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5 de setembro de 2017

Ainda o Acordo Ortográfico.


   O assunto está praticamente dado por encerrado entre todos, não obstante ainda proliferarem movimentos que se lhe opõem. Entre os organismos estatais, foi adoptado; órgãos de Comunicação Social e demais imprensa, de igual modo, gradualmente o implantaram, com uns quantos que se recusam. Há individualidades que lhe fazem frente, e eu, um fiel apoiante, vejo-me do outro lado. Não farei militância anti-AO, se bem que lhe retirei todo o apoio. Torna-se oportuno contextualizar.

    Quando o AO entrou em vigor em Portugal, adoptei-o na minha escrita, inclusive no blogue. Por pouco tempo, porque cedo me dei conta da minha impossibilidade em adaptar-me às novas regras, ainda que as tenha, por conta própria, estudado. Esteticamente, foi-me impossível. Mantive, entretanto, o meu apoio ao Acordo. Perfilhei da maioria das razões invocadas pelos seus defensores, as quais expus aqui no blogue - tenho textos escritos, antigos, sobre esta matéria; por 2011, inclusive, lerão textos meus com a ortografia reformada. O principal argumento prende-se à disparidade entre as normas portuguesa e brasileira. Consoantes mudas, acentuação gráfica, sobretudo, o que levava, numa primeira análise, a que os leitores se apercebessem das divergências quase incomportáveis num mesmo idioma, divergências essas que o enfraqueciam no plano internacional, designadamente na hora de um aluno escolher entre qual norma aprender. Anos depois, continuo a considerar este argumento como aceitável e pertinente. A Língua Portuguesa queda enfraquecida com tamanhas, embora não abismais, diferenças, que existem nalguns idiomas, como no inglês, mas que não existem noutros, como no castelhano, sendo que o português goza de bastante menos prestígio do que ambos.

     O que terá mudado? Sucintamente, o modo como encaro o Acordo. Continuo a ser partidário de uma uniformização, opondo-me veementemente ao processo em curso de simplificação. O Acordo Ortográfico de 1990 descaracteriza o idioma. A raiz etimológica, em detrimento do critério meramente fonético, sofreu um duro golