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20 de abril de 2019

Dina (1956 - 2019).


   Assim como assim, eu não era fã da Dina. Sabia-a doente, porque havia lido sobre isso, algures, e até sabia que era algo pulmonar. Desconhecia os contornos. Dina sofreu de fibrose pulmonar - uma doença que me era completamente desconhecida - durante treze anos, quando a maioria dura três. Já não fazia nada sem a botija de oxigénio. No ano passado, deu a sua última entrevista, não se deixando fotografar para que o público se lembrasse de si saudável e ainda bem. É de mulher, de grande mulher.

   A Dina sofreu daquele mal que aflige muitos artistas em Portugal: a injustiça. Quando se é mulher, lésbica e se participa no Festival da Canção, é meio caminho andado para se cair na maledicência do povo e no boicote das rádios. É que, em Portugal, facilmente se catalogam as pessoas. Não conheço os números porque há muito tempo que não se ouve nada sobre o assunto, mas recordo-me de que praticamente não se passava música portuguesa nas rádios nacionais. Só estrangeira. Às vezes, quando queriam colmatar um espaçozinho minúsculo em língua portuguesa, recorriam à música brasileira ou aos GNR, Xutos, Rádio Macau e por aí. Sempre os mesmos. Os clássicos. Espero que tenha mudado. Depois, temos inúmeros preconceitos com a nossa música. Arranjamos um monte de catálogos, que vão desde a erudita, à menos comercial, à música pimba, ultimamente rebaptizada como ligeira. Eu também não a consumo, mas não veria com maus olhos se separássemos alguma e a colocássemos nas rádios. A Dina, enquanto letrista, tinha canções engraçadas, melódicas, que ficavam bem na sua voz e que me parecem bastante apropriadas para a rádio. E, indiscutivelmente, Dina era mais do que o Amor d'Água Fresca, que a popularizou e eternizou entre os portugueses. A minha preferida, do seu repertório, é uma canção menos conhecida, de seu nome Acordei o Vento.

   Evidentemente, foram as participações no Festival da Canção e na Eurovisão, em 1992, que marcaram uma geração. A minha, inclusive. Eu guardarei na memória a imagem da mulher roliça, de brinco na orelha e viola entre braços, a enfiar uma catrefada de frutos num cesto bastante colorido e melódico, canção de refrão pegajoso, que entra do ouvido e de lá não mais sai. E é esse momento que deixo aqui.


1 de dezembro de 2017

Zé Pedro (1956 - 2017).


   Este será um dos obituários mais difíceis para um português fã do bom rock que por cá se produz. A notícia não causou estupefacção. Exactamente no mesmo dia, numa visita hospitalar à minha avó (que fracturou o fémur mas está bem), vieram à conversa os Xutos, acerca do estúdio imponente que têm, realidade tão diferente da do início da banda, no bairro dos Olivais, e até fui eu quem disse que, mais dia, menos dia, teríamos a informação do falecimento do Zé, que há muito lutava contra uma doença do foro hepático. Tristes coincidências. Se soubesse, não teria aberto a boca.

   Gosto dos Xutos. São uma banda paradigmática na música portuguesa desde o início dos anos 80. O álbum Circo de Feras, de 1987, e o que se lhe seguiu, de 1988, intitulado simplesmente 88, contêm as canções mais conhecidas, e popularizaram-nos. Gerações cresceram a ouvi-los. Os Xutos têm aquela capacidade de encher estádios, trinta anos depois, com velhos e novos à mistura. Serão, talvez, a banda mais intemporal e consensual. Quem tem coragem de não gostar dos Xutos?

   Eu, entretanto, pela minha idade, passei a adolescência com o Ai Se Ele Cai, do álbum Mundo ao Contrário (2004), mas Chuva Dissolvente, de Dizer Não de Vez (1992) faz parte daquele rock old school de que não prescindo.

   Não sei como ficarão os Xutos após esta partida. Perdeu-se o espírito do grupo - Zé Pedro era um membro carismático. Temos vários exemplos de bandas que se souberam reerguer. Os Queen, sem Freddie desde 1991, ainda actuam em parcerias com este ou aquele intérprete.
   Zé Pedro era mais do que o guitarrista da banda; não sendo o líder, sabia puxar pelo público como ninguém. Assumia sem pudores o seu passado ligado ao álcool e às drogas, e preocupava-se com essa mensagem pedagógica junto dos jovens.

   Nunca fui festivaleiro. Nunca vi os Xutos ao vivo. E só agora me dou conta dessa falha. Com o Zé Pedro, não mais será possível, infelizmente.
    E que ele possa dar os seus acordes lá na dimensão em que estiver.


* Uma pequeníssima nota de rodapé para dizer o seguinte: termina amanhã, dia 2, o prazo para que quem quiser participar no jantar de Natal, que estou a organizar, ainda o possa fazer. Cliquem neste linkou no gadget que encontrarão logo abaixo da minha foto de perfil, se se decidirem a vir. Despachem-se! :)

21 de outubro de 2017

Klaus Nomi.


    Este post será ligeiramente contracorrente. Há muito que não me dedico a intérpretes ou canções; melhor dito, há muito que nenhum, ou nenhuma, me merece um destaque especial. Por estes meses, entre as minhas pesquisas, redescobri Klaus Nomi. Já lhe tinha passado os olhos há anos, sem me deter o suficiente. Klaus Nomi foi um artista ímpar. Hoje mesmo, se vivo fosse, estou em crer que seria incompreendido.

    Klaus era alemão. A carreira teve tanto de curta quanto de meteórica. No final dos anos 70, seria catapultada quando se mudou para Nova Iorque. Enquanto esteve na sua terra-natal, actuava na Ópera Alemã. Já nos EUA, impressionou a todos pelas suas vestes histriónicas, pelo penteado exuberante e pelas performances inusitadas e teatrais. Klaus, que era contra-tenor, soube conjugar o canto clássico e a pop-rock, uma junção que, na sua voz, soava sublimemente. Nos finais da década de 70, em torno de 1979, o não menos carismático David Bowie assistiu a uma das suas apresentações e convidou-o para actuar ao seu lado no programa televisivo Saturday Night Live. A comparência no programa tornou-o conhecido para o grande público norte-americano, permitindo-lhe gravar um álbum sob o selo da RCA, de título homónimo, encetando uma breve tour pela Europa e pela América, além de ter colaborado em projectos paralelos com outros nomes do meio.

