11 de janeiro de 2012

Time can't erase a feeling this strong.


 Em pequeno, sonhava que não existiam barreiras para o amor. Julgava tudo possível, sem que nada pudesse perturbar a nobreza de um sentimento. Evidentemente, isso contemplava todas as formas de amar. Qualquer uma era válida, consentida, admirada, permitida.
 Com o tempo, dei-me conta de que não é assim. Há amares moralmente aceites e outros há que são reprováveis. Algumas dúvidas logo pairaram na minha cabeça e se as Oreo são melhores embebidas no leite, se os cereais ficam mais estaladiços no leite frio, se a sopa sabe melhor com um raminho de hortelã, por que motivo duas pessoas não estarão bem uma para a outra independentemente de todas as condicionantes externas?
 Limitado será acreditar - alguns veementemente - de que um invólucro de carne e osso determinará os sentimentos de cada um. Há mais para além da junção de dois corpos, assim como o sol despontará amanhã de novo.
 E, quando o véu da inocência se vai, e a realidade cai em nós, sentimos o peso da verdade, assim como uma onda que nos derruba, nos envolve e nos devolve, violentamente, contra o areal. Não há lástima, nem absolvição. Uma bebida gaseificada com mil vidrinhos quebrados que se ingere, um espinho de uma rosa, um vento gélido.
 Passamos, continuamente. O sol, bom, esse nascerá indefinidamente (pelo menos enquanto durar o hidrogénio e o hélio que o compõem).

8 de janeiro de 2012

Sentimentos.


 Quando acordo, e a disposição mo permite, coloco uma cassete de desenhos animados e fico a vê-los até sair da cama. Houve um tempo, há alguns anos atrás, em que cheguei a temer que alguma se estragasse. Vistas e revistas, vezes sem conta, permitiam-me sonhar através das paredes de casa, correr ao sabor do vento sem me resfriar, experimentar sensações que de outra forma não poderia. Levaram-me a pensar que as grandes histórias de amor só existem no cinema. Histórias de encantar. Histórias em que a Bela se apaixona pelo Monstro e aprende a amá-lo para além da sua compleição física; tudo é possível para um verdadeiro amor.
 De pijama colorido, deitado de frente com a cabeça apoiada sobre os ombros, a magia era-me permitida, finalmente. E o mundo lá fora parava. A realidade tornara-se bem mais tenebrosa. O leite frio esfriara, as torradas moles arrefeceram no prato, a compota de framboesa não chegara a ser aberta...
 Quando, de repente, raios separam-se das nuvens e caem sobre o solo. Raios de mil uma cores. O leite, no copo, torna-se rosa, azul, amarelo, roxo, refletindo a cor dos raios na substância do seu líquido. A absorção das cores fora total.
 Ontem, à noite, vi outra vez alguns filmes que outrora me fizeram sonhar. Desta feita acompanhado de chocolate quente com pouco açúcar. Nenhum doce é necessário quando o ecrã nos ensina lições dos mundos mais doces que algum dia o Homem criou. Criam-se realidades utópicas, mundos em que príncipes e princesas, bruxas e dragões, ocupam o lugar que na vida é tomado por todos nós.
 A Sininho chamou-me. O Peter Pan espera por mim na Terra do Nunca.




7 de janeiro de 2012

Se a caneta preta fosse azul, desenharia as nuvens.


