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28 de agosto de 2019

Variações.


   Variações é mais um dos inúmeros filmes recentes da cinematografia portuguesa que nos podem orgulhar. É um filme tão bom, tão bem conseguido, que poderia figurar nas salas de cinema de qualquer país do mundo. É isso que me apetece dizer às pessoas, sejam lá de onde forem: se puderem, assistam ao Variações. Aprendemos, finalmente, a fazer filmes sem aborrecer as pessoas com voltas e voltinhas que, por mais que nos digam que pertencem a um determinado estilo culto, não têm potencial de encher salas de cinema e ainda menos de nos projectar lá fora.

   João Maia conseguiu fazer um filme sobre António Variações, o que já pecava por tardio, sem politizar a imagem do icónico intérprete, termo que lhe faz mais jus do que o de cantor, afinal, António Variações era também compositor, e um compositor de excelência, que sem qualquer formação musical criava magia através de um simples gravador, aproveitando o eco que a sua casa de banho lhe proporcionava e sempre inspirado na diva Amália. Acredito que tenha sido tentador banalizar Variações, a sua vida e carreira com uma atenção desmesurada na faceta pessoal do artista. O filme contorna-a. Bom, não é possível falar-se de Variações sem aludir à sua sexualidade. Foi um ex-amante seu, ou ex-namorado, Fernando Ataíde, que lhe estendeu a mão e lhe permitiu inaugurar a impactante discoteca Trumps logo na primeira noite. António apresentou temas rejeitados pela Valentim de Carvalho, que evidentemente fizeram furor, ficando logo no ouvido e nos lábios de todos os presentes naquela madrugada de 1981.




   Não se pense que o seu percurso foi fácil. Luís Vitta, da Rádio Renascença, falecido em 2015, foi um dos mais acreditaram no seu potencial. Um homem como António Variações dificilmente obteria a confiança de qualquer editora, acostumadas que estavam a outro tipo de sonoridade. Portugal saíra poucos anos antes do Estado Novo. A falta de formação musical fazia com que António fugisse ao tempo das canções. Era complicado para os restantes músicos, e António cantou em bandas, acompanhá-lo. As canções viviam dentro de si. Ele era a prova viva de que a música nasce com as pessoas. O talento não se compra nem se ensina: ou se tem ou não se tem. Mais importante do que conhecer os homens com quem António Variações se deitou, João Maia trouxe-nos o artista e a sua saga para vingar numa indústria corporativista e antiquada.

   A interpretação de Sérgio Praia é inenarrável. Há factores que ninguém controla, como as semelhanças físicas entre Variações e o actor. E é um factor que ajuda a que, inconscientemente, acreditemos na história que nos está a ser narrada. Pesa mais do que possamos à partida pensar. Depois, claro, vem a qualidade da interpretação, da caracterização, dos cenários, enfim, do contexto em que todas as personagens são inseridas. Houve esmero e brio. Sérgio Praia arrebatou o direito a vestir a pele de Variações. Passou, com nota francamente positiva, no teste de nos trazer, trinta e tal anos depois da sua morte, o homem que escandalizava a moralista sociedade portuguesa com os seus brincos exóticos e roupagens andróginas, que oscilava entre a moralidade e a religiosidade de Amares e a excentricidade de uma Amesterdão que o modificou para sempre. Este filme vem fazer justiça ao homem, ao artista, que - diz quem conheceu - era de uma simplicidade e timidez únicas. Fazia falta falar-se de Variações no grande ecrã.

11 de agosto de 2019

The Professor (Richard Says Goodbye).


   Pela primeira vez, estive no Oeiras Parque. Fui com um amigo, que me convidou para assistirmos ao The Professor, com Johnny Depp no papel principal.

  The Professor é uma tragicomédia, repleta de mensagens subliminares. Johnny Depp tem, a meu ver, um desempenho fora de série. O modo como ele conjuga, em Richard, o desespero e a aparente alienação face ao seu estado de saúde é notável. Quer-se dizer, o desespero e a conformação, paradoxalmente misturadas, que acompanham aquele homem em dias terrivelmente difíceis. Richard, contextualizando, é um professor que vem a saber, através de uma consulta, ter um cancro do pulmão em estágio 4, terminal. Vive um casamento curioso, atribulado, meio relação aberta, em que ambos têm conhecimento dos casos do outro, ou Richard dos casos da mulher.

   O que mais nos conquista, neste filme, é a aparente leveza e descontracção com que os assuntos são explorados, com raros momentos em que a seriedade toma definitivamente conta das personagens. A fotografia é requintada, e o mesmo se diga dos cenários e dos figurinos. O filme respira a classe, a mesma classe média-alta daqueles docentes de um instituto de ensino norte-americano.


   O que faríamos se soubéssemos que teríamos de seis meses a ano e meio de vida? Levaríamos o resto dos dias a chorar ou, pelo contrário, procuraríamos aproveitar ao máximo, jogando para trás das costas o politicamente correcto, sem medo do que os outros pudessem pensar? Estou em crer que o grande mérito do filme é o de deixar a questão a pairar sobre nós: como seria? 

   No que se prende às relações, outra questão se retira da longa: importaria mais a fidelidade do leito ou a lealdade da vida em comum, da partilha? Porque o amor não precisa do sexo, e nem devemos reduzir uma relação à cama e ao cumprimento dos deveres conjugais (que não o são). O companheirismo, que existia no caso de Richard e da esposa, prevaleceu até ao final, com mútuas declarações de amor na hora da derradeira despedida.

   É provável que saiam da sala meio desconfortáveis, até pelos sintomas da doença de Richard, que se vai agravando à medida em que os capítulos - o filme está dividido em capítulos - se sucedem, mas na certeza de que aquele homem escolheu morrer à sua maneira.

31 de julho de 2019

O Culpado.


   Há suspense até ao último minuto, de facto. Thriller que nos faz sentir o desconforto desde a cadeira da sala. Os planos fechados, estáticos, a claustrofobia daquele gabinete - a acção desenrola-se toda na esquadra - e os segundos intermináveis de silêncio, entre grunhidos e ruídos, levam-nos a exasperar. Foi interessante, de certo modo, terem realizado um filme sobre os assistentes da linha europeia de emergência 112, que, no caso dinamarquês, parece ser operada pela polícia.

   Asger é um homem com problemas pessoais e no emprego, completamente dedicado, de corpo e alma, às funções que executa, não temendo em se comprometer, ao ponto de, a meu ver, violar alguma da ética profissional que o devia acompanhar.


   As coisas nem sempre são o que parecem, e embora o realizador tenha querido que nós participássemos naquela tentativa de resgate, um telefone, por si só, não funciona. É um filme de forte comprometimento com uma causa, salvar vidas, talvez também porque Asger esteve implicado na destruição de uma, o que o corrói e preocupa. O esmero em solucionar aquele verdadeiro bico de obra poderá estar relacionado com essa procura por uma redenção qualquer, naquilo que terá sido um acidente que o deixou marcado. Asger é um homem perturbado. Percebemo-lo pelo seus descontrolo pessoal, que desvenda alguma violência, porque a acção do filme não vai além de um caso despoletado por uma chamada de emergência.

28 de julho de 2019

The Lion King.


   O Rei Leão nunca foi o meu filme favorito da Disney. Vi-o, como todos da minha geração, em pequeno. Acredito que seja o filme de animação de eleição da maioria. A mim, contudo, nunca fascinou, nem convenceu.

   Tenho um amigo que me disse não querer ver este live-action com medo de sair completamente defraudado nas suas expectativas. Teme, em suma, que o remake lhe estrague as memórias de infância.

    Inversamente àquilo que sucedeu com o Aladdin, esta recriação d' O Rei Leão ficou, quanto a mim, perfeita. Foram absolutamente fiéis ao original (aperceber-se-ão disso nos pormenores), o que é bom. Não inovaram. Não se puseram com invenções que, no mais das vezes, só nos levam a sair completamente decepcionados - o que no meu caso seria impossível, só podendo sair a ganhar, e saí. Os efeitos computorizados atribuem ao filme uma percepção de realidade e uma minúcia que o desenho-animado dos anos 90 não tinha, porque nem podia ter. A banda-sonora, que, sim, sofreu alterações, ficou interessante. Não tem o impacto das canções épicas da versão original, mas a escolha de Beyoncé Knowles foi acertada.