    Em 1983, a sua saúde começou a acusar sinais de debilidade. Enfraqueceu, emagreceu, surgindo-lhe umas manchas estranhíssimas na pele, sobretudo no pescoço, que prontamente disfarçou ao usar uma gorjeira, adereço muito comum nas cortes europeias pelos séculos XVI e XVII. Acabou por falecer em consequência de complicações causadas pelo então desconhecido HIV.

    Antevendo a morte iminente, Klaus interpretou, em meados de 1983 (haveria de morrer em Agosto do mesmo ano, com trinta e nove anos), a ária Cold Genius, do Rei Artur, por Henry Purcell, compositor. Tratou-se de um momento emocionante e pejado de simbolismo. Um homem que, a morrer, canta a morte.

     Eis o depoimento, duro, de um dos poucos amigos que não o abandonaram durante as suas últimas semanas, Joey Arias: « Os médicos obrigaram-me a usar um traje de plástico quando o visitei. Eu estava proibido de lhe tocar. Depois de algumas semanas, pareceu ter melhorado. Tinha força para andar. Então, saiu do hospital e foi para casa. O seu gerente fê-lo assinar todos os papéis, como se a sua vida valesse quinhentos dólares. Ele desenvolveu kaposis (um tipo de lesão associada ao sarcoma de Kaposi, que é uma forma estranha de cancro de pele relacionado à SIDA) e começou a tomar interferon. Isso afectou-o terrivelmente. Tinha marcas em todo o corpo e os seus olhos tinham fissuras roxas. Era como se alguém o estivesse a destruir. Só costumava brincar com isso: "Agora chama-me o Nomi de pontos". Então, ele realmente enfraqueceu e nós levámo-lo para o hospital. Não podia comer comida por dias porque tinha cancro de estômago. O herpes brotou-lhe por todo o corpo. Ele tornou-se um monstro. Doía-me muito vê-lo assim. Falei com ele na noite de 5 de agosto, e ele disse-me: "Joey, e agora o que é que eu faço? Eles não me querem mais no hospital. Já me desligaram de todas as máquinas. Tenho de parar com tudo isto porque não estou a melhorar". Tive um sonho de que Klaus ficaria melhor e cantava novamente, só que desta vez um pouco deformado, de modo em que ele tinha de estar atrás de um ecrã ou algo assim. Eu disse: "Agora serás o fantasma da ópera. Vamos fazer apresentações juntas", e ele respondeu: "Sim, possivelmente". Mas Klaus morreu naquela noite enquanto dormia. »

       Deixo-vos o vídeo e algumas fotos deste artista tão ignorado.






24 de setembro de 2017

100 Men / Queer Lisboa 21.


   Pela primeira vez, neste ano, fui ao Queer Lisboa, aceitando o convite de um amigo. Iríamos assistir a um documentário que, mal eu suspeitava, seria criativo, nada enfadonho, pouco se detendo naqueles temas-base de qualquer longa, curta ou documentário que versa sobre a dita comunidade. Bom, houve clichés, sim, mas não podemos desvirtuar o objecto que pretendemos explorar. Falar da comunidade homossexual é, necessariamente, falar da promiscuidade, da epidemia da HIV, da fragilidade das relações amorosas, do preconceito social... O que há neste documentário que não há noutros é a sequência pouco morosa. O documentário, melhor, os homens sucedem-se com as suas histórias pessoais, tragédias, características. Há uma linha cronológica e uma contagem decrescente que não permitiram ao director demorar-se com um determinado tema. E houve muitos. Quebrou-se com aquela tendência quase irresistível para retratar os oitenta como a década da morte. Claro que, a dado momento, houve quem contasse que passava os dias vestido de preto porque os enterros se sucediam. E ficou-se por aí.

   Cada homem que o director foi conhecendo acrescentou-lhe algo de novo. Cada um fê-lo vivenciar situações, cometer excessos. Aí surgiram os dilemas, entre os quais o da monogamia. O director estabelece uma relação com um homem, que sucumbe a engates, aos anos, não sem antes se ter transformado numa relação aberta. Retomariam posteriormente.
   Somos confrontados com as nossas idealizações: se calhar, diz-nos Paul Oremland, o príncipe encantado não existe, ainda que o queiramos encontrar. Existem homens de carne e osso, frustrados, psicologicamente desequilibrados, fetichistas, com mazelas físicas e morais. Um por um, todos o marcaram. O exercício inusitado de os descobrir levou-o a fazer uma retrospectiva curiosa. E é quase tudo desfiado com leveza - a contagem ajuda - como se tivesse sido uma juventude vivida no fio da navalha, mas muito divertida.

    À medida em que o documentário avança, percebemos que as inquietações mudam. Já não é a epidemia, que o cocktail medicamentoso resgatou a muitos da morte, senão o progressivo esvaziamento de uma comunidade e de um activismo que vêm perdendo a razão de ser. Quanto à primeira, as apps de encontros ditaram uma nova forma de os homens se conhecerem. Fará ou não sentido haver bares dirigidos especificamente a homossexuais? No activismo, as causas vão cedendo diante da aceitação social. Perdeu-se o espírito de grupo, a combatividade. Saíram dos guetos e da clandestinidade para as avenidas das grandes metrópoles. Sobeja o show off.

    Eu gostei, e aconselho a que o vejam.

31 de agosto de 2017

Diana de Gales.


   Diana morreu há vinte anos. O mês de Agosto de 1997 foi complicado. Dias antes falecera a minha bisavó, e ainda estávamos a recuperar da sua partida, em luto, quando se deu o fatídico acidente em Paris. A morte de Diana, a Princesa de Gales, apanhou a todos de surpresa. Diana estava feliz e saudável, no auge dos seus trinta e poucos anos. Conhecera a felicidade há relativamente pouco tempo, ao lado de um insuspeito milionário de origem árabe. Sabíamos-lhe a vida através das revistas do social e dos paparazzi, que tanto transtorno lhe causaram.

   A princesa foi uma vítima do assédio, do protagonismo, que ela soube aproveitar quando lhe interessou. Não digo que tenha sido oportunista; pelo contrário, Diana teve de aprender a lidar com o facto de ser a mulher mais fotografada do mundo. Se não os podes vencer, junta-te a eles. Aprendeu a lição.

    O divórcio de Carlos foi conturbado. Eu saberia, nove anos depois, do que isso se tratava... Muito se especulou. As figuras da monarquia são pessoas como as demais. Apaixonam-se, traem, choram, gritam. Seguem estritamente as regras do protocolo, mas nem a austera realidade os consegue afastar da condição de pessoas. Quer-me parecer que Diana queria ser feliz, um desejo muito legítimo numa mulher bonita, jovial, que havia passado por um casamento de fachada. Diana tentou, quando estava com os filhos, proporcionar-lhes momentos tão normais quanto possível. Ela conhecia, melhor do que ninguém, o preço a pagar por se estar sob os holofotes da imprensa, do povo, da rainha, também.


