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29 de abril de 2019

April 29.


   Pensei se faria sentido assinalar o meu aniversário aqui. A bem ver, talvez não. Não falo muito de mim. Falo de actividades que desenvolvo, o que é diferente. O blogue, há muito tempo que deixou de ser um espaço onde me exponha. Creio já nem ter idade para isso, embora saiba que há gente mais velha que se expõe, e que bom que assim é.

   Os aniversários perderam o encanto, também já o disse. Já não há presentes, já não há almoços em família. Já não há família, sequer. Já não há nada. Há um amontado de situações desorganizadas que me levam ao desespero e ao desencanto. Este dia é apenas aquele dia em que ainda corto o bolo porque sim, como que cumprindo um ritual. Não há absolutamente nada que o torne diferente, pelo contrário: a passagem dos anos começa a amedrontar-me. Os votos de feliz dia sucedem-se, sim, estimulados pelas redes sociais. É evidente que há sempre uma energia de quem se predispõe a deixar uma mensagem, um comentário, e isso eu agradeço e até gosto.

  A publicação também tem outro objectivo: há pessoas que só me acompanham por aqui e que sei que gostariam de ser lembradas desta data, porque não é exigível que dela se lembrem. Ocorrem-me duas, com quem só tenho contacto pelo blogue.

   É tudo.

7 de outubro de 2018

Aulas.


   Devem estranhar não ter notícias minhas há uma semana, não? Talvez não, talvez sim. Em todo o caso, eu avisei que seria assim. Como tenho andado? Bem. Numa azáfama. Apanho os transportes, corro para as aulas, compro os livros, os códigos, vou para a sala de estudo, resolvo casos. O expectável. Os dias têm sido passados na faculdade, literalmente, cuja sala de estudo está aberta 24h sobre 24h, 7 dias por semanas. Uma reivindicação antiga, que se viria a concretizar algures durante estes três anos de ausência. Como me sinto? Bem! O que é difícil, tratando-se de alguém que raramente está bem. Sinto-me… normal. Poucas vezes me tenho sentido normal, pelo que sou, pelas vivências que tive, enfim, por um manancial de factores. Sem me querer repetir, mas já o fazendo, tenho um dever, um compromisso. O que me faltava. O que já tive e que perdera, e tê-los perdido fez-me dar-lhes outro valor.

  Voltar à faculdade fez-me ver o que realmente importa. O meu futuro está por lá, e em alguém como eu, com tantos anticorpos e com tanta gente a querer mal, não há nada melhor do que me focar no essencial. Acreditem, não é mania da perseguição. Há quem a tenha, de facto. Gero muitas antipatias, por motivos que nem eu compreendo bem. Não costumo ser mal-educado ou desrespeitoso. Afrontarei, e nisso acredito, com as minhas posturas, atitudes e convicções. Não estamos preparados, não num país comezinho como Portugal, para lidar com quem nos faz frente ou discorda de nós. Temos um deficit democrático gigante.  A parte boa disto tudo é que não preciso dos meus caros inimigos para nada. Quando muito para poder dizer, de peito cheio, que os tenho. Só tem inimigos quem alguma importância tem. E, acreditem, os meus já se contam pelos dedos das duas mãos.

  O blogue continua a merecer-me a maior das atenções. Prova é que já me sentia mal por remeter-me a uma ausência que, ainda que curta, me incomodava. É bem provável que, nos próximos dias, regresse em cheio com um enquadramento jurídico inspirado num caso recente - aliás, mais do que recente: do dia -  que tem ocupado páginas e páginas de jornais. Até lá!

29 de setembro de 2018

O Retorno.


   As aulas começaram há quinze dias. Estive três anos fora. Sim, três anos, por motivos alheios à minha vontade. Regressei, por fim, e julgo ser oportuno escrever um pouco sobre estes momentos iniciais.

   Emocionei-me da primeira vez em que entrei num dos anfiteatros, após os mil dias. Foi emotivo para mim. Depois, estranhei não conhecer ninguém. Sim, há caras que reconheço, mas de pessoas com quem nunca tive qualquer contacto.

   A faculdade conheceu obras nestes três anos. Está diferente. É quase uma experiência nova. Já não escrevo à mão; levo o meu Surface. Já sou mais disciplinado, presumo eu. Ganhei outro sentido de responsabilidade.

   Estou ainda a acostumar-me às dinâmicas. Como sempre, sento-me na fila da frente dos anfiteatros ou das salas. É algo que me caracteriza.

   Entretanto, ontem, soube do falecimento de um professor que também foi meu docente numa das disciplinas, o Professor Doutor Eduardo dos Santos Júnior. Faleceu em 2016, com 59 anos, e eu soube-o ontem, imprevisivelmente, quando comentava com um colega - um colega antigo que ainda por lá anda - sobre a cadeira de Direito das Obrigações, justamente aquela em que fui seu aluno. Recordo - e não são palavras de circunstância - um homem bom, amável, de trato fácil. Sorria frequentemente para os alunos. Explicava bem as matérias. Uma pena, uma pena. Sentava-me sempre defronte de si, a meio do anfiteatro. Não raras vezes olhava para mim enquanto falava. Eu limitava-me a admirá-lo, anuindo. Foi consigo, também, que fiz uma oral, uma saudosa oral, que me correu bem. Ajudou-me bastante, mesmo nos momentos em que me atrapalhava. Ao contrário de alguns professores que por lá andam, cujo intuito é massacrar, passo a expressão, os alunos, o Professor Santos Júnior estava ali para ajudar. Fiquei realmente consternado.

   Têm sido dias bons. Sinto-me útil, válido. Estes três anos, de certo modo, estupidificaram-me. E isso também se notou no blogue. Nós somos uma engrenagem: quando não exercitamos o corpo, perdemos a massa corporal; quando não exercitamos o cérebro, emburrecemos. Creio que ainda vou a tempo.

29 de abril de 2018

April 29.


   Provavelmente, já o terei contado: em miúdo, adorava fazer anos. Não ia às aulas. Acabava sempre a almoçar com os pais num restaurante giríssimo, chiquíssimo, com todos os íssimos que possam imaginar. Recordo-me particularmente de um, o almoço dos meus dez anos. A mãe comprou-me um conjunto de roupa da marca Cenoura (pois é, estou a ficar velho), e depois fomos todos almoçar - isto é, a mãe, o pai e eu - à Adega da Tia Matilde, sempre muito bem frequentada. Não raras vezes víamos, por lá, personalidades ligadas ao mundo do futebol. Agora que penso nisso, lembro-me de que eu próprio tenho um familiar que é dirigente desportivo. Outros quinhentos.

   Os anos foram passando e o ânimo foi cedendo. Fazer anos... É mais um dia. Não, não. Não é isso que estarão a pensar. Não me incomoda envelhecer. Pelo contrário. Envelhecer dá-nos experiência, maturidade (na maior parte dos casos). Dá-nos mais capacidade de saber lidar com as adversidades da vida, com os problemas que se nos deparam. E se eu preciso dessa maturidade. Quando leio e ouço a queixarem-se da idade, geralmente aludem mais à saúde, aos problemas que lhe são uma consequência. Saúde, nunca esbanjei. Embora seja bem constituído, uma constipação manda-me abaixo em três tempo. A minha estrutura nunca foi a de um rapaz saudável. Felizmente, até à data, e embora continue a achar que irei morrer jovem - que conversa num dia de aniversário, não é? - as maleitas que me afligem vêm tendo remédio.

   De igual modo, comemorar-se aniversários faz sentido quando temos uma família unida, coesa, e a minha há muito que soçobrou a desavenças, a mortes e a separações. Como em várias famílias, de resto. São rigorosamente poucas as pessoas que me são próximas, com tendência para que sejam menos e menos.

   Continua a fazer sentido cortar o bolo, responder às simpáticas mensagens que me chegam, atender alguns telefonemas. Escrever sobre o dia. Porque sim. Porque nasci, já há alguns aninhos.

6 de fevereiro de 2018

Weekend.


   Já me cansa falar sobre mim e sobre o que faço. Não foi isso que quis para o blogue, mas é isso que tenho feito ultimamente. Blogues "versão diário" e outros com o ego inflamado andam por aí aos montes: eles falam sobre cada passinho que dão, cada livrinho que lêem, cada tragédia que lhes sucede, levando-me a crer que as suas vidas, tais como a minha, são do mais desinteressante possível, e são-no, efectivamente, ou não andasse a fazer o mesmo desde há semanas.

   Começo pelo jantar de sábado. Foi giro, não tão giro quanto outros. Tive de sair mais cedo, as usual, sujaram-me as calças e as botas no buffet e deprimi a meio da confraternização. Entretanto, conheci um blogger que sigo, e que me segue, aos anos, e essa parte foi gira. Como a minha mãe disse, tendo-a desmentido para não parecer mal, « chamam-lhe jantar da amizade, mas são uma cambada de cínicos que dizem mal nas costas uns dos outros ». Tem certa razão, com a autoridade das suas seis décadas de vida, a completar já nesta sexta, sendo que uma boa parte dos cínicos ficou pelo caminho, graças a Deus, que estava a perder a paciência para os aturar. Eu não sou cínico. Quando não gosto, volta e meia vêm a sabê-lo, daí gerar anticorpos em torno. Querem que seja sincero? É para o lado que durmo melhor e, frequentemente, até me diverte.


   No domingo, acabei por sair. Fui, pela enésima vez, ao MNAA, ao museu de arte antiga. Não vou publicar fotos, como calculam, que o museu é conhecidíssimo. Revisitei a colecção permanente, já que por lá andava. Destacaria a exposição temporária sobre a Madeira (sim, o arquipélago), no piso zero, gratuita para os clientes da CGD - e foi precisamente o que me levou a optar pelo MNAA. Gostei muito. Soube que Portugal empreendeu na Madeira o que viria a fazer no Brasil. O arquipélago foi meio que um experimento para aventuras de outra envergadura. Também não julguei que a Madeira tivesse um acervo tão rico, seja na pintura, na escultura. Foi, realmente, uma surpresa boa, que me consumiu três excelentes horas.

   Para terminar, uma leiturazinha. Terminei um livro muito interessante do Prof. Freitas do Amaral, História das Ideias Políticas, que se lê bem, passando já para o Call Me By Your Name, ainda só disponível em Inglês, e último exemplar que havia na FNAC. É um livrito que se lê numa tarde, pouco denso, suponho, que mal lhe peguei. Sinto-me outro por falar naquilo que leio.

   Peço desculpa pelo tom acutilante. Foi um desabafo, como tenho muitos, com a diferença de que os outros, geralmente, apago depois de os escrever e antes de clicar em Publicar. Desta vez, e fi-lo deliberadamente, não fui tão sensato.

28 de dezembro de 2017

Unha semana marabillosa.


   Tivemos o jantar de Natal pelo meio, bem como o Natal propriamente dito, e muito ficou por dizer em relação à semana fantástica que vivi com o meu amigo galego, o M., que esteve em Portugal de segunda a segunda (de dia 11 a dia 18). Foi uma semana muitíssimo bem aproveitada, e só não o foi mais porque tive de ir visitar a minha avó no hospital, que estava internada devido a uma fractura no fémur.