    O facto de o remake ser maior do que a versão original ajuda a explorar melhor as personagens. Nala, a mãe de Simba, as hienas e o próprio Scar, o icónico vilão, que continua malignamente cínico, são-nos dados a conhecer com mais profundidade. Claro que encontramos todos os personagens, como o divertido Zazu, o feiticeiro Rafiki ou os destrambelhados Timon e Pumba, que nos sacam risadas a bandeiras despregadas com a sua sagacidade e que continuam divertidíssimos. O contexto da convivência difícil entre hienas e leões, que se verifica realmente nas savanas africanas, ganhou outra dimensão, inclusive nas cenas de luta entre os animais, ultra-realísticas. Eu vejo, aqui, a computorização como um acrescento à fantasia.

   A cena da morte de Mufasa, uma das mais emocionantes da história da Disney e até, direi eu, da cinematografia em geral, continuará a comover. Os efeitos conseguiram extrair da cena o que ali se jogava: toda a maldade de Scar, o desespero de Mufasa e o profundo pesar e sentimento de culpa que se abatem sobre Simba. É o apogeu do filme em realismo e drama.

   Acredito que alguns esperassem mais, talvez algumas diferenças face ao original. Sendo O Rei Leão um símbolo da cultura pop e um filme quase de culto, intergeracional, o realizador temeu que quaisquer mudanças pudessem causar um efeito de afastamento das pessoas das salas de cinema. Fez muitíssimo bem em seguir o guião original. A falta de expressão no rosto dos animais é um ponto que poderia ter sido melhor trabalhado, é verdade, contudo é importante que as pessoas percebam que a tecnologia não faz milagres. O resultado final da antropomorfização nunca é perfeito. O desenho-animado, e já o disse aqui noutras publicações, permite uma liberdade que a procura pela perfeição ainda não atingiu. Os bonecos, em itálico, ficaram pouco expressivos? É provável que sim. Julgue-se, porém, o filme no seu todo. Eu nunca vi uma savana tão natural, tão real, tão viva e criativa numa animação por computador.

   Sob pena de ser torturado - estou a brincar convosco - superou o original. Eu aprendi verdadeiramente a gostar d' O Rei Leão com esta versão. Antes tarde do que nunca. Um trauma de infância que superei, afinal, como não gostar deste filme?

2 de julho de 2019

2ª mostra de cinema do Brasil em Lisboa / Aos Teus Olhos e O Beijo no Asfalto.


   Subscrever newsletters tem um lado bom. O mau, já conhecemos: a nossa caixa de e-mails a abarrotar; o bom, é este: ter conhecimento de eventos, de festivais. Assim foi. Soube que o Cinema São Jorge estava a exibir a 2ª mostra de cinema brasileiro. Já o soube a dias do final, mas a tempo de ver os filmes que me interessavam. Anteontem, domingo, vi estes dois: Aos teus olhos e O Beijo no Asfalto. Em rigor, era para ter visto um no sábado e outro no domingo; acontece que adiaram o de sábado, Aos teus olhos, para domingo às 18h, que se juntou ao O Beijo no Asfalto, às 21h. Foi uma maratona, maravilhosa maratona, que não me é inédita, nem em festivais (aconteceu no Queer, no ano passado), nem em cinema comercial (já vi dois também, seguidos).


   Começando pelo Aos teus olhos, é um filme dramático, que nos conta a história de um professor de natação que, de um momento para o outro, é acusado pela mãe de um dos seus alunos, um miúdo menor, pequenito, de o ter beijado inapropriadamente. A mãe, ao ter conhecimento do sucedido através do próprio filho, divulga o caso nas redes sociais, primeiro no grupo da escola de natação, que depois, com as partilhas, que os brasileiros chamam compartilhamentos, chega a várias outras pessoas. 

   O realizador nunca nos conta o que verdadeiramente aconteceu. Em momento algum. Somos levados, cada um de nós, por indícios que nos são deixados, a acreditar numa ou noutra versão, e também somos confrontados com os nossos preconceitos. Chegamos a saber que o beijo terá sido no rosto da criança. Será que ficamos igualmente preocupados se uma professora beijar um aluno no rosto? E sendo um homem? Porque é que a nossa tolerância muda? Não serão ambos professores? É aqui que entra a homofobia, que por diversas vezes surge no filme. Aliás, a confusão entre pedofilia e homofobia é uma constante. O pai do menino teme que chamem o filho de viadinho. O professor é vítima de insultos homofóbicos. A directora da escola de natação, que primeiramente apoia o seu funcionário, também o questiona sobre a sua orientação sexual, sabendo que não o pode fazer, porque as leis laborais, também no Brasil, protegem os trabalhadores quanto a questões que se prendam à sua intimidade.



   É evidente que há indícios que nos levam a pôr em causa a sinceridade de Rubens. Por que motivo leva o menino para o vestiário, a única parte da escola sem sistema de videovigilância? Por que motivo guardou a sunga do menino no cacifo, não a devolvendo logo? Alegou que os meninos perdem pertences diariamente, e que lhes compete guardá-los. Será correcto um professor guardar pertences dos alunos no seu cacifo? São perguntas retóricas. Algumas terão resposta. E contundente.

   Rubens parece só encontrar apoio real na namorada. Uma namorada que, a meu ver, também serve aqui apenas para nos confundir. Uma namorada de 19 anos. Ele tem 33. Ou seja, e concluindo o raciocínio e aonde os quero levar a chegar, o realizador, propositadamente, quis-nos deixar cheio de interrogações. Explorou, ainda, olhares cúmplices entre a criança e o professor. Olhares que nunca chegamos a desvendar se de apoio e carinho ou se de algo terrível. Há, ainda, um aluno mais velho, que surge sempre com diálogos indecifráveis com Rubens. Parece que o rapaz é gay e que Rubens o terá ajudado em algo que, tal como com o pretenso crime, nunca fica claro.

   O filme, como se vê, trata de questões actualíssimas, como o julgamento sumário nas redes sociais, verdadeiros barris de pólvora, o preconceito, a desinformação. Não o enquadraria no selo LGBT, porque lhe falta essência e vontade para isso. Gostei das interpretações, dos planos, da simplicidade das actuações, que torna os filmes verosímeis. Quando um actor dá o que tem, isso sobressai. Daniel Oliveira deu.

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   O Beijo no Asfalto foi o segundo do dia (da noite?). É, na verdade, uma peca de teatro televisionada, porque assim nasceu, em 1960, já tendo conhecido três adaptações para o cinema. Esta última, especialíssima, porque vemos os cenários, que são de teatro, a aparecer no filme. É quase como uma peça dentro de um filme. Conta com nomes de peso, como Stênio Garcia, que se sai muitíssimo bem, e Fernanda Montenegro. Sucintamente, um homem vai ao penhores para deixar uma jóia e, no regresso a casa, assiste a um atropelamento, indo ao encontro do acidentado para o socorrer. A vítima, a exalar os últimos suspiros, pede-lhe um beijo. E ele dá. Claro que tudo viria a suscitar uma enorme polémica, desde logo porque o seu sogro está presente e assiste a tudo. Sogro esse interpretado por Stênio Garcia.

   O beijo, na púdica e fechada sociedade brasileira, gerou uma onda enorme de revolta e homofobia. Nisso, ambas as longas comungam. Nisso e no clima de suspeição: no Aos teus olhos, ficamos na dúvida se o professor era um predador sexual; neste, Arandir é, ele mesmo, alvo de suspeições durante todo o filme / peça.

   O preto e branco, o filme foi rodado a preto e branco, representa uma vantagem. Como se houvesse uma enorme solidão entre aquelas personagens. Uma sensação de vazio, de abandono.



   A ideia de colocarem os actores numa mesa redonda, ensaiando, sendo que, depois, os ensaios se misturam com as gravações, foi bem conseguida. Os ensaios servem quase como uma introdução / explicação àquilo que vemos, um acrescento, que serve para tornar aquele argumento mais real, mais palpável. Às tantas, o preto e branco leva-nos a crer estar num sonho.

   Notei que o filme conjuga duas posturas antagónicas: desde logo, a pureza de Arandir, um homem bom, que atende a um último pedido de um estranho, motivado apenas pelo desejo de fazer o bem; do outro, Aprígio e Amado Ribeiro, o sogro e o jornalista de índole ruim. Um, motivado por uma angústia com a qual não consegue lidar (ficarão surpresos); o outro, incorporando o que de pior tem o jornalismo, querendo, seja por que meios for, atingir vendas astronómicas, nem que para isso se valha da difamação. Aqui, de certo modo, também encontro semelhanças com o Aos teus olhos: através da imprensa, nos anos 60, ou das redes sociais, presentemente, deparamo-nos com meios de informação que podem ser potencialmente lesivos.