    Diana teve um fim trágico. A sua memória, entretanto, perdura. Temos presente o seu sorriso algo tímido, belíssimo, a classe no trato, a elegância nas atitudes, nas indumentárias. Era uma senhora. A única que fez frente à rainha no coração dos britânicos. O povo amava-a mais do que à soberana, mais do que ao príncipe herdeiro. Admirava-lhe a coragem, a simpatia, a índole.

    Diana de Gales figurará na história entre as mulheres que se tornaram mitos. A imprensa, que a perseguiu, transformou-a num, quando, muito provavelmente, não terá sido mais do que uma menina infeliz e encantadora.

26 de dezembro de 2016

George Michael (1963 - 2016).


   Nem bem o Natal havia terminado e soubemos do falecimento de George Michael. O ano que agora finda tem sido terrível no que respeita a perdas na indústria das artes.

   A minha relação com George Michael, como apreciador de música pop, começou por intermédio dos canais estrangeiros de música e pelos álbuns dos eighties que a mãe tem. Na irreverência daquela década, Michael protagonizou um dos coming out mais faseados de sempre, com canções que foram descortinando a sua sexualidade - como esquecer Father Figure, um dos seus singles mais exitosos, que, muito embora abordasse a relação de um homem mais velho com uma virginal moça, subliminarmente aludia aos famosos sugar daddies que preenchem as fantasias de muitos rapazolas, ou o álbum Listen Without Prejudice, nos seus anos de glória, com um título bem sugestivo? Desde então, sucederam-se Fastlove, Outside, entre outras, cujo foco incidiu na faceta mais íntima da sua vida pessoal.

   À semelhança de intérpretes do seu tempo, como Michael Jackson e Whitney Houston, também eles falecidos precocemente, a determinado momento a carreira de George Michael deixou-se eclipsar por escândalos relacionados ao consumo de droga e à prática de actos lascivos em locais públicos. A trajectória é a que bem conhecemos: fama imediata e abuso de substâncias ilícitas, com repercussões na imagem perante o público e na saúde. Homens e mulheres que saem de cena na casa dos cinquenta anos, no auge da maturidade enquanto artistas e pessoas. O coração atraiçoou-os, a todos.

   No dia de Natal, George Michael, que em 1984, enquanto vocalista dos Wham!, compôs e popularizou o clássico natalício Last Christmas, deixou-nos, silenciosamente, na sua propriedade no Reino Unido. Os seus fãs e o grande público não o sabiam doente. Aqui, com David Bowie, falecido no início do ano, sou levado a crer que procurou resguardar-se do assédio da imprensa, ele, que tantas páginas de tablóides encheu. Afastado das luzes da ribalta, diz-se que estaria a preparar um novo álbum de originais. Quem sabe o venhamos a conhecer, com a tecnologia de que actualmente dispomos, ou talvez fiquemos apenas - como se um apenas se lhe pudesse aplicar - com o seu legado de criatividade, de ousadia e de muita, muita despudorada provocação.

13 de novembro de 2016

A Rapariga Dinamarquesa.


   Bem sei, bem sei, o filme estreou há cerca de um ano, sensivelmente. Não sendo um apaixonado por cinema, por mais estranho que pareça, espero que os filmes sejam emitidos nuns canais premium que assinei. Gosto de ver uma boa obra à noite, munido de uma chávena de chá ou de leite quente. Aguardar impacientemente por uma estreia sucedeu pouquíssimas vezes. A última deu-se com o Maleficent, em 2014, portanto, e foi uma decepção na história, compensada pela actuação magnífica da senhora Jolie.*

    Mas estou aqui para falar noutro filme. O título, em si, pouco me disse. Considerei simplista - desconhecia que era biográfico. Na medida em que não presto atenção, tão-pouco sabia sobre o que versava a história. Ontem, verificando os filmes que foram exibidos durante a semana, dei com este, e resolvi ir ler a descrição. Pensei: "Bom, todos já o viram, deixa lá perder aqui duas horas".

     Entediante no início, fui começando a intuir o desenvolvimento. Um jovem garboso, pintor, casado com uma rapariga, lá está, dinamarquesa. Veste-se de mulher para posar para a esposa, e ganha-lhe o gosto. Okay, muito giro. Não, não tão banal. O filme aborda a transexualidade nos anos vinte do século passado, com tudo o que acarreta, como a cirurgia de redesignação sexual - a primeira, mal sucedida, num experimento absurdo com as limitações científicas e médicas da época. Há, a meio, um amor impoluto e sublime que sobrevive a tudo, até à evidência de que não estamos perante um casal composto por um homem e por uma mulher, com o manifesto sofrimento que essa constatação provoca. As derradeiras cenas, impactantes, alternam entre a beatitude e a tragédia. Imagino que os meus leitores são bastante mais atentos e interessados do que eu, estando, então, à vontade para discorrer sobre o argumento.

       Recomendar um filme, que depreendo conhecido por todos, não faz grande sentido. Ainda assim, para quem não viu, veja. Os actores principais saíram-se bem, com interpretações magistrais. O enredo tem aquela veracidade tão estimulante, se tanto para mim. Fica a sugestão.

* Errata: Vi o filme "O Meu Nome é Alice", entretanto. Presumo que foi a minha última estreia.

14 de maio de 2016

Quotidiano.


        Há muito que temos presente a crise de valores que perpassa a sociedade ocidental. Eu, que não sou conhecido por nutrir especial apreço e fascínio pelos países orientais, vejo-me obrigado a reconhecer a relevância que os laços familiares assumem no sudeste asiático e no Japão, enquanto que por cá fazemos a trajectória inversa. Manifestação dessa importância encontramos no respeito pelos anciãos, pelos patriarcas e pelas matriarcas. Os mais velhos vêem as suas opiniões serem tidas em consideração pelas gerações mais novas. A idade é um posto.

     Não sou um velho do Restelo, tão-pouco um admirador da época em que os pais acertavam os casamentos dos filhos, em que os namoros proibidos eram vividos em segredo (mantendo certo encanto, talvez) e em que os consentidos não iam muito além de breves encontros ao postigo ou nas salas de estar das moças, com os irmãos, os avós e, sobretudo, com o pai a observar com salutar atenção os movimentos do rapaz e as suas investidas sobre a donzela. Isso não implica que seja indiferente à libertinagem a que assistimos e, o que me preocupa mais, ao desrespeito que se verifica em idades progressivamente mais precoces. As crises na adolescência, naturais nessa fase de desenvolvimento, não surpreendem e não são em si uma novidade. O perigo está no estágio imediatamente anterior, na infância, onde constatamos meninos paulatinamente mais caprichosos e mimados, verdadeiros déspotas em miniatura.

