10 de outubro de 2011

Imperativo Hipotético.


Analisando a vida e as circunstâncias que a rodeiam, é fácil de perceber que poucos são os imperativos hipotéticos que temos ao nosso dispor. Quando afirmam - alguns perentoriamente - de que a vida é feita de escolhas ponderadas e refletidas, esquecem-se todavia de que as mesmas precedem um imperativo condicionante. Não é decidido ou realizado sem que uma força anterior o provoque. Somos frutos das circunstâncias e os atos que tomamos, prolíferos que se assemelham a espontâneos, não são tão determinados por cada um como se possa julgar.

No imperativo categórico, como Kant o idealizou, podemos ser levados a agir de uma forma estabelecida, porém, há imperativos naturais dos quais não podemos escapar. É a esses a que me refiro e são esses, mais os acasos da vida humana, que projetam e induzem os imperativos hipotéticos.

Tomando-me como cobaia e à experiência, chego à conclusão de que poucos imperativos verdadeiramente hipotéticos existiram na minha vida. O caráter hipotético é-lhes dado pela maior ou menor liberdade de escolha humana, uma vez carecidos de total determinação, não são eles, em si, verdadeiramente hipotéticos, mas um reflexo do imperativo categórico atenuado pelo campo de ação individual.
Como diria Rousseau, «o Homem nasce livre, mas em toda a parte se encontra aprisionado».

A liberdade humana é meramente utópica. As pequenas decisões que tomamos, exceto as verdadeiramente insignificantes, derivam de um antecedente indutor. A Terra é, então, um grande cárcere onde se encontram mais e menos aprisionados. A melhor forma de escaparmos à tendência sedutora é a evolução, nomeadamente intelectual. Escapar à tendência bruta do Homem, afinal, «o Homem é mau por natureza» (Thomas Hobbes e Nicolau Maquiavel). Evoluindo, cultivando a sabedoria, alcançamos progressivamente uma maior liberdade.
Contudo, nenhuma distinção credível me surge entre o prisioneiro atrás das grades e o homem que se julga mais livre.

Escrito ao abrigo das normas ortográficas em vigor.

7 de outubro de 2011

Encontros imeditados... no bar.


Nunca fui de ficar a conversar no bar da faculdade. Aquele ambiente inóspito de pessoas nervosas devido às aulas, testes, exames e afins, não tem um efeito sedutor em mim. Há quem passe horas a conversar no bar da faculdade e depois há quem prefira ir para o Saldanha, Campo Pequeno e El Corte Inglés, etc, com as amigas: eu. Hoje, surpreendentemente, conseguiram convencer-me a ficar no bar depois das aulas. Por sorte, fizemos todos a matrícula ao mesmo tempo de forma a ficarmos juntos na mesma sub-turma e conseguimos. Esta tarde, então, proporcionou-se uma conversa amigável entre mim, uma amiga, um colega nosso e o R. (há imenso tempo que não falava dele diretamente). Conversa puxa conversa e acabámos a falar de homossexuais na faculdade. Ultra constrangedor. A minha relação com o R. está mais do que fria; podem adivinhar o clima estranho que ficou no ar, para além, evidentemente, do caráter polémico do tema. De facto, naquela faculdade há imensos gays visivelmente assumidos, outros semi-assumidos, os discretíssimos que só com gaydar apurado são percetíveis e ainda aqueles que todos sabem que o são, exceto eles mesmos que se negam terminantemente. Resumindo: há imensos gays e lésbicas. O R. depressa arrumou uma desculpa para se subtrair à agradável tertúlia e eu também saí pouco tempo depois.

Não foi uma desculpa esfarrapada da minha parte. Combinei realmente lanchar com a avó e ainda tinha de passar pela livraria da faculdade para comprar mais um livro (comprei onze livros em cinco dias, coisa pouca...). Estava muito bem a procurar o livro quando esbarro l-i-t-e-r-a-l-m-e-n-t-e com um rapaz giríssimo. Alto, muito alto, louro de olhos esverdeados. Por pouco não deixo cair os cadernos. Ele, simpático, pediu-me desculpas todo sorridente e começou a fazer-me perguntas.





"Então, és caloiro?" - Não.

"És de Lisboa?" - Sim.

"Estás em que ano?" - 2º.

"Estás a ter dificuldades?" - Não.

Eu respondi quase em monossílabos de tão constrangido. Eu sei que as coisas neste universo funcionam meio rápido (anda um há meses a convidar-me para cafés e eu nada porque não houve aquele clique - mora perto de mim), mas assim tão rápido? Por mais que tente ser simpático, tenho consciência de que fui quase grosseiro com o rapaz. Eu reparei logo que ele é - no mínimo - bi ou então gay naquela categoria discretíssimo, contudo não me conhece de lado algum e desatou a fazer-me perguntas. Um pouco de discrição nunca fez mal a ninguém. Não gosto de fazer o «papel de difícil», nada disso, apenas acredito que deve haver tempo, empatia, no fundo, algo que inicie o processo de conhecimento entre duas pessoas.
Terminou dizendo-me que era do 3º ano, deu-me o número de telemóvel e disse-me que se precisasse de ajuda para não hesitar em contactá-lo.
Em um momento, de estranho passou a quase amigo com direito a lugar na lista de contactos no telemóvel. Atualmente, terá se ser tudo assim tão fugaz?