   O Beijo no Asfalto é ousado, e acredito que o tenha sido muito para a época. De sentimentos reprimidos, pelo menos em duas personagens, a uma pretensa homossexualidade, o encenador / realizador apresenta-nos a morte, no início e no fim; a morte que nos faz espiar velhos desejos, e que descobre outros. À medida em que as cenas vão aumentando em intensidade, a nossa alienação também: não sabemos onde estamos, onde eles estão, e estamos longe de imaginar o final imprevisível.

    Um festival que soube a pouco, se bem que, em Setembro, o São Jorge traz sempre novidades.

27 de junho de 2019

The White Crow.


  Rudolf Nureyev é um nome sobejamente conhecido entre todos, sobretudo na Europa. O célebre bailarino russo, que em 1961 protagonizou um momento inusitado, ao pedir asilo político em França, já no aeroporto, de partida para Moscovo. Este The White Crow não deixou escapar a repressão do regime soviético e os constrangimentos na vida dos seus cidadãos, que eram completamente, como é apanágio nos totalitarismos, manietados. Nureyev não foi excepção. Estava proibido, como todos os colegas dançarinos, de sequer falar com ocidentais. Em Paris, quase que se erguia um muro invisível entre os bailarinos russos e os franceses. Nureyev, destemido, abordou-os e encetou conversa com alguns, tornando-se amigo deles. Na sua companhia, descobriu um mundo novo, que não mais iria largar.

   O filme chega-nos em sucessivas parcelas intercaladas. Vemos Nureyev em pequeno, com a mãe e as irmãs. De seguida, vemo-lo em escolas de bailado russas e já em Paris, onde a sua companhia de bailado actuou por cinco semanas. As fases não são sequenciais; pelo contrário, são-nos mostradas ao longo de todo o filme, como pedaços que se cortam e se colam naquele momento em particular, o que confere um resultado interessante.

  Nureyev tinha uma personalidade extremamente difícil. O realizador não o esqueceu. Frequentemente, pela sua irascibilidade, feria pessoas que lhe eram próximas, e outras que até o mereciam. Não sei até que ponto se tratava de uma defesa. As cenas em família não nos dão margem para interpretações seguras, mas antevemos alguma carência afectiva, porque a económica é manifesta, e até dedutível.



   A vida íntima do bailarino não é explorada em excesso. Há pequenas referências, umas mais explícitas do que outras. Nureyev experienciou, ao menos, relações ocasionais ou relacionamentos com homens e mulheres. Presumo que fosse bissexual. A bem dizer, o filme quis incidir o seu foco mais no artista do que no homem. Como o artista é feito pelo homem, há detalhes que não podem escapar à mira do realizador mais competente. Contudo, vê-se que o objectivo nunca foi esse.

  Não queria deixar de falar da fotografia, que tem interesse. Os símbolos soviéticos, a foice e o martelo nos edifícios, e a sigla CCCP (URSS em russo) cravado a letra amarelas no passaporte. A rigidez do regime, em suma, e das pessoas. 

   No geral, é um bom filme. Há um rigor estético, na narrativa, e nos movimentos de Nureyev, e uma preocupação com a beleza, nas personagens, nos seus figurinos, na sua forma de estar e agir.
    O fim de Nureyev já conhecemos, e não é retratado no filme. Sendo, segundo consta, altamente promíscuo, terá contraído o HIV nos anos 80, sucumbindo no dealbar de 90, com 54 anos. Após a deserção, só lhe foi permitido regressar à URSS em 1987, para acompanhar a mãe no leito de morte. Nureyver e o regime soviético caíram com breves dois anos a separá-los.

16 de junho de 2019

Rocketman.


   Continuo embrenhado no estudo, acreditem, mas, a par da Feira do Livro 2019, cujas visitas lhes darei conta em publicação ulterior, ontem fui ao cinema ver o mais recente filme biográfico sobre Elton John.

   Filmes biográficos sobre cantores e actores estão na moda. Recordem-se do recente Bohemian Rhapsody, sobre Freddie Mercury, e teremos, já em Agosto, Variações, sobre o nosso portuguesíssimo António Variações, precocemente falecido. Entretanto, ontem soube que, brevemente, irá estrear um filme sobre July Garland. Hollywood e a indústria nacional apostando em peso em biográficos, que geralmente não são grandes arrasos nas bilheteiras, ou não eram, que o filme sobre Freddie vendeu como ginjas. 

   Elton John, Sir excêntrico Elton John, nasceu no seio de uma família tradicional inglesa de classe média. Como muitas destas estrelas que, mais tarde, despontam em toda a sua excentricidade, a sua infância não foi fácil. A mãe, mal amada pelo marido, dedicava-se a escapadelas fortuitas, e o pai era de uma frieza e distanciamento emocional doentios. Negava um abraço ao próprio filho. Essa falta de afeição imprimiu as suas marcas em Elton John, a ponto de este manifestar certa fúria quando ouvia referências ao seu verdadeiro nome, Reginald Kenneth Dwight, porque provavelmente o faziam recordar a dura infância, mitigada apenas pela existência de uma avó que o apoiava e incentivava nas primeiras incursões pelo mundo da música. Mais tarde, Elton, pese embora a mãe o tivesse avisado de que não encontraria o amor levando uma vida de homossexual, pensou que seria num determinado produtor que encontraria a paz e o equilíbrios necessários, apercebendo-se, a tempo, que não passava de números para o calculista homem que dele se aproximou.

  Tentativas de suicídio depois, a Elton, à revelia do que se passava a nível pessoal, profissionalmente nada podia correr melhor. De canção em canção, ia pondo o mundo rendido aos seus pés, incluindo a difícil América. Com o sucesso, vieram a riqueza e os excessos. Droga, álcool, amantes. Sabemos que, hoje, Elton vive um relacionamento feliz, antigo, tendo constituído família e manifestando intenções de, em breve, deixar os palcos para se dedicar mais aos seus.




   Contrariamente a Bohemian Rhapsody, de argumento duvidoso e só salvo pelo desempenho de Rami Malek, Rocketman tem uma prestação fenomenal do actor principal na pele de Elton John, Taron Egerton, e um argumento bom, dinâmico, o que ajuda a tornar o resultado final positivo, para mais sendo um musical.

  O filme tem algo de surrealista e mágico, pela postura de Elton, pelas sua caracterização e roupagens, com cenas bem idealizadas, dramáticas o suficiente e bem interpretadas. Destaco uma, e agora com poucos spoilers, em que Elton, em criança, se vê a dirigir uma orquestra. Há uma perspectiva de sonho que o motivou, que o levou a correr atrás da sua projecção e reconhecimento. 

  É uma excursão pela vida do artista, e a sexualidade, a sua sexualidade, é explorada sem grandes moralismos. Elton não se aceitava bem de início, porque, a partir do momento em que passa a fazer sucesso no mundo da música, descobre-se. E o sucesso vai sendo desflorado com passagens pelos seus maiores hits. Senti a falta de alguns clássicos, contudo, como Nikita. Ponto alto também para a abordagem à sua amizade e colaboração de cinquenta anos com Bernie Taupin, que se mantém até aos nossos dias. Ainda em comparação com Bohemian Rhapsody, senti algo de profundamente íntimo e real, sem o hedonismo de Freddie Mercury, ou que quiseram imprimir à personagem de Malek no grande biográfico que antecedeu Rocketman. Elton John parece mover-se por circunstancialismos da sua infância traumática, ao passo que Freddie Mercury busca apenas a satisfação pessoal, o que é mais do que válido, evidentemente. Ambos terão sofrido, direi eu, com a falsidade e o imediatismo da indústria, onde ninguém se demora.

  Rocketman é como uma paleta de cores. Elton, um poderoso pincel, de concretização imprevisível, mas sempre fantástica.

29 de maio de 2019

Aladdin & Brightburn.


   Sexta e sábado regressei ao cinema. Esta fase de frequências é arrasadora. Aulas e avaliações ao mesmo tempo dão cabo de qualquer um.


   Vibrei quando soube que o remake versão real do Aladdin havia estreado. É que eu, contrariamente a muitos, não tive O Rei Leão como clássico de infância - que vai estrear brevemente também. O Aladdin é o segundo dos meus favoritos do selo Disney, logo a seguir ao A Pequena Sereia

   Os desenhos-animados dos anos 90, antes do advento da realidade tridimensional, eram muitíssimo melhores. O desenho-animado, ainda que com todos os efeitos, permite-nos uma liberdade que a opção por actores de carne e osso, mesmo com todos os efeitos, não.  A versão de 1992 é incomensuravelmente melhor. Chamem-me purista.