     Ontem, à tarde, lanchei numa pastelaria aqui perto de casa, como de costume. A páginas tantas, entrou uma senhora já de certa idade, acompanhada por uma miúda que não teria mais de seis, sete anos (a julgar pela estatura e pelo comportamento). Fui de imediato tomado por alguma perplexidade ao verificar que a menina caminhava sorridente e feliz, em excessiva euforia, e a avó carregada com a sua bolsa e ainda com a mochila da neta. O natural seria a menina carregar o seu material, ajudando a velha avó. A avó fez os pedidos, ao balcão, e a neta sentada à mesa. A senhora levou-lhe uma mousse de chocolate e aguardou, ao balcão, pelo chá. Já com a chávena na mão, pediu à neta para que se encaminhasse até uma outra mesa, supondo eu que não lhe agradaria ficar na mesa entretanto escolhida pela pequena, num canto com escassa luminosidade. Ora, a menina, se educada fosse, acataria a decisão da avó, levantando-se e cumprindo com a sugestão da senhora, que assim foi; não senti qualquer tipo de ordem nas suas palavras. Pelo contrário, cerrou os braços por cima da mesa, pousando-lhes a cabeça, amuou e começou a fazer birra. A avó cedeu e, aproximando-se, ouviu o seguinte comentário: "Se querias, ficavas tu ali!", rematando com um: "Parvinha!", acompanhado de uma expressão facial sarcástica e cheia de soberba. 

      Respirei bem fundo e ainda ponderei mudar de mesa para evitar confrontar aquela criança com um olhar de reprovação. E se é verdade que lamentei por aquela avó, não deixo de ser sensível ao facto bastante notório de aquela criança ser assim porque lho permitiram. Provavelmente não a pobre senhora, mas os incautos dos seus pais, ainda que a explicação se encontre num conjunto de factores, entre os quais a personalidade da pessoa, daquela menina, e o convívio com os coleguinhas de escola. Sabemos como somos susceptíveis, acentuando-se a tendência nestas idades, em que o carácter está longe de ser definido, e por isso mesmo o papel dos pais e dos educadores é decisivo, evitando-se futuros males maiores. Como diz a sábia voz do povo: "De pequenino se torce o pepino".

      Eu tenho autoridade para criticar o comportamento daquela menina. À chegada da mãe, contei-lhe o sucedido, reagindo com passividade ao que lhe acabara de relatar. Sabe que errou na minha educação. Fui igualmente um menino e um adolescente mimado, autoritário, contumaz, cheio de manias. Fiz birras. Muitas vezes sujeitei os pais a comprarem-me brinquedos naquele dia, àquela hora, caso contrário choraria até suar. Prontamente me satisfaziam a vontade. Não sinto qualquer refreamento em contá-lo, pois, anos volvidos, não fui o culpado; fui a vítima. E ainda hoje sofro com as consequências de uma educação leviana. Apenas considero curioso que eu próprio saiba fazer o meu diagnóstico, e tão-só. E por temer que o fenómeno se multiplique e prolifere, estou atento e pronto a alertar para os perigos que comporta descurar a educação de uma criança. Tornem-nas adultos saudáveis, mentalmente equilibrados e, preferencialmente e dentro dos possíveis, felizes.

21 de abril de 2016

Prince (1958 - 2016).


     Fui surpreendido, como a imensa maioria, com a morte de Prince. Para um amante da onda dos anos setenta e oitenta do século passado, Prince é um dos nomes incontornáveis. Não é possível percorrer os grandes sons daqueles tempos sem esbarrar em Purple Rain, Cream, Kiss, ou a minha favorita de todo o seu vasto e profícuo repertório - When Doves Cry.

    Prince estava doente; eu não sabia. Prince, dizem, passava por um período de menor criatividade; desconhecia. Na senda do entendimento de Manuel Moura dos Santos, vultos maiores, como Prince, deixam a sua marca de forma tão indelével que é desnecessário aludir a alguma quebra na produtividade. Prince era a referência em si. Um homem ímpar, original, que escandalizou a moralista indústria americana com os seus outfits exóticos e andróginos, com a sua maquilhagem exuberante, com a postura irreverente em palco.

      Perdemos progressivamente todas as nossas referências. Poucos meses após a partida de Bowie, Prince deixa-nos numa cada vez mais sentida solidão. Génios não nascem todos os dias. Só alguém pouco atento à sua carreira poderá duvidar do muito que ainda estaria por vir. Nos seus cinquenta e sete anos, Prince certamente teria sucessos a somar. 
      Quando sentimos que quase tudo está inventado, tendemos a recorrer aos nossos bastiões. Prince, por mim falo, era um deles.

17 de março de 2016

Nicolau Breyner (1940 - 2016).


   O Nicolau era aquele homem a quem assentava perfeitamente o epíteto de "gajo porreiro". Um bon vivant, estroina, na melhor acepção do adjectivo. Magnânimo actor, versátil, adaptável a todos os registos, desde a televisão ao cinema, passando pelo teatro, que o aborrecia pela monotonia. Produtor, realizador...

   A sua morte, precoce e imprevista, consternou. Ouvi o que a Ana Bola disse, colega de carreira, e concordo inteiramente. O Nicolau incluía-se naquele restrito grupo de pessoas a que não concebemos sequer a ideia de que possa morrer. Temo-las diariamente nas nossas vidas. São-nos familiares. Pertencem ao imaginário colectivo. Assim era com Nicolau Breyner. O seu sorriso perpassou mais de quatro décadas, invadindo-nos os serões, presente nas incontáveis séries que realizou e em que participou.

    Ganhou o afecto e um lugar cativo no coração das pessoas. Os seus colegas são unânimes em reconhecer-lhe o trato fácil, a amabilidade, a atenção, a generosidade. Dificilmente encontramos alguém tão consensual na sociedade portuguesa. Após a divulgação da notícia que dava conta do seu falecimento, multiplicaram-se as mensagens de pesar, transversais aos mais diversos quadrantes da vida pública. Do Presidente à senhora que o atendia no restaurante, todos lamentaram a partida súbita de um amigo, do homem bom.

   O público perdeu um grande artista. Alguém ainda cheio de projectos, no auge da sua maturidade e criatividade. Nicolau, furtivamente, deixou cair o pano antes dos aplausos finais. Roubou-lhes a cena. Não assistiu às homenagens que agora lhe prestam, mas estou em crer que morreu sabendo o quão era estimado pelos portugueses.
      Sentiremos a sua falta.

12 de janeiro de 2016

David Bowie (1947-2016).


     O mundo acordou, ontem, com a estranha notícia da morte de um dos maiores vultos do mainstream. David Bowie falecera após dezoito meses de luta contra um cancro. O obituário é inusitado. Ninguém sabia que Bowie estava doente, muito doente. Que a enfermidade maligna corroía o seu corpo. Bowie, entretanto, sabia-o.

   Falar de David Bowie reveste-se de certa dificuldade adicional quando não somos fãs confessos e seguidores atentos da sua carreira. Encaixar-me-ei, como a maioria, no lote extenso de homens e mulheres que admiravam o homem enquanto artista que se reinventava, que despudoradamente enfrentou os preconceitos da sua época; um cantor, compositor e actor que embebeu tendências e fases, o que lhe valeria, para a posterioridade, a alcunha de camaleão.

      Bowie negou-nos a despedida. Não pudemos vê-lo ir partindo, como sucedeu com Freddie Mercuy (1946-1991), com quem fez uma das célebres parcerias da história da música. Impossível esquecer Under Pressure (1981). Até a sua morte foi arte. Todo ele era arte. Três anos depois de nos ter presenteado com The Next Day, surgia Blackstar, o último álbum, lançado no mercado meros dois dias antes do seu falecimento. No single "Lazarus", Bowie dizia-nos adeus através da expressão corporal de sofrimento, dos objectos carregados de simbolismo, do negro e das sombras predominantes no vídeo que acompanha a canção. A cama de hospital, a debilidade física, o cadáver em decomposição que surge num rompante enquanto David se encontra à secretária e a morte espreita por baixo da cama, após ele mesmo ter estado deitado no seu leito. O conteúdo da letra completa a mensagem evidente. Um álbum aclamado unanimemente pela crítica, e que pretendo adquirir o quanto antes.

     O legado de David Bowie é uma evidência. De Madonna a Lady Gaga, muitos foram os que se inspiraram na obra musical e estética do artista que agora nos deixa. Desde o seu primeiro trabalho discográfico, de 1967, de título homónimo, Bowie, primeiramente David Jones, o seu sobrenome legal, que refutou para evitar confusões com outro colega, percorreu cinco décadas de criação incessante de personagens e estilos, sem que nunca tivéssemos a oportunidade de o encontrar desprovido de inspiração, mergulhado no tédio ou na apatia até expectáveis em carreiras tão longevas. O sentimento de orfandade, que resta, é uma certeza.

        Até sempre, David Bowie!

6 de dezembro de 2015

Evocação do homem só.

 
    Uma tarde que anoitecera cedo. Um prenúncio de madrugada longa. A estação fervilhava àquela hora. Dezenas de pessoas encaminhavam-se para os respectivos comboios, no afã de um domingo que antecede outra jornada de trabalho.

    As luzes da estação incidiam sobre o átrio, desvendando um espaço amplo, frio, impessoal. Indiferente. Despedi-me à entrada. Quis dizer mais do que disse. Em como tudo estava errado na tela mal pintada. Por que terá de ser assim? 
    Lá fora, um amontoado de gente faminta. Alguns bem vestidos. A mendicidade batera-lhes à porta, acidental e bruscamente. O senhor das castanhas olhava de soslaio, desdenhando. A afluência espantava-lhe a freguesia. Velhos e novos, de todas as cores, proveniências. O voluntário não parava de sorrir, distribuindo sumos, pratos de comida indiscernível e palavras de apreço. Um breve contacto que, ainda assim, alenta em existências de solidão.

    Gesticula mensagens imperceptíveis. Brada aos que o rodeiam. Tem uma deficiência na perna que o impede de andar correctamente. A razão, há muito que perdeu. Mais um filho do colonialismo, da guerra e do sonho frustrado de uma vida de ventura na metrópole. O rosto preserva as marcas do sofrimento. Os olhos mantêm especial vivacidade e brilho, toldados, contudo, pelo intelecto que soçobrou aos anos de carência afectiva e de miséria.

      Os taxistas reúnem-se, conversam. Arrumam as malas portentosas dos passageiros nos porta-bagagens e arrancam. Os estabelecimentos das imediações fazem negócio. Tudo reportou-me, inexplicavelmente, aos vendilhões do templo. Não por um carácter divino do local, que não tem. Pela convivência entre o dinheiro, vil, profano, e a ajuda desinteressada de quem colmata necessidades tão prementes.
        E a virtude, sabemos onde está.

18 de novembro de 2015

O homem e o cão.


    Um homem senta-se num banco de madeira, de cor verde carcomida pelo desgaste. Acompanha-o um cão, rafeiro, pequenino, de olhar sadio, brilhante. Deixou-o preso a um saco desportivo, preto, enquanto se dirigiu à superfície comercial. Saiu, minutos mais tarde, carregando um sumo de marca branca e uma caixa, que presumo contendo alimentos já confeccionados. O cachorrinho empoleira-se com as patas dianteiras nas pernas do dono, abanando freneticamente a cauda envolta na pelagem seca e suja.

      Acaricia a cabeça do animal, que cerra os olhos, sentindo o afecto, o carinho de um indivíduo a quem a vida já fez das suas. Alto, de meia-idade, cabelo louro, comprido, amarrado atrás da cabeça por um elástico. Traços caucasianos, sem dúvida, mas não do sul da Europa, eu diria. Enverga um casaco roçado, que pouco desce a cintura, realçando umas calças de padrões quadriculares, castanhos e brancos, excessivamente curtas em baixo.

      Vi-os mais do que uma vez. Têm-se por companhia. Passam indiferentes à vida que os circunda. Aquela que, pelos reveses que lhes foi impondo, os terá impelido à marginalização. Não contribuem, não votam, não existem. Não têm cabimento nos enunciados políticos de boas vontades. São um imenso nada numa sociedade injusta e desigualitária.

       Tornou a sentar-se para se levantar de seguida. Pegou no cão pela trela. Dissiparam-se na névoa da noite.

31 de outubro de 2015

O Pão por Deus.


   Quando os garotos subiam as ruas íngremes de paralelepípedo cinzento, húmido do orvalho de Outono, arredavam os seus medos. Por aquelas horas, sabiam-se os donos da aldeia, fazendo seu cada beco, o antigo pelourinho do sítio, o pátio da banca do Senhor João, que por tantas vezes os presenteava com figos sempre que, vindos da escola, por lá passavam.