    Na primeira publicação em que dei conta da sua vinda a Portugal, expus sucintamente o que fizemos na segunda e na terça (dias 11 e 12). Logo na quarta, dia 13, levei-o a Belém. É um bairro paradigmático da capital, pela história ligada aos nossos descobrimentos, e o M. também tinha muita curiosidade. Como já chegámos tarde, só passeámos pelo bairro, à beira-rio, mas ainda o pude levar ao Museu da Presidência. O M. é republicano, nacionalista. Sente um profundo desprezo por Espanha e pela monarquia dos Borbón. Saber mais sobre o nosso regime e o nosso sistema, semipresidencial, agradou-o muito.


    Ainda entrámos na igreja dos Jerónimos. Esteve perto dos cenotáfios de Vasco da Gama e Camões. De seguida, fomos aos pastéis de Belém, quentinhos e deliciosos, fazendo todo o percurso de regresso a pé, a conversar, de Alcântara ao Cais do Sodré.





    Na quinta, à partida iríamos a Sintra, mas fez-se tarde. Escolhemos, então, o Palácio de Queluz, uma jóia da arquitectura portuguesa do século XVIII, mandado edificar por Dom Pedro III. Percorremos todas as galerias e os imensos jardins, belíssimos.

O quarto em que nasceu e morreu Dom Pedro IV de Portugal / I do Brasil



    No dia seguinte, bem cedo, fomos, finalmente, à mágica vila de Sintra: um dia em cheio. Quem julgar que consegue visitar o Palácio da Pena numas poucas horas, desengane-se. Julgávamos que daria tempo para visitar o Palácio e a Regaleira, e só conseguimos ir ao palácio e passear pela vila.  Apanhámos um dia cinzento, com muita névoa. Chuviscou, o que com a neblina tornou o passeio ainda mais especial. Indescritível.






   A entrada é cara, sim, mas compensa. O palácio é maravilhoso, por dentro e por fora, e os jardins, verdadeiros bosques, são encantadores. Perdemos o dia inteiro a desbravar cada torre, cada recôndito, cada vale. Ainda passeámos pela vila, passando, claro está, pelos tradicionais travesseiros da "Piriquita", passo a publicidade.



   Já no sábado, no dia do jantar, fomos, da parte da manhã, ao Museu dos Coches, em Belém. À tarde e à noite, como se sabe, dedicámos o tempo ao evento. Tivemos sorte, porque o recinto antigo do museu, encerrado por anos, já abriu ao público, e ainda contém alguns exemplares.

Recinto novo.

    Domingo seria, tudo indicava, o dia em que o M. se despediria de Portugal, voltando à Galiza. Por um percalço no horário, acabou por adiar o vôo para o dia seguinte, permitindo-se a explorar um pouco mais de Lisboa. Uma vez que se tratou de algo inesperado, nesse dia só tivemos tempo de ir ao Museu de Arte Contemporânea da Gulbenkian.


    Na segunda, por fim, tempo das despedidas. O M. partiu, com a promessa de que o visitarei, em breve, na Galiza. Será a minha vez de me deixar encantar por uma nação tão rural e mágica.
    Foram dias fantásticos na companhia do M., um rapaz culto, interessante, médico respeitado. Os amigos do jantar puderam conhecê-lo e testemunhar o quão afável e educado é. Oito dias que guardarei na memória. Pessoas assim valem muito a pena.

Todas as fotos foram captadas pelo meu iPhone. São minhas e de minha autoria. Uso sob permissão.

6 de outubro de 2017

Outono.


   Eis que é chegada a estação de que mais gosto, o Outono. Em adulto, pois em criança adorava o Verão. Associava-o às férias grandes, à praia, ao descanso. Não há, todavia, melhor do que o Outono. O Outono, ao contrário da Primavera, diminui-nos os dias, que se tornam progressivamente mais frios, em contagem decrescente para o solstício de Inverno e para o Natal. É, portanto, no Outono que desço as avenidas para ver a iluminação; é no Outono que como as castanhas assadas; é no Outono que organizo as ideias para a minha lista de presentes, que me divirto com as decorações de Halloween - muito embora não ligue nada a essa festividade importada; prefiro as nossas tradições nortenhas. Também é no Outono que visito os meus mortos, que os tenho espalhados por três cemitérios da capital.

   Nos últimos anos, infortúnio meu, pelo aquecimento global ou pelo raio que nos valha, o Verão tem-se prolongado. Chegamos a Outubro com temperaturas de Verão, exageradamente elevadas, roubando-nos, pelo menos quanto a mim, o encanto da época, a ponto de nem se dar a queda atempada da folha, tão conotada ao Outono; talvez, diria eu, a primeira imagem que nos ocorre quando nos lembramos destes meses.

   Neste Outono, entretanto, pelo evento que irei realizar, terei, a par da faculdade - que ainda lhe devo algumas palavras - o tempo preenchido. Mais à frente, no início do mês que vem, adiantarei mais detalhes. Posso apenas desvendar que, tratando-se o Natal da minha quadra predilecta, é um período que convida à confraternização. Fico-me por aqui. Está em fase de maturação.

    Por ora, aguardo pelo fim da época quente. Este período de transição Verão-Outono / ócio-aulas está a ser particularmente turbulento e conturbado. Aguardo a acalmia.

26 de agosto de 2017

Avó Palmira.


   No dia 22 deste mês, perfizeram-se vinte anos desde a morte da minha bisavó Palmira, mãe da minha avó paterna, avó do meu pai. Conheci-a bem, lúcida e autónoma, já na casa dos oitenta. Foi uma queda, fatal naquelas idades, que a derrubou. Fracturou o fémur e, desde então, não recuperou.

   A avó Palmira, como era carinhosamente tratada, até pelos seus bisnetos, foi a verdadeira matriarca. Os filhos e os netos guardavam-lhe imenso respeito, mas jamais se impôs qualquer distância nesse relacionamento. É comum elogiarmos as nossas avós como se fossem as melhores entre as melhores; no caso da minha avó Palmira, foi, efectivamente, a minha avó. A relação com a sua filha, minha avó, sempre alternou entre momentos de proximidade e de tensão. De momento, de maior proximidade, pelos seus noventa anos, que nunca senti verdadeiro carinho da sua parte, bem como ela também não poderá dizer que o teve da minha.

