Em pequeno, sonhava que não existiam barreiras para o amor. Julgava tudo possível, sem que nada pudesse perturbar a nobreza de um sentimento. Evidentemente, isso contemplava todas as formas de amar. Qualquer uma era válida, consentida, admirada, permitida.
Com o tempo, dei-me conta de que não é assim. Há amares moralmente aceites e outros há que são reprováveis. Algumas dúvidas logo pairaram na minha cabeça e se as Oreo são melhores embebidas no leite, se os cereais ficam mais estaladiços no leite frio, se a sopa sabe melhor com um raminho de hortelã, por que motivo duas pessoas não estarão bem uma para a outra independentemente de todas as condicionantes externas?
Limitado será acreditar - alguns veementemente - de que um invólucro de carne e osso determinará os sentimentos de cada um. Há mais para além da junção de dois corpos, assim como o sol despontará amanhã de novo.
E, quando o véu da inocência se vai, e a realidade cai em nós, sentimos o peso da verdade, assim como uma onda que nos derruba, nos envolve e nos devolve, violentamente, contra o areal. Não há lástima, nem absolvição. Uma bebida gaseificada com mil vidrinhos quebrados que se ingere, um espinho de uma rosa, um vento gélido.
Passamos, continuamente. O sol, bom, esse nascerá indefinidamente (pelo menos enquanto durar o hidrogénio e o hélio que o compõem).