    Martinho avisara atempadamente a avó, lavadeira, mulher a quem as moças instavam por conselhos, tornando a velha senhora no oráculo de Figueira da Luz, do seu fito para a noite de Todos-os-Santos. A pele das suas mãos mantinha notável brilho e maciez. Encontravam-lhe a alma, todavia, no olhar quebrantado, que denunciava uma vida que não conhecera sonhos de menina. Não havia quem a enganasse nos dinheiros. A sua argúcia impunha deferência e admiração.

     Corriam desalmadamente sob o signo da lua cheia, batendo de porta em porta, misturando a crendice com a pândega própria de miúdos que tudo quanto conheciam estava nos limites do lugarejo onde nasceram. Não percebiam a fome, os castigos, tareias, não enquanto houvesse casa a salvo do peditório.
     As trouxas, delicadamente cosidas pelas mães e avós, guardavam os doces e os frutos das oferendas. Martinho sustinha a sua, farto de orgulho, costurada pela avó, com o bordado de fio de linho azul. Ostentava-a com cuidado, como uma representação material do carinho daquela mulher a que nem o cansaço inibia de o sentar no seu colo, de lhe afagar o cabelo, de beijar a sua bochecha sarapintada.
        Que na sua casa havia carência de bens, mas fartura de afectos.

10 de julho de 2015

Canada.


   Ontem estive pela cidade com o amigo e uma prima sua emigrada na Suíça. Exceptuando o seu pai, todos os demais tios estão emigrados, ora pela França, ora pela Suíça, e até no Luxemburgo. Também ele começa agora a pensar em sair do país. A precariedade do emprego leva-o a perder a esperança em alguma melhoria da situação económica. Melhoria apregoada pela maioria governamental, irreal, pura propaganda eleitoral. No quotidiano das pessoas, na gestão dos seus recursos financeiros, nada tem mudado.
 
   Não tenho espírito de emigrante. Ele terá. Há essa vocação, na sua família, de sobreviver lá fora. Tampouco tenho familiares emigrados. Apenas uma tia da avó, ainda viva, de noventa anos, que nos anos quarenta do século passado casou com um inglês, mudando-se para o Canadá e assentando, por fim, onde ainda está, nos E.U.A. E dentro do território norte-americano passou por vários Estados. Não será uma emigrante na acepção do término. Há quem supere as adversidades dos primeiros tempos, que sei que existem. Eu, que não sou especialmente motivado, depressa esmoreceria. Sair do país com uma mala de cartão, qual Linda de Suza, é uma aventura que não fará sentido, a par de ser arriscado. Os anos sessenta já lá vão. Saindo, só com um emprego prévio, e bom, e totais garantias.

     Passeámos pelos locais de eleição de qualquer turista, conquanto seja ela portuguesa de nascimento, do norte, não conhecendo tão bem a capital. Falou-nos da sociedade suíça, que o amigo conhece de visitas ao país. Do civismo do povo, numa realidade tão distinta da que temos por cá.
     A Suíça não é o meu país de primeira frente. Falando com o amigo em emigrar, e ultimamente a ideia tem pairado sobre nós, consensualmente decidimo-nos pelo Canadá. O Canadá, à semelhança da Dinamarca, da Noruega e da Suécia, bem como dos Países Baixos, menos, é o meu paradigma de país ideal, que não os há. A sua prima, ao saber disto, perguntou-nos por que não os E.U.A, ou México, que é quente. Concordamos que a sociedade estadunidense é profundamente antiquada (para ser brando) no seu ordenamento jurídico. Perigosa, desigualitária, há muito que o sonho americano não passa de uma utopia. O México, bom, mal por mal fico no meu país.

     O Canadá terá os seus problemas como qualquer outro país. Tem uma política de imigração rígida, frequentemente deportando indivíduos em situação irregular, inclusive portugueses. Em todo o caso, figura como um dos melhores países do mundo em todos os índices. É o segundo maior país do mundo em extensão territorial, no entanto a sua densidade populacional é baixa, o que se explica pelas condições climáticas agrestes, o que não representará, de todo, um problema para ambos, que preferimos o frio. Nesse sentido, passámos pela Embaixada do Canadá, que fechara horas antes. Obtivemos uma informação errada pela internet. Lá voltaremos, a tempo, buscando mais dados. Talvez nem cheguemos a emigrar, sendo apenas, de momento, uma hipótese não disparatada.

     Eu gosto de Portugal à minha maneira. Recordo-me de umas férias no sul de Espanha, há uns anos, em que uns amigos da mãe, espanhóis, com certeza, divertiram-se a relatar as proezas dos obreiros espanhóis que estiveram envolvidos na união de 1580. Em como Portugal não merecia mais do que ser uma "comunidad autonóma" de Espanha, enaltecendo a sua pátria e procurando diminuir o nosso país aos nossos olhos. A mãe lançou-me um olhar de indiferença ante a quezília, dizendo-me para não dar relevo. Era miúdo, adolescente, mas soube defender o meu país. Confrontei-os com as alarvidades que disseram, como Carlos V do Sacro-Império (I de Espanha) ter sido rei de Portugal, quando apenas o seu filho, Filipe II de Espanha (I de Portugal) o foi, já o seu pai expirara há muito... Critico o país porque o amo. O que não obsta, claro está, a que venha a sair, nomeadamente para o Canadá, porque como o amigo diz, brincando: "Cá-nã-dá".
 

28 de agosto de 2014

As medusas.


    Pelo extenso areal, um tecido mole, gelatinoso, cuja origem adivinha mil e uma milhas. História mal contada, indiferente aos gritos estridentes e despreocupados de miúdos que se sentem a salvo. Amontoado de nada, dantes corpo de vida marinha, livre, temida, venenosa, sabe-se lá letal.

    Uma e outra, quatro e cinco, muitas mais. No mar, colorado de castanho pelo tom das rochas, a vida despontava a cada olhar. Vida que veio à superfície, arrastada pela corrente da maré. Banhistas refugiam-se nos pedregulhos ainda não cobertos pela água; outros, saltam, abrindo brechas que desvendam o fundo. Mães que pegam, atemorizadas, nos petizes de pouca idade. Diriam que se tratava de um tubarão. Mas não. Uma alforreca moribunda. Fraca para se guiar, aguardando as redes, carrascas, que ditariam o seu fim. A angústia se de escolher uma praia concessionada.

