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20 de julho de 2019

That's one small step for man, one giant leap for mankind.


   Há exactos 50 anos, Neil Armstrong protagonizava a chegada da humanidade à Lua com uma frase que jamais esqueceremos, os que assistiam pela televisão e os que a conheceram a posteriori, ou muito a posteriori, como eu, que estava a largos anos de vir a nascer. Os EUA pisavam no único satélite natural do planeta, levando a dianteira sobre os seus rivais, os soviéticos, que em 1961 haviam posto o homem no espaço. Terá sido uma vitória para os americanos, ainda que eu a veja como uma vitória colectiva. Demos um passo decisivo. Armstrong teve consciência da importância de ter sido o primeiro, ele que tinha tido um percurso pessoal e profissional relativamente discreto e apagado.

   Por cá, vivíamos nos anos da primavera marcelista. Salazar agoniava a olhos vistos. As imagens chegavam-nos a preto e branco, durante toda a madrugada, através do sinal da RTP, claro está. É provável que alguns se tenham lembrado do que fizemos séculos antes, no século XV, quando, com menos conhecimentos do que aqueles de que os americanos dispunham, nos lançámos num mar de incertezas. A nossa façanha, não querendo com isto tirar os louros aos americanos, foi porventura mais surpreendente. Tecnologia, se é que lhe podemos chamar assim, tínhamos pouca. Muita, herdada dos sarracenos. Os meios, também eram escassos. Os homens, enfezados e malnutridos, sobretudo quando comparados aos neerlandeses e outros. Ora, diga-se lá se não fomos mais corajosos? Encarar o oceano, sem a certeza de encontrar terra firme, assemelha-se-me mais heróico do que ir à Lua, afinal, a Lua estava lá. Já sabiam que a encontrariam, na melhor das hipóteses. Os nossos homens, na melhor ou na pior das hipóteses, não sabiam nada. Sabiam, quando muito, que tinham Deus consigo. Levavam a fé e a esperança de regressar. 



    Não deixa de ser curioso que conheçamos mais dos planetas e asteróide que compõem o sistema solar do que do fundo dos nossos oceanos, das suas fossas abissais. Embora já tenha havido explorações, mantêm-se amplamente desconhecidas. Demos primazia ao espaço em detrimento dos oceanos. Acredito que tal se deva à conquista do ar. A aviação e a exploração espacial, pela inovação, desviaram-nos a atenção. A guerra tecnológica com os soviéticos ajudou a incrementar uma vantagem que já vinha de trás.

   Uma das décadas mais apoteóticas e conturbadas do século XX terminava com um feito extraordinário. Após Armstrong e Aldrin, vários outros astronautas tiveram a honra de pisar o solo lunar, até 1972, data da última missão ao satélite, pela Apolo 17. De lá para cá, a Lua passou para segundo plano. Fala-se em enviar o homem a Marte na década de 2030. Se assim for, e se lá chegar, certamente serei um dos que ficarão agarrados ao ecrã noite fora, como os nossos pais e avós, na emocionante madrugada de 20 de Julho de 1969.

10 de junho de 2019

Salazar e a Restauração da Monarquia.


   Olá! Agora que posso respirar de alívio, após mais de uma semana complicada, entre fazer um teste, um exame, receber três, receber notas finais e passar tardes e noites na sala de estudo, sendo que se prolongarão até pelo menos ao final do mês, lembrei-me de que já não dava notícias há algum tempo. Não há realmente muito para contar, também, que não tenho feito nada. Só o trajecto costumeiro: casa - faculdade / faculdade - casa. Na quinta-feira, sim, fui a uma conferência subordinada ao tema que consta no título da publicação. Teve lugar na Casa da Comarca da Sertã, na Rua da Madalena, e contou com a presença de Paulo Drumond Braga, historiador, e de Dom Miguel de Bragança, irmão de Dom Duarte Pio.

   Foi extremamente interessante, porque muito se diz sobre o relacionamento de Salazar com os monárquicos, e até, num exercício de direito comparado, comparamos com a solução da vizinha Espanha, em que Franco, nos anos 40, restaura a monarquia, deixando, porém, o nome do seu sucessor em aberto. Havia, à época, várias linhagens candidatas que não apenas os Borbón, na pessoa de Juan Carlos. O que parecia claro é que seria Juan Carlos, e não o pai, o sucessor de Franco.

   Por cá, Salazar, pelo simples facto de não ser chefe de estado, não nomeou sucessor, e, qual malabarista, na senda daquilo que foi o Estado Novo, um regime de consensos, procurou sempre encontrar a harmonia entre os militares, os veteranos da I República, os monárquicos, os proprietários, os trabalhadores. Enigmático como sempre, Salazar foi deixando claro que a questão da restauração ou não da monarquia, sobretudo após a morte do General Carmona, em 1951, no mesmíssimo ano do congresso da União Nacional, era uma não-questão. E terá sido em torno desse ano que os monárquicos, cuja maioria era salazarista, se convenceram de que, por ora, a monarquia não tornaria ao país. Em 1950, a lei do banimento, mais concretamente a Lei da Proscrição, que afastava os Bragança do país para todo o sempre, foi revogada, permitindo que Dom Duarte Nuno, os filhos, os irmãos e demais família pudessem regressar àquela que consideraram sempre ser a sua terra, e que não lhes era desconhecida, porquanto, sem alarido, mas com o conhecimento de Salazar, já cá tinham estado por diversas vezes em visitas à margem do que a lei estabelecia.

Sou a "oitava cabeça"

   Salazar nunca privou com Dom Duarte Nuno, mas manteve uma relação de grande proximidade com uma das suas irmãs, Dona Filipa, com quem trocou correspondência por anos. Dona Filipa de Bragança, na verdade, teve uma paixão quase platónica por Salazar, admirando-o, respeitando-o e rejeitando qualquer crítica ao estadista. Dom Duarte Nuno, igualmente, sempre manifestou apoio a Salazar. Como em tudo, o regime português foi muitíssimo diferente do espanhol, desde logo nas pessoas de Salazar e Franco, com estilos de governação distintos e personalidades também elas distintas.