   O Jafar é extremamente frouxo. De grande antagonista, um dos melhores do universo Disney, passou para um vizir meio idiota, inseguro, sem aquele cinismo e aquela maldade inabaláveis. Ponto fraco do filme. Aliás, um grão-vizir novo e sensual não combina absolutamente em nada com a exigência e responsabilidade do cargo de grande conselheiro do sultão. É quase o homicídio do Jafar animado. O Génio não desapontou. Will Smith manteve aquela graça do bonacheirão azul. Era um ponto extremamente sensível. Sabemos que a figura do Génio está intimamente ligada ao falecido Robin Williams. Quanto aos protagonistas, Aladdin e Jasmine, retrataram-nos mais próximos ao fenótipo do Médio Oriente, escolhendo actores para o efeito. Na versão animada, ambos são branquíssimos, como europeus, e só os cabelos negros denotam alguma ligação àquela zona do globo. Aqui, souberam ultrapassar esses preconceitos e arranjar actores à altura. Em 1992, presumivelmente, terão temido escurecer a pele aos bonecos. O Sultão, nesta versão real do Aladdin, passou de velhinho pachorrento e ingénuo para um homem amargurado, desapontado. Não combinou bem aquele Jafar fraco com um Sultão de personalidade forte. Nessa parte, o filme falhou categoricamente. Aliás, não há serpente gigante no final e nem o Iago está tão antropomorfizado. 

   Will Smith carregou o filme às costas, literalmente, porque Naomi Scott (Jasmine) e Mena Massoud (Aladdin) convencem pouco enquanto casal. A Naomi falta-lhe a sensualidade da princesa, embora a força e a determinação da personagem animada estejam presentes aqui. Guy Ritchie também deixou escapar alguns detalhes: a princesa podia ou não sair do palácio? Saía escondida? Houve cortes no filme que nos fazem perder pormenores que não são assim tão irrelevantes.

   Juntaram-se músicas novas, algumas descontextualizadas, mas os clássicos estão lá. Os efeitos ficaram ligeiramente aquém do esperado. Já sabemos das limitações do live-action  comparativamente ao desenho-animado; assim mesmo, o filme pedia mais arrojo, mais brilho. Peca por contenção. É uma versão menor, talvez a possível, onde a magia se dilui. Não nos faz brilhar os olhos.

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    O terror actual faz-me bocejar, como sabem. Sou um crítico constante de tudo o que se faz no catálogo terror actualmente. Este filme fez-me querer dar, de hoje em diante, uma oportunidade ao terror recente. Prendeu-me ao ecrã. Desde logo, o argumento é original. Depois, não imaginamos ser possível ver actos tão cruéis e calculistas num ser aparentemente tão indefeso.

    A estória faz-nos ainda repensar a resistência de alguns laços que julgamos indestrutíveis, e no final perceberão àquilo a que me refiro. Será, até, no limite, a parte mais perturbadora, mais do que o maxilar completamente à banda do tio Noah, que impressiona pelo realismo, e tão-só.



   Todo o filme tem uma realidade obscura profundamente angustiante. O celeiro abandonado, enorme, nos limites da propriedade, que guarda um enorme segredo, e aquela criança, que volta e meia se empoleira nas janelas e se suspende no ar, qual figura sinistra e aterrorizante, a antítese do Superhomem. Gostei do desempenho dos pais, interpretados por Elizabeth Banks e David Denman. Foram extremamente convincentes e essenciais no desenrolar da narrativa. É evidente que mãe não é só aquela que pare, e Tori recusou-se a acreditar, quase até ao fim, que a criatura que acolhera em sua casa, no seu lar, era o responsável pelos estranhos homicídios. São características comuns aos progenitores: amor incondicional, devoção

   No mais, temos os típicos momentos de suspense e aqueles grafismos já previsíveis, mas impressionáveis, de violência e morte. Não sendo um filme maravilhoso, consegue ser melhor e mais competente do que muito do que se tem feito recentemente na categoria.

24 de maio de 2019

Um Ato de Fé.


   Estava com expectativas algo elevadas em relação a este filme. Numa altura em que tanto se fala em religião, e em que se ser cristão é quase crime lesa-majestade, estórias destas vêm ao encontro da nossa fé. Agora, não esperava tamanho bad acting e um argumento tão desinspirado. Quase tudo correu mal. O facto de se basear num acontecimento real é do pouco que se aproveita, porque é inspiracional, e faz-nos duvidar das certezas da ciência. Afinal, como a determinado momento se diz, estamos num terreno desconhecido.

  Há tempos, li um estudo que indicava que a fé pode curar. Eu acredito. Temos forças de que nem nós sabemos, sem querer, claro, diminuir o mérito de Deus - sou crente, como é público.


   O filme, sendo cristão, não é católico. Apostasias à parte, de certa forma gostei de ver a proximidade do pastor com as famílias, o que já vai acontecendo menos e menos no catolicismo, com excepção das terras mais pequenas. Todavia, e com o perdão da palavra, que todas as religiões me merecem igual respeito, não senti a verdade naquilo. Nos EUA, e não só, pululam igrejas protestantes. Pergunto-me como é que alguém pode pôr em causa a autoridade moral, religiosa e dogmática da instituição humana mais antiga que ainda resiste, a Igreja Católica. Também a sequência de factos que conduziram ao grande milagre final não escapou à banalidade. Trataram um tema potencialmente interessante de forma… rasca. É mais um dramazinho de classe média norte-americana, com um bombeiro afro que redescobre a fé, como o selvagem que Deus resgata. Ainda assim, diria que o ponto alto se dá quando, à porta do hospital, vemos um coro cantando pela cura do rapaz. É bonito de se ver toda a comunidade em torno de um propósito: fazer com que as preces sejam mais facilmente atendidas por Deus.

   A propósito, hoje vou o Aladdin, a adaptação do clássico de 1994 da Disney. Estou ansioso!

18 de maio de 2019

Extremely wicked, shockingly evil and vile.


   Não tenho boas recordações dos filmes com o Zac Efron. Vi um, uma vez, do qual não me recordo o título, e aquilo não (lhe) correu nada bem - sim, eu sei que podia ir ao Google pesquisar, mas não me apetece. Claro que o moço me despertou a atenção, na altura, e pouco mais.

   "Extremely wicked, shockingly evil and vile". Foi com esta afirmação que o juiz presidente de um tribunal da Florida se referiu a Ted Bundy, o serial killer americano, um dos mais conhecidos e sanguinários de sempre, que ceifou a vida a dezenas de raparigas. Tudo se passou nos anos 70, e Bundy, após uma série de interposições de recursos, acabou na cadeira eléctrica, em 1989, quase uma década depois do julgamento. Julgamento esse que se tornou famoso porque o assassino em série acabou por repudiar o advogado, assumindo ele o comando da sua própria defesa. Nas alegações finais, o juiz chegou ao ponto de assumir que gostaria de o ter conhecido noutras circunstâncias, e que Bundy, que acabou por se formar em Direito na cadeia, teria dado um excelente advogado. Um psicopata.

   Zac Efron esteve bem na pele de Bundy. O mesmo já não poderei dizer da sua parceira de cena. Lily Collins, que quis tanto representar a parceira sofrida que mais pareceu uma múmia. Seguramente que faria bem de múmia.




   Gostaria de salientar que o realizador contornou as cenas macabras, excepto no final. Quis mostrar a faceta mais humana de Ted, com a companheira, com a filha da companheira, e as suas inusitadas fugas dos presídios. Foi um retrato humanizado do criminoso, pérfido criminoso, que a todos enganava com o seu comportamento ordeiro e cortês, aliás, algo muito habitual em pessoas com estes transtornos.

   « Few people have the imagination for reality », como disse Goethe. Efectivamente, casos destes escapam à nossa capacidade fantasiosa. Conseguimos sempre, enquanto pessoas, ir além daquilo que o imaginário pode conceber.

13 de maio de 2019

Plaire, aimer et courir vite.


  Há um mês que não punha os pés no cinema. As aulas não me têm permitido e as frequências começam já esta semana - a propósito, não estranhem alguma ausência nas publicações, nas respostas aos comentários e nas visitas aos seus espaços. Não vou ter tempo para nada até ao final do mês.

  Plaire, aimer et courir vite, em português, "Agradar, amar e correr depressa", é o típico filme que aborda a temática gay. Não vão aos anos 80, ficam-se pelos 90, também no auge da epidemia de HIV / SIDA. E é neste contexto que um romancista (Pierre Deladonchamps) conhece um miúdo, deixando-se apaixonar, o que só percebemos para o fim, que durante o filme há uma sucessão de rapazes e de engates que nos deixa confusos.

