15 de maio de 2015

Acordo Ortográfico.


    Entre notícias que povoam a imprensa escrita e os noticiários televisivos, dando-nos conta de adolescentes assassinados e de demais casos de violência juvenil, o fim do período de transição que marca o início da vigência, sem reservas, do Acordo Ortográfico, pouco passou despercebido. Uma vez mais, bem como aquando da ratificação e consequente promulgação do diploma, variadas vozes se insurgiram contra o que, em suas opiniões, é um atentado à língua portuguesa.

      Se bem me lembro, abordei o Acordo Ortográfico há muitos anos, chegando ao limite de o aplicar. Voltei atrás, não por qualquer discordância relativa à pertinência do tratado, mas por dificuldades em adaptar-me às novas regras; dificuldades essas no sentido de, esteticamente, não ter conseguido ultrapassar algumas barreiras cimentadas pelo hábito. Digamos que ainda me é custoso escrever "ator". Porém, tenho sido um apoiante inequívoco do Acordo Ortográfico e não é difícil desabar o amontoado de críticas que lhe são dirigidas.

      A língua portuguesa não é um idioma exclusivo de Portugal, e perante novidade alguma estamos. Desde o século XV que a língua de Camões deixou de nos pertencer, quando a soubemos impor, o mais das vezes pela força, a outros povos, que a assimilaram e adaptaram à sua realidade. Deu, inclusive, origem a novos idiomas desditosos, alvos fáceis de um preconceito linguístico que ainda hoje se faz sentir. Novas entidades surgiram do império colonial que construímos, incorporando e oficializando o idioma pelo tempo. A distância geográfica tratou de acentuar as diferenças, estimuladas pela influência dos vários povos em contacto com essa língua franca. Hoje, entretanto, podemos falar de uma língua portuguesa unitária que é falada de distintos modos, conferindo-lhe beleza e riqueza lexical e fonética.

      No início do século passado, depois da revolução republicana e fruto dos assomos reformistas dos revoltosos, a língua portuguesa passou por uma reforma unilateral elaborada por Portugal, vigorando a partir de então no país europeu. À época, um país lusófono, independente, já existia - o Brasil, que não foi consultado acerca desse procedimento. Extirpou-se da língua portuguesa a maioria da sua raiz etimológica latina, perdendo farmácia o seu dígrafo ph, nomeadamente. Em resultado da atitude individualista do governo republicano, a língua portuguesa, já comum a dois países, ficou com duas ortografias opostas, originando o ciclo de acordos e reformas que pautou todo o século XX e o início do nosso século, tendo em vista a uniformização linguística possível.

         Nos dias que correm, a língua portuguesa é idioma comum de mais de duzentos e cinquenta milhões de pessoas, seja como língua materna ou como língua de contacto diário, oficial, através dos estabelecimentos de ensino, dos meios de informação ou dos organismos estatais dos oito países que a adoptaram nas suas legislações e no quotidiano administrativo. Dividida em duas ortografias oficiais, a portuguesa, seguida também pelos PALOP e por Timor-Leste, e a brasileira, queda enfraquecida nos esforços para a sua afirmação como língua útil a ser ensinada e aprendida por estrangeiros não lusófonos e até no êxito das políticas portuguesa e brasileira procurando a sua oficialização junto de organizações internacionais, como a ONU, que a têm preterido por não saber por qual variante decidir-se.

         A situação da língua portuguesa, mantendo-se o impasse, é precária, num mundo globalizado em que há outros idiomas, tanto ou ainda mais pujantes, que vão-se afirmando. A língua inglesa não está uniformizada, é certo. Contudo, compará-la no prestígio ou na importância ao português é insensato. O castelhano, conhecido internacionalmente por espanhol, está uniformizado na sua ortografia. O francês goza de igual força, não obstante algumas diferenças que separam a variante europeia da canadiana. Como referi acima, a uniformização é possível, com uma percentagem de harmonia ortográfica rondando os cem por cento.

       Não seria de esperar que Portugal, com tiques revivalistas de gloriosa potência colonial, aceitasse ceder uma só letra procurando estabelecer e definir regras comuns para o idioma que propagou pelos continentes. O Acordo foi rejeitado embrionariamente. Inverdades surgiram e foram disseminadas sem conhecimento de causa. Recordo-me, por ora, do célebre facto, que muitos julgaram, e julgam, passar a fato, sem que se dêem ao trabalho de ler o Acordo e procurem inteirar-se do que é a dupla grafia (há palavras que, dada a pronunciação diferente, não podem ser uniformizadas). Juristas escreveram artigos na ânsia de adiar o inevitável, procurando protelar o fim do período de transição...