   Quando se deu a morte política de Salazar, em 1968, há muito que não se falava em restauração monárquica. Marcello Caetano, republicano, havia sido, décadas atrás, um crítico acérrimo dessa ideia de retorno à monarquia. Já quanto a Salazar, embora haja monárquicos que gostem de alimentar alguma simpatia do professor de Finanças pela monarquia, a verdade e tudo quanto se sabe é que Salazar, independentemente de regimes, apenas se importava com a sua manutenção no poder. O regime que mais lhe convinha era a república, uma vez que um chefe de estado que só o era porque gozava da sua confiança, e foi assim com os três que o Estado Novo conheceu (quando Craveiro Lopes a perdeu, sabemos que já não se recandidatou…), podia ser completamente manietado. Era, efectivamente, uma mera figura protocolar. Numa monarquia, não seria assim. Um rei, desde logo pela sua legitimidade, não está sujeito ao escrutínio popular ou de parte alguma. Em Itália, Vítor Emanuel III participou da demissão de Mussolini, não nos esqueçamos.

    A conferência durou duas horas, e eu expus uma pergunta: se se conheciam cartas de Dona Filipa a Ramalho Eanes ou a Mário Soares. Pelo que parece, não. Com a morte de Salazar, Dona Filipa ter-se-á desinteressado da vida pública, recolhendo-se na sua moradia do Algarve, refúgio habitual à azáfama de Lisboa, que detestava.
   Dona Filipa não é uma figura conhecida em Portugal. Eu iria mais longe e diria que nem o pai de Dom Duarte Pio é conhecido pela generalidade das pessoas. O sentimento monárquico esfumou-se entre os portugueses. A actual família real, pretendente ao trono, goza de respeito, é certo, mas sobretudo de uma enorme indiferença. Os portugueses não sentem apego à monarquia ou aos Bragança. Eu, que me assumo como conservador, rejeito a monarquia. Da esquerda à direita, a república é consensual. Há ideia de paridade, de igualdade, que nos é cara. Gostamos muito de eleger os nossos representantes, incluindo o chefe de estado.

   Foi muitíssimo útil para mim aprofundar conhecimentos nesta relação específica entre o homem que governou o país por quarenta anos e os Bragança. Uma relação de desconfiança e de algum aproveitamento mútuo.

27 de abril de 2019

25 de Abril [parte 2].


   No feriado, aproveitei que o Palácio de São Bento esteve aberto e decidi passar por lá. Por incrível que pareça, nunca antes havia estado no interior de São Bento, palácio novecentista (embora o espaço seja bastante anterior, remontando a um mosteiro), que sediou as Cortes constitucionais, o Congresso da I República, a Assembleia Nacional do Estado Novo e, desde 1976, a Assembleia da República - de 75 a 76, como sabem, esteve reunida por lá a Assembleia Constituinte, que elaborou a nossa actual Lei Fundamental. É um palácio em estilo neoclássico. Aceita visitas com marcação prévia. Em verdade, quero ver se lá volto, porque a afluência foi tanta que não pude ver tudo quanto queria com o tempo e a atenção devidos.



   Estive mais de uma hora na fila, que por acaso até andou bem. Dava literalmente a volta ao palácio, contornando-o. Faz-me lembrar a que apanhei quando fui ao Palácio de Belém, assim que Marcelo tomou posse.



  A par do hemiciclo propriamente dito, foi-nos mostrada a sala de visitas da presidência, a sala do arquivo histórico e a sala da comissão parlamentar. Acredito que houvesse mais para ver, mas era tanta gente… Não consegui visitar a Residência Oficial do Primeiro-Ministro, que estava encerrada, havendo gente que, contudo, não hesitou em violar as demarcações que impediam a passagem, nas barbas dos seguranças e dos agentes da polícia. Arriscam-se por pouco.



   Embora não concorde com a revolução, não deixei de colher alguns cravos. Até me tiraram umas fotos com eles. Já sabem que poderão ter acesso a elas através das minhas redes sociais, isto para quem me segue. Deixo-lhes, porém, algumas aqui.



    Porque as flores e os dias têm os significados que lhes queremos atribuir.


Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone. Uso sob permissão.

20 de abril de 2019

Dina (1956 - 2019).


   Assim como assim, eu não era fã da Dina. Sabia-a doente, porque havia lido sobre isso, algures, e até sabia que era algo pulmonar. Desconhecia os contornos. Dina sofreu de fibrose pulmonar - uma doença que me era completamente desconhecida - durante treze anos, quando a maioria dura três. Já não fazia nada sem a botija de oxigénio. No ano passado, deu a sua última entrevista, não se deixando fotografar para que o público se lembrasse de si saudável e ainda bem. É de mulher, de grande mulher.

   A Dina sofreu daquele mal que aflige muitos artistas em Portugal: a injustiça. Quando se é mulher, lésbica e se participa no Festival da Canção, é meio caminho andado para se cair na maledicência do povo e no boicote das rádios. É que, em Portugal, facilmente se catalogam as pessoas. Não conheço os números porque há muito tempo que não se ouve nada sobre o assunto, mas recordo-me de que praticamente não se passava música portuguesa nas rádios nacionais. Só estrangeira. Às vezes, quando queriam colmatar um espaçozinho minúsculo em língua portuguesa, recorriam à música brasileira ou aos GNR, Xutos, Rádio Macau e por aí. Sempre os mesmos. Os clássicos. Espero que tenha mudado. Depois, temos inúmeros preconceitos com a nossa música. Arranjamos um monte de catálogos, que vão desde a erudita, à menos comercial, à música pimba, ultimamente rebaptizada como ligeira. Eu também não a consumo, mas não veria com maus olhos se separássemos alguma e a colocássemos nas rádios. A Dina, enquanto letrista, tinha canções engraçadas, melódicas, que ficavam bem na sua voz e que me parecem bastante apropriadas para a rádio. E, indiscutivelmente, Dina era mais do que o Amor d'Água Fresca, que a popularizou e eternizou entre os portugueses. A minha preferida, do seu repertório, é uma canção menos conhecida, de seu nome Acordei o Vento.

   Evidentemente, foram as participações no Festival da Canção e na Eurovisão, em 1992, que marcaram uma geração. A minha, inclusive. Eu guardarei na memória a imagem da mulher roliça, de brinco na orelha e viola entre braços, a enfiar uma catrefada de frutos num cesto bastante colorido e melódico, canção de refrão pegajoso, que entra do ouvido e de lá não mais sai. E é esse momento que deixo aqui.


11 de novembro de 2018

Portugal na I Guerra Mundial, por ocasião do centenário do Armistício (1918).


   A I Guerra Mundial terminou há precisamente cem anos, com a assinatura do Armistício, a 11 de Novembro de 1918. Há historiadores, entre os quais Boxer, que discordam desta nomenclatura, "I Guerra Mundial", aplicada ao conflito de 1914 - 1918, argumentando, e bem, a meu ver, que a verdadeira primeira guerra mundial terá sido o conflito que opôs Portugal à República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, travada em todos os continentes da Terra e envolvendo potências terceiras, designadamente a Inglaterra e Castela.

   Independentemente destas divergências, a I Guerra Mundial, cujo final hoje assinalamos, foi o primeiro conflito a ceifar a vida a tanta gente, acrescendo-se-lhe, ainda, esforços de guerra nunca antes vistos - precisaríamos de mais vinte anos para assistir a algo em maior escala.

   Portugal participou na I Guerra Mundial a partir de 1916, com a formal declaração de guerra da Alemanha na sequência do aprisionamento de navios alemães em portos nacionais, não obstante já estarmos envolvidos em escaramuças com os germânicos desde 1914, pelas ambições territoriais destes em Angola e em Moçambique, sobretudo neste último. A nossa participação veio, também, num quadro de aliança com os britânicos, secular, e em colaboração com estes. No início do século passado, Portugal vivia um período conturbadíssimo a nível político, com a I República. A decisão desta, de se envolver no conflito, terá ajudado a ditar o seu fim abrupto, em 1926, com o golpe de estado que instituiu a ditadura militar. Conta-se, de modo desapropriado, quanto a mim, que a nossa entrada na guerra se deu unicamente à acção dos britânicos, que alguns anos antes, em 1890, até nos haviam sujeitado a um humilhante ultimatum. Não é verdade, como se sabe, porque urgia defender as nossas possessões africanas. Uma eventual vitória alemã escorraçar-nos-ia de territórios cuja presença remontava há quatro séculos e meio. Além disso, a  República Portuguesa, com meros seis anos, carecia de legitimação internacional. Houve um conjunto de factores que nos empurraram para as trincheiras.

Despedida de militares portugueses antes da partida para a Flandres

   Por forma a que saibam mais sobre o dia a dia dos militares portugueses que partiram para a Flandres, para combater, eu aconselhar-lhes-ia um livro de uma autora que também foi minha docente de História no Secundário e que é uma das mais destacadas especialistas nacionais nesta matéria. Falo-lhes de Isabel Pestana Marques. Tem várias obras editadas, destacando eu Das trincheiras, com saudade - a vida quotidiana dos portugueses na Primeira Guerra Mundial, da Esfera dos Livros. Como é sabido (e retratado no cinema e na literatura), as tropas estavam mal preparadas, desnutridas, exauridas. A participação do Corpo Expedicionário Português entre os Aliados foi desastrosa. Perdemos milhares de homens, sofremos uma derrota em La Lys, ainda que a ofensiva alemã haja sido sustida. Destacou-se, nesta batalha, o célebre soldado Milhões, Aníbal Augusto Milhais, que, sozinho, cobriu com fogo a retirada de soldados portugueses e ingleses, munido de uma metralhadora. Tal acto de heroísmo e coragem levou-o a ser condecorado com a mais alta insígnia militar portuguesa.

   A I Guerra Mundial pôs cobro aos grandes impérios europeus, o Alemão, Austro-Húngaro, o Russo e o Otomano. Criou-se uma ineficaz Sociedade das Nações, precursora da ONU e, sobretudo, enfureceu-se a Alemanha, sedenta por vingança. Os termos de paz impostos foram considerados vexatórios da sua honra e dignidade, e vieram permitir que Hitler, mestre da retórica, incendiasse a ira do povo. O caminho estava aberto para a guerra de 1939 - 1945.

9 de junho de 2018

Feira do Livro de Lisboa / 2018.

   
  Este ano, como em todos, de resto, fui à Feira do Livro de Lisboa, que vai na sua octogésima oitava edição. Vou pelos descontos e pelo espírito da iniciativa. Creio que ornamentam bem aquela zona da cidade, que em tempos, e talvez ainda continue, escondia um flagelo social enormíssimo, com aquele terrível desfecho que tão bem conhecemos. E há mais do que a estrita venda de livros a preços mais acessíveis: é um ponto de encontro e de convívio durante duas semanas, além de polo cultural.

  As temperaturas andam descomunalmente baixas para a época, com chuva e vento. Acredito que isso desmotive o público. A primeira quinzena de Junho é o momento ideal para a organização. Provavelmente terão em mente o período de exames e férias. A depressão a noroeste da Galiza trocou-nos as voltas. Não se vê - pelo menos eu não vi - a afluência de outros anos. Também não é menos verdade que opto por dias úteis, procurando contornar as enchentes.

   No primeiro dia, 6, quarta, uma tarde amena, nublada. Andei ali pelo recinto da Leya, e comprei três livros, a saber: Dom Quixote da La Mancha, de Cervantes, um clássico da literatura espanhola e do idioma castelhano; O Botequim da Liberdade, de Fernando Dacosta, com os célebres saraus de Natália Correia, terminando, paradoxalmente, com um imprescindível, eu diria, livro de citações do Professor Salazar, Citações de Salazar, compiladas por Paulo Neves da Silva.



   Ontem, 7, quinta-feira, tive menos sorte. As nuvens bem que ameaçaram, e cumpriram. O temporal abateu-se sobre a cidade ao final do dia, justamente quando andava pela feira. Oportunamente, trazia o guarda-chuva comigo. Comprei mais três livros, e deixei-me ficar inteiramente pela ala esquerda do Parque, isto para quem vem do Marquês. Foram eles: A Peste, de Albert Camus (Porto Editora); 1984, de George Orwell (Antígona), e um livro de pensamentos de Oscar Wilde, precisamente de seu nome Pensamentos (Relógio D'Água). Dois clássicos. Havia lido, há muitos anos, o 1984, numa edição antiga do meu avô, entretanto falecido. Quis comprá-lo para a minha biblioteca pessoal.

















   


























   

   Procuro aproveitar sempre a Hora H - das 21h às 22h - com descontos de 50 % em todos os livros com mais de 18 meses sobre a primeira edição e que não tenham a etiqueta Novidade. Por algumas dezenas de euros, trouxe seis livros. E é provável que lá torne, antes que termine, no dia 13, para comprar um último, também um clássico. É o dinheiro que melhor dou por empregado.

Todas as fotos foram captadas com o meu Iphone. Uso sob permissão.

3 de fevereiro de 2018

Cultural Sunday [take 4].


   Um dia soalheiro, convidativo a sair de casa. O roteiro estava traçado: Mosteiro de São Vicente de Fora e, havendo tempo, Museu Nacional de Etnologia. Por estranho que pareça, não conhecia o mosteiro, sendo fanático por História e apaixonado pela Casa de Bragança. O Panteão da última família real portuguesa encontra-se precisamente numa das alas do mosteiro. Mas São Vicente de Fora tem bem mais para nos oferecer.



   Levantei-me cedo, bem cedo. O mosteiro não tem domingos gratuitos, e já o sabia. Paguei com agrado.
   Desde logo, deparamo-nos com as ruínas do convento primitivo, ainda visíveis, antes de entrarmos num átrio decorado com azulejos lindíssimos. Somos encaminhados para o museu do mosteiro. Fiquei impressionado pelas peças raríssimas que encontrei, sem, no entanto, estar permitido fotografar ou filmar.


    Saindo do museu, chegamos aos claustros do mosteiro, ladeados por várias portas. Uma delas dá directamente acesso ao pequeno depositário das ossadas dos Meninos de Palhavã, os filhos ilegítimos, mas legitimados, de Dom João V. Também por aí encontramos uma porta, imponente, que nos leva ao Panteão dos Bragança, e outra, mais discreta, ao Panteão dos Patriarcas.



    A luz ajudou a tornar a visita mais especial. Reflectida na cal das paredes, fez com o espaço ficasse mais agradável, pese embora tenha o carácter de recinto mortuário, impessoal.
  Houve uma salinha que despertou a minha atenção: continha conchas recolhidas da costa portuguesa. Foram doadas por uma senhora e pelo marido, ambos falecidos, entretanto.


    No piso intermédio há uma colecção, com painéis em azulejo, das fábulas de La Fontaine. Não achei relevante fotografar.
   Aproximava-me do acesso ao terraço, que me proporcionaria uma vista assombrosa sobre Lisboa. Na foto, como verão, a Igreja de Santa Engrácia, que visitei na outra semana, revela-se-nos, bem como o Tejo. No lado contrário, temos o Castelo de São Jorge.



   Mais havia para falar e para ver. Em todo o caso, e para não tornar a publicação demasiado extensa, passo já à segunda visita do dia, ao museu, que fica no Restelo.
   Não que me tenha desagradado, mas esperava mais, de facto. Gostei particularmente das máscaras do Mali. Se andarem por Belém, não deixem de visitar; aconselhar-vos-ia a não elevarem muito as expectativas.



   Não fiz todo o trajecto sozinho. Um amigo juntou-se à segunda parte, ao museu apenas.
   São domingos muitíssimo bem aproveitados. Neste que vem, contudo, não sei se irei a algum lado (com pena minha porque é o primeiro do mês), na medida em que terei um jantar já hoje, sábado. Ainda assim, é bem  provável que me aventure.


Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone. São minhas e de minha autoria. Uso sob permissão.

24 de janeiro de 2018

Cultural Sunday [take 3].


   Este domingo, como se espera, também resolvi sair de casa, ainda que as nuvens ameaçassem acinzentar-me o dia. Deixemo-nos de rodeios: querem saber aonde fui. Pois bem, a escolha recaiu no Panteão Nacional, de manhã, e no Museu Nacional de Arqueologia, à tarde. Lados opostos da cidade. O primeiro, no Campo de Santa Clara; o segundo, em Belém.

   Não conhecia o panteão, ou melhor, a Igreja de Santa Engrácia, que partilha o estatuto de panteão com o Mosteiro da Batalha e o Mosteiro dos Jerónimos, com este último desde há pouco tempo. A Igreja de Santa Engrácia, pelos quinhentos anos que mediaram o início e o fim da sua construção, entrou para a cultura popular através da famosa expressão "as obras de Santa Engrácia", ou seja, quando se demora muito tempo a terminar o que se começou. A sua mentora, a infanta Dona Maria (1521 - 1577), filha de Dom Manuel I, não poderia imaginar que a igreja teria de esperar por Oliveira Salazar para ver concluídos os trabalhos.


   A igreja é imponente, e o interior não desilude de modo algum. Visitei os túmulos e os cenotáfios - o adro polémico que causou, e compreensivelmente, tanto burburinho pelos jantares. Subi as íngremes escadinhas até aos pisos superiores, que têm várias varandinhas. Ao cimo, como se sabe, temos a cúpula e o magnífico terraço, cuja vista é deliciosa. Pelo meio, encontramos ainda uma salinha com maquetes do monumento, pedras tumulares e fragmentos da igreja primitiva.

    Já perto da cúpula, temos acesso ao terraço. A vista sobre Lisboa é deslumbrante.