  O filme acaba mal (ohhhhhhhh!), mas vale pela fotografia, em Paris, pelo enquadramento romântico-cultural e para quem gosta do submundo gay, além daquele processo inicial de conquista entre dois homens. O resto é realmente mais do mesmo. A abordagem poderá ser outra, mas não há, efectivamente, nada que o torne inovador. Aliás, diga-se de passagem, o "acabar mal" já é habitual em filmes gay, sobretudo quando envolvem o HIV / SIDA. Não seria fácil acabar bem no dealbar dos anos 90.


   O que verdadeiramente temos é um à-vontade com uma característica típica do mundo gay: a promiscuidade. Sabemo-lo. Só falta que tenhamos coragem de o dizer. E o realizador soube deixá-lo evidente sem recorrer quase à pornografia. Ficou tudo devidamente tratado de forma, como direi, composta, sem nos provocar constrangimentos na sala de cinema. Acima de tudo, há uma inocência, uma candura e a tal conquista que são tão bonitas.

   Os retratos crus do estágio final da infecção também nos são costumeiros nestes filmes. Aqui, uma vez mais, não somos poupados àquela realidade tão dolorosa física e emocionalmente, pelo impacto que tinha numa comunidade já de si tão discriminada. Um lado preconceituoso que o realizador, Cristophe Honoré, quis esbater com a aparente normalidade com que o filho do protagonista encarava a homossexualidade do progenitor. São quase pequenos hiatos do presente transpostos para trinta anos atrás.

   Há tempo para termos uma visão diferente daquilo que o sexo deve simbolizar nas nossas vidas. A dado momento, Arthur (Vincent Lacoste), já tomado pelos efeitos do álcool, que é quando as verdades emergem, faz-nos pensar se fará sentido nos reprimirmos tanto, afinal, o sexo, o desejo e até os actos lascivos menos reflectidos fazem parte da vertiginosa aventura que é viver tendo hormonas. Para quê tanta repressão, segundo os personagens, se a vida, no fundo, é uma banheira sem fundo de aflições?

3 de abril de 2019

Kursk.


   Aproveitei que a professora de Contencioso não pôde dar a aula teórica e fui ao cinema ver um filme que me suscitou o interesse. Kursk. Para quem não sabe ou já não se lembra, o Kursk era um submarino da marinha russa, que afundou no dia 12 de Agosto de 2000, com mais de uma centena de militares no seu interior. Houve duas a três explosões no submarino, que transportava armamento nuclear. Às primeiras duas, umas duas dezenas de militares sobreviveram, emitindo sons para que a equipa de resgate soubesse que havia sobreviventes. Seguiram-se alguns dias difíceis para a comunidade internacional, para os seus familiares e, sobretudo, para aquelas pessoas, ali, claustrofobicamente presas e desconhecendo o seu futuro.

   Com o fim da Guerra Fria, a corrida armamentista também conheceu um desanuvio. Em 2000, nove anos após a queda da União Soviética, muito do arsenal russo já estava obsoleto. Pese embora seja o maior país do mundo, tenha vários interesses em pontos distintos do globo e ainda careça de manter o seu status, a doentia disputa com os Estados Unidos da América deixara de fazer sentido. Quando sucedeu a tragédia no Kursk, os russos depararam-se com uma evidência: os submarinos de resgate eram velhos, deteriorados, e depressa as autoridades russas perceberam que não tinham condições de fazer aqueles homens regressar à superfície. Fizeram algumas tentativas, e todas saíram goradas. A imprensa mundial acompanhava a situação com apreensão. Eu mesmo, sendo miúdo, lembro-me perfeitamente do caso. Era Verão, e estava de férias com os pais.

   Alguns países disponibilizaram desde logo a sua ajuda, designadamente os EUA, o Reino Unido e a Noruega. Os russos negaram-na durante dias, por dois principais motivos: temiam que incursões de estrangeiros ao submarino pudessem desvendar segredos militares, motivo atendível, que todavia cedia perante a necessidade de se salvar aquelas pessoas, e o medo da descredibilização entre os seus parceiros e o mundo: a grande Rússia, afinal, nem os seus conseguia tirar das águas em segurança, carecendo da ajuda dos ocidentais. Estava muito em jogo. O orgulho russo levou a que, quando finalmente permitiram que uma equipa inglesa descesse ao Kursk, se confirmasse o pior dos cenários: ao abrirem a escotilha, os ingleses deram-se conta de que todos tinham morrido.



   Thomas Vinterberg esmerou-se em tentar, com a maior verossimilhança possível, reconstruir as últimas horas da vida daqueles homens. Cá fora, sem nada saberem, e ainda sujeitos à contrainformação falsa do governo russo, os familiares desesperavam.
   Os actores têm interpretações ao nível do que seria expectável num filme do género, em que o peso da situação quase se consegue sobrepor ao desempenho individual. Ainda assim, eu destacaria Léa Sydoux, que no filme é a mulher de um dos marinheiros, Mikhail Averin, oficial que, após as explosões, liderou o conjunto dos sobreviventes, procurando manter o discernimento de todos enquanto esperavam pelo socorro.

   Não deixa de ser curioso que o mais sangrento dos séculos, o século XX, terminasse com uma tragédia assim. Foi um fim digno para um século de guerras, de mortes, de desenvolvimento tecnológico também no campo militar. Não o foi, seguramente, para aquelas pessoas, que morreram em vão, vítimas da quase indiferença do seu governo. Dos maiores receios da Rússia ao nível de efeitos da sua imagem no exterior, no que respeita ao desastre Kursk, creio que resultou um terceiro dano, não enumerado por mim: entre o medo de que se descobrissem os seus segredos militares e o medo de passar uma mensagem de país fraco que precisava da ajuda de terceiros para lidar com assuntos seus, vingou sobretudo a ideia geral de que o estado russo é capaz de ser frio e calculista quando lida até com vidas humanas suas, de gente que o serve. Um estado que abandona os seus e quase os deixa à sua sorte. Não haverá nada pior.

31 de março de 2019

Missing (1982).


   Em 1973, mais precisamente no dia 11 de Setembro, Augusto Pinochet promove um golpe de estado, derruba o governo socialista de Salvador Allende e instaura uma ditadura militar que se estende até 1990. O número de desaparecidos é ainda desconhecido. As violações dos direitos humanos foram uma constante.

   Missing passa-se nos tempos iniciais do golpe, retrocedendo, em alguns momentos, ao próprio dia 11. Um periodista norte-americano, Charles Horman (John Shea), a morar no Chile com a mulher, Beth (Sissy Spacek), desaparece misteriosamente. O seu desaparecimento levanta suspeitas desde logo. Por um lado, poderia estar escondido, pelas suas ligações à esquerda. Pelo outro, impedido de regressar. O Chile estava em estado de sítio decretado, com recolher obrigatório. E ainda se punha a hipótese de haver fugido do país, com outros jornalistas norte-americanos. É nesse contexto que o pai, Edmund (Jack Lemmon), viaja desde Nova Iorque até Viña del Mar, no Chile, onde o filho e a nora residiam, encetando, com esta, uma investigação particular, todavia com o auxílio do consulado e da embaixada dos EUA.



   Costa-Gavras, o realizador, foi exímio no retrato daqueles penosos dias para os chilenos. As pessoas eram abatidas como tordos pelos militares. O Chile suspendeu por completo todas as convenções internacionais de protecção da pessoa humana. Vemos cadáveres por todo o lado. Chega a ser incomodativo ouvir o som do alarme do recolher e das armas a disparar, permanentemente. Os militares ocupavam as ruas. Ir ao mercado, um quarteirão abaixo, era pôr em perigo a própria vida. Tudo podemos observar no filme. Não admira que tenha sido proibido durante a era Pinochet.

   Depois, percebemos as relações de extrema proximidade entre os EUA e a ditadura militar chilena. Aliás, nunca fica claro se os norte-americanos deram o seu consentimento para a execução de Charles Horman. É que se impunha a questão de se saber se os militares chilenos ousariam tomar a decisão de eliminar um norte-americano sem a anuência de Washington. Parece difícil. Tal atitude poderia pôr em causa as relações entre Pinochet e Nixon, e o primeiro precisava do apoio dos EUA para derrubar a ameaça socialista nos Andes. Horman sabia demasiado, e sabia inclusive que os EUA poderiam - à época era só uma suspeita - estar envolvidos no golpe de estado. Estavam-no.

   A acção do filme, não obstante termos cenas em abundância com John Shea, desenrola-se entre Sissy Spacek e Jack Lemmon, em duas interpretações fantásticas, com destaque para Lemmon, que veste as peles de um pai que toma conhecimento das atrocidades que os militares chilenos, com o apoio do seu governo, cometem no Chile. Um empresário americano, cidadão médio, e uma nora, também ela oriunda dos EUA, que alternam entre a negação e as evidências: os americanos tinham as mãos manchadas de sangue, inclusivamente do sangue do seu filho único e marido. A própria sociedade americana se dividia: apoiar ou não a política intervencionista do seu país em questões internas de outros?