       O Acordo Ortográfico não está imune a críticas. Pelo contrário, bombardeado que é! Carece de ser reformado, de uma revisão. Há incoerências, há pontos a debater e a modificar, mas não prescindo da sua aplicação. É imprescindível, para a unidade da nossa língua, que procuremos chegar a consensos com todos os países-irmãos, sem arrogância, sem pedantismo. O maior património de que dispomos é este idioma, a ponte que nos leva das Américas ao Oriente. Não jaz na Europa a possível salvação de Portugal, e sim no estímulo dos laços histórico-culturais com os territórios que outrora dominámos. E a língua é essa travessia. Caso contrário, arriscamo-nos a pagar um preço demasiado elevado. 
     Queremos uma língua portuguesa. Uma. Dispenso uma miríade delas, com outras designações e completamente desvirtuadas ortograficamente. Vale o esforço, assim creio.

11 de maio de 2015

Sétima Arte.


    O cinema tem sido, desde sempre, o meu ponto fraco. Nunca me interessei pelas estreias, pelos eventos relacionados, bem como nunca dominei esse universo infinito de actores, realizadores, produtores, fruto também de uma necessidade de estímulo que me impede de estar horas a fio preso a um ecrã, ou numa sala de cinema, assistindo com entusiasmo do início ao fim da película. Depressa sou tomado por um desconforto que surge repentinamente, daí que evite ao máximo ver qualquer filme fora de casa, a menos que a companhia seja agradável. Estando só, nem pensar.

    Este fim-de-semana, contudo, e em virtude de ser um dos melhores programas de sexta ou sábado em casa, o meu amigo pesquisou uns filmes, fez os respectivos downloads e por ali ficámos, munidos de alguns snacks. Ele lá se ajeita a "sacar", como diz, os filmes.


   Se já percorri clássicos da literatura em imberbe idade, o mesmo não se aplica às grandes obras cinematográficas, onde as minhas fragilidades se acentuam. Parece inacreditável que alguém que gosta de terror - mas não do terror vulgar, corriqueiro - nunca tenha visto O Silêncio dos Inocentes, que consta como um filme de terror, embora eu assim não o considere. Lacuna preenchida este sábado. O epíteto de clássico assenta-lhe como uma luva. É um thriller fascinante, com as interpretações magistrais de Jodie Foster e de Anthony Hopkins. Equiparo-o, salvas as devidas diferenças, até no enredo e núcleo, à trama psicológica (mal) conseguida com O Exorcista II - O Herege, considerado um dos piores filmes de todos os tempos, ainda que procurasse, e essa foi a intenção do realizador, criar todo o ambiente que Jonathan Demme conseguiu. Os galardões e o reconhecimento que o filme alcançou foram mais do que merecidos.

    Entretanto, e já no domingo, vimos A Culpa é das Estrelas, igualmente elogiado e um êxito de bilheteira. Com um enredo antagónico em relação ao filme de sábado à noite, provou ser um drama que sabe prender-nos durante aquela hora e meia. Temi que tivesse sido arrasado pela crítica, em parte porque a história versa sobre uma doença grave e o envolvimento entre dois jovens que dela padecem em circunstâncias distintas. É meio cliché. Primando pela surpresa, tem desenvolvimentos inesperados e momentos de alguma ternura, que senti forçada, não sendo este o entendimento da crítica especializada. Quem sou eu? A verdade é que entre dramas e thrillers / terror, a minha preferência recai totalmente nos últimos. 
      O amigo choramingou com as cenas comoventes, para o final. Eu, como já pouco me emociona, limitei-me a assistir tentando disfarçar o incómodo. É frustrante constatar-se que nem uma história bonita nos provoca qualquer reacção. Vida, vida, o que tens feito!...

       A noite passada, começámos n' A Dama de Ferro, que incrivelmente ainda não vi. O sono derrotou-nos, por fim, obrigando-nos a desligar a televisão. Pelo pouco que pude ver, Meryl Streep saiu-se estrondosamente bem. Até o característico sotaque britânico daquela que foi a mulher mais poderosa do mundo (e odiada, diga-se...) não foi esquecido. Pretendemos terminá-lo nesta sexta-feira, restando-me aguardar mais uns dias.