    Afinal, o que suscita nas pessoas um ser tão inofensivo fora do seu habitat natural? O espaço que lhe pertence. Tido como intruso por quem faz do mar o seu passatempo, ocupando-se por breves instantes, os suficientes para se tomar por dono.
    Mulher loura, espampanante. A pele destruída por anos de sol descuidado, enrugada pelos braços. O moreno de uma vida ociosa, que descortino entre uma casa na capital e compras por Paris. A necessidade da auto-afirmação, frustrada em nova, não deixou que as jóias ficassem por casa. Rivalizavam com o louro platinado dos seus cabelos. Os seios, pendendo sobre o tronco, eram o toque final de um quadro que poderia considerar de horror. Vociferava, alarmada, pela presença dos cnidários. Seria a primeira a pegar num pequeno galho e a revolver o que restava do animal, à medida em que mais se acumulavam.

    Modificar o que não nos pertence, para alegria de dezenas que puderam, finalmente, usufruir das suas férias. Um menino, ousado, de calção de banho azul-bebé, aproximou-se da medusa, morta, e tocou-lhe as ventosas, enquanto a mãe, distraída, acertava com alguém "o jantar que não pode ser adiado". Os pés, pequeninos, chapinhavam na fraca rebentação. Saltitava ao pisar pedrinhas afiadas. Ninguém dera por aquela, tão perigosa! O instinto levou-o, infrutiferamente, a colocá-la de novo na água, procurando, quem sabe, devolver-lhe a vida. Aqui, dizem, reside a esperança da Humanidade.

     Correu na direcção dos pais, orgulhoso do seu feito, são como fora. O castelinho de areia, que deixara para trás, era engolido pelas ondas escassos minutos depois.
     A tranquilidade reinava de novo, entre trincadas na maçã.

1 de fevereiro de 2013

Papá.


    O pai seguia em frente, envergando umas calças de bombazine de cor azul e uma camisa em padrões xadrez. Atrás, a mãe, de tez branca e loura, cabelos que me reportaram para a minha própria mãe, embora fossem mais curtos. Na mão, segurava a cadeirinha do seu bebé. Este, apoiado no braço solto, observava o mundo atentamente, descobrindo tudo em seu redor. Murmurava palavras imperceptíveis, os sons típicos numa criança de tão tenra idade.

   Sentaram-se numa mesa dos fundos e escolheram o menu. Cuidadosamente, a mãe desfez pequenos pedaços de batata cozida e carne, dando-os de seguida ao bebé. O pai, guardião  da sua família, mantinha a postura erecta de líder, preocupado e consciente do seu papel, zelando pelos seus. A empregada aproximou-se timidamente. Interagiu com o menino, brincando, tentando enganá-lo ao simular que comia um pouco de cenoura. Inteligente, o pequeno não tirou o olhar da mão da moça, intuindo que ela não a comera. A mãe, divertida, beliscava suavemente o rosto do filho enquanto contemplava a cena. Assim ficaram. O pequeno revolvia o prato da mãe que terminara de comer, lançando bagos de arroz e ervilhas pela mesa. De frente, o pai recolhia-os com a mão, repreendendo-o num tom suave, pouco convincente. Arriscaria tudo ao afirmar que são uma família feliz. O que as palavras fingem, os olhares não conseguem dissimular.

   O bebé disse "papá!", de repente. Pela alegria visível no rosto do senhor, poderia ser a primeira vez que o pronunciava. Trocou breves ilações com a esposa, as quais não pude perceber. O entusiasmo reinava.

  Saíram pouco tempo depois, ostentando o orgulho pela família que construíram, acenando aos donos do restaurante e à moça que os servira tão atenciosamente.

    Preencheram-me o dia. Sorri.

24 de janeiro de 2013

Junto ao Tejo.


    Caminhar pela cidade parecera-lhe bem. Descera a Avenida da Liberdade, tomara um café nos Restauradores e vira as montras das lojas na Rua Augusta. A pressa não o caracterizava e Rodrigo não sairia do trabalho antes das dezoito. Sentiu-se só quando observou casais de namorados de mãos cerradas. Apreciava os seus olhares ternos, os mesmos que não evitava quando sentia o calor de Rodrigo a entrar por entre o nylon da sua blusa.

    O musgo deixado por anos de contacto com a água tornava a passagem de pedra especialmente escorregadia. A fraca aderência das botas em contacto com o solo poderia provocar uma queda, mas a atracção pelo cheiro do rio não o deixou inerte junto ao cais. Nem o som das gaivotas atraídas por pedaços de pão lançados por uma transeunte afastá-lo-ia daquela brisa fluvial que aprendera a gostar, que lhe levara os medos e que o apaziguara nos momentos mais difíceis. Faltava ainda meia hora.

    Quis descer pelo areal. Quis sentir a magia dos escritos de um qualquer turista seduzido pela Europa. Um homem fotografava a ondulação junto ao rebentamento, indiferente ao roçar do seu casaco comprido pela água turva. As siderurgias sentiam-se culpadas, ao longe. O flash das objectivas poderia ser para si, não fosse mais um visitante de origens certas, anónimo como o sem-abrigo que enrolava o tabaco nas mãos sujas e calejadas. Um quarto para as seis.

   Rodrigo aguardava pela mudança do sinal do lado de lá da estreita estrada que conduziria à praça principal. Vendo-o tão perto, sentiu o acelerar do seu coração, a solidão que fugia mais depressa do que o peixe assustado pelo impacto de uma garrafa de cerveja vazia no rio. A aragem levantava a franja do cabelo de Rodrigo, para si desenhada por Deus. Abraçaram-se indiferentes à multidão. Aquele momento pertencia-lhes. Mereciam-no.

   O relógio não mentira. Rodrigo chegara cinco minutos mais cedo, a tempo de assistirem ao ocaso, ali, junto ao Tejo, um casal entre outros. 
    O Sol desapareceria por trás da ponte, contemplando-os com a tarde das suas vidas.

2 de janeiro de 2013

Eva.


   Eva nunca fora uma mulher decidida. Enfermiça desde criança, a má nutrição não a permitiu ir além  do metro e cinquenta de altura. Habituada a que tudo cuidassem por si, Eva sujeitou-se ao arranjo que os pais fizeram em troca de doze cabeças de gado e trabalho seguro nas vinhas de um velho emigrante. Por entre as videiras, acostumou-se a ver o seu futuro marido nos encontros fortuitos com moçoilas da terra. Jurara que jamais cairia no engodo; a aparência não a tornava, também, numa mulher sensual aos olhos dos catraios.