4 de outubro de 2011

A cor da cidade que não suplanta o seu medo.


Observo a noite abafada de um verão tardio. A luz dos candeeiros da cidade não aumenta a fé; diminui a esperança. Pequenos insetos esvoaçam em torno das lâmpadas quentes, movendo-se imóveis pela falta da brisa noturna. O carro para num semáforo e empurra o meu corpo ligeiramente para a frente, esbatendo-me, de novo, suavemente contra o banco estofado. A oscilação foi o suficiente para que os meus cadernos coloridos e a legislação caíssem para o chão. Não me detive a apanhá-los. Congruentemente, o cinto de segurança só é retirado após a viagem terminar.

A mãe continua um pouco constipada e stressada. Vejo que não está bem, mas não a quero confrontar com o seu estado de saúde. Fragiliza-me vê-la adoentada. Coloco os headphones e ouço a versão Glee da It's Not Unusual do Tom Jones. Preciso de ânimo. A letra suave e apaixonada, todavia, não consegue afastar-me dos mais temíveis pensamentos.

                                      

Serão mais duas horas em Kampala, no Uganda; mais uma em Lilongwe, no Malawi. A noite, cá, não trará preocupações de maior. Calma e quente, a noite brilha na capital. A esta hora, alguém estará a ser agredido, violentamente torturado e preso, em alguns países africanos, por ser... gay. A reportagem visionada ontem na televisão mostrou líderes religiosos que culpam os europeus pela existência de sodomia em África. Debaixo do mesmo luar, uns sofrem na pele; outros, na consciência coletiva.

Paramos no Saldanha e compro mais um livro para a faculdade. Tantos preceitos e ética nas mãos e tão pouco nos corações dos homens. A música não teve um efeito tranquilizador. A impotência e o conformismo tomam as rédeas de um ativismo de sofá. Soltem-se os espíritos e o pop dos 60's! É chegada a altura de o som da música abafar o clamor desesperado dos inocentes. Até quando?

2 de outubro de 2011

Quando os braços se mantêm abertos.



Sempre acreditei mais na capacidade que um abraço tem de nos transmitir paz e segurança. O beijo será algo mais carnal, talvez sexual, se bem que pode se revestir apenas de ternura. Ontem, de noite, enquanto arrumava umas folhas soltas que teimavam em manter essa dispersão, como um sonho que fica por arrumar ou um pedaço de algo tão nosso que está perdido, dei por mim a recordar-me dos abraços que já demos. Foi um exercício estranho da minha parte. No fundo, quero evitar perder-te totalmente. Pensando em pequenos e breves detalhes, creio que consigo manter algo vivo, presente. É uma luta contra essa tendência tão evidente.

Contei quatro, sendo que dois foram importantes para ti. Para mim não o deixaram de ser, evidentemente, mas tiveram um efeito tranquilizador em momentos que realmente precisavas. Um deles, contabilizando já os restantes, foi impulsivo e fugaz. Imprevisível, enfim, como dizem que as emoções devem ser. De facto, mais vive quem o faz sem pensar demasiado e o mesmo já foi objeto, aqui, de uma profunda reflexão.

Escrevi com caneta, lápis e papel. É bom não perdermos o hábito da escrita manual, contudo não aquela que fazemos diariamente nas escolas ou nas faculdades; a escrita manual que nos sai diretamente do coração. A força quase oblíqua que embate na caneta e a faz escrever. O desfiar do que está preso, ansioso por sair, talvez não tão escondido pelo seu caráter superficial. As emoções são superficiais, não num tom pejorativo; superficiais, sim, porque se revelam a todo o instante. Quando estimulados, todos somos incapazes de manter a sobriedade, a menos, claro, que estejamos perante pedras em forma humana.

Em todos os abraços que trocámos, senti o teu calor. E realmente quando duas pessoas se tocam é impossível não sentir o quente do outro corpo que agora alcança o nosso. Consegui sentir uma verdade, uma verdade não revelada. Somos tão frágeis quando demonstramos os nossos sentimentos. Acho-te frágil, concluindo. De uma fragilidade inconsequente. Afeta o teu âmago bom, mas relutante.

Escrevi duas folhas que de seguida rasguei. Não gostei do que escrevi, nem da forma como o fiz, nem dos sentimentos que tentei colocar no papel. As folhas brancas que ficaram de um bloco continuaram intactas. Foi tudo demasiado simples para que mereça um maior destaque. As palavras merecem mais. Todavia, como os braços se mantêm abertos (aí também?), eu aguardo com elas.