O dia do pai há muito que perdeu o simbolismo. Há quase tanto tempo quanto o que medeia a época em que da sua parte sentia afecto e estima, e esta, despojada de atenção, de proximidade.
Pensei que o falecimento do avô nos aproximasse. Poucas palavras trocámos a partir de então, meio sem saber o que dizer, como justificar tanto desconhecimento que se interpôs entre nós. Como vulgarmente se diz, a separação de um casal não tem de implicar um afastamento dos filhos. Entre nós houve esse progressivo desatar dos laços, agravado em muito pela ida do pai para o norte do país, onde assentou há alguns anos.
Ontem decidi telefonar-lhe. Tomei essa decisão depois da hora do almoço. Lembrei-me do que me têm dito, e com razão, de que o que releva é que, da nossa parte, tenhamos a consciência do dever cumprido. Contudo, sempre achei que o argumento é mais fruto de uma hipocrisia qualquer do que de verdadeiros sentimentos. Se procuramos alguém para que, mais tarde, nada nos seja imputado, não o fazemos libertos dessas farsas. Assim tem sido a minha não-ligação ao pai. Não o procuro porque não sinto apego, vontade de a tudo isto contrariar, recusando-me, também, a ser falso.
Surpresa das surpresas, o pai ligou-me. No seu dia. Atendi. Falámos. Não lhe disse que já havia programado contactá-lo. Soaria a coincidência provocada, talvez nem acreditasse. Desejei-lhe, e aí sinto alguma culpa, "um feliz dia" (fará sentido um filho que pouco fala com o pai desejar-lhe um feliz dia do pai?). Estivemos algum tempo à conversa. Perguntei pela avó, pelo seu estado. Deprimida, como sempre, quadro agravado pela morte do avô. A família não é muito unida e ela acaba por ficar só. Não fisicamente, que tem pessoas que cuidam dela e da casa; sem os filhos, os netos, presa a recordações que só lhe farão mal. Daí que pondere voltar para Lisboa, levá-la para junto de si ou mudar-se para lá.
Ter o pai por cá seria bom. Provocaria uma aproximação. Ou não. Também essa anseio sentida. E não o será. As circunstância irão favorecer o reatar da relação. Nada mais. Não há empenho da sua ou da minha parte. Tudo demasiado... artificial.
A ausência do avô fez com que percebesse, pela primeira vez, que não somos eternos. E que o tempo se esgota. Eu penso nas pessoas, não consigo deixar ir. Ainda que não as procure, frequentemente estão - quando não sempre - no meu pensamento. Consigo com isso mantê-las por perto. E são muitas. O pai é uma delas.
Sou impressionável. Vivo em memórias e no que projecto para um futuro que não chega. Que nunca chegará.