16 de fevereiro de 2015

Weekend.


   Precisava ocupar os meus pensamentos com novas imagens, paisagens, conversas. Em casa, a atmosfera estava pesada, meio sombria, pejada de silêncios. E os momentos a sós, perdido em mim, sufocavam-me cada vez mais. Daí que aceitasse, sem grande hesitação, o convite do meu amigo para passarmos um fim-de-semana no Estoril (surpreendente em mim, que sou tradicionalmente indeciso).

    Assim foi. Partimos de Lisboa por volta das onze e pouco da manhã. Chegámos ao Estoril, guiámo-nos pelo GPS e demos num instante com o hotel. Simpático, confortável, acolhedor. A cama de casal intimidou-me um pouco. Nada que se não ultrapasse com o espírito aberto.
     Fizemos o check-in, deixámos os nossos pertences, e explorámos um pouco a zona. Há imenso tempo que não ia ao Estoril, embora goste ali da linha. Almoçámos num restaurante escondido numa ruela de Cascais. O atendimento foi mais do que duvidoso (esperei uma hora por um bife do lombo com molho de mostarda). Nem por isso se reflectiu no preço....
     Passeámos pela marina, umas voltas, e até deu para ambos comermos gelados. Não fosse uma chuva insistente pelo passeio marítimo, já de noite, e teria sido perfeito (inclusive a chuva teve o seu encanto). Ir ao Estoril sem ir ao Casino é como ir a Roma e não ver o Papa. Posto isto, também por lá passámos.



       No domingo, tomámos o café da manhã no hotel, cedo, e fomos até Oeiras. Fizemos a Parede, enfim, aquele percurso. Já almoçados, regressámos a Lisboa pela tardinha, não sem caminharmos na areia.

       Estes dois dias foram essenciais para que encontrasse algum equilíbrio. A acrescentar às tormentas que vou tendo, minhas, o abalo familiar teve repercussões muito negativas na minha estabilidade emocional e até mesmo psíquica. Temo um esgotamento a poucos anos. Sinto-me desgastado.

        Não foi um Dia de São Valentim. Foi um fim-de-semana animado e calmo. Sem pretensões a nada, nem cargas simbólicas. E diverti-me, sorri.

11 de fevereiro de 2015

Perdas.


   Somos efémeros. Demasiado. O que é a uma vida humana quando tentamos contar os infindáveis anos da história do planeta?... Só o percebemos quando somos atingidos por perdas pessoais. Assim foi comigo desde a última sexta-feira.

     Estava no sushi quando recebo um telefonema do pai. Não reparei. Provavelmente estaria no buffet ou, confortavelmente, a conversar e a sorrir. Ouço o som das SMS. Rápida e eficazmente, sem delongas, o pai disse-me que o avô morrera. Soubera-o minutos antes. Naquele instante caí em mim: o meu avô falecera sem que me despedisse, sem que lhe dissesse umas últimas palavras, pouco mais de dois anos desde a última vez que nos vimos. E a culpa é inteiramente minha. Morávamos ambos na mesma cidade. Estava tão perto.

     Desde dois mil e um que o avô padecia de uma doença degenerativa - ironia das ironias e no dia da sua morte assisti ao filme da Alice! Paralisia Supranuclear Progressiva, uma enfermidade do catálogo da doença de Parkinson, mais rara. Afecta a capacidade motora, a locomoção, acarreta dificuldades respiratórias, em deglutir, provocando, no limite, e tudo isto em estágios, a falência múltipla dos órgãos. Por tudo isto o avô passou, e pude acompanhar a evolução da sua doença até dois mil e treze, altura em que a vida nos separou. Sofreu bastante. Segundo me contaram, os últimos dois anos foram terríveis. Esteve internado em Tomar e, mais recentemente, por aqui. Nada lhe faltou. Partiu com dignidade.

      Estou perturbado. Sinto remorsos. E dói. O pai disse-me que por várias vezes pediu para me ver. Nunca me avisaram. É evidente que a minha culpa não diminui. Eu sabia que ele estava doente, que inevitavelmente sucumbiria. Era uma questão de tempo.

      No sábado, já tendo conversado com o pai, fui à igreja onde depositaram o corpo para o velório. A mãe, e respeito os seus motivos, não quis estar presente. Entretanto, pedi ao dito amigo que me acompanhasse. Não sou especialmente próximo da família paterna. Encontrei a avó devastada, mas calma, medicada, acompanhada de alguns primos. Aproximei-me da urna. Uma tia cumprimentou-me, deu-me os pêsames. Não a via há ainda mais tempo. Acariciou-me o rosto. Pedi-lhe, por favor, para que descobrisse o rosto do meu avô. Senti uma tontura. Aquele cadáver era tudo o restava do meu avô. Desfigurado, o que associo à medicação e à agonia, que soube intensa. Abracei-me ao amigo. Precisei de sentir um abraço que me afastasse daquela imagem assombrosa. Oh, as memórias que tenho do avô!, um homem enérgico, forte, corajoso, tão diferente da avó, senhora dada à melancolia e à instabilidade. Sentei-me e tive de beber um pouco de água. Desde então que a imagem não sai do meu pensamento. É demasiado nítida.
        O avô foi cremado no dia seguinte.