   Pela tarde, mas antes das 14h, fui ao museu de arqueologia, que estava em falta. É extraordinário. Embora tivesse conhecimento da riqueza do nosso solo no que respeita a registos arqueológicos, não julguei que o espólio fosse tão significativo.
    O museu está dividido em salas. Em duas delas, não nos permitem tirar fotos de todo, nem sem flash. A sala do Egipto é a minha favorita, e justamente uma dessas.




    Na primeira foto, temos a sala que fica imediatamente à nossa esquerda, no sentido da porta principal. É dedicada às idades do bronze e do ferro, com painéis interactivos, e também aos artefactos romanos e árabes, peninsulares. Na segunda foto, temos a ala romana. A escultura retrata Apolo, deus da beleza romano. Visitem-no, porque é interessantíssimo.

    Tive ainda tempo, concluindo, para passear pelos jardins de Belém, que são sempre agradáveis. Deparei-me com esta feirinha. Vendiam de tudo.



   E foi assim que se passou mais um domingo. O blogue não tem conhecido mais do que estes relatos, porque, a bem dizer, os passeios que tenho dado vêm ocupando os meus pensamentos, a par das leituras. Já tenho, nesse sentido, planos para o domingo que vem, que vocês saberão no devido momento.



Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone. São minhas e de minha autoria. Uso sob permissão.







20 de janeiro de 2018

Os Jesuítas em Portugal: um projecto do tamanho do mundo.


   Ontem, a convite do meu caro RPB, da Nova Portugalidade, fui convidado a estar presente numa conferência, no Palácio da Independência, subordinada ao tema que consta no título da crónica. A Nova Portugalidade é um projecto de índole cultural, que já deu as caras pela imprensa portuguesa, e que conta com o apoio de várias entidades e individualidades do nosso meio público, nomeadamente de Dom Duarte Pio de Bragança, que era para ter estado presente na conferência de ontem, mas que não pôde por motivos de força maior.

   Foi uma honra para mim ser convidado para a palestra, em primeiro lugar porque sou seguidor, e admirador, da Nova Portugalidade. Aliás, e permitam-me a inconfidência, fui convidado a participar no projecto, que envolve pessoas creditadas e versadas em história, direito e ciência política, sobretudo. O meu medo de arriscar, talvez, e a minha aversão a compromissos terão pesado no adiamento da decisão, que não declinei o convite. Gostaria imenso de participar activamente, todavia, e embora saiba estar à altura do desafio, só aceitaria, sem hesitar, sabendo que poderia entregar-me de corpo e alma a um projecto que nos consome tempo e empenho a mil por cento.


   A conferência teve lugar no salão nobre do palácio, com a visualização de slides à medida em que a oradora nos convidava a conhecer a missão dos jesuítas portugueses, e não só, no Oriente. Falou-se nos sacrifícios, na apostasia, na dificuldade que o cristianismo teve para se impor na China e no Japão. E falou-se, também, em Martin Scorsese e no filme Silêncio, que presumo ter assistido há exactamente um ano por este dia, mas cuja review é apenas do dia 22. Podem consultá-la aqui.


   Demorou uma hora, razoavelmente, e foi esclarecedora. Claro que, a incautos, alguns anacronismos poderão passar despercebidos. A oradora falou em Espanha e em Itália no século XVI, quando nem uma, nem outra existiam. O Reino de Espanha remonta ao século XVIII, com os Borbón, e Itália foi reunificada só no século XIX. Entre outras imprecisões.

    Não posso dizer que tenha ficado a saber muito mais sobre a actividade missionária da Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola no século XVI, e extinta pelo crescente de poder e riqueza, já no século XVIII, até ter sido recuperada no início do século XIX. A Companhia de Jesus constituía um contrapoder ao poder, rivalizando, com a coroa, em prestígio e influência. Não se limitava a deter o monopólio do ensino; comercializava, avolumando-se os negócios. No zénite do absolutismo, do centralismo régio, não havia lugar a uma ordem que podia influenciar os vassalos contra a coroa. Pombal tratou de expulsar os religiosos, num gesto em que foi seguido por outras cortes europeias, pressionando a Santa Sé à sua extinção, o que se verificaria décadas depois.

   Após o término da conferência, explorei um pouco o Palácio da Independência, que merecia estar melhor preservado. A tinta está a lascar e os indícios de deterioração são visíveis. Ainda assim, não esconde a sua... portugalidade.



Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone. São minhas e de minha autoria. Uso sob permissão.

15 de janeiro de 2018

Cultural Sunday [Take 2].


   O prometido é devido. Ontem, mantendo-me fiel ao que delimitei para este início de ano, fui ao encontro de mais um dos inúmeros monumentos que Lisboa tem para nos oferecer, o Palácio Nacional da Ajuda. Quanto ao percurso, nada há a enganar: o 28 até Belém, seguindo-se o 29, para quem não quer subir a calçada da Ajuda, até ao palácio. Quando chegamos ao alto da calçada, deparamo-nos com as traseiras do palácio, que como se sabe, está inacabado. Contornamo-lo pela direita e rapidamente chegamos à entrada principal, imponente. Poderão verificar.


Sumptuoso, é o adjectivo possível

   O Palácio Nacional da Ajuda é uma obra novecentista. Importa fazer certa contextualização histórica, mui sucinta. Nos terrenos em que se situa o palácio, erguia-se a Real Barraca da Ajuda, surgida com a fobia de Dom José a recintos fechados, na sequência do sismo. A Real Barraca ardeu em 1794, e Dom João VI, príncipe regente, ordenou que se lançasse a primeira pedra do futuro paço da Ajuda, construído ao longo de várias dezenas de anos - até à actualidade. A consolidação do liberalismo retirou peso político à coroa e transferiu-a para o governo constitucional, daí que o palácio mantenha fachadas por concluir até aos nossos dias. Por lá ocorreram alguns dos episódios mais significativos da nossa história, desde a comunicação aos portugueses dos motivos que levavam a corte para o Brasil, passando pela aclamação de Dom Miguel e pelo juramento de Dom Pedro IV à Carta Constitucional de 1826. Todavia, o casal régio Dom Luís e Dona Maria Pia, que o tomaram por residência, deram, ao palácio, a configuração, inclusive no seu rico recheio, que lhe conhecemos. Na Ajuda, nasceram os infantes Dom Afonso e o futuro Dom Carlos, penúltima cabeça a reinar em Portugal, de desditoso destino. Ainda hoje, para cerimónias solenes, o palácio é utilizado pela Presidência da República. Deixo-vos algumas fotos das setenta - sim, contabilizei-as - que tirei.




