29 de abril de 2014

April 29.


   O cartão do cidadão não engana. Mais um aniversário. Em criança, era um dos meus dias preferidos. Não ia ao colégio, almoçava com os pais e, pela tarde, levavam-me até ao Toys "R" Us, onde me enchia de presentes. Inovação. Nunca me ofertaram nada; antes, delegavam essa função em mim próprio. Não me queixava, de todo. Dos familiares, sim, recebia presentes, alguns repetidos (aconteceu), outros que me deixavam desapontado, embora esboçasse sempre um sorriso de gratidão. Sejamos sinceros: aniversário, na infância, significa brinquedos.

   Os anos passam e as prioridades alteram-se. Actualmente, não quero bens materiais. Dispenso. É mais do que suficiente receber os telefonemas dos que me são próximos (e não são muitos). Aquela tia que mora nos Estados Unidos e se lembra de nos ligar às tantas da madrugada; o amigo da mãe que não se esquece desde a minha mais tenra idade; o banco que, num gesto automático e frio, lá envia um email formal e computorizado, desprovido de qualquer sentimento humano.

   É provável que, entre todos, o pai se esqueça. É recorrente. Encontro uma explicação. Talvez não consulte a sua agenda. Com tantos afazeres, um homem ocupado entre reuniões e reuniões, não podemos esperar que se lembre do aniversário de um dos seus filhos, porventura o mais novinho. E depois, a distância repercute-se também nos sentimentos, queiramos ou não.

   Um movimento mais de translação da Terra em torno da sua estrela única e dilecta, por esse motivo. Pouco representa, a par do envelhecimento. De certa idade em diante, a vontade que surge de parar o tempo será em vão. O fenómeno curioso de se comemorar algo que se abomina, tarde ou cedo, suscita-me várias interpretações. Uma delas é o apego que se tem à vida, sendo que o processo natural de desgaste dos corpos levará ao perecimento.

    Muito se fala na juventude, esquecendo-se, porém, de que é a soma das várias etapas que conclui, por fim, o que é a nossa existência.

27 de abril de 2014

Primavera.


    Há um mês que nos prometem temperaturas amenas, sol que vai aquecendo a pele, progressivamente mais e mais alto, brisas suaves. Foi com estupefacção que recebi o dia de hoje, luminoso, propiciando passeios, sumos de frutas, mangas curtas. Assim fiz. Levantei-me cedinho e fui dar uma volta pelas avenidas, ver algumas montras do comércio tradicional, comer um bolo cheio de creme (que também mereço; há pecados inevitáveis), escrever parcas notas no meu caderno, inspirar-me nas pessoas que via numa manhã tímida de domingo, embora viva, nas cidades grandes que raramente adormecem.

   Vou no embalo da maioria e sinto-me melhor nestes dias. Em boa verdade, anseio pelo Verão. Preciso de praia, de mergulhos no mar, de piqueniques no campo, com direito a toalha na grama e cestinho com geleias de mil sabores, pãozinho quente e saladas frescas de tomate-cereja e rúcula.
     O ano tem sido sombrio, amargo, com gosto de eternidade má. Daí à displicência é um pequeno passo.

     Vi um rapaz da minha idade, aparentando pouco mais de vinte anos, a amparar o avô na caminhada. Sei-o avô porque ouvi o modo carinhoso com que o neto o chamava, paciente, olhando para os pés do ancião e, em simultâneo, para o chão e prováveis obstáculos que encontrasse. De repente, lembrei-me do avô, o paterno, que não vejo há bem mais de um ano. Nunca fomos próximos a ponto de haver reciprocidade de mimos. Beijava-o na face, quando o via, sempre com uma distância formal que não permitia mais do que palavras de circunstância. Uma relação, portanto, muito diferente da que tenho com o pai da mãe, que me levava pela mão aos jardins que conhecia, tirando-me fotos, muitas, que guardo e vejo, de tempos em tempos, com ternura e a nostalgia própria de momentos que não posso recordar recorrendo à memória.

    Os ecos dos avós paternos chegam-me por conversas com pessoas que vejo e que sabem deles ou através do pai, quando falamos. Fará oitenta e oito anos no mês que vem. Está com problemas de locomoção. Contrataram uma senhora especialmente vocacionada para tratar dele, uma espécie de enfermeira. Alimenta-se bem e, que conste, não pergunta por mim. Pode ser que o visite num destes dias.

   Na vinda, comprei um gelado. Os anos passam, mas o hábito de ir primeiro à cobertura, e só depois ao recheio, não muda. Como não se altera o querer voar para uma terra longínqua que me receba de braços abertos, se tanto confortantes, iguais aos do rapaz no seu avô.

24 de abril de 2014

Quarenta Anos Depois.