   Tive bons momentos com a avó Palmira. Sei que dormi muitas vezes com ela até aos três anos; recordo-me de a saber preocupada com o meu jantar, quando chegava do colégio. De a ver sentada no jardim da avó Maria, a beber o seu chá, sempre com muito açúcar. Era extraordinariamente gulosa. Jamais padeceu de diabetes. Pelo contrário, teve uma saúde de ferro. Era uma mulher de fibra, que enviuvou cedo. A cor preta foi predominante nos últimos cinquenta anos da sua vida. Outros tempos, outros valores. As pessoas casavam uma vez, perante Deus, e os laços do matrimónio perduravam para lá da existência terrena.

   O meu pai adorava-a. Nunca escondeu que aquela havia sido a sua mãe. Ter-me-á passado essa rejeição. Na família paterna, creio ter sido a última figura transversalmente consensual. Todos sentiam por ela a mais desinteressada afeição. As mulheres dos netos tratavam-na carinhosamente por avó. De igual modo, também foi o último elo de ligação entre tantas sensibilidades. A família é pouco unida. Já não há núcleo duro.

    A avó era uma mulher de princípios. O comportamento do genro incomodava-a. Por respeito à filha, tolerou-o, mas era conhecido o seu desafecto. Procurou, desde sempre, mediar conflitos. Ainda em vida, fez as partilhas, que alguma celeuma causaram.

    Perdi mais do que a bisavó. Perdi uma amiga. Foi, a par da mãe e do pai, a pessoa que mais me amou. À data do seu falecimento, era uma criança. Lembro-me com notável precisão de como e onde recebi a notícia, do dia do funeral - em que não estive, da dor do pai. Não tive maturidade para a sofrer. Hoje, entretanto, vejo a falta que me faz.

14 de agosto de 2017

Holidays. [2]


    Regressei a Lisboa. A semana passou num piscar d'olhos. Foi, todavia, bastante retemperante. Rumei ao sul, como havia dito, e a vontade de assentar foi tal que contornei a habitual visita à Andaluzia espanhola.
    Vilamoura é uma localidade fantástica, inserida na freguesia de Quarteira, no concelho de Loulé. Vocacionada inteiramente para o turismo de Verão, a oferta é apreciável. Sempre gostei mais de piscina do que de praia, daí que tenha optado por fazer piscina de manhã cedo e praia ao final da tarde, bem ao entardecer.

    A vida nocturna de Vilamoura é, a par do mar, do que mais gosto. Comércio aberto até de madrugada, pessoas a passear pela marina. Multidões ordeiras, diga-se. Apanhei dias e noites extremamente agradáveis, muito embora tenha arrefecido em pelo menos numa das noites, justamente aquela que escolhi para percorrer o passadiço da Praia da Rocha Baixinha. Também a restauração é de excelência, com preços, em alguns casos, exorbitantes. Já se sabe, paga-se a reputação. Fui a duas discotecas, ao Bliss e ao Seven. Grupos de jovens distribuem pulseiras pela vila. A pulseira torna-nos em guests. Os guests têm uma entrada excepcionalmente reduzida, comparando à entrada normal, que ronda as duas centenas de euros. Nada como aproveitar, até porque nem todos são contemplados com as ditas pulseiras multicores. Não gostei. Não gosto de discotecas e nem da música que passavam. Tão-pouco dos artistas convidados. A parte boa é que têm espaços ao ar livre no recinto, evitando assim, no meu caso, os decibéis assustadores. Vi por lá, a propósito, dois ex-colegas da faculdade: um, num dos espaços de animação nocturna; outro, na marina, à noitinha.

    Pude presenciar o pôr-do-sol na praia. Sentado à beira da rebentação, sentindo o calor dos derradeiros raios. A paz e a tranquilidade foram-me totais. Deixei os aborrecimentos por cá; as desilusões da primeira metade do ano, os sentimentos espúrios, e os risíveis, e as mesquinhices que me acompanharam por tempo excessivo. O meu problema, que venho aprendendo a contornar, é o de me apoquentar com pessoas e com situações absolutamente insignificantes para a minha vida e para o meu bem-estar. Gente que nada me acrescenta, muito pelo contrário. Alguém como eu não se deve dedicar a assuntos menores. Página viradíssima.

    Talvez, não sendo seguro, possa voltar ainda este mês para mais uns dias.
    Captei vários momentos. Deixo-vos um deles, na marina. Quem me acompanha noutras plataformas tem acesso ao meu acervo das miniférias.



24 de julho de 2017

...


   Recordo-me de que era costumeiro falar-se na silly season da blogosfera. Também ela cedia à apatia do Verão, ao afastamento expectável quando as pessoas gozam das suas merecidas férias. Só que a blogosfera foi de férias e não mais regressou, como aquela loja de variedades do lado esquerdo de quem vai para Santa Apolónia. Está lá o papel afixado na porta, sujo, amarelecido, "encerrado para férias". Até hoje.

    A blogosfera que resiste, o reduto, é uma feira de vaidades e de compadrios. Aquela em que desde sempre me inseri, em abono da verdade, com alguma excepção pontual, nunca foi erudita por aí além. Eu, entretanto, e como me recordo de o ter dito, não faço distinção. Atento mais nos autores do que nos blogues, ou seja, o sentimento que me ligava a determinado autor fazia com que me interessasse pelo seu espaço. Às vezes, ria-me dos disparates, e ria-me inclusive da minha persistência em ler o que pouco me enriquecia.