   Resta acrescentar que o filme ganhou o Oscar para Melhor Argumento Adaptado. A estória é real, verídica. Após a sua estreia, causou uma onda de protestos que atingiriam também a administração norte-americana (Nixon e Kissinger). Houve processos judiciais, de um e do outro lado, do pai e até do embaixador dos EUA.

   O maior mérito de Missing, se lhe podemos chamar assim, é, de uma forma honesta, brutal e verdadeira, testemunhar um acontecimento trágico, pela violência, e aqui sem valorações políticas, que afectou não só o Chile como todo o mundo, bipolarizado durante aqueles anos e até à queda do bloco soviético.

10 de março de 2019

Snu.


  Em primeiro lugar, quero justificar, por assim dizer, esta ausência. Não costumo ficar oito dias sem nada escrever. As aulas começaram. Não tenho feito nada mais do que: levantar-me, almoçar, comprar livros, assistir às aulas e estudar. Só em livros, já vão umas dezenas de euros.

   Esta sexta, aproveitando que ainda não tive aulas práticas de CAT - Contencioso Administrativo e Tributário - fui ao cinema, ao El Corte Inglés, ver um filme há muito aguardado: Snu. Claro que saberão a quem me refiro. À mulher de Francisco Sá Carneiro, primeiro-ministro de Portugal. Mulher, não esposa. Aliás, Sá Carneiro e Snu Abecassis, de seu nome verdadeiro Ebba Merete Seidenfaden, protagonizaram dos romances mais escandalosamente comentados à época, quatro anos após o 25 de Abril de 1974. Nas palavras de Natália Correia, que vemos, no filme, na pele da polémica e irreverente escritora e poeta (não poetisa, que Correia era feminista), com os seus célebres discursos e declamações d'O Botequim da Graça, Sá Carneiro e Snu Abecassis foram a segunda maior revolução ocorrida em Portugal após a de 25 de Abril.

   Se há crítica que lhe possamos fazer, é uma: tratando-se de um filme, aparentemente, sobre Snu, a verdade é que é sobre Sá Carneiro, porque a primeira queda relativamente eclipsada por um homem da envergadura do líder do PPD. Não sei até que ponto a realizadora, Patrícia Sequeira, o terá feito deliberadamente, por qualquer correspondência com a realidade. Ainda assim, não me será claro que Snu, esperta, em sueco, a alcunha que a avó lhe dera, se resignasse a um papel subalterno. Veio para Portugal em 1962. Encontrou um país atrasadíssimo,  « o mais atrasado » que conhecera - palavras suas. Fundou as publicações Dom Quixote e deu algum trabalho aos censores, o que vemos logo na cena inicial, que não queriam cá as modernices do norte da Europa. Já a Sá Carneiro, não conseguiu Snu resistir muito tempo. Ele e os seus encantos conseguiram amolecer uma aparentemente intransponível muralha dinamarquesa.


   A realizadora quis mostrar esse atraso social e cultural. Os pais de Snu divorciaram-se e mantiveram a amizade. O divórcio era uma realidade banal na sociedade dinamarquesa. Por cá, a esposa legítima de Sá Carneiro ia ter com os cardeais para que não consentissem, de forma alguma, com o divórcio. Temos essas duas curiosas perspectivas, a social-democrata do norte da Europa, que unira Sá Carneiro a Snu nos ideais, e a devota sociedade portuguesa da década de 70. Ao mesmo tempo, Patrícia Sequeira foi inteligente em não nos permitir perder o fio à meada: volta e meia, alterna entre o actor, Pedro Almendra, e o próprio do Sá Carneiro, em comícios e discursos. Sá Carneiro que era de uma rectidão de carácter inabalável. Negou-se a alterar a lei do divórcio, o que lhe foi aconselhado, para que ninguém pensasse que daí iria retirar vantagens pessoais, ou seja, o seu próprio divórcio. Isso custou-lhe, como se sabe, a não oficialização da relação com Abecassis, interrompida na noite de 4 de Dezembro de 1980.

   Snu e Sá Carneiro passaram um mau bocado. Mário Soares terá atraiçoado vilmente a amizade da primeira. A relação extranconjugal do primeiro-ministro também foi fonte de alguns engulhos entre este e o então Presidente da República, o General Ramalho Eanes, e a sua mulher, Manuela Eanes, que publicamente não concordavam com a situação de ambos, de Snu e de Sá Carneiro. Tudo isto podemos ver brilhantemente retratado no filme. Aliás, a actriz que faz de Manuela Eanes tem uma aparição fugaz, mas marcante.

   Por se falar em actores, eu destacaria dois, melhor dizendo, duas: Inês Castel-Branco, claro, a nossa Snu, incrível, e Ana Nave, que encarna Natália Correia. Castel-Branco finge exemplarmente não dominar bem o idioma português. Imagine-se a dificuldade. Nave, por sua vez, brilha enquanto Natália Correia, a espevitada contestatária.

  É um filme muitíssimo bom, que aconselho, como não poderia deixar de ser. Sá Carneiro, sobretudo, continua a ser uma figura enigmática, quarenta anos após a sua morte. Muito se fala sobre o que teria sido Portugal caso não tivesse morrido. É futurologia, é certo, legítima, quando sabemos o que se lhe seguiu, a podridão da classe política até então, e devido à qual ainda hoje nos ressentimos. E Snu, claro, cuja morte abrupta impediu de continuar a colaborar para um Portugal mais próximo da sua terra-natal, como editora, com livros revolucionários para a sociedade portuguesa, ou, quiçá, numa carreira política, encorajada por Sá Carneiro. Nunca o saberemos.

2 de março de 2019

If Beale Street Could Talk.


   O semestre recomeçou. Terei menos tempo para ir ao cinema. Na quarta-feira da semana passada, adoeci. O do costume. Uma combinação de fruta da época com a minha bronquite asmática. Faltei três dias às aulas, suspendi idas ao cinema, ao teatro, enfim. Não poderei recuperar, que agora é para doer de novo. Em todo o caso, e aproveitando que ainda não tinha aulas práticas (apenas teóricas), esta quarta, exactamente oito dias depois, fui ao cinema ver o If Beale Street Could Talk.

  Estava curioso com este filme, sobretudo pela intensa propaganda que lhe fizeram, ao som do clássico dos anos 90 Killing Me Softly With His Song, dos Fugees, na voz deliciosamente melodiosa de Lauryn Hill.



  O filme trata de questões raciais, na América que, na década de 70, ainda se libertava de velhos e amargos preconceitos. Uma mulher é violada e certo polícia, suspeito, ajuda-a a acusar um afroamericano que passava por ali e que, a julgar por tudo o que vemos, é realmente inocente do que o acusam. Entretanto, ele engravida a namorada, uma rapariga que conhece desde que ambos eram miúdos. Gostei muito do desempenho de Kiki Layne e de Regina King, que inclusivamente, a última, ganhou o Oscar de Melhor Actriz Secundária. Layne faz uma jovem inocente, ingénua, apaixonada, que nos suscita comiseração e ternura ao mesmo tempo. Uma jovem que acredita piamente naquela relação, naquele amor que tem ali, tão frágil, com tão pouco, mas decidida a construir algo bonito, para si, para o ser que carrega e para o homem que escolheu para partilhar uma vida feita de tão pouco, e Layne consegue ser feliz com pouco, até num armazém improvisado de casa. A luta da sua vida será tirar o pai do filho da cela onde o encontra sempre o que visita. E com um vidro a separá-los.

   Os planos foram bem conseguidos, associados a uma fotografia de excelência, vibrante, feita de cores, e a diálogos bem conseguidos. Parece tudo tão caseiro, tão intimista, no meio de uma encruzilhada tão dramática. É um argumento forte, racial, quase pegajoso, que nos deixa embrenhados nas passeatas de Tish e Fonny sob a chuva de um princípio de noite numa rua que, se falasse, não deixaria aquele casal tão permanentemente preocupado ora com os pais de um, ora com o preconceito.

27 de fevereiro de 2019

Oscars.


   Claro que um cinéfilo como eu não podia perder a edição dos Oscars. Domingo fiquei acordado madrugada fora para saber quais as escolhas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Não houve grandes surpresas, devo dizer. Como sempre, há aquelas categorias intermédias, que servem mais para, e perdoar-me-ão a expressão, encher chouriços. O que queremos saber é quais foram os melhores actores e actrizes, secundários e principais, e qual foi o melhor filme e o melhor realizador, entre outras que, não obstante terem menos interesse, poderão até dar-nos certas luzes (darão?) sobre as escolhas da Academia nas tão almejadas categorias.

