Quando me sento no mesmo banco de madeira de outras memórias, vejo o que gravaram em cada ripa desgastada pelo tempo e pelos fenómenos meteorológicos. Amo-te, desta vez inscrito bem fundo, perpetuado, pelo menos até o velho banquinho ser substituído por outro. Escrevi por cima, passando o dedo por entre cada letra escrita na vertical. Tentei adivinhar, imaginar, em que altura terá sido escrito, por quem e em que circunstâncias. Como seriam as pessoas? O que sentiriam? Estava eu, naquele momento, sentado em cima dos seus sentimentos. Não bem sentado - o termo não será o correto. Estando sentado, não teria visto a palavra.
Abstraí-me. Abri o caderno e desfolhei as páginas de matéria que ainda não estudei para os exames. Não me apetece fazê-lo. Anoitecera e a luz não era a suficiente para conseguir manter a atenção. Sim, é uma desculpa. O vento também é uma boa desculpa para justificar o facto das minhas mãos se manterem gélidas, mesmo depois de as unir em torno da boca, exalando um ar quente que não as aqueceu.
Não quero escrever, não quero ler, não quero pensar. Quero sentir a leveza do nada, de quando cerramos os olhos e cada poro da pele consegue ver para além do tato. A pele vê, ouve. Eu soube-o, senti-o. Escutei o vento. Disse-me para não me preocupar.
Conquanto tivesse os botões do casaco apertados, senti frio. O botão de cima estava solto. Lembrei-me das palavras da mãe e apertei-o. Não, definitivamente as mãos não aqueceram. O vento trouxe-me o aroma do perfume novo recebido do Natal. Que mais? Não me diz nada.
Quando procuramos um refúgio que não encontramos, um calor que não há, uma palavra que não ouvimos. Quando nos procuramos e não nos encontramos, difícil se torna encontrar um outro alguém.
Quando a noite caiu sobre mim, também ela não mais me encontrou.