7 de fevereiro de 2012

O meu novo dossier.


 As aulas recomeçam em breve. Para mim, cada paragem significa bem mais do que uma simples interrupção; é o iniciar de um outro ciclo, trazendo novidades e surpresas.
 Irei às compras. Desta vez, seguindo o conselho de algumas pessoas, optarei por um dossier. Fui demasiadas vezes para a faculdade carregando os cadernos, pesados, no braço. Um dossier, para além de mais prático, permitir-me-á tirar apontamentos ao mesmo tempo que faço resumos para os testes: os apontamentos serão os resumos, uma vez que, modéstia à parte, tiro bons apontamentos nas aulas.
 Em criança, quando comprava um dossier novo, entrava feliz no colégio. Pequeno ou grande, de uma cor ou de outra, teria apenas de me deixar ansioso por utilizá-lo, colocando os separadores por disciplina e carregando-o com folhas novas prontas a serem escritas.
 Fiquei ansioso por ver o que irei comprar. Estou a criar expectativas relativamente à compra de um mero dossier, quiçá umas canetas e alguma coisa que veja e me interesse. Será, no fundo, uma necessidade de inovar, de começar algo diferente.
 Quando olho para trás, depressa me apercebo da impetuosidade do tempo. Antigamente, tudo parecia ocorrer mais devagar. A vida processava-se naturalmente, sem que desse conta de pequenos pormenores. Os dossiers, assim como o restante material escolar, surgiam na minha vida sem que programasse a sua compra.
 Segunda-feira recomeçarei as aulas, não de sorriso nos lábios, mas com o meu novo dossier.


5 de fevereiro de 2012

Sunday.


 Dia escolhido para arrumações. Não que eu necessite de guardar um dia específico para arrumar as minhas coisas, uma vez que sempre fui bastante organizado, mas os livros do primeiro semestre pediam-me um qualquer lugar numa estante. Os livros do primeiro ano tiraram-me todo o lugar disponível e como ainda não comprei uma outra estante, resta-me utilizar o espaço livre no escritório da mãe.
 Observei-os atentamente antes de os arrumar. Fico surpreendido com a minha capacidade de estudar sem causar qualquer dano visível nos manuais. Sou cuidadoso, sim, e recordo-me de ficar bastante incomodado, no passado, quando verificava que um livro tinha a capa ou alguma página dobrada, riscada ou simplesmente maltratada. O mesmo incluía as páginas, no interior. Cada livro é uma relíquia e deve ser estimado como portador de um conhecimento, mesmo os que facilmente ficam desatualizados. Naquela época, naquela edição, naquele momento, era assim que acontecia. Isso é muito importante.
 Vejo, também, o empenho da mãe e do pai em cada livro. Quantas vezes a mãe foi às livrarias comprar-me manuais difíceis de encontrar!, desviando-se da sua trajetória.
 Apenas lamento o cheiro a novo, típico de um livro saído da tipografia. Esse, perde-se a cada página lida e virada, a cada conhecimento adquirido. Salvem-se as frases não sublinhadas - e é com orgulho que o digo!
 Enquanto folheava alguns livros, a luz do Sol perdeu-se algures por entre as nuvens espessas. Pela janela, senti o quotidiano domingueiro, banal, trespassando a área circundante às árvores. Definitivamente, era domingo. Pousei o livro em cima da secretária da mãe, imaculadamente arrumada. Não gosto de domingos.


4 de fevereiro de 2012

Notas.


 Já saíram todas. O nervoso miudinho esteve até ao último momento, presente, implacável, torturador. Dizem, os entendidos no amor, que sentimos umas borboletas quaisquer no estômago, sintoma dos apaixonados, mas eu senti as mesmas borboletas a cada log in no site da faculdade. Não poderei dizer, com propriedade, que estou apaixonado pelo sítio da faculdade na internet ou até mesmo pelas cadeiras. Tentei dizer aos insetos para me deixarem sossegado, embora o pedido não surtisse efeito.
 Não foram más, o que significa que foram razoáveis. O adjetivo "bom", na faculdade, especialmente na minha licenciatura, corresponde a notas que almejamos, apesar de nem sempre as alcançarmos. Contudo - e uma vez que sou persistente / ambicioso - considero a minha prestação razoável, para que consiga, de futuro, torná-la boa. Sim, exijo demais de mim mesmo.
 Penso, penso, penso. Penso se farei, ou não, alguma oral de melhoria. Há imenso tempo que não visto um fato, com camisa branca, imaculada, e gravata. Nas orais, obrigatoriamente, temos de usar roupa formal. Gosto de gravatas. Gosto de roupa formal. Não vejo a gravata como uma corda prestes a sufocar-me; pelo contrário, é um adereço que aprecio. O problema é que sou avesso a situações de tensão e, podendo evitá-las, faço por isso.
 Vou tentar aproveitar estes dias que antecedem o início do segundo semestre. Talvez entre num foguetão e vá dar uma volta até à Lua. Poderia trazer comigo algumas pedras lunares. O que quereria mesmo era deixar uma pegada no solo lunar, assim como o fez Neil Armstrong, mesmo sabendo que não existe gravidade na Lua e que aquela pegada é surreal. Teria pena porque não poderia mergulhar em todas aquelas crateras gigantescas, com nomes de Mar, sem água.
 Pensando bem, dou uma volta por aí.



2 de fevereiro de 2012

Por entre as gotas.


 O frio não gosta da chuva. Quando chove, o frio diminui, mas os senhores da meteorologia dizem que não vai ser assim.
 Senti-me em cada gota de chuva que caiu ao início da noite. Se vivesse na floresta, perdido no meio do mato, teria colocado a panela à chuva e cozinhado. Falaria com a Natureza, teria os animais selvagens como companhia e provavelmente morreria devido às variações térmicas, se não encontrasse uma qualquer gruta ou um buraco numa árvore oca que me servisse de abrigo. Na gruta, encontraria um jaguar e deitar-me-ia sobre o seu pêlo sarapintado e espesso. O jaguar jamais me faria mal - pelo contrário - proteger-me-ia dos restantes animais ferozes. Pela manhã, quando a terra estivesse húmida, caminharia descalço e pediria ao jaguar se poderia utilizá-lo para me elevar às altas árvores, de forma a colher fruta tenra e fresca para comer. Já de tarde, poderia andar sem rumo até chegar à civilização, como poderia ficar para sempre no estado selvagem. Chegaria realmente à civilização ou entraria na selva?
 Esperei que a chuva parasse para sair de casa da avó. Tão ténue que era e não teria dado por ela se a luz de um poste elétrico não a denunciasse. Ao cair, pareciam pequenas fitas luminosas que se esbatiam no ar antes de embaterem no solo. Múltiplas e esguias, as gotas delicadas de chuva assemelhavam-se a um manto de um qualquer sonho exequível.
 Tivesse coragem e sairia calmamente sem me importunar se ficaria adoentado ou não. Arriscaria e percorreria a rua artificialmente iluminada até chegar a um destino.
 Em casa, não tive o jaguar, altivo e imponente, à minha espera. No frigorífico, encontrei fruta fresca.