  Há quarenta anos, um grupo de capitães, revoltosos, decide pôr termo a uma das mais longevas ditaduras europeias. Portugal lutava em três frentes na dolorosa Guerra Colonial, entre a Guiné, Angola e Moçambique (elevados à categoria meramente honorífica de Estados na revisão constitucional de 1971), que ceifava milhares de vidas e contribuía para o descrédito do país no palco internacional. Orgulhosamente sós, como Salazar, falecido um ano antes, clarificou. A Santa Sé recebia os dirigentes dos movimentos de libertação, Caetano era vaiado em Londres, em 1973, graças aos relatos que davam conta de massacres no norte de Moçambique. Urgia encontrar uma solução para o país e para a questão colonial.

   Houve um golpe militar nas Caldas da Rainha, a 16 de Março de 1974, revelando-se infrutífero, mas que, todavia, haveria de abrir caminho para o que sucederia um mês depois, na operação Fim-Regime, que seria bem sucedida. Paulo de Carvalho e Zeca Afonso abririam as hostes.

   Lisboa era o objectivo do Movimento das Forças Armadas (MFA), dirigido por Otelo Saraiva de Carvalho. Ocupados os sectores estratégicos como a rádio e a televisão, imperava fazer demitir o Presidente do Conselho, Marcello Caetano. O regime estava moribundo e não esperava uma ofensiva de grande envergadura por parte das Forças Armadas depois do golpe fracassado de Março. A GNR  e a PSP ainda tentaram oferecer resistência, mas Caetano render-se-ia ao General Spínola para que, em suas palavras, o "poder não caísse na rua".

   O povo estava cansado de longos treze anos de Guerra Colonial, inseridos em quarenta e oito de um regime que negava as liberdades e os direitos fundamentais. Gerou-se um clima de euforia. O Presidente do Conselho de Ministros, Marcello Caetano, e o Presidente da República, Américo Tomás, seriam detidos, destituídos sumariamente dos seus cargos e conduzidos ao exílio no exterior. Abandonou-se o ideal de partido único; a União Nacional, então rebaptizada de Acção Nacional Popular por Caetano, foi imediatamente extinta, assim como a tristemente célebre PIDE, renomeada desde a reforma marcelista de Direcção Geral de Segurança (DGS), abolindo-se ainda a Assembleia Nacional e o Conselho de Estado. Álvaro Cunhal e Mário Soares, exilados, regressam ante a apoteose das multidões.

   No programa do MFA, posto em prática pela Junta de Salvação Nacional, ainda se procede à extinção da Mocidade e da Legião Portuguesas, libertam-se a amnistiam-se os presos políticos, termina a censura, permitindo-se o regresso dos exilados. A Revolução dos Cravos seria manchada pelos tiros que a PIDE / DGS, que teimava em resistir, haveria de disparar, provocando mortos, poucos, três ou quatro.

  Os tempos de euforia dariam lugar a tumultos e confrontações políticas, sociais e ideológicas que se estenderiam até 1976... Seria um outro capítulo.

   O programa do MFA contemplava os 3Ds: Descolonizar, Democratizar e Desenvolver. Do primeiro, tratou-se nos tempos seguintes: entre facções que defendiam uma solução de independência total ou federação, ganharam relevo as ideias emancipacionistas. Efectivamente, a independência da Guiné-Bissau era facto consumado. A guerra havia sido perdida naquele território. A solução passava por reconhecê-la e, em relação a Moçambique e a Angola, negociar os termos das independências com os respectivos movimentos de libertação. A descolonização foi tardia, mas célere: não havia outra solução. Os recentes países ficaram privados de quadros importantes da antiga metrópole, sentiram o desmantelamento dos seus aparelhos produtivo, comercial e administrativo. Para Angola e Moçambique, trilhou-se um caminho que propiciaria as longas guerras civis que durariam décadas a fio. Portugal, por sua vez, receberia milhares de retornados.

   Democratizar foi o processo mais turbulento, a que, após o período conturbado de 1974 - 1975, se chegaria com a Constituição de 1976, ainda em vigor. Esta consagrou os direitos fundamentais dos cidadãos, o Estado de direito democrático, unitário, pluripartidário e descentralizado e um modelo de sociedade e economia em transição para o socialismo (que ainda consta no preâmbulo). A democracia plena, contudo, viria apenas em 1982 com a primeira revisão constitucional que afastaria de vez os militares do poder, extinguindo-se o Conselho da Revolução, passando as competências deste para o recém-criado Tribunal Constitucional. Reduziram-se ainda os poderes do Presidente da República, então um militar, General Ramalho Eanes, deixando os governos de precisar da confiança política do Presidente da República para poder governar.