Na primeira foto, um óleo do século XIX, contemporâneo dos retratados. Surgem Dona Maria Pia de Saboia, os infantes Dom Carlos e Dom Afonso e Dom Luís. Na segunda, umas das salas mais bonitas do Palácio Nacional da Ajuda: a Sala Rosa.



Na primeira foto, a sala de jantar, onde a família real se deleitava com cozinhados que tão mal faziam à saúde, muito à base de carnes de porco e fumados. Assuntos políticos e coscuvilhices ficavam de fora. Na segunda, o grande salão de banquetes, ainda hoje usado pela Presidência da República em alguns eventos.


   Quem me segue através de outras plataformas, vai tendo acesso ao acervo. Não quero saturar a publicação com fotos, e o Blogger não tem um mecanismo muito fácil, do ponto de vista do utilizador, para publicar várias num único post com um efeito final agradável à vista. Ando a pensar em criar uma conta de Tumblr para o blogue, que na verdade já existe. Aí colocaria as fotos. Bom, ficam com uma ideia geral.
   O palácio é encantador. Tem a sala do trono, várias antecâmaras, os aposentos reais. Um mimo! No final da visita, pelo menos passou-se comigo, ficamos com a sensação de tudo visto. Subimos e descemos escadarias até perder a conta. Claro está que há divisões fechadas ao público, mas compensa, sim. Não poderei dizer o mesmo de Queluz e da Pena, maravilhosos, seguramente, e valem muito a pena, mas parece que nos reservam umas salinhas para dar a ligeira impressão de que ficamos a conhecer os palácios.


  Uma palavrinha para sábado. Estive na gala de entrega dos Prémios Arco-Íris, da ILGA Portugal. Tive de sair mais cedo, mas gostei do que vi, da organização, do espaço, que conhecia, e da atmosfera. A vibe era boa. Aqui fica o testemunho em imagem. :)



   E assim termina mais um relato de domingo. O palácio consumiu-me a manhã toda. Não vi mais nada. Passeei à beira-rio. Também convém, para ir tendo sempre o que ver. E por falar em ver, já sei o que farei no próximo domingo, e onde irei, mas vocês saberão no devido momento. :)


Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone. São minhas e de minha autoria. Uso sob permissão.






9 de janeiro de 2018

Cultural Sunday.


   Primeiro domingo do mês, primeiro domingo do ano. A decisão já estava tomada. Iria aproveitar o dia para visitar alguns museus grátis apenas ao primeiro domingo. A maioria dos museus está aberta, gratuitamente, a todos os domingos. Entretanto, alguns há que só admitem entradas gratuitas ao primeiro de cada mês. Passos Coelho, na altura, alterou a regra. Todos os museus só admitiriam, a partir de então, entradas gratuitas ao primeiro domingo. António Costa, e bem, repristinou a medida anterior, devolvendo os museus aos domingos.

   Sendo sincero, levantar cedo, ao fim-de-semana, não me custa. E nem o frio ou a chuva me desmotivam. No domingo, esteve um dia maravilhoso, com um sol cheio. Frio, sim, mas estamos em Janeiro. Nada que um bom casaco, quentinho, não resolva. Depressa me meti no 28 e cheguei ao meu destino: Belém.

    Belém é um bairro que adoro. Por razões familiares. Em pequeno, todos os sábados ia, com os pais, aos pastéis de Belém. Eu não me recordo, mas eles assim mo contam. É um bairro agradável, muito histórico. Estive lá, pela última vez, em Dezembro, com o M., quando andámos a passear pelos Jerónimos, pela Torre e pelo Museu dos Coches. Eu conheço grande parte dos museus da cidade. Repito alguns amiudadas vezes. Há outros que, todavia, não conheço. É, ou era, o caso do Museu da Marinha. Grande lacuna, que colmatei.

    O Museu da Marinha figura, até ver, como o meu favorito. É lindíssimo. Histórico, muito, como se adivinha, pelo nosso papel ligado ao mar e aos descobrimentos. Está bem coordenado, bem documentado, com toda a informação bem colocada. É extenso, com um piso superior apreciável. Começamos logo com as primeiras embarcações portuguesas para terminarmos com os paquetes do século XX. Tem centenas de maquetes de embarcações, das primeiras naus ao navios recentes. Encontramos, também, quadros e utensílios ligados à actividade piscatória, numa das salas do museu, bem como dados relativos às missões em que participa a marinha portuguesa, na actualidade. Temos acesso, ainda, a informação histórica sobre a nossa participação na I Guerra Mundial, sempre na óptica da marinha. Vale muito a pena visitar o museu. Fica situado no encantador conjunto arquitectónico dos Jerónimos. Deixo-vos algumas das (muitas) fotos que tirei.







   Na primeira foto, uma caravela portuguesa quatrocentista.
   Na segunda foto, uma das salas do museu, no piso intermédio, com maquetes.
   Na terceira foto, uma escultura indiana de D. Isabel de Aragão, também conhecida como Rainha Santa Isabel, do século XVII.
   Na quarta e última foto, um óleo retratando uma embarcação portuguesa enfrentando um mar alvoroçado.
  

   Demorei-me cerca de duas horas. Quis ver tudo com calma e atenção. À saída, e como não encontrei nenhum estabelecimento calmo para almoçar, fui ao MAAT, o mais recente museu da capital. Foi a minha segunda vez no MAAT. Fui à inauguração. Compreendo o conceito do museu, mas não é, de longe, o que me enche o olho. Aproveitei a gratuitidade do primeiro domingo também. Tem umas exposições curiosas. Destaco esta, de Bill Fontana: Shadow Soundings, na qual se reproduzem os sons do tráfego na ponte 25 de Abril.