   Em Melhores Efeitos Visuais, First Man arrecadou a estatueta. Não fiquei admirado. É um filme excelente, que versa sobre a chegada do homem à lua. Pelos seus efeitos, mereceu. Em Melhor Edição de Som e Melhor Mistura de SomBohemian Rhapsody, e bem também, no meu entender. O som do filme, o que não é difícil com os Queen como pano de fundo, bem o justificava. Bohemian Rhapsody também ganhou em Melhor Edição e, como sabemos, a grande alavanca do filme, Rami Malek, recebeu a estatueta de Melhor Actor. Sempre disse que estávamos perante o melhor Freddie Mercury da sétima arte, e a Academia seguiu o meu entendimento.

    Em Melhor Filme EstrangeiroRoma ganhou. Era o grande favorito, também para Melhor Filme, o que não se confirmou: Green Book recolheu o troféu mais aguardado. Eram os meus dois favoritos. Qualquer um dos dois, quanto a mim, merecia o Oscar de Melhor Filme, em larga vantagem sobre os demais que concorriam. Relembro que vi todos os nomeados para Melhor Filme, excepto o Black Panther, porque não aprecio ficção.

   Em Melhor Realizador, Alfonso Cuarón, de Roma, levou o prémio para casa. Também se justificava. Roma é um grande filme, muitíssimo bem dirigido. Fez-se justiça. Depois, em Melhor Actriz, aí sim tivemos uma surpresa: Olivia Colman, por The Favourite. É o seguinte: eu não lho daria. Não deixou de ter um desempenho superior, mas havia outras actrizes que o mereciam mais, desde logo Gleen Close, que anda há anos à espera de um, por The Wife. Não considero que os desempenhos de Yalitza Aparício, por Roma, ou de Lady Gaga, por A Star is Born, lhe tivessem sido superiores. Gaga que não conseguiu fazer a dobradinha, levando, assim mesmo, o Oscar de Melhor Canção Original, por "Shallow".

    Em Melhor Actor Secundário, Mahershala Ali, por Green Book. Gostei imenso do desempenho do actor no filme. Mereceu-o. Em Melhor Actriz Secundária, Regina King por If Beale Street Could Talk, filme que vi hoje e sobre o qual ainda não escrevi. Aqui, discordo da Academia. Qualquer uma das demais nomeadas, a meu ver, merecia-o mais. Eu tê-lo-ia entregado a Marina de Tavira, por Roma.

   Nos argumentos, Green Book levou a estatueta de Melhor Argumento Original, nada a apontar, e BlacKkKlansman em Melhor Argumento Adaptado. Também não tenho nenhuma ressalva a fazer.

   O Vice foi um dos grandes derrotados, porventura o maior. Só conseguiu ganhar o Oscar de Melhor Maquilhagem e Penteados, uma das menores categorias. Não critico. Efectivamente, não é um dos grandes filmes dos que estavam nomeados. Seria o mais fraquinho de todos. Talvez Christian Bale pudesse ter esperança em ser o melhor actor, porque o seu Dick Chenney vai fazer história, lá isso vai. O Roma também conseguiu levar o de Melhor Fotografia. Merecidamente. A fotografia é um dos pontos altos do filme de Cuarón.

    Há mais categorias, mas pouco me interesse suscitaram, ou porque não são das principais, ou porque foram arrecadadas por filmes que não vi. Caso do, como disse anteriormente, Black Panther. Li, e já agora faço uma menção, que dois portugueses participaram na longa-metragem / documentário que ganhou o Oscar na respectiva categoria. É uma pequena vitória nacional. Chama-se Free Solo, e vai ser transmitido um destes dias, num dos canais do cabo.


   A Academia procurou dividir o mal pelas aldeias. Gostei do facto de a cerimónia ter sido rápida, de certo modo. Não ter tido nenhum apresentador residente terá ajudado. Houve dois momentos musicais bastante bons. Logo o primeiro, dos Queen + Adam Lambert, que interpretaram os clássicos We Will Rock You e o hino We Are the Champions, e Lady Gaga com Bradley Cooper, em Shallow, num momento de grande cumplicidade entre os dois artistas. Um dos pontos altos do certame. 

    Haverá mais para o ano!

17 de fevereiro de 2019

Vice & Cold Pursuit.


   Na sexta, voltei ao cinema comercial, para acompanhar o último filme que me faltava ver - com excepção do Black Panther, de que não gosto - de todos os que estão nomeados ao Oscar de Melhor Filme. No sábado, e não obstante ter lido uma crítica não muito abonatória na blogosfera sobre o filme, vi o Cold Pursuit.

   O Vice mostra-nos os bastidores do centro do poder da "nação mais poderosa da Terra", pegando nas palavras de Dick Cheney, um homem sedento de poder, mas habituado a viver na sombra, excelentíssimo pai de família. Há ali um momento em que Cheney não cede nos seus princípios, quando o confrontam, sendo republicano, com a homossexualidade da filha; no final, e já não sendo ele o visado, parece compactuar com a dita cedência de uma das filhas, que dá o dito por não dito em horário nobre da TV. Parece que Cheney, maquiavélico como só ele, não se importa em ultrapassar todos os deveres éticos e morais quando se trata de atingir determinado objectivo político.

  Alçando-se na teoria do poder executivo unitário, Cheney, braço forte de Bush filho, no filme retratado como um cowboy bêbado e inconsequente, totalmente estupidificado, justificou que o poder executivo, à margem do congresso, tudo pode, principalmente em tempos críticos, de guerra. Foi o que aconteceu no pós-2001, com a invasão do Afeganistão, do Iraque, com o uso da tortura e a manutenção de prisioneiros de guerra em prisões onde a Convenção de Genebra relativamente aos prisioneiros de guerra não era respeitada. Lembremo-nos de Guantánamo, por exemplo.

   Maquiavel. Nunca é citado, nem implicitamente, mas estou em crer que deve ser autor de mesa para Dick Cheney. Vale mais ser temido do que amado e, se tens de fazer mal, fá-lo de uma assentada. Cumpriu todos os conselhos do autor florentino de modo escrupuloso. Evidentemente que há mérito de um homem vindo do nada, apertado contra a parede pela mulher para que mude de vida e cresça. Ouviu o conselho com atenção e chegou à Casa Branca. Ser presidente não lhe interessava. Podia controlar tudo, e controlou, manobrando Bush filho e estando à sua retaguarda.



   Como referi acima, Cheney não se importou com a ética, e também nem sempre lhe importou o bem da nação. Sabemos, ali pelo meio, que havia uns esquemas, uns negócios, com petrolíferas e grandes empresas. Enfim, o Médio Oriente é rico em energias caras aos americanos. O resto, como sabemos, é história: não havia armas nenhumas de destruição em massa, no Iraque, e o 11 de Setembro deu até jeito àqueles senhores de guerra que crêem que os EUA devem desempenhar o papel de polícias do mundo.

    É um filme interessante, bem conjecturado, em forma de sátira, a um período da história recente do qual tão más recordações tempos. Quer o actor principal, que faz de Cheney (Christian Bale), quer a actriz que faz de Lynne Cheney (Amy Adams) e inclusive Sam Rockwell, no papel de Bush, estão, a meu ver, bem nomeados para os Oscars de Melhor Actor Principal, Melhor Actriz Secundária e Melhor Actor Secundário, respectivamente. Têm desempenhos que o justificam. A montagem, ou edição, também é um ponto positivo de Vice, como verão. É um filme dinâmico. Eu destacaria a cena em que Cheney está para entrar no seu gabinete da Casa Branca e, como que em retrospectiva, a sua vida, desde os tempos conturbados do início do casamento, se desenrola ante os seus olhos. A cena é impactante, porque vemos um vulto, estático, à entrada da porta. Um homem impenetrável, pragmático e poderoso. É essa a imagem com que ficamos de Dick Cheney. No final, quando se tenta justificar e nos encara, percebemos que nem ele se sentirá bem com o que fez, afinal, o mundo mudou muito por responsabilidade sua.


    O Cold Pursuit, e ainda bem que não me deixei levar pela crítica pouco abonatória, não sendo um filme maravilhoso, longe disso, vê-se bastante bem. Nunca vi tanta morte retratada de um modo tão leve, e mortes violentas, diga-se. O filme, e é um pormenor curioso, conjuga cenas de uma violência acentuada com um travo a subtileza que até nos arranca sorrisos, quando o que está em causa não é para brincadeiras: um pai, sedento por vingar o filho, traficantes de droga sem escrúpulos nem sentimentos, polícias, etc. O facto de ser ambientado numa cidade de gelo, extremamente fria, provoca-nos essa sensação de certo desconforto.