Não gosto de entrar no auditório quando este já se encontra cheio de alunos. Parece que as atenções se focalizam todas em mim e eu prezo por ser discreto. Para além disso, não sinto o som das botas no chão, o que desde pequeno sempre me provocou uma certa boa disposição. Fico mudo dentro de mim.
Acho que fariam bem se colocassem umas cortinas nas janelas. Os pássaros que pousam no parapeito externo não poderiam olhar para dentro, é certo, mas com certeza a luz do sol no verão e o clarão dos relâmpagos em dias de tempestade não seriam tão incómodos. Engraçado, os pássaros assistem às aulas evitando propinas e mensalidades, adquirem conhecimentos que não são testados. Vida de ave é boa.
Tirei duas canetas, uma azul e outra preta. Disseram-me que poderíamos escrever a preto nos exames. Não é muito do meu agrado. O texto fica demasiadamente denso e pesado, intimida-me e retira-me algum à vontade. Depois, já tratando-se de ti, é sem dúvida bem mais agradável observar os teus desenhos, no enunciado do exame, feitos a azul. Imagino o que seria uma nuvem preta, um mar preto (se bem que com as marés negras é um cenário cada vez mais do quotidiano) e todos os teus rabiscos a negro profundo. Perderia a graça.
Inesquecíveis, também, são as expressões amedrontadas que denoto nos rostos dos que me rodeiam. Precisariam - quem sabe - de um céu azul, não muito bem pintado porque preencher, a cor, o céu com uma esferográfica, não dá um ar quase perfeito, mas cada um fá-lo como pode. Mergulhar no céu e sentir-me um pássaro no meio de um exame é um extraordinário efeito de abstração... Pudessem eles sentir o mesmo que eu.
Se na folha branca, enunciado de mil e uma questões, temos o céu, na janela, do lado de fora, poderíamos ter um pássaro que hoje não apareceu. Entende-se, estava frio e, apesar de os dias serem maiores, continua a anoitecer cedo. Perdi minutos preciosos a olhar para as nuvens da tua folha e dei por mim a desenhá-las, não tão minuciosamente, na minha folha. Coincidência, desenhei-as a negro. A caneta azul falhara.
Essas mesmas nuvens, brancas, de contornos negros irregulares que tanto temia. Afinal, tinha sido eu a rabiscá-las no meu enunciado. Muito pouco digno de um menino quase doutor, sim, também acho (não).
Entreguei o exame e saí. O enunciado, com nuvens desenhadas a caneta preta, ficou por cima da bancada, contudo, a tempestade veio comigo no bolso.


2 de janeiro de 2012

A DJ saved me.


Tempo de celebrar. O barulho da luzes pode ser extasiante. Quando olhamos para o chão e o brilho refletido mostra o rosto opaco, baço e cabisbaixo, julgamos a noite perdida. A alegria, essa, ficou esquecida na banheira, enquanto o vapor embacia os vidros nítidos e o perfume dos sais escapa pela porta fora.
Contudo, a música começa a soar, o compasso de cada perna marca o tom. Copos agitam as bebidas no seu interior. Maquilhagem que dá vida aos traços da face, sapatos que, elegantemente, definem as pernas femininas, homens que tentam a sua sorte. Vivências que se cruzam, noites julgadas adquiridas.
Não queria dançar. Nada tinha a comemorar. Vestir smoking não é cómodo, apesar da ideia não me ser totalmente nefasta. Quis afastar o cinzentismo, talvez fosse a melhor forma de enterrar definitivamente o velho ano. A mesa estava agora vazia. A mãe divertia-se com as amigas, dançando descontraidamente ao som da música. O whisky, sem gelo, parecia estagnado no copo. Às vezes, surgia de repente, bebendo um gole apressadamente.
Peguei no garfo e brinquei com as batatas já frias no prato de carne. Envolvi-as no esparregado e imaginei a sensação de insatisfação da batata. Do que a monotonia se lembra... O pequeno espelho portátil do estojo de maquilhagem da mãe dizia-me que o cabelo estava liso e sedoso. Não hesitei em ajeitar a franja pela milésima vez (tique frequente que denuncia o meu estado de nervosismo latente). Um rapaz observava-me da mesa do lado, olhando disfarçadamente enquanto mexia num telemóvel (?). Pode ser que por carência (mea culpa), mas retribuía-lhe o olhar. Até que nos detivemos a olhar mutuamente. Pareceu-me ver a fúria no seu rosto.

" Mark, tem calma. Ele está muito furioso... "

Não estava. Mas senti a sensação de ser observado. Confesso que gostei e assim evitei continuar a mexer desastrosamente no comer frio do prato. O sumo também acabara. Let's dance.
E foi a música que salvou a minha noite. Quis dançar, talvez insinuar-me. Uma dose de loucura, o ecstasy que não tomo, o álcool que não bebo, a magia que não sentia... Senti-a, longe da mãe e das suas amigas que perdi de vista. O rapaz via-me a dançar e isso não me inibiu. Pelo contrário, inebriou-me.
E vi o chão rodopiar, o cabelo soltar-se, as mãos perderem o sentido do toque.
Voltámos para casa, anunciavam na rádio as quatro da manhã, já o frio que anunciaria a manhã se fazia sentir. De casaco de smoking pelos ombros, olhei para o céu e sorri. Olá, ano novo.