26 de setembro de 2011

Sonhos que sonhei, onde estão?

Poderia, indubitavelmente, negligenciar a falta do calor. Não há, não existe ou simplesmente não vem. Por que não relativizamos a realidade de modo a que ela nos pareça (ou pareça, efetivamente) menos cruel? Escrevo contra mim próprio, contudo guardo em mim uma lupa que amplia os males. Acho que é genético. Não se trata, todavia, de uma ampliação qualquer; a lupa apenas aumenta o que já de si é substancialmente grande.



Realmente, há coisas intemporais, como intemporal é a nostalgia de algo que não existiu e vive em mim. Nostalgia do vazio.
Agora que os dias decrescem e as noites aumentam, o sol desce na sua trajetória até ao hemisfério sul. Continua quente, porém menos, até se dissipar todo o seu calor na neblina invernal. Paralelismos da Natureza e da minha natureza, nem sempre em uníssono, embora se complementem inevitavelmente.

Intemporal também é esta música, magistralmente interpretada pela grande Simone de Oliveira.

23 de setembro de 2011

Se eu conseguisse colocar o tempo em palavras, não necessitaria de vivê-lo.




Porque as aulas começaram e eu não comecei com elas. De facto, comecei dois ou três dias mais tarde, apesar do corpo dizer-me que estava a ter uma aula chata sobre "o vínculo estabelecido entre o devedor e o credor a que damos o nome de obrigação". O vínculo estabelecido entre o meu Eu, a faculdade, tu e o meu futuro também se chama obrigação. Obrigação também será a inevitabilidade de ter ver beijar aquela a quem chamo feia sem o ser, mas sem, também, ser bonita, interessante e sensual. Big deal, um corpo cavernoso, com espinha dorsal andante...

Olha, olha, estou a gostar mais, apesar das minhas adoradas histórico-jurídicas ficarem a chorar por mim dentro daquelas salas bafientas, ocas e de tinta de parede monótona. O mal não é inteiramente das salas; quem as frequenta tem a sua responsabilidade no panorama próximo, conhecido - sem dúvida - e cada vez mais atual.
Comecei a comprar as toneladas (uma hipérbole fica sempre bem) de livros e posso assegurar de que são pesados, à vista, massudos e cheios de linguagem que, má sorte, entendo.

Tenho ficado no jardim da faculdade, depois das aulas, a comer um gelado e a pensar na vida (onde estás incluído, por enquanto). Ultimamente, tem passado um rapaz que fica feito parvo a fingir-que-não-sabe-que-eu-sei-que-ele-sabe-que-eu-sei-que-ele-está-a-olhar-para-mim-imaginando-como-poderá-dirigir-me-a-palavra. E a mãe tarda em chegar. Agora, vem buscar-me à faculdade porque saio de tarde e fica-lhe em caminho. Não é tão querida?

Assim não carrego os livros pelo metro lotado. Tenho tanto para ler e tão pouca vontade de o fazer, parafraseando Fernando Pessoa. Acho que os livros estão bem assim, em cima da secretária, fechados e novos. Eu não lhes quebro a lombada e eles não me dão dores de cabeça. Sempre fui um rapaz com queda para o negócio.


19 de setembro de 2011

Poderíamos conquistar o mundo, talvez, à nossa maneira.


Não sou muito ambicioso, já o fui. Claro que explorar o mundo parece-me divertido, para mais tendo-te do meu lado. Meio utópico, tratando-se de explorar efetivamente o mundo. Mas, sabes, gostaria de sair daqui e viajar, conhecendo novos lugares. Guardo ainda, em mim, um lado sonhador, infantil. Uma síntese do Peter Pan e de mim próprio, sendo que nunca gostei do Peter Pan. Ficou o eu próprio, vezes demais.





Tu e eu é sempre mais do que o sonho pode conceber. Porque o sonho nunca é tão nítido quanto a realidade, assim como os beijos reais são melhores do que os idealizáveis pela nossa mente. As experiências vividas mais intensas também, embora possamos, sem dúvida, sentir o vento rompendo a nossa pele num sonho, se o quisermos.
Hoje perguntaram-me o motivo de gostar tanto da Mariah. É como se me perguntassem porque gosto de ti ou porque existo. Há coisas verdadeiramente inexplicáveis. O motivo pelo qual gosto de ti nem eu o consigo explicar; o motivo pelo qual gosto da Mariah também não, mas o facto de ser uma das melhores cantoras do mundo e esta atuação é elucidativo, não achas?


18 de setembro de 2011

As horas que me antecedem.




Quando o queijo da tosta mista derrete, vejo que está no ponto. Para mim, a tosta mista terá de ter o pão suavemente torrado e o queijo derretido, mole e saboroso. Sentei-me no escritório da mãe a preparar tudo para o reinício das aulas. Fiquei com pena de algumas canetas ainda pouco utilizadas, cores que não gastei o suficiente. Não aproveito o material de anos anteriores por um ressentimento com tudo o que me prenda a um passado do qual não gostei. A necessidade de inovar é bem maior, paradoxalmente com o medo do amanhã.

A tosta esfriou e o queijo endureceu. A garrafa de leite com chocolate encontrava-se a meio. Cada gole foi diminuído propositadamente de forma a que o leite durasse mais tempo. Seria gula ir buscar outra garrafa ao frigorífico, por isso detive-me a saborear aquela com calma. Em pequeno, gostava de fazer bolhas nos líquidos vertidos nos copos ou mesmo nas garrafas. Aprendi cedo de que isso não se faz, mas é tão divertido. Não, não o fiz.

Os cadernos coloridos fitavam-me agora por cima da secretária da mãe. A cor não lhes traz vida, garra, o ânimo necessário para que enfrentem todo um ano letivo. Peguei no estojo e aproximei-o do nariz. Gosto do cheiro a novo, por estrear, cheiro da novidade, de algo recente sem marcas do tempo ou do uso natural dos objetos. Separei cada embalagem, ainda fechada, das canetas coloridas - com aroma a pastilha elástica - e do restante material, começando a abrir uma por uma à medida que colocava o conteúdo no estojo. A novidade foi perdida, como um presente que se abre e deixa de o ser. Seria bom se perpetuássemos a novidade de uma embalagem por abrir indefinidamente.

Tudo arrumado, cuidadosamente separado. Falto eu, no fundo. Tamanha desorganização funcional que não me parece que haja muito a fazer nos próximos tempos. O ser humano, extraordinariamente versátil e adaptável às situações novas ou nem tanto, tem uma capacidade, passo a redundância, de fundir-se na sua realidade de modo a que não tenhamos a absoluta certeza de onde começa, enquanto pessoa, e de onde começou a realidade, boa ou má, que o transformou. Difícil para quem não atravessa o mesmo processo.
As horas que me antecedem doem, mas o amanhã atenuará o sentimento presente em mim.