    E assim tenho procurado cultivar os meus conhecimentos cinematográficos, esperando ser mais proficiente quanto a este ramo da arte, a sétima, dizem. Talvez a mais acessível e óbvia e, não por isso, seguramente, a que pretendo estimular.

7 de maio de 2015

Ensaio sobre a felicidade.


   É corrente ler ou ouvir acerca da felicidade. Absorto na linguagem comum, como não poderia deixar de ser, acabo por utilizar vulgarmente o substantivo ou o adjectivo que o concretiza, feliz, quando, todavia, ao que pretendo me referir é a um estado que em nada se assemelha.

  Banalizou-se o significado de felicidade. Na medida em que se trata de um conceito relativamente indeterminado, há uma margem admissível de conformação. Cada um entende a felicidade ao seu jeito, moldando-a segundo as suas vivências, expectativas, onde a personalidade e as crenças assumem um papel importante na definição.

    A felicidade, no meu entendimento, seria um estado de paz e tranquilidade totais, na ausência completa, passada, presente ou futura, de dor ou de qualquer outro tipo de sofrimento moral ou físico. Um estado absoluto, de extremo, que não comportaria quebras, ressalvas ou deficit. Um bem-estar permanente, imperturbável. Assemelho-a às características que se atribuem a Deus, a existir, e a quem Nele acredita, cuja diminuição de uma única apenas envolveria uma negação dos poderes últimos e exclusivos da divindade. Da própria, no limite. A felicidade, então, seria tudo isto. E a realidade que se distinguisse desta, por maioria de razão, não seria.

  Assimilou-se, mal, a meu ver, a felicidade ao sentimento de reciprocidade de estima, afecto e reconhecimento vindo de terceiros, bem como aos estados em que o incómodo, de diversas ordens, não domina. Ou seja, a tudo o que implique uma leveza - alegria - aparente ou momentânea. Uma fuga, na verdade, à realidade que nos circunda, que não é idílica ou de ventura, na busca de se obter algum conforto. É uma tendência natural, creio, justificada na necessidade de abstracção. A existência humana funda-se numa luta contínua, incessante, pela resolução dos problemas e na procura da felicidade
     Luta frustrada, daí que Voltaire tenha dito, e com sábia destreza, que morremos como nascemos: sem ilusões.

3 de maio de 2015

VII Aniversário.


  Como vem sendo hábito, e este ano hesitei em se deveria ou não fazê-lo (tantas comemorações!, demasiadas para a minha circunspecção...), assinalo mais um aniversário do blogue. Sete anos. Três de Maio de dois mil e oito. Parece que o criei ontem!... Recordo-me com notável precisão daquela noite, em casa, num computador fixo, com pouco para fazer. Sem pretensão comecei a escrever e por anos relativizei este espaço. Provavelmente dei-lhe a importância que uma mera plataforma virtual nos merece. Em todo o caso, foi ganhando relevância com o tempo, quando atentei nas suas potencialidades, começando a expor-me, no alcance benéfico do término, e consequentemente a dar-me a conhecer.

    Hoje em dia, é como um bem que tenho. É parte de mim. Gosto de por cá andar, de aprender com outras formas de estar e de encarar a vida, lendo, seguindo, acompanhando. E é admirável tomar conhecimento da mudança, assemelhando-se cada blogue a um álbum de fotografias que vamos guardando com as respectivas datas. Sete anos poderão não comportar alterações substanciais em pessoas já adultas, de personalidade, gostos e vontades assentes e definidas, mas em mim fizeram toda a diferença. Amadureci, perdi alguma espontaneidade. É inerente ao processo de crescimento, assim creio.

    Lentamente, o blogue adquire uma faceta de cronologia, como um documento que atesta a passagem dos anos. Peças que encaixam em cada período, testemunhando angústias, motivações, estados d'alma. Desempenha o seu papel. É útil.
      Jamais imaginei que aqui chegaria. E, por enquanto, consolidou-se. A vontade de ficar persiste.

       Resta-me agradecer o vosso carinho e a vossa atenção. Obrigado!


lots of love,
Mark