  Enganada pela crença obstinada em que a sua fealdade evitaria problemas de maior, aprendeu a amaldiçoar a Deus e aos homens pelo estupro de que foi vítima em adolescente e pelo útero seco, condenada que estava em fazer a aletria dos anjos, receita de sua avó Esperança. A canela que acreditava vir da Índia, resultado de uma leitura em pequena, encontrou a origem pela troca das letras mal aprendidas, enfiadas à força na cabeça, porque um oficial da guarda passou lá por casa e obrigou a mãe a matriculá-la na escola.

   O seu sistema nervoso atraiçoá-la-ia por décadas, quando, de noite, sentia os passos do marido, borrachão inveterado, má índole, subindo as escadas de madeira. Nunca sabia se quando ouvia o tilintar das partes metálicas do cinto seria amada, forçadamente, na cama de lençóis que engomava às terças-feiras, ou espancada até à exaustão. As manchas amarelecidas na fronha do travesseiro não foram do chá que entornara, mesmo repetindo-o para si vezes sem conta.


   Sobraram duas taças da sobremesa. O negócio tivera melhores dias e a dona Dolores quase morreu de um ataque da diabetes, sua melhor freguesa. O que principiou por ser uma brincadeira tornou-se num modo de subsistência. Não por ela, pelo marido. Ricas as vizinhas que compraram aquelas máquinas engenhosas onde lavam a roupa, jamais lá confiaria a sua. Tudo em si, o pouco, era dor.

   A ideia seria enfraquecê-lo para cuidar. Um homem do campo, viril, não admitiria precisar de alguém. A ignorância aguçou-lhe o instinto. O seu homem nem gostava da canela...
   Sobredose! Ante as convulsões do marido, Eva caminhava desesperadamente, arruinara a sua vida, que vida? A consciência doía-lhe. A mesma que a atormentara quando julgou que seduzira o pai, a mesma que a tornara numa criatura horrenda a seus olhos, ela mesma, que a condenou à resignação durante todo aquele tempo. Pegou na outra taça, juntou-lhe os pós e comeu. Agora era a sua vez de estrebuchar no chão, agonizando, o homem estava aos berros no telefone. Chorava. Amou-a, ao menos na morte. A morte que conjecturou para ele, mas que decidiu antes escolher para si. Soube o que era o amor. Valera a pena viver.

2 de setembro de 2012

Uma noite.


   E. entrou no espaço inundado por luzes psicadélicas. Aprendera a evitar os faróis dos carros, olhando para o lado e, com isso, podendo provocar graves e sérios acidentes de viação. Certamente culpava a tia mais velha por alguns laivos de epilepsia hipotética que o poderiam afectar, mesmo não tendo qualquer certeza sobre uma possível carga hereditária, ou falta dela, no aparecimento da doença. Por que motivo estaria a pensar nisso naquele momento?

   No balcão amontoavam-se grupos de rapazes e de raparigas, de copo na mão e bebida na cabeça. Um deles bebeu um shot sem pestanejar, nem exprimir qualquer reacção de vómito ou ardor. E. não conseguia decifrar se o sentimento dúbio que lhe suscitava aquela cena poderia ser qualificado de inveja ou orgulho, por se sentir diferente. Talvez ambos. Um misto de inveja por não conseguir libertar-se do seu próprio casulo cultivado e alimentado ao longo de anos por medos e receios; orgulho por saber que as suas chances de chegar à meia-idade com um bom fígado aumentavam, assim, consideravelmente.

   E. estava disposto a correr riscos nessa noite. Riscos que jamais pensara em correr. Se o questionassem acerca do que permitiria que acontecesse naquela noite há uns anos, o mais certo seria rir-se desalmadamente, negando veementemente sequer a possibilidade de sair de casa, na calada da noite, entrando na primeira disco que lhe parecesse agradável. Mas E. fê-lo e, no seu íntimo, não se sentia nada arrependido. O medo excitava-o e as expectativas sobre as próximas horas tinham um efeito semelhante à picada de várias abelhas pelo corpo.
   Doíam-lhe os pés pela tarde passada a palmear um jardim obsceno. Sentia-se sujo e ali o mais certo seria encardir-se mais, arrependendo-se pelo amanhecer, mas o que perderia? Não era ele um errante pelo mundo?

   O seu corpo começou a contorcer-se ao ritmo da música, electrónica, tão diferente dos seus gostos. E. não admitira ser alguém de gostos ecléticos. Pelo contrário, a sua monotonia de carácter tornava-o aborrecido, pachorrento, o que era altamente atractivo ou repulsivo.
   Queria seduzir. Pediu uma bebida ao barman e deu-lhe total liberdade para que escolhesse uma no leque de possibilidades que, desavergonhadamente, ouviu com a máxima das atenções.

   Amargo ou doce, quiçá agridoce, mas certamente muito forte. O calor invadiu-lhe a espinal medula, sentindo a cabeça a latejar e as gotas de suor a deslizarem pelas suas costas que ainda teriam o odor ao gel de banho de leite e amêndoas, que perfumara-lhe desde sempre as camisas imaculadamente engomadas pela sua mãe.

   Dançou de frente para um estranho, notando nele a solidão que também o queimava por dentro, mais do que a própria bebida. Os seus corpos aproximavam-se mutuamente, ao ponto de apenas uma luz rosa separá-los por breves segundos. O cheiro a homem, um after shave foleiro e restos do detergente da máquina numa roupa mal passada por água, adensavam o seu estado eufórico, a vias de alcoólico, apesar de ainda sóbrio.

   O beijo, roubado, surgiu num imprevisto, motivado pelo clímax do efeito descontraído que a bebida lhe provocava. O estranho certamente gostara, pois não demorou em retribui-lo, numa atitude bem mais erotizada e, sem dúvida alguma, experiente. Cerrou os olhos e perdeu os sentidos sem os perder. Pelo menos, sentiu-se desmaiado com plena consciência de estar acordado e lúcido - ainda.


   Não era sonho. E. acordara envolto num corpo de homem. A pele do estranho era sedosa. Apesar de não se recordar pelo tacto da madrugada de êxtase e orgasmos que deduzira que tivera, essa suavidade era agora bastante perceptível com a luz da manhã que iluminava o quarto jovial em que dormira.

   Não quis acordar o estranho. Teve medo de saber o seu nome, a sua história, como o trouxera até lá. Teve medo de quebrar a magia do momento, do que acontecera horas atrás. Escreveu o seu nome e o seu contacto num talão do banco, rasurado, e saiu, passo ante passo.

  Sentiu-se bem. Vivera, pela primeira vez.