15 de julho de 2014

Suspiros Finais.


   Calor. Meados de Julho. Queria ir à praia e não posso. Estou literalmente metido entre livros de milhentas páginas, teses de mestrado, dissertações, monografias... A mãe perguntou-me, há dias, o que me leva a exigir tanto de mim. Não lhe soube responder. Creio que sou incapaz de dar apenas a metade do que posso. Quando me dedico a algo, tem de ser por inteiro.

   O bom de tudo é que não sou de passar horas a fio em casa. Saio. Estudo bastante no jardim da avó. É amplo, tem um recanto com árvores que proporciona uma brisa fresca, de final de tarde, insubstituível. Coloco os livros numa mesinha, o portátil, e por ali fico. Às tantas, esqueço-me da hora do jantar.
   Estou licenciado. Não fiz alarido disso, como alguns colegas que assim que souberam a última nota correram para actualizar o estado no facebook, agradecendo ao amigo, companheiro de casa, tio em quinto grau, padeiro do bairro, porquinho-da-índia. Até porque se tivesse de agradecer a alguém, seria a mim, em primeiro lugar, que estudei, e aos pais, que bancaram os quatro anos, naquele que é considerado um dos cursos mais dispendiosos - só em livros.

    Tenho duas orais. Uma na quinta, à tarde, e outra no dia vinte e três, quarta que vem. Estou tão entusiasmado quanto para assistir a um programa da TVI em primetime. Para piorar, ando adoentado nos últimos dias. Uma qualquer virose ou o raio. Dores de cabeça, de estômago e dificuldade em deglutir. Deve ser o maldito ar condicionado. A ansiedade está fora do normal - nem o Valdispert faz efeito.

     O mais engraçado é quando me perguntam como vão as "férias". Férias? (gargalhadas sarcásticas)

11 de julho de 2014

Israel.


   A escalada de violência entre o Hamas e Israel, na Faixa de Gaza, não poderia ocorrer em melhor altura. Verão pelo hemisfério norte, campeonato do mundo de futebol, páginas de jornais com a pré-época das ligas de clubes que importam mais do que dezenas de mortos civis que perecem todos os dias às mãos de carrascos sem rosto.

  O conflito entre as duas facções, israelitas e palestinianos, é secular. Religioso, de raízes profundas que o tempo não ajudou a amenizar. A região da Palestina não é homogénea. Terra de árabes e judeus que reivindicam para si pedaços do que é santo, transcendental. Após o mandato que o Reino Unido tinha na Palestina, confiado pela Sociedade das Nações, já na nova ordem internacional, em 1947, sob a égide da ONU, estabeleceu-se, em resolução, que a Palestina seria dividida em dois Estados, a saber: um árabe e um judeu, honrando assim os direitos de ambos os povos. Árabes que sempre, desde que a memória se perde, habitaram aqueles territórios e judeus que, emigrando pelos tempos para a Palestina, pretenderam recriar o reino de Israel das Escrituras em Estado moderno, de onde foram perseguidos durante o Império Romano e a subsequente conquista árabe. Toda aquela área, como se sabe, pertenceu por séculos ao extinto Império Otomano.

   A resolução das Nações Unidas para a partilha da Palestina não foi aceite pelos países árabes, expectável, e o sempiterno ódio agudizou-se após a criação do Estado de Israel, em 1948. A declaração de guerra deu-se no mesmo ano e, de lá para cá, perde-se a conta aos conflitos que opuseram árabes e judeus. Entretanto, e por via das guerras, Israel foi expandindo o seu território, de forma ilegal por algumas vezes, como se verificou com a ocupação de Jerusalém, mal vista pela comunidade internacional, embora, como se saiba, seja uma cidade histórica importantíssima para os judeus. Os colonatos na Cisjordânia, reivindicada pelos palestinianos desde a expansão de Israel, é outro dos problemas que obsta sobremaneira à pacificação das relações já de si complicadas. Em todas as guerras entre Israel e a frente de países árabes que se lhe opõe, os judeus têm levado a melhor, ocupando a Cisjordânia, a Faixa de Gaza (controlada pelo Hamas na actualidade) e os Montes Golãs. A Península do Sinai, que Israel conquistara ao Egipto durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, foi entregue ao Egipto, em 1982.

   No direito internacional, a ocupação da Cisjordânia, dos Montes Golãs e de Jerusalém não é reconhecida pela ONU e mantém-se o status ambíguo dessas regiões. São consideradas territórios sob ocupação militar. Os palestinianos reivindicam a Cisjordânia e Jerusalém; a Síria quer fazer valer os seus direitos sobre os Montes Golãs.


   As décadas passam e a solução permanente e definitiva tarda em chegar. As guerras e as intifadas sucedem-se, tornando aquela parte do globo extraordinariamente perigosa. Há culpa tanto por israelitas quanto por palestinianos. A existência de Israel não deixa margem para dúvida e seria um primeiro passo o reconhecimento sem reservas, pelos povos islâmicos, do direito dos israelitas à sua pátria. Por outro lado, o Estado árabe na região é ainda uma realidade meramente formal. É urgente criar-se um país para os palestinianos, cumprindo o disposto no final dos anos quarenta do século passado. Israel terá de desocupar os territórios que controla à margem da comunidade internacional, remetendo-se para o que originalmente lhe foi atribuído.

   Sou sionista, defensor e amigo do Estado de Israel e por várias vezes troco palavras acesas com anti-sionistas, alguns mais antissemitas, eu diria. A intolerância para com o povo judeu conduziu a um genocídio sem precedentes na História. Que Israel é um facto, um país, reconhecido pela generalidade dos Estados, pela ONU, é indiscutível, bem como a sua manutenção como sujeito internacional de pleno direito. É um patamar do qual não prescindo. Com os países árabes, mantemos, portugueses, uma relação especial muito devida aos oito séculos de ocupação muçulmana da Península Ibérica. A herança é mais do que muita, perceptível na língua, na arquitectura, na genética. Como rejeitar o que nos está no sangue? O que rejeito são os costumes árabes e berberes avessos à democracia e ao respeito pelos direitos humanos. Não pactuo com a intolerância quando o que está em causa são perseguições ideológicas, políticas ou sexuais, ou quaisquer outras. E nesse campo Israel ganha por larga vantagem. Não fosse a instabilidade e seria um dos melhores países do mundo.

   Sou favorável à mediação internacional. Apenas. Terão de ser judeus e árabes entender-se. Utópico, dirão muitos. Direi eu, também, no curto, médio prazo. Já seria bom se transpusessem as disputas para o direito internacional e terminassem com as hostilidades bélicas. Que os civis, como sabemos, são as principais vítimas. E ninguém ganha com uma guerra. Todos perdemos. Eles e nós.

7 de julho de 2014

Degradação.


      Os costumes tendem a ser alvo de especial protecção por parte do Estado. Práticas seculares que o tempo não removeu da memória colectiva, mantendo-se por gerações. Alguns cederam perante o progressismo; outros continuaram porque, no senso comum, não contrariavam as bases de uma sociedade moderna, actual, voltada para os direitos da pessoa humana. Não sendo atingidos quaisquer direitos humanos, o esforço com vista à eliminação dessas práticas não foi além de meros debates, colóquios, pairando aqui e ali em correntes ideológicas.

    As associações que defendem os direitos dos animais desempenham um papel relevante. Partem de um objecto que não existe - os direitos dos animais. Os animais não têm direitos. Só as pessoas são sujeitos de direitos e deveres, pessoas singulares ou colectivas. Os animais são ainda uma indefinição jurídica. Custará considerá-los coisas, todavia são comercializados (comprados, vendidos, alugados). São uma propriedade humana. Seres vivos que o Homem considera seus, alienando-os como artefactos que produz. Na Natureza, estão em pé de igualdade. As capacidades do homo sapiens tornaram-no dominante sobre as restantes espécies animais, o que não significa que possa e deva explorá-las, ameaçar a sua existência, destruir os seus habitats. Deve, isso sim, protegê-las da fúria e ambição naturalmente suas. O que seria do mundo sem a beleza do canto de um belo pássaro, as gracinhas de um golfinho, o companheirismo de um cão ou de um gato.

   Nesse sentido, há quem ainda condene a utilização dos animais como suporte à vida humana, seja na alimentação ou no vestuário. Admitindo-se que o Homem pode - e deve - matar para se alimentar, uma vez que os animais também matam para prover à sua subsistência, será difícil consentir que disponha da vida animal para entretenimento, infligindo dor, sofrimento, ansiedade - que há muito a neurociência reconhece que existe nos animais vertebrados, mormente na classe dos mamíferos.

    Espectáculos como as lutas de cães e galos, os rodeos, as touradas e análogos não são próprios de uma sociedade humana que respeita e protege a vida dos demais animais. E o Direito está em transformação nesta matéria. Progressivamente, os diversos ordenamentos jurídicos vão reconhecendo um direito dos animais ao respeito e à protecção contra abusos. Daí que, meio que hipocritamente, haja regras nos matadouros quanto aos abates. Delicada matéria que carece de aprofundamentos. O respeito que a vida animal nos merece implicará, no limite, a proibição das touradas, o que terá a veemente oposição de todos quantos lucram com a tradição. Levará décadas, talvez um século, acompanhando a sensibilidade da opinião pública. Reduto não é - e a transmissão de sucessivas touradas na estação pública, oficial, paga por todos os contribuintes - evidencia isso mesmo. Em Portugal, e falo da realidade portuguesa, é aceitável ver um animal a ser maltratado até à exaustão física para deleite de centenas nas praças de touros e uns quantos milhares em casa. A sua morte, o corte da orelha e do rabo, tão comuns em Espanha, estão proibidos, sabendo-se que o touro será morto logo depois. Permite-se a diversão na agonia, proibindo-se de seguida a exposição pública dos momentos finais. E Barrancos tem um regime de excepção, onde a tradição, mais uma vez, justifica os touros de morte.

     Uma discussão que está longe de ser encerrada. Manifestamente, a tauromaquia é degradante, inadmissível nos dias que correm. O caminho é longo. Como tudo o que é controverso, adia-se um problema, uma fractura que existe entre os portugueses. A solução, a meu ver, passaria por impor aos cidadãos normas que regulassem a actuação sobre os animais, normas muito concretas, restritivas, estabelecendo-se como e em que circunstâncias os animais poderão estar à disposição do Homem. Não será a derradeira solução. Outras se adivinham, num longo, longo prazo.

       Por ora, mudar de canal e suspirar fundo, o que fiz há dois dias, é o possível.

2 de julho de 2014

Mar


Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.


E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.




Sophia de Mello Breyner Andresen in Poesia I, Editorial Caminho