A escolha da capital francesa não terá sido ao acaso. França é um dos pilares da civilização ocidental. Lá, embora fortemente influenciada pela Glorious Revolution, cem anos antes, terminou o Antigo Regime; lá, eliminaram-se as barreiras legais, sociais, culturais que se erguiam entre os homens; lá, defenderam-se princípios que se propagaram pelo mundo, que instituímos por intermédio das revoluções liberais que pautaram todo o século XIX. Pátria-Mãe da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade.
Se os ataques ao complexo do World Trade Center, em Nova Iorque, feriram o coração dos E.U.A, os atentados do fatídico dia de ontem atingiram um vértice do ocidente. Abalaram um sistema de valores assente na dignidade da pessoa humana e em regimes democráticos, pluralistas. A instabilidade, o caos e os massacres deixaram de ser um distante eles, passando a ser um confinante nós. A França, ali tão perto...
Não podemos aceitar que o medo vença. Não podemos cair no risco de criar uma sociedade big brother em que o Estado a todos vê e segue. Outros o tentaram, não há muito tempo, e não conseguiram. Se somos tolerantes, flexíveis, complacentes, assim devemos continuar. São esses os valores que propugnamos. Agir em conformidade não significa ceder ao terror, assimilando-o. Tão-pouco retroceder nas conquistas que obtivemos, regressando à barbárie, à espada na mão e ao crucifixo ao peito. Reconhecer e defender a matriz cristã, que faz parte da Europa, da América, prescinde de guerras santas.
Vê-los como uma facção que não representa o comum islâmico. Porventura, teremos subestimado a sua capacidade em provocar a desordem. Aumentar a segurança sem nos tornarmos demasiadamente securitários. Unir esforços. Perceber que um país não se basta, que as fronteiras políticas, no que a nós diz respeito, não estão por Vilar Formoso ou por Elvas, mas para os confins da Europa de Leste. Evitar sucumbir ao ódio irracional, às reformas legais a quente, ao preconceito. Não esquecer o que se passou a poucos dias. Aprender lições.
São estes os desafios que espero ver superados.
