A escalada de violência entre o Hamas e Israel, na Faixa de Gaza, não poderia ocorrer em melhor altura. Verão pelo hemisfério norte, campeonato do mundo de futebol, páginas de jornais com a pré-época das ligas de clubes que importam mais do que dezenas de mortos civis que perecem todos os dias às mãos de carrascos sem rosto.
O conflito entre as duas facções, israelitas e palestinianos, é secular. Religioso, de raízes profundas que o tempo não ajudou a amenizar. A região da Palestina não é homogénea. Terra de árabes e judeus que reivindicam para si pedaços do que é santo, transcendental. Após o mandato que o Reino Unido tinha na Palestina, confiado pela Sociedade das Nações, já na nova ordem internacional, em 1947, sob a égide da ONU, estabeleceu-se, em resolução, que a Palestina seria dividida em dois Estados, a saber: um árabe e um judeu, honrando assim os direitos de ambos os povos. Árabes que sempre, desde que a memória se perde, habitaram aqueles territórios e judeus que, emigrando pelos tempos para a Palestina, pretenderam recriar o reino de Israel das Escrituras em Estado moderno, de onde foram perseguidos durante o Império Romano e a subsequente conquista árabe. Toda aquela área, como se sabe, pertenceu por séculos ao extinto Império Otomano.
A resolução das Nações Unidas para a partilha da Palestina não foi aceite pelos países árabes, expectável, e o sempiterno ódio agudizou-se após a criação do Estado de Israel, em 1948. A declaração de guerra deu-se no mesmo ano e, de lá para cá, perde-se a conta aos conflitos que opuseram árabes e judeus. Entretanto, e por via das guerras, Israel foi expandindo o seu território, de forma ilegal por algumas vezes, como se verificou com a ocupação de Jerusalém, mal vista pela comunidade internacional, embora, como se saiba, seja uma cidade histórica importantíssima para os judeus. Os colonatos na Cisjordânia, reivindicada pelos palestinianos desde a expansão de Israel, é outro dos problemas que obsta sobremaneira à pacificação das relações já de si complicadas. Em todas as guerras entre Israel e a frente de países árabes que se lhe opõe, os judeus têm levado a melhor, ocupando a Cisjordânia, a Faixa de Gaza (controlada pelo Hamas na actualidade) e os Montes Golãs. A Península do Sinai, que Israel conquistara ao Egipto durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, foi entregue ao Egipto, em 1982.
No direito internacional, a ocupação da Cisjordânia, dos Montes Golãs e de Jerusalém não é reconhecida pela ONU e mantém-se o status ambíguo dessas regiões. São consideradas territórios sob ocupação militar. Os palestinianos reivindicam a Cisjordânia e Jerusalém; a Síria quer fazer valer os seus direitos sobre os Montes Golãs.
As décadas passam e a solução permanente e definitiva tarda em chegar. As guerras e as intifadas sucedem-se, tornando aquela parte do globo extraordinariamente perigosa. Há culpa tanto por israelitas quanto por palestinianos. A existência de Israel não deixa margem para dúvida e seria um primeiro passo o reconhecimento sem reservas, pelos povos islâmicos, do direito dos israelitas à sua pátria. Por outro lado, o Estado árabe na região é ainda uma realidade meramente formal. É urgente criar-se um país para os palestinianos, cumprindo o disposto no final dos anos quarenta do século passado. Israel terá de desocupar os territórios que controla à margem da comunidade internacional, remetendo-se para o que originalmente lhe foi atribuído.
Sou sionista, defensor e amigo do Estado de Israel e por várias vezes troco palavras acesas com anti-sionistas, alguns mais antissemitas, eu diria. A intolerância para com o povo judeu conduziu a um genocídio sem precedentes na História. Que Israel é um facto, um país, reconhecido pela generalidade dos Estados, pela ONU, é indiscutível, bem como a sua manutenção como sujeito internacional de pleno direito. É um patamar do qual não prescindo. Com os países árabes, mantemos, portugueses, uma relação especial muito devida aos oito séculos de ocupação muçulmana da Península Ibérica. A herança é mais do que muita, perceptível na língua, na arquitectura, na genética. Como rejeitar o que nos está no sangue? O que rejeito são os costumes árabes e berberes avessos à democracia e ao respeito pelos direitos humanos. Não pactuo com a intolerância quando o que está em causa são perseguições ideológicas, políticas ou sexuais, ou quaisquer outras. E nesse campo Israel ganha por larga vantagem. Não fosse a instabilidade e seria um dos melhores países do mundo.
Sou favorável à mediação internacional. Apenas. Terão de ser judeus e árabes entender-se. Utópico, dirão muitos. Direi eu, também, no curto, médio prazo. Já seria bom se transpusessem as disputas para o direito internacional e terminassem com as hostilidades bélicas. Que os civis, como sabemos, são as principais vítimas. E ninguém ganha com uma guerra. Todos perdemos. Eles e nós.