15 de setembro de 2014

O Eu.


   Ando a revisitar doutrinas que conheci há anos, chegando-me por livros que li ainda sem a bagagem cultural e a idade necessárias para compreender as suas essências. Uma delas é o existencialismo, não o de Sartre, embora coincida. Kierkegaard é um autor que me fascina pelas suas ideias. Fui surpreendido com a inclusão de parte da sua obra na disciplina de Direito Constitucional, inserida nos planos de estudo de um dos melhores professores que já tive e com quem pude aprender muito do que sei na área do direito público.

    O contacto prévio com Kierkegaard, anos antes, ajudou a que estivesse familiarizado com as suas teorias, o que me permitiu certa ligeireza e à-vontade no modo com que o abordei nas provas escritas.

   Somos livres. A liberdade implica responsabilidade, eterno chavão, e angústia. Por podemos escolher, vem a ansiedade. O homem é uma síntese de alma e de corpo sustentada pelo espírito. A angústia é o resultado da relação da liberdade com a culpa. Recusando universalizar os indivíduos na espécie, Kierkegaard defende que cada um de nós existe perante Deus e que foi por cada pessoa que Ele se deixou encarnar, sofreu e morreu. Dotados de liberdade ilimitada, somos uma fusão do infinito, do finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade. O Eu é a liberdade.

    De facto, e tomando-me como exemplo, a escolha envolve angústia. Estamos condenados a ser livres. E há um medo que advém dessa liberdade total.


     Sartre, Jean Paul, surge mais tarde. Houve uma evolução no meu pensamento. E se nunca pusera em causa a existência de Deus, o existencialismo de Sartre não mais é cristão como o de Kierkegaard. 

    Vi-me diante de uma areia desconhecida, movediça e cruelmente verdadeira. Sartre nega Deus, nega deuses, e coloca-nos num patamar de absoluta solidão, continuando a ser livres, talvez ainda mais livres do que na construção de Kierkegaard. Percebo que nascemos, vivemos e morremos sós. Somos livres num mundo desprovido de razão. Um gigante absurdo. Nem sempre o bem vence o mal, como nos ensinam nas fábulas. Retomo a angústia de se optar num mundo sem sentido. Não havendo deuses, não há a quem recorrer no limite. Seremos nós a dar um sentido sem sentido em corpos perecíveis, matéria que se degrada, sujeita às vicissitudes do tempo e das mazelas naturais às quais se somam as que voluntariamente, numa inconsciência consciente, causamos.

     Recusava-me a aceitar o nada, o irracional, o ilógico. Não reconhecendo ao nada o valor da inteligência, que buscava no divino, tudo teria uma origem que não poderia jamais passar pelo surgimento casual e espontâneo do universo. Haveria uma força motriz, precedente, intencional, criadora de todos os mundos e espécies viventes que os habitam. Daí a nossa existência terrestre ser um elo com algo que viria, e que antecederia, latente no inconsciente. Cada vez vejo com mais clarividência de que não é assim. Tudo é o acaso, incluindo o ser humano. Estamos sós perante a não existência de deuses, sós entre nós, cada um consigo.

    Caminharei a passos assustadoramente largos rumo ao ateísmo. Perder Deus será a derradeira etapa de uma descrença progressiva na humanidade e no sentido da vida. E talvez aí, sem o suporte de deuses, encontre o Eu no meio do vazio.

11 de setembro de 2014

A angústia dos dias que virão.


   De mansinho, anunciando a meia-estação. Nuvens de prenúncio, carregadas, no céu tingido de azul-escuro. O sol que espreita, timidamente. Num ápice, as gotas caem suavemente na terra seca, imprimindo pequenos círculos na matéria espessa. As ervas ganham vida. As cores das corolas acentuam-se.

   Pela janela, observo o movimento. Não se vêem andorinhas. O aguaceiro transforma-se em fumo ao embater na estrada. Extravasando os limites máximos de velocidade permitidos por lei, colunas de carros abrandam ao comando do semáforo.

    Cinco e meia. Abrigo-me numa estação de autocarros. Num assomo de anti-niilismo, procurei responder a todas as minhas dúvidas numa semiótica de respostas sem aparente significado lógico, mas reconfortante. Que me fizessem sentir num caminho, ainda que tumultuoso, revestido de mensagens orientadoras, etapas, fases, pretensos degraus rumo ao infinito de não mais do que a vida humana permite. Uma irrupção de pensamentos díspares, confrontado com a própria solidão de um final de tarde vazio. A eterna luta entre o bem e o mal. Concomitantemente, estava perdido em mim. E as respostas tardaram. Inquietações de um tempo difuso.

    Regresso a casa. Os vidros diáfanos deixam passar a luz e retêm o incómodo. Disperso as aquisições pelo sofá da sala.
    As relações são frágeis, como frágil é a amizade que aparenta vigor. As pessoas afastam-se indiferentes aos laços que cultivam de afecto e atenção, tornando-os momentâneos, o que aferimos num exame de retrospectiva.
   Chove. Sinto-o pelo traçado sinuoso das gotículas quando, tocando umas nas outras, desenham linhas disformes, de contornos indefinidos, até se anularem na calha metálica. Senti-lo-ia ainda que não o visse, pois uma antítese de sentimentos que não consigo afastar é condizente com o cinzentismo lá de fora. Sondei o meu coração e descobri a angústia dos dias que virão, diárias dores, crónicas, em fuga de uma realidade qualquer.
     Absorto dos sentidos, lutando por dar sentido.

5 de setembro de 2014

De perto.


     Por forma a encerrar as férias, se tanto oficialmente, combinei ir à praia com uma prima. Se pudesse desfrutar do mar sem passar pela praia, fá-lo-ia. Por Lisboa, então, evito. Ainda assim, escolhemos um bom dia, sabendo que o Setembro é, regra geral, menos congestionado.