     Até esses se foram, ou vêm esporadicamente. O facebook, que se foi impondo gradualmente, deu uma machadada em todas as redes sociais, e o Blogger não lhe foi imune. Por lá, muito embora a liberdade de expressão, inclusive a artística, possa estar condicionada, permite-se o mesmo. Textos, fotos, gifs, vídeos, com uma interactividade única e uma capacidade de reagirmos no imediato e de termos reacções ao que publicamos. Não há forma de o contornar. Aceitemo-lo.

     Pois bem, não que me tenha rendido ao facebook, de todo, embora o utilize, e cada vez mais, começo a pôr em causa o blogue - o que jamais havia feito. Os nove anos dão-me alguma autoridade e até, diria mais, à-vontade para colocar tudo nestes termos. Se o blogue era como que garantido, agora não o encaro assim. A vontade de continuar vai-se desvanecendo. Não pelas reacções às minhas publicações, antes que alguém assuma esta publicação como que um grito de revolta ou uma chamada de atenção; nunca fui popular, nunca escrevi a pensar nas pessoas que me leriam. No auge da blogosfera que conheci, escrevia sobre o que me apetecia, quando me teria sido mais fácil ceder ao populismo. Questiono-me sobre se fará sentido continuar porque pouco me demoro aqui, deixei de ler blogues, perdi o hábito de comentar (aliás, não sei o que ou quem comentar), logo, as minhas dúvidas são inteiramente pertinentes. Acresce uma certa desvirtualização, materialização do virtual, facilmente contornável, diga-se, assim o queira, em que me vi arrolado, e que, hoje, friamente, vejo que foi uma opção errada e até meio ingénua da minha parte.

      Não, não é uma despedida, o blogue vai continuar. E nem publicaria despedidas. Não tenho, em rigor, ninguém que o mereça, a par de escassos leitores. Escrever, como também venho deixando claro, quer em posts de aniversários, quer pontualmente, é-me uma necessidade. Gosto e, mais, preciso de o fazer, aqui. Como também precisei deste desabafo. Tal como, de 2008 a 2010, não seguia qualquer blogue e também não era acompanhado ou lido, é provável que torne este exercício de escrita ainda mais solitário, e que me encerre sobre mim mesmo. Chamemos-lhe uma reestruturação, ou de um outro modo de encarar um espaço que cultivo com carinho e que, independentemente de fases, me merece respeito.

13 de junho de 2017

Santo António já se acabou.


    Ontem, e porque não desgosto de arraiais, passei uma noite agradável num dos bairros típicos de Lisboa. A bem dizer, o que me motiva não é a música, como se calcula, nem a confusão; gosto de me inebriar naquele espírito folclórico, tão tradicional e carismático. Os Santos Populares são uma das imagens de marca do país, que fizemos o favor de exportar para o Brasil, nomeadamente.

    Não consegui arrumar uma mesa num dos inúmeros restaurantes. Foi mais divertido assim, porque saciei a fome com uma bifana e duas farturas, numa das barraquinhas alinhadamente dispostas pelas ruelas. Diverti-me imenso. Mais do que em jantares, do que em saídas repetidamente programadas. E tive a melhor das companhias. A noite e a tarde deram, também, para perceber quem quero e não quero na minha vida, quem deixei entrar e de quem me pretendo afastar, porque não me sinto bem quando estou por perto. E mediante que sou um ser solitário, muito auto-suficiente nos afectos (compensando a falta dela noutros), pelo menos sei que estou a salvo da malícia alheia.

     Demorei-me pouco. Cheguei a casa a horas decentes. Não dou os Santos por encerrados, não, porque pretendo repetir. Estamos no mês das festas, e ainda me falta comprar o manjerico.

29 de abril de 2017

April 29.


    Outro ano se passou. O calendário é testemunha. Neste aniversário, entretanto, não senti a aproximação do dia com angústia, não. Não fosse a mãe avisar-me e ter-me-ia esquecido de encomendar o bolo, discreto, sem floreados.

     São 15h. O pai ainda não me ligou. Não posso crer que se tenha esquecido, não, falamos todos os dias, ou quase todos os dias. Eu tenho a sensação de que são todos, porque quando conversamos sinto que lhe conheço os dias, assim como ele conhece os meus. Da avó, sua mãe, o telefone também não deu conta.

     Queria que os meus aniversários fossem diferentes. Não só os aniversários, a bem dizer. Sei que está nas minhas mãos mudar o destino, somos nós que o delineamos. Mas a vida assusta. Assusta vivê-la. Invejo, invejo aqueles que lhe vêem um encanto qualquer. Que dizem que é bela. O mal deve estar em mim, sim, mas não a vejo assim. Encaro-a mais como um fardo, amenizado por mansos instantes.

       Em contrapartida,  a imprevisibilidade deixa-nos na expectativa de um amanhã risonho. Quem sabe ele venha.

Actualização.: Poucos minutos após a publicação do post, recebi um telefonema do pai e da avó.

6 de novembro de 2016

Moments.


    As últimas semanas têm sido aborrecidas. Aproxima-se o período do ano que mais prazer me proporciona - o Natal. A bem ver, dou por mim a perguntar-me quanto ao que ainda me faz brilhar os olhos na quadra, se a iluminação, se o espírito da época, se as guloseimas. É provável que seja uma combinação. Em termos estritamente familiares, foi-se o tempo em que havia verdadeira comunhão e alegria. Os velhos, mais velhos estão, e os novos seguiram as suas vidas. Assisto à progressiva deterioração da saúde física e mental da avó, que desde a morte do avô nunca mais recuperou. A depressão tem-na acompanhado pela vida. Há dias, fui com ela ao especialista em saúde mental. Sublinhou a sua lucidez, a riqueza do discurso, mas diagnosticou-lhe uma depressão profunda. O remédio é sair de casa, espairecer. Tento sair com ela, levando-a a tomar um chá, a passear um pouco. Custa-lhe a caminhar. A sua magreza é deplorável. Alimenta-se pouco. Como diz o Herman José, envelhecer não tem realmente nada de bom. Para quê contornar o irrefutável? Envelhecer é um horror, e acompanhar o processo dos que nos são afectivamente mais próximos é angustiante.