  As interpretações também não são brilhantes. Quando sabem da morte do filho, as expressões parecem as de alguém que está a, e perdoem-me a expressão, segurar o cocó. Faltou entrega. O filme até pedia mais, se formos a analisar racionalmente. O argumento, em si, pede mais entrega, mais garra.
   Cai facilmente no esquecimento.

16 de fevereiro de 2019

Le dix-septième parallèle.


   O paralelo 17, em português, foi o documentário que me levou, na quinta-feira à noite, de novo à Cinemateca. O paralelo 17 era uma linha imaginária que dividia o Vietname do Norte, socialista, apoiado pela URSS, do Vietname do Sul, suportado pelos EUA e pró-ocidental. Este documentário, gravado em 1968, a preto e branco, acompanha o dia a dia daquelas populações vivendo no palco de guerra.

   É muito interessante, sobretudo se quisermos ter uma melhor percepção do que foi aquele conflito e do impacto que teve nos vietnamitas, obrigados a construir abrigos subterrâneos, a interromper todas as actividades sempre que um avião americano passava. Aquelas pessoas estavam permanentemente em estado de alerta. As partes mais sensíveis são as que nos mostram crianças a ser doutrinadas (Ho Chi Min está sempre presente) ou a brincar com armas, já completamente ensinadas a resistir e a enfrentar o terrível inimigo norte-americano. E vemos crianças pequenas, uma com oito anos, destemida, a dizer que não teme a morte e nem qualquer americano. Que, sendo capturada, jamais revelaria onde estavam os adultos. Que a única coisa que temia eram os tigres. Na escola, não aprendiam a ler e a escrever, mas palavras em inglês para quando se deparassem com um soldado norte-americano capturado.



  Um tenebroso cenário de guerra. A história, essa, conhecemo-la bem. Os americanos retiraram-se, desgastados, e retiraram o apoio ao Vietname do Sul. O norte ocuparia o sul e reunificaria o país sob a égide de um regime socialista. A Guerra do Vietname, como assim ficou conhecida, deixou profundas marcas nos norte-americanos, que tiveram uma saída pela porta dos fundos, humilhante, e em todo o mundo ocidental, levando a que muitos jovens, nos loucos anos 60, juntassem a causa vietnamita à da democracia, nomeadamente nos países que ainda sediavam ditaduras, como Portugal e Espanha.

  Joris Ivens, sendo comunista, pretendeu ter uma visão algo equidistante, porque, efectivamente, não vemos nenhuma exaltação do comunismo. Ainda assim, e embora se tenha limitado a narrar a vida daquelas gentes, não deixava de acreditar na vitória do comunismo sob o imperialismo. Ivens sempre foi um militante antifascista.

  Aquando da realização do documentário, estávamos longe de saber qual iria ser o desfecho. O saldo da guerra foi bastante pesado, para os vietnamitas e para os americanos. Cometeram-se atrocidades, como massacres de populações civis e uso de armas químicas - o napalm -, que levaremos tempo a esquecer.

15 de fevereiro de 2019

Gata em Telhado de Zinco Quente.


   Mais uma noite na Cinemateca, mais um grande clássico. Gata em Telhado de Zinco Quente traz-nos grandes actores, em anos onde se produziam grandes filmes, com grandes interpretações. Tudo é grande neste filme, desde logo a presença de Paul Newman e Elizabeth Taylor, uma verdadeira gata de sensualidade e fogosidade.

   A acção desenrola-se numa casa de família, palco de disputas pela herança de um homem prestes a morrer. Disputa entre os seus dois herdeiros, sendo que a um, precisamente aquele que Paul Newman encarna, pouco lhe importam os bens materiais. Fala-se de desavenças, uma principal: entre Maggie e Brick, um casal, e entre Brick e Big Daddy, o seu pai.

   Ao contrário da peça que lhe serviu de inspiração, de Tennessee Williams, onde se explorava a homossexualidade de Brick, a Hollywood de finais dos anos 50 ainda não estava preparada para a abordar. As referências ficam mais ou menos implícitas, sob a forma de uma grande amizade. Claro que não vemos em como uma grande amizade entre dois homens poderá estar na origem da deterioração do relacionamento de um deles com a mulher, se entre eles não houver mais do que mera amizade.



    De um lado, vemos a falta de carinho, no caso de Brick, que cresceu rodeado de tudo, mas sem a atenção devida do pai; do outro, de Maggie, cujo marido não lhe nutre especial carinho até ao final do filme. Maggie que é profundamente altruísta e engenhosa. Engendra uma gravidez para que o sogro, que não durará muito mais, morra confortado, de certo modo. Casar-se, para ele, implicava ter filhos para se perpetuar, para que algo sobrevivesse com a sua morte. A ira de Brick, que o leva à destruição da cave, repleta de porcarias caras que pouco valem sentimentalmente, é o exteriorizar de uma raiva contida pelo casamento infeliz, pela infância e adolescência sem afecto de um pai presente fisicamente e ausente no carinho e pela morte daquele grande amigo, omnipresente na narrativa, Skipper.

    As interpretações, como referi acima, são inenarráveis. Muito ao estilo Broadway, na entoação das palavras, na teatralidade. Fazia-se cinema com uma paixão que não encontramos presentemente, quando poucos filmes, por melhores que sejam, e temos tido óptimos nos últimos anos, nos ficam na memória. Aquela Maggie de Elizabeth Taylor, mais do que o filme em si, é inesquecível. Não só pela sua beleza, e a beleza daquelas mulheres, a candura, era outra, mas também pela postura.

14 de fevereiro de 2019

Lebanon.


   Lebanon levou-me, pela sinopse, à Cinemateca. Meio indie, pretendeu, e conseguiu, ser um retrato cru dos horrores da guerra, no caso da Guerra do Líbano de 1982. O caricato neste filme é que a acção tem lugar, toda ela, no interior de um carro-tanque. Através da mira da arma, e peço desculpa por não entender nada da terminologia militar, vamos acompanhando o mundo cá fora. Há duas realidades, no fim: a do tanque, onde quatro homens e um prisioneiro de guerra, a partir de determinado momento, vivem literalmente, e a lá de fora, cheia de corpos e edifícios destruídos.

   Tudo é iminentemente sujo naquela guerra. A urina dos militares é quase que o simbolismo da podridão que grassa quando um homem empunha uma arma contra outro.

   É profundamente claustrofóbico, com poucos diálogos, bruscamente interrompidos pelo barulho da maquinaria, no tanque, que é como que a segunda pele daqueles homens. Há a destacar a cena inicial e a final, o prólogo e o epílogo, nos quais o realizador nos dá planos sobre um campo de girassóis, quiçá pretendendo restaurar a tranquilidade antes da guerra e aquela que se seguirá, direi eu, à reconstrução, demorada, após um grande conflito. Talvez também seja uma reprodução do imaginário daqueles homens, que querem voltar para casa, para junto dos seus.


    Dos poucos diálogos, os que há são dirigidos à família - o militar que quer que um superior informe os seus pais, velhinhos, de que está bem - ou a memórias de adolescência. É o escape possível no meio de uma incerteza. O minuto seguinte poderá trazer a morte.

    Os grandes planos do filme prendem-se em três momentos que acho oportuno relatar: o da mulher nua, despida na sua vulnerabilidade, sendo um testemunho do horror da guerra nos civis, e o do olhar de impotência / incapacidade de reacção no jovem militar, que vê tudo aquilo sem poder agir, com o pavor estampado nos olhos. Não conseguiu afastar-se emocionalmente, como seria pretendido num homem que vai para uma frente de batalha. Há um terceiro, quando o realizador leva a que o militar foque a mira nuns panfletos de uma agência de viagens destruída. Neles, podemos ver a Torre Eiffel, o Big Ben e as duas torres principais do World Trade Center, que existiam em 1982. O filme é de 2009 reportando-se a 1982. Quase um prenúncio da tragédia que viria. O realizador foi, ele mesmo, um combatente na guerra de 1982. Chama-se Samuel Maoz. A segunda guerra do Líbano, em 2006, ter-lhe-á servido de inspiração final.
 
   Neste Lebanon, estamos perto e simultaneamente longe da acção. Assim se movimentam as personagens. Estão perigosamente no centro onde tudo se passa, todavia, a uma distância aparentemente segura de um interminável conflito entre árabes e judeus.