      Estar de papo para o ar deitado numa toalha, torrando ao sol, além de pouco saudável não me satisfaz. Fui pela companhia e pela vontade incomensurável de sair. Optámos por um guarda-sol da área que está concessionada. Protegemos a pele e os pertences do calor.
     Foi divertido na água. Adoro nadar e nado com um à-vontade que não tenho em terra. Os anos de natação, interrompidos pelas crises de asma, aguçaram-me o gosto pelo mar, não necessariamente por piscinas, que evito. Só não tenho muito jeito em mergulhar ou fazer aquelas piruetas, o pino. Há sempre quem goste de mostrar as suas capacidades acrobáticas...

      Quase deserta, e num dia bom. Razoavelmente quente. Um rapaz estendeu a sua toalha ao nosso lado. Despiu a camisa, de cavas, e exibiu o seu corpo moreno. Reparei que colocava, de tempos a tempos, um líquido incolor, que suponho bronzeador, no corpo. Senti-me constrangido em falar com a prima. Às vezes olhava-nos com uma expressão atenta, compenetrada, como se analisasse o nosso tom de voz. Não serei uma pessoa desconfiada, mas não gosto que olhem para mim com frequência, sobretudo pessoas com quem divido o espaço. Uma vez que não dou atenção a quem me rodeia, por feitio, procuro passar subtilmente.

     O rapaz saía para mergulhar por instantes. Pouco se quedava na água. Notei que não se afastava da margem, quem sabe temendo perder o pé. Só me aventuro por zonas onde não tenho pé quando não há ondulação. Temo sempre que uma onda me apanhe, incauto. Herdei uma distracção da mãe, algo genético, incontrolável. Eu chamar-lhe-ia despistado. Tenho de ter cuidados redobrados para compensar.

      Deitou-se na toalha, puxou os calções de banho para cima e abriu as pernas. "Que lorde", pensei. Nas suas sete quintas apreciando as "babes" que passam (que não passou nenhuma; só senhoras flácidas de meia-idade, varizes nas pernas e efeito casca de laranja nos glúteos). Dava pequenos goles na Luso Limão, virava-se de costas e observava-nos de novo. Voltava à água. Agora mergulhou, destemido, deu braçadas, exibiu-se. Parecia que nos queria impressionar. A prima olhava, curiosíssima, a ponto de desconfiar se para os pinotes do rapaz ou para o corpo. A ele, é provável, aquece o ego. Será um qualquer jogo de sedução que desconheço, meandros do engate, when a man loves a woman or... a man.

- C., esquece, ele não deve ter mais dezanove anos.

    Indignada, ou apenas surpresa, encarou-me com um semblante nervoso. Sorri-lhe. Quis retirar o peso excessivo das minhas palavras, ditas com alguma revolta, incómodo.

     Saiu alguns minutos antes de nós. Almoçámos por ali mesmo e voltámos. Tenho a certeza de que houve um flirt na minha presença. Da parte dela. Lidei mal com isso. Admito que me causa estranheza e até certa repugnância. Como se aquele momento fosse estragado por sentimentos menores, torpes, carnais.

     Depois percebi que há lições que não vêm em livros de mil páginas. Chama-se vida. E temos de conhecê-la.

1 de setembro de 2014

September.


   Tenho más relações com os últimos meses do ano. O inevitável regresso às aulas, sempiterno estudante, o Verão que termina, não tendo este sido um dos mais agradáveis, o retorno dos emigrantes aos países de acolhimento, e dezenas de acidentes de viação, a queda da folha, sobretudo antigamente, quando a estação tinha data para começar e findar.

    Uma mãe que passeia a sua filha no carrinho de bebé. À passagem por mim, a menina, de olhos grandes e negros, duas azeitonas pretas, fixa o olhar no meu. Acha-me piada e sorri. Pouco atrás, surge a correr um menino mais velho, de bola entre os pés, de chuteiras. E uma irmã de vestidinho cor de rosa. Num rompante, imagens do meu passado, dos passeios com a avó por jardins, quando via os meninos jogando futebol e eu com o Simba debaixo do braço. Se disparavam a bola na nossa direcção, refugiava-me nas calças da avó, espreitando, assustado, pela remoção do perigo. A avó devolvia a bola aos meninos. Por vezes ficava a observá-los à distância, admirando a destreza que não tinha, que não invejava, afinal, eu precisava de protecção, cada vez mais, seguindo no caminho oposto da natureza humana, que busca a crescente autonomia.

    Senti-me só. A avó envelheceu, eu cresci. Cresci mais do que queria caso me fosse dado a escolher. Um dia destes não a terei por perto. O Simba estará num dos imensos sacos, a salvo do pó e do esquecimento, guardando nas garras de pelúcia as recordações de uma infância doce, marcada por alguns conflitos internos, imperceptíveis aos sentidos, à consciência.


    As folhas tricolores envolvem a base de pedra calcária do bebedouro. Sobrepõem-se movidas pela brisa do final de tarde. A pressão do esguicho de água é fraca. Debruço-me. Molho o colarinho da camisa na superfície em sulco. Um pinscher vem ao meu encontro. Afago-o. Gosta de carícias fortes, reclama e pede brusquidão. Revolvo-lhe o pêlo e agradece impulsionando as patas dianteiras nas minhas pernas.

     As árvores fazem-me sentir ainda menor. Sobreviver-me-ão em séculos. 
   
    Filho de um acto irreflectido, mal calculado. Desejo inconsequente. Imaturo. Irresponsável. Leviano. Eles são como sou. E passarão, como eu, a histórias a contar pelos plátanos.