    A meio destes pequenos dramas pessoais, ando à minha procura. Julgo-me perdido algures por aí. Ou talvez nunca me tenha perdido. Árduo trabalho ser adulto, sobretudo num mundo sacana. Estamos sós neste invólucro de matéria perecível. Viver não é bom, não é agradável. É um desafio, sem escolha prévia, que uns ganham e outros perdem. O equilíbrio de cada um ajuda a suportar melhor ou pior as evidências. Bem-aventurados os que atravessam a vida na ignorância ou no optimismo. São ambos uma bênção.

7 de setembro de 2016

Rentrée.


   A parcos dias, entraremos no ritmo normal de trabalho, de estudos. Devo admitir que me cansa todo este aparato em torno das férias e das estâncias balneares. Gosto, desfruto, mas a determinado momento vejo-me a clamar por frio, por aulas, por livros e monografias. Este ano, tenho um problema adicional: mantenho-me na procura por uma casa. O prazo começa a apertar. Juntarei as aulas às mudanças, e já me vejo mergulhado num espesso manto de stress. A agravar, a minha asma tem demonstrado que está presente. Abrandei o ritmo, na medida em que me tenho desdobrado em telefonemas e visitas a imóveis. Não surge nada em que me sinta bem, aquele amor à primeira vista. Como tenho tendência para ser infeliz em determinados lugares, não posso correr o risco de me comprometer a morar, conquanto possa mudar posteriormente, num apartamento no qual fique por sentir uma boa vibração.

    Tornarei à faculdade. Julgo que tenho espírito de académico. Ultrapassei os deveres de estudante e posso agora dedicar-me a investigar por conta e risco. Ficar mais do que dois meses sem exercitar o meu intelecto, sem procurar saber mais e sem cultivar o meu espírito curioso é um sacrifício que a pesadas penas consigo suportar. Sou inquieto.

    Simultaneamente, vejo que a blogosfera se ressente. Soçobrou a outras redes sociais mais imediatas, que cumprem quase a mesma função e que exigem menos disponibilidade. Da minha parte, como cada uma desempenha um papel que não pode ser atribuído a outra, o blogue, por ora, está seguro. Não será um apêndice do meu perfil pessoal. Pelo contrário, é a rede social que mantenho há mais anos e é aquela a que ainda dou primazia. Com ou sem reciprocidade. Soube fazer a transição de um blogue de cariz mais pessoal para um blogue genérico, em que eu sou apenas mero artífice. Libertou-me de certa responsabilidade e relegou-me para quinto plano. Tanto melhor que assim seja.

      Ah, Setembro, o temível mês que tanto detestava. Nos dias que correm, sinto-o como uma benesse. Traz o Outono, o fresco, os dias progressivamente menores. Um quadro pejado de encantos.

7 de agosto de 2016

Doce Agosto.


     A minha semana de férias terminou. Foram sete dias muito bem passados. Estava realmente necessitado de sair de Lisboa. À medida em que nos afastamos da cidade (grande), percebemos o quão atribulada é a vida por aqui, o que em nada beneficia a nossa saúde física e mental. Na viagem de ida, partimos à noitinha. Não pude apreciar verdadeiramente a paisagem, a planície alentejana repleta de sobreiros e de encantos. Todavia, no dia seguinte, abrindo a janela do quarto, senti os raios quentes do sol na pele e a brisa fresca, provida pelo mar, tão perto, amenizando os efeitos de um calor que já se fazia sentir tão cedo.

     Fui à praia e à piscina. Li, passeei, fiz caminhadas nocturnas. E, pela primeira vez até onde consigo recuar na memória, esqueci todos os problemas que deixei por cá. O relógio obedeceu aos meus caprichos, e a semana, ao contrário de senti-la a escapar-me pelos dedos, foi morosa, deteve-se o tempo suficiente para a apreciar.

     Tive a oportunidade de conhecer algumas cidades que ainda não havia visitado. Passámos a fronteira e viajámos um pouco pela costa andaluza. Apesar das elevadas temperaturas, a vida no sul é tão melhor. De Verão, com uma agitação que anima, convidativa a sair, a desfrutar de tudo o que tem para nos oferecer; no Inverno, presumo que pacata, distante da frente gélida que percorre o país. Certas estradas reportaram-me aos EUA. A terra seca, quilómetros diante, cafés e demais comércio nas bermas. A flora muito característica, distinta daquela que encontramos no resto do país.

      Seria capaz de morar por lá. Eu, que sou uma pessoa do aço e do betão, do trânsito e da correria. Observar aquele pôr-do-sol desde a praia, estando sentado à beira-mar, sentindo a rebentação na pele, trouxe-me momentos de paz, de leveza, que há muito desconhecia. Pelo início da madrugada, andar por entre a marina, ouvir os risos das pessoas, olhar o céu e vê-lo limpo, cintilante, com os pequenos pontos azulados entre o firmamento. Entrar nas lojinhas e ser recebido com amabilidade. Oh, pena que findou!

       É possível, sem ser certo, que o repita ainda este ano. Veremos. Dependo de compromissos. Assim dependesse apenas da minha vontade.


13 de junho de 2016

A vitória do ódio.


   Nos contos de fadas da nossa infância, o mal não singra e o bem acaba por vingar. São tentativas frustradas de nos convencer de que habitamos num mundo justo e bom. À medida em que crescemos, vamos encarando essas investidas com um olhar complacente, em igual proporção às injustiças de que vamos tomando conhecimento. Não, o mundo não é um local para brincadeiras. Aqui sofre-se, chora-se, clama-se por um deus que não nos ouve. Curioso verificar que choramos à nascença, suscitando o interesse da nossa progenitora, é certo, numa reacção que nos acompanhará pela vida.