    Antes que anoitecesse, e como estava com fome, apanhei o autocarro em direcção à Praça do Comércio. Almocei na Portugália, seguindo para casa.
    Foi um domingo diferente, que repetirei, na minha exclusiva companhia. Passeei pela avenida junto ao rio, em frente ao MAAT, tirando mais fotos para o meu acervo pessoal. Gosto imenso de sair sozinho, de ir para onde quero, como quero e à hora que quero. Sabe tão bem.

     No próximo domingo, e nos que virão, tenho outros museus e monumentos para visitar. Ficam comigo, com a certeza de que os partilharei, e aos meus passeios, convosco.


Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone. São minhas e de minha autoria. Uso sob permissão.

29 de novembro de 2017

Galiza.


   Descobri recentemente a Galiza. Em verdade, não a conheço. Aproximei-me gradualmente do povo galego através de incursões minhas em grupos temáticos que exaltam o nacionalismo galego. Espanha, que sabemos ser uma realidade forjada, tem muitos nacionalismos periféricos. O catalão será o mais conhecido, mas o galego, antigo, sobrevive. A Galiza é a comunidade autónoma espanhola na qual o idioma autóctone é mais falado do que o idioma do Estado, o castelhano. Os mais recentes estudos indicam que a situação está prestes a mudar. Vive-se, na Galiza, em diglossia. O idioma de prestígio empurra o idioma autóctone para uma condição de ostracismo conotado à ruralidade, por um lado, ou ao nacionalismo galego, pelo outro. Falar-se galego, na Galiza, cada vez mais é associado a uma destas realidades. Nos grandes centros urbanos, fala-se castelhano; os jovens, também eles, adoptam progressivamente o castelhano em detrimento do galego, num processo lento de linguicídio, prática comum em Espanha.

   A Galiza - tão bucólica - pela mansidão do seu povo e pelas suas paisagens de incontornável beleza, deveria representar bem mais para os portugueses. O nosso idioma nasceu na Gallaecia, que outrora o norte do país e a actual Galiza conformaram. Em jeito de peregrinação, como os islâmicos fazem a Meca, na Galiza descobrimos as nossas origens, até quanto ao idioma. Pelo norte do país, identicamente. E constatamos em como a fronteira política, imposta pelo Estado espanhol, é, a par de um erro grosseiro, uma farsa. Os falares de uma e de outra margem do rio Minho confundem-se. E é na Galiza profunda que descobrimos que o nosso idioma comum ainda não morreu, pese embora haja políticas agressivas por parte do Estado espanhol, com a cumplicidade dos órgãos galegos, como a Xunta de Galicia e a Real Academia Galega, esta última com competências no domínio da linguagem, tendo procedido a reformas que aproximaram o galego do castelhano, numa união anti-natural, quando o certo teria sido aproximá-lo do português, idioma com o qual divide séculos de história. Para mim e para outros reintegracionistas, o galego e o português são duas variantes de um mesmo idioma, e as diferenças que lhes encontramos prendem-se aos séculos de imposição e de influência nefasta do idioma castelhano.

    Nem tudo está perdido. Há uma nova geração orgulhosa do seu passado e das suas origens, consciente de que a Galiza deve olhar a sul. Porque a Galiza, que não tem a pujança económica e social de uma Catalunha, tem o que mais nenhuma região de Espanha tem: uma ligação fortíssima a outro Estado soberano, neste caso Portugal, que lhe pode seguir de guia e de exemplo. Há grupos galegos que defendem essa aproximação a Portugal, à língua portuguesa e à Lusofonia, através da CPLP. Em 2008, fundou-se a Academia Galega da Língua Portuguesa, que nos seus estatutos reconhece que o Português é o idioma da Galiza, e que foi recentemente aceite na CPLP como observador consultivo. Afinal, galego e português são dois nomes para um mesmo idioma. Divergências políticas levaram a nomenclaturas distintas. Como disse, a seu tempo, Carvalho Caeiro, «o galego, ou é galego-castelhano ou é galego-português».

8 de novembro de 2017

A Revolução de Outubro.


   Assinalou-se, ontem, o centésimo aniversário sobre a Revolução de Outubro, ou de Novembro, no nosso calendário gregoriano. A 7 de Novembro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder numa Rússia em plena convulsão política e social. Lenine encabeçou um movimento que se opunha ao governo provisório vindo da Revolução de Fevereiro (ou de Março, no calendário ocidental) de cariz burguês e local, da classe assalariada.

    A estratégia de Lenine foi devidamente conjecturada. Para o conseguir, apoiou-se nos sovietes, ou seja, nas associações de trabalhadores e soldados. Estes órgãos de poder, democráticos na sua génese, inspirariam, mais tarde, em 1922, o nome do país: União Soviética.
    Depressa foram esvaziados nas suas competências e atribuições, que passaram para o partido único, organizado de modo centralista, que pôs em prática um programa de eliminação da classe média, erguendo uma sociedade dita socialista. Seria um primeiro passo. Lenine estava plenamente convencido de que o sucesso da revolução socialista passaria também por exportar o modelo para os países do ocidente europeu.

    O atraso estruturante tem sido invocado como um dos motivos que levaram ao sucesso dos bolcheviques. O estilo de governação absolutista, a sociedade fortemente estratificada e a participação na I Guerra Mundial proporcionaram a ascensão de movimentos que, tomando em consideração a realidade do país, com 85 % de camponeses, defendiam a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Os erros, entretanto, foram mais do que muitos. Sob a insígnia de inimigos da revolução, e sob o comando de Lenine, houve perseguições em massa; nem as crianças Romanov escaparam à fúria bolchevique. Seguiu-se-lhe, à Revolução, uma guerra civil, e não a prosperidade que é apregoada.