     Fica a saudade e a culpa que tenho. De nada adianta lastimar-me. Ele não está cá para que possa desculpar-me e abraçá-lo. Tanto que ficou por dizer... Atenuará com o tempo, sei que sim, mas a mágoa, essa, permanecerá por quantos dias ainda viva.

         Adeus, avô.

7 de fevereiro de 2015

O Meu Nome é Alice.


   Fevereiro tem registado bons níveis de precipitação. Verifiquei-o ao constatar que todas as minhas saídas têm sido agraciadas pelo dom da chuva. Sexta-feira não foi excepção.

    Muito embora não seja um seguidor atento do que vai saindo na sétima arte, ontem, persuadido por um amigo, aceitei o convite - em plena Avenida de Roma - para irmos ao cinema. A escolha recaiu sobre O Meu Nome é Alice, no Monumental. Tratando-se de filmes, o meu lado dramático não deixa margem para outras escolhas. Gosto, sobretudo, de enredos familiares e de histórias que toquem o meu lado mais sentimental. Não querendo descortinar nada para quem ainda não viu, o filme estreou muito recentemente, aborda a vida de uma professora universitária norte-americana, ou estadunidense, como preferirem, que se vê a mãos com uma doença neurológica degenerativa. Na senda de A Paixão de Cristo, de 2004, em que o realizador preferiu focar a agonia do Messias, poder-se-ia dizer que O Meu Nome é Alice debruça-se, primeiramente, nos sintomas da dita doença, e depois em todo o processo que culmina na apatia total da doente. A interpretação da actriz principal, Julianne Moore, é inenarrável. Não será um filme dinâmico; na verdade, centrado na doença e nos seus efeitos, na repercussão que tem no seio de uma típica família americana. Por isso mesmo, os momentos estáticos são uma constante.

    Pela hora de jantar, experimentei sushi. Iniciante. Não fui muito convencido, mas sim entusiasmado. Surpreendeu-me. Come-se. Não fiquei fã confesso, não posso dizer que serei frequentador assíduo de restaurantes japoneses. Inovei. O sabor é característico. Pensei que sentiria o peixe cru. Não. Pelo contrário. Com aqueles molhos, sente-se algo frio, um sabor a maresia, sim, conseguindo, falo por mim, esquecer de que se tratava de um alimento não cozinhado. Confeccionado, claro, à sua maneira. Consegui comer um pouco de carne, vaca e frango, a primeira de sabor muito duvidoso. Não me peçam nomes, que não registei nenhum. Também tinham um arroz com ervilhas e não-sei-o-que-mais, o que serviu para consolar o estômago. Saí-me surpreendentemente bem com os pauzinhos. Há anos que não pegava nuns.

     Terminei a noite num dos miradouros que não conhecia - Miradouro da Senhora do Monte. A vista sobre Lisboa é encantadora. Nunca antes tinha visto a cidade de uma ponta à outra. 
       Recomendo, assim como o filme e, já agora, o sushi.

1 de fevereiro de 2015

Lições.


   A vitória do Syriza inundou as redes sociais e fez manchetes por toda a Europa. Coberturas televisivas intensivas, incluindo em Portugal. Por entre anos de marasmo, vão surgindo partidos que granjeiam popularidade entre a classe média desfavorecida pela crise que atingiu os países economicamente fragilizados. E o fôlego renasce, estando explícito o desejo de contrariar as políticas austeras impostas por Bruxelas, em soluções que a médio prazo revelam o seu fracasso.

  A conjuntura grega actual tem influenciado movimentos de inspiração semelhante em países como Espanha e a Irlanda, ao mesmo tempo que provoca o caos nas instituições europeias e mundiais, que temem o incumprimento das obrigações assumidas perante o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. Em boa verdade, parece difícil acreditar que haja um entendimento, uma sintonia, entre Tsipras e os credores gregos. Bastante provável é que o Syriza termine por aderir à pressão da Europa, perdendo apoiantes. O segredo do seu sucesso é o inconformismo e o desejo de corte radical com antigas políticas. Na senda do Podemos, no país vizinho, que retirou do mal-estar que grassa na sociedade espanhola o resultado estonteante nas eleições para o Parlamento Europeu do ano passado.

   Em Portugal, a oposição feroz, e menos credível por isso, o Bloco de Esquerda, passa por uma crise interna que tem se reflectido no decréscimo na confiança do eleitorado. O Partido Socialista, cauteloso, aplaude a mudança em Atenas, mas teme quaisquer termos comparativos, sabendo da sua vocação tradicional europeísta e tendo absoluta consciência de que um discurso extremista à esquerda seria incompatível com aspirações governativas tão imediatas. Os portugueses são, tradicionalmente, moderados.

    Acreditando-se que o governo grego consiga renegociar a sua dívida, evitando assim, a UE, o contágio, o nosso país poderá retirar algumas vantagens. Tudo dependerá da orientação seguida pelo Syriza, agora que tomou as rédeas do poder. Sem dúvida alguma o fraco deve bater-se contra o forte. O povo grego foi corajoso e determinado. Um bloco sulista unido em torno de um objectivo faria frente à toda-poderosa Alemanha, não duvidemos. Contudo, não me parece credível que o PS e, eventualmente, o PCP queiram ficar com esse ónus. O falhanço do Syriza implicaria o reconhecimento da inviabilidade do seu programa, comprometendo a governabilidade à esquerda. Costa sabe disso.

     A política, esse eterno jogo de interesses. Sabemos, inevitavelmente, como terminará.