   Os maus não sofrem qualquer castigo. Às vezes, escapam; ou não será na maioria das vezes? Somos compelidos a confiar, uma vez mais, na balança da dita divindade que vela pelo nosso bem-estar e julga as condutas que se desviam do bom caminho. Quando, por fim, somos confrontados com a inevitabilidade da nossa solidão, numa selva regulada por leis, desesperamos. Nascemos, vivemos e morremos sós, sem auxílio possível, provendo à nossa subsistência, lutando pela sobrevivência.

   Centenas de filósofos, de teólogos, de homens da ciência e de simples leigos tentaram, pelos tempos, explicar algo aparentemente tão simples: por que sofremos? É uma fatalidade ou um fruto da nossa irresistível tendência egoísta? Não apenas amarguramos como promovemos a dor pelos que nos rodeiam. Somos, em suma, seres amorais, que se auto-censuram. Carecemos de refrear os nossos mais pérfidos instintos. Quando esse exercício não é conseguido, extravasamos o que de pior reside no nosso inconsciente, praticando actos indignos de uma espécie que se considera racional e ponderada.

    Está criado o momento para nos lastimarmos. Condenamos os monstros que alimentámos com a nossa fome de domínio. É essa a história da humanidade. Um dicionário de uma única palavra, uma enciclopédia de um mesmo fito.

     Aceito que lhe chamem visão terrífica. É aquela em que sou compulsivamente forçado a acreditar.

2 de junho de 2016

Madness.


     Há algum tempo que nada escrevo sobre o meu estado de espírito. Paulatinamente, comecei a evitá-lo, a ponto de raramente dedicar umas linhas a aspectos pessoais. Deixei de me sentir confortável. Parece que me perscrutam a alma. Ainda que tenha sempre mantido um saudável discernimento acerca daquilo que se compagina com um blogue que não pretende ser um diário, nem sempre devemos desabafar as nossas dores publicamente. Saber manter o recato é uma virtude.

     Ando bastante instável. Uma viagem marcada, por um contratempo, acabou por não se concretizar, o que veio agudizar um quadro de disforia que tem assumido contornos preocupantes. 
     Outros, entretanto, seguiram ao seu destino. Fiquei inundado de cólera, em proporções que me têm sido imensamente prejudiciais. A situação não vem de ontem, mas de anteontem. Tenho negligenciado indícios que me parecem cada vez mais claros, e que me levaram, nesse sentido, a tomar uma decisão.

     A mãe, o pai e a avó estão preocupados. Eu próprio. Já verifiquei que aguardar por uma acalmia, que não chega, tão-pouco é resposta. Daí que tenha dado um passo em diante, que certamente surtirá os seus efeitos.

   Amanhã, para distrair um pouco, tenciono ir à Feira do Livro, um ritual anual. Provavelmente procurarei por algumas obras que me esclareçam quanto à mente humana e aos seus ainda insondáveis mistérios. Quando atentamos no passado recente e verificamos que há meras décadas se praticava a inominável lobotomia - curiosamente, técnica desenvolvida por um português - percebemos o quão distantes estamos no que concerne à compreensão do nosso intelecto e das patologias que o afligem. Somos uma caixa de surpresas, boas e más. Pegando nas palavras que, segundo a avó, um médico lhe fez chegar nos idos anos quarenta, «teria tudo para ser feliz, pudesse trocar o seu cérebro por outro». 

14 de maio de 2016

Quotidiano.


        Há muito que temos presente a crise de valores que perpassa a sociedade ocidental. Eu, que não sou conhecido por nutrir especial apreço e fascínio pelos países orientais, vejo-me obrigado a reconhecer a relevância que os laços familiares assumem no sudeste asiático e no Japão, enquanto que por cá fazemos a trajectória inversa. Manifestação dessa importância encontramos no respeito pelos anciãos, pelos patriarcas e pelas matriarcas. Os mais velhos vêem as suas opiniões serem tidas em consideração pelas gerações mais novas. A idade é um posto.

     Não sou um velho do Restelo, tão-pouco um admirador da época em que os pais acertavam os casamentos dos filhos, em que os namoros proibidos eram vividos em segredo (mantendo certo encanto, talvez) e em que os consentidos não iam muito além de breves encontros ao postigo ou nas salas de estar das moças, com os irmãos, os avós e, sobretudo, com o pai a observar com salutar atenção os movimentos do rapaz e as suas investidas sobre a donzela. Isso não implica que seja indiferente à libertinagem a que assistimos e, o que me preocupa mais, ao desrespeito que se verifica em idades progressivamente mais precoces. As crises na adolescência, naturais nessa fase de desenvolvimento, não surpreendem e não são em si uma novidade. O perigo está no estágio imediatamente anterior, na infância, onde constatamos meninos paulatinamente mais caprichosos e mimados, verdadeiros déspotas em miniatura.

     Ontem, à tarde, lanchei numa pastelaria aqui perto de casa, como de costume. A páginas tantas, entrou uma senhora já de certa idade, acompanhada por uma miúda que não teria mais de seis, sete anos (a julgar pela estatura e pelo comportamento). Fui de imediato tomado por alguma perplexidade ao verificar que a menina caminhava sorridente e feliz, em excessiva euforia, e a avó carregada com a sua bolsa e ainda com a mochila da neta. O natural seria a menina carregar o seu material, ajudando a velha avó. A avó fez os pedidos, ao balcão, e a neta sentada à mesa. A senhora levou-lhe uma mousse de chocolate e aguardou, ao balcão, pelo chá. Já com a chávena na mão, pediu à neta para que se encaminhasse até uma outra mesa, supondo eu que não lhe agradaria ficar na mesa entretanto escolhida pela pequena, num canto com escassa luminosidade. Ora, a menina, se educada fosse, acataria a decisão da avó, levantando-se e cumprindo com a sugestão da senhora, que assim foi; não senti qualquer tipo de ordem nas suas palavras. Pelo contrário, cerrou os braços por cima da mesa, pousando-lhes a cabeça, amuou e começou a fazer birra. A avó cedeu e, aproximando-se, ouviu o seguinte comentário: "Se querias, ficavas tu ali!", rematando com um: "Parvinha!", acompanhado de uma expressão facial sarcástica e cheia de soberba. 

      Respirei bem fundo e ainda ponderei mudar de mesa para evitar confrontar aquela criança com um olhar de reprovação. E se é verdade que lamentei por aquela avó, não deixo de ser sensível ao facto bastante notório de aquela criança ser assim porque lho permitiram. Provavelmente não a pobre senhora, mas os incautos dos seus pais, ainda que a explicação se encontre num conjunto de factores, entre os quais a personalidade da pessoa, daquela menina, e o convívio com os coleguinhas de escola. Sabemos como somos susceptíveis, acentuando-se a tendência nestas idades, em que o carácter está longe de ser definido, e por isso mesmo o papel dos pais e dos educadores é decisivo, evitando-se futuros males maiores. Como diz a sábia voz do povo: "De pequenino se torce o pepino".

      Eu tenho autoridade para criticar o comportamento daquela menina. À chegada da mãe, contei-lhe o sucedido, reagindo com passividade ao que lhe acabara de relatar. Sabe que errou na minha educação. Fui igualmente um menino e um adolescente mimado, autoritário, contumaz, cheio de manias. Fiz birras. Muitas vezes sujeitei os pais a comprarem-me brinquedos naquele dia, àquela hora, caso contrário choraria até suar. Prontamente me satisfaziam a vontade. Não sinto qualquer refreamento em contá-lo, pois, anos volvidos, não fui o culpado; fui a vítima. E ainda hoje sofro com as consequências de uma educação leviana. Apenas considero curioso que eu próprio saiba fazer o meu diagnóstico, e tão-só. E por temer que o fenómeno se multiplique e prolifere, estou atento e pronto a alertar para os perigos que comporta descurar a educação de uma criança. Tornem-nas adultos saudáveis, mentalmente equilibrados e, preferencialmente e dentro dos possíveis, felizes.

7 de abril de 2016

A espuma dos tempos.


    Os últimos dias têm-se sucedido vagarosamente, alternando com picos de intensidade súbita. Sente-se a Primavera (com maiúscula, que embora partidário do Acordo Ortográfico, primavera assemelha-se à prima da Vera, que certamente será uma boa moça). Na casa da avó, o chilrear dos passarinhos já me acompanha pelas manhãs. A temperatura sobe gradualmente. As tardes são longas.

   Não fosse o falecimento da avó de uma prima, na passada semana, e só teria a pintar o quadro com serenas tonalidades. A senhora nada me era, directamente. Partilhávamos um laço de afinidade. Conheci-a de sempre. Tenho uma foto consigo à saída da maternidade. Em um mês, adoeceu, foi internada e morreu, atestando, uma vez mais, a nossa efemeridade.

     Estarei destinado a acercar-me das pessoas em momentos trágicos. Foi assim com o pai, em Fevereiro do ano passado, repetindo-se na quinta-feira, com esta dita prima. Havíamos cortado relações, por incompatibilidade de feitios. Não me demorei na igreja. O nosso afastamento levou, por arresto, a que perdesse o contacto com os seus pais e com a senhora sua avó. Quis, todavia, deixar assente que respeito a dor dos seus familiares mais próximos, e que não sou indiferente à partida de alguém que me embalou em seus braços, que me viu nascer, a bem dizer, e crescer.

     Olhando em redor, fui acometido pelo choque de perceber como todos estão envelhecidos. A avó paterna, magra, aparentando uma quase rigidez cadavérica, visivelmente debilitada; o seu filho, meu tio, portanto, fumador inveterado, com a pele estragada pelas décadas de hábitos tabágicos; à sua esposa, a idade não condescendeu, porquanto engordou, desfigurando por completo a imagem de jovem delicada que ainda perdura por algumas fotos que mantenho, guardadas, em casa.

      Como diz a música, fatalmente, «o tempo tem mais olhos que barriga».

29 de março de 2016

O meu primeiro beijo.


    Ao percorrer alguns blogues, soube que se iniciara uma breve sequência de textos referentes ao primeiro beijo. Não que seja partidário destas correntes, que não o sou; no entanto, reportaram-me a uma era de inocência pueril e de magia, que não podia deixar passar em vão.

     O meu primeiro beijo teve o romantismo expectável na adolescência. Ainda assim, tive direito a mão no pescoço, a afago na perna, a sorrisos e a um abraço. Deu-se num vão de escadas, no colégio, no final das aulas, numa tarde quente de Maio. Há muito que o desejo pairava sobre nós. Da minha parte, julgo ter havido o que vulgarmente designamos de amor; da outra, um misto de curiosidade e de notória excitação - quando digo notória, abarca as diversas acepções do termo.

    Beijámo-nos bem, sem choque entre dentes, sem saliva a mais. Anos e anos de beijos técnicos na televisão hão-de ter a sua utilidade. Um beijo sôfrego, prolongado, muito pouco estático, inquietado pelo barulho em redor e pelo receio de sermos observados.

   Haveríamos de o repetir noutras ocasiões. Até que nos afastámos, naturalmente. O momento ficou gravado nas minhas recordações. É raro socorrer-me dessas memórias, mas elas perdurarão indefinidamente.