    Munida de boas intenções, a Revolução de Outubro viria permitir a institucionalização do terror e das práticas persecutórias. A ditadura do proletariado mais não foi do que a ditadura do partido comunista, com execuções sumárias e com deportações em massa.

    As grandes fomes continuaram, o atraso também. Os vícios que se apontavam ao czar e à sua administração foram transferidos para outro modelo, também ele devidamente centralista. A passagem da Rússia da enxada e do arado para superpotência teve um preço dramático para milhões de pessoas. A vida do operariado e do campesinato não mudou. Logo em 1918, um ano após a revolução, queixavam-se da falta de trigo e das péssimas condições de trabalho.

    O pior, quanto a mim, viria com o apoio a revoluções semelhantes um pouco por todo o mundo que orbitava em torno da influência soviética, pelo reflexo nesses países e pelo que teria noutros, a contrario, com regimes autoritários de direita fortemente anticomunistas. A Revolução de 1917 teve consequências na história do século XX como poucas.

    A Rússia de Lenine não conheceu a bonança como apregoa a historiografia pouco isenta. Seria Estaline, posteriormente, com as suas políticas de planificação, que conduziria a Rússia ao estatuto que atingiu, sem que os problemas estruturais do país e das repúblicas que anexou fossem sanados. Em verdade, os últimos anos da União Soviética poriam a descoberto as fragilidades de uma realidade assente na repressão, na violação sistemática dos direitos humanos e na instrumentalização do ser humano ao serviço de um Estado que, contrariando os planos de Lenine, nunca viria a ser abolido. A sociedade comunista jamais se concretizou. Ergueram, sim, um Estado totalitário, dirigido por uma elite indiferente ao bem-estar da população. Escudando-se numa educação politizada e programática, incutiam os seus valores torpes nas novas gerações, mas quem viveu em sociedades socialistas conheceu o terror, a carência de bens e serviços e a falta de um valor inestimável: a liberdade, até a de conformar o destino aos ditames da consciência de cada um, num livre e saudável desenvolvimento da personalidade.

21 de outubro de 2017

Klaus Nomi.


    Este post será ligeiramente contracorrente. Há muito que não me dedico a intérpretes ou canções; melhor dito, há muito que nenhum, ou nenhuma, me merece um destaque especial. Por estes meses, entre as minhas pesquisas, redescobri Klaus Nomi. Já lhe tinha passado os olhos há anos, sem me deter o suficiente. Klaus Nomi foi um artista ímpar. Hoje mesmo, se vivo fosse, estou em crer que seria incompreendido.

    Klaus era alemão. A carreira teve tanto de curta quanto de meteórica. No final dos anos 70, seria catapultada quando se mudou para Nova Iorque. Enquanto esteve na sua terra-natal, actuava na Ópera Alemã. Já nos EUA, impressionou a todos pelas suas vestes histriónicas, pelo penteado exuberante e pelas performances inusitadas e teatrais. Klaus, que era contra-tenor, soube conjugar o canto clássico e a pop-rock, uma junção que, na sua voz, soava sublimemente. Nos finais da década de 70, em torno de 1979, o não menos carismático David Bowie assistiu a uma das suas apresentações e convidou-o para actuar ao seu lado no programa televisivo Saturday Night Live. A comparência no programa tornou-o conhecido para o grande público norte-americano, permitindo-lhe gravar um álbum sob o selo da RCA, de título homónimo, encetando uma breve tour pela Europa e pela América, além de ter colaborado em projectos paralelos com outros nomes do meio.

    Em 1983, a sua saúde começou a acusar sinais de debilidade. Enfraqueceu, emagreceu, surgindo-lhe umas manchas estranhíssimas na pele, sobretudo no pescoço, que prontamente disfarçou ao usar uma gorjeira, adereço muito comum nas cortes europeias pelos séculos XVI e XVII. Acabou por falecer em consequência de complicações causadas pelo então desconhecido HIV.

    Antevendo a morte iminente, Klaus interpretou, em meados de 1983 (haveria de morrer em Agosto do mesmo ano, com trinta e nove anos), a ária Cold Genius, do Rei Artur, por Henry Purcell, compositor. Tratou-se de um momento emocionante e pejado de simbolismo. Um homem que, a morrer, canta a morte.

     Eis o depoimento, duro, de um dos poucos amigos que não o abandonaram durante as suas últimas semanas, Joey Arias: « Os médicos obrigaram-me a usar um traje de plástico quando o visitei. Eu estava proibido de lhe tocar. Depois de algumas semanas, pareceu ter melhorado. Tinha força para andar. Então, saiu do hospital e foi para casa. O seu gerente fê-lo assinar todos os papéis, como se a sua vida valesse quinhentos dólares. Ele desenvolveu kaposis (um tipo de lesão associada ao sarcoma de Kaposi, que é uma forma estranha de cancro de pele relacionado à SIDA) e começou a tomar interferon. Isso afectou-o terrivelmente. Tinha marcas em todo o corpo e os seus olhos tinham fissuras roxas. Era como se alguém o estivesse a destruir. Só costumava brincar com isso: "Agora chama-me o Nomi de pontos". Então, ele realmente enfraqueceu e nós levámo-lo para o hospital. Não podia comer comida por dias porque tinha cancro de estômago. O herpes brotou-lhe por todo o corpo. Ele tornou-se um monstro. Doía-me muito vê-lo assim. Falei com ele na noite de 5 de agosto, e ele disse-me: "Joey, e agora o que é que eu faço? Eles não me querem mais no hospital. Já me desligaram de todas as máquinas. Tenho de parar com tudo isto porque não estou a melhorar". Tive um sonho de que Klaus ficaria melhor e cantava novamente, só que desta vez um pouco deformado, de modo em que ele tinha de estar atrás de um ecrã ou algo assim. Eu disse: "Agora serás o fantasma da ópera. Vamos fazer apresentações juntas", e ele respondeu: "Sim, possivelmente". Mas Klaus morreu naquela noite enquanto dormia. »

       Deixo-vos o vídeo e algumas fotos deste artista tão ignorado.