A viagem não seria longa. Vê-la assim, bem disposta, animou-me pela manhã.
Acordámos cedo. Os pertences ficaram arrumados na noite anterior, com o cansaço apoderando-se do meu corpo. Os calções e as t-shirts, imaculadamente engomadas, que coloquei com todo o cuidado no fundo da mala; de novo, a sua ajuda foi essencial para que soubesse, pela milésima vez, de que essa roupa fica por cima, ao contrário das toalhas e peças interiores, que poderão preencher a base.
Não me sentiu animado, talvez porque não esteja, diria em relação aos dias, que a temperatura melhora. Pedi bom tempo e fui ouvido.
Quando partimos, a cidade dormitava. O carro ainda atravessava o espesso manto da fria poeira matinal, com alternâncias de sol, tímido, e sombra, estática. O dia brindava-me com um quadro de Verão. Permaneci assim, fitando a vida lá fora, lutando pela minha do lado de dentro do vidro.
Não acelerou. Falámos durante o percurso. Do que faríamos e onde estaríamos. Identifiquei a paisagem após uma hora e meia. Sobreiros, orgulhosos, deixando pender, abaulados, os ombros verdes e robustos. Algumas cercas de arame, indistintas, por onde o matagal já revelava primaveras grandes e altas que não foram cortadas, estavam esburacadas por todo o comprimento. A dialéctica do sinal de perigo transportou-me para um monte isolado, desconhecido, com animais selvagens, bovinos, ameaçadores. Afinal, litoral, baixo ou alto, a maior de todas as regiões portuguesas mantém a sua identidade.
Por fim, um oceano azul, ao fundo, reflectindo a cor da atmosfera nas suas águas infinitas, desmentia a minha imaginação. Uma camada de um azulão espesso, que fechei entre os indicador e o polegar. Contei uns cinco centímetros de sonho. As casinhas baixinhas, caiadas, continuam iguais, passe o tempo que passar. O parapeito arranjadinho, sob janelas de cortinas discretas e calhas em cruz, de madeira, com vasos de flores de que adivinhei o perfume. Comércio escondido. As bugigangas não carecem de estar expostas, que os olhos do consumidor vêem, mas a mão fica a meio caminho do bolso.
Lugarejos pequenos em que todas as ruas dão ao centro. Depressa chegámos ao hotel, simpático, familiar. Quartos e apartamentos. Não será o nosso destino final. O gerente, dono, anafado e bolachudo, com um farto bigode, de camisa azul-pálido e calças de fazenda, apareceu cinco minutos, ou mais, depois da empregada ter-nos dito que iria chamá-lo. Senti o odor agradável do fresco assim que entrámos no hall. Vi o meu rosto reflectido nos mosaicos barrentos do chão. Tirei os headphones. Achou-nos piada e fez-nos uma atenção no preço. Não é insólito. Um homem adulto afugenta a simpatia dos anfitriões. Uma mãe e um filho inspiram desejos de protecção nos cavalheiros de meia-idade.
Subimos ao quarto. O senhor mandou um rapaz carregar as malas. Ficando só, dormi cerca de uma hora. Desci à hora combinada para o almoço, no restaurante contíguo ao hotel.
Pus a indisposição de parte e decidi que iria permitir-me estar feliz.
Subimos ao quarto. O senhor mandou um rapaz carregar as malas. Ficando só, dormi cerca de uma hora. Desci à hora combinada para o almoço, no restaurante contíguo ao hotel.
Pus a indisposição de parte e decidi que iria permitir-me estar feliz.