  Desenvolver seria mais difícil e ocuparia as décadas seguintes. Em 1977, Portugal pediu a adesão à CEE, aderindo em 1986. O país encaminhava-se, assim, para o grupo de países desenvolvidos - e muito havia a fazer. Herdou-se do Estado Novo uma nação incapaz de responder aos novos desafios. O atraso tecnológico, a que se somava a parca qualificação dos portugueses, foi um entrave ao desenvolvimento do país. O único dos três Ds que ficou por cumprir na sua plenitude. Vivendo sob um resgate financeiro, a situação actual traz-nos à memória os resgates de 1978 e de 1983, em que o país estava mergulhado em crises cíclicas gravíssimas, com altas taxas de desemprego (nada que tenhamos), inflação que disparava, desvalorização da moeda, bens racionados... Bom, estaremos um tanto melhor, mas hoje estamos inseridos numa Europa comunitária, daí reconhecer algum mérito à UE - embora seja um histórico crítico, o que não me leva a ser extremista. Portugal não sobreviveria sem os parceiros europeus. Naqueles anos, como actualmente, houve cortes salariais na Função Pública, aumento de impostos, fim dos investimentos públicos, cortes nos subsídios de Natal... O país continua a demonstrar fragilidades.

   Podemos imputar responsabilidades apenas a quem governou nos últimos quarenta anos? E o que está atrás? Para a frente é o caminho, com certeza, mas somos o que fomos e o atraso de Portugal é secular, anterior ao Estado Novo, seriamente agravado por este. 

   Muito mais se podia ter feito e os queixumes perdem a base racional que os sustinha. São quarenta anos, não quatro. Quase tanto de democracia como de ditadura. O povo está cansado. Olha para o passado e não vislumbra um futuro auspicioso. Aumenta o descrédito que se traduz em abstenção. Um beco sem saída.

   Admitindo ser um nadinha demagógico aqui, chega de políticos desonestos. Precisamos de encontrar um meio seguro e justo de responsabilizar quem se apresenta perante o eleitorado com um ideal e não o cumpre culposa ou negligentemente. O país não pode esperar mais.

   Em tempos, estávamos no último vagão do comboio. Entretanto - e ninguém viu isso - o comboio já passou. Resta saber se queremos ficar a acenar ou correr atrás do prejuízo.

22 de abril de 2014

Evolução.


     Ontem e hoje, surpreendentemente, pude assistir a duas situações que me fazem crer que o país evolui, ainda que timidamente, com passos cautelosos e sorrateiros.
    Aproveitando o último dia de férias, fui passear pela baixa. Cheia de turistas, como de costume. Famílias que se agrupam junto ao cais para tirar fotos. Os asiáticos, parece-me, são bastante divertidos. Vi uma senhora de saia rosa-choque, camisa floreada e sapatos amarelos, a posar com um bom humor contagiante. Lá fazia mil e um gestos mirabolantes para a objectiva. Acredito que o álbum "Portugal 2014" fique o máximo! Outra turista passeava o cão. Perante a rebentação, o animal refugiava-se atrás da dona com medo da água, latindo em forma de protesto, desencadeando a atenção de quem passava. Um músico tocava viola. À sua frente, um gorro do avesso com algumas moedas. O típico vendedor de água engarrafada, sem-abrigos, para quem há muito a vida deixou de fazer sentido...

   No meio de todos, um casal gay de mãos dadas, possivelmente estrangeiro. Indiferentes, e como deve ser, aos restantes transeuntes, caminhavam sem receio de exibir o que os unia. E não o fizeram de forma a ostentar ou provocar. Exerceram o seu direito de viver o amor e a sexualidade como qualquer casal hetero. Atribuí esse "à vontade" à idade. Eram pessoas na casa dos cinquenta, sessenta, maduras, experientes, que nada temem e que pouco terão a perder. Fui mais feliz para casa.

   Hoje, em direcção à faculdade, vejo dois rapazes da minha idade, ou mais novos, que se dirigiam para o pólo universitário imediatamente em frente, de mãos dadas, conversando e sorrindo. Rodeados de pessoas, percebi que ninguém comentou com o parceiro do lado, gozou, menosprezou, apontou, absolutamente nada. Fiquei surpreso e agradado. É na rua que lidamos com o povo, que extraímos o grau de evolução das mentalidades e, devo dizer, reformulei muito do que pensava. Claro que tenho consciência de que estava numa cidade universitária, na capital, perante pessoas que presumo instruídas. A realidade do país fora das metrópoles é substancialmente diferente. As reacções não seriam iguais no centro de Braga, deduzo, ou numa aldeia no Alentejo ou em Trás-os-Montes.

   Há muito a fazer, mas são episódios como estes que relatei que me dão esperança e me fazem ter algum orgulho de ser português (eu, que digo tão mal do país). Estas quatro pessoas (dois casais) seriam detidas, julgadas e condenadas em vários países; espancadas, abusadas, assassinadas noutros tantos. Portugal, pioneiro que foi na abolição da pena de morte, demonstra a sua pacatez e tolerância. É dos países mais tranquilos e seguros.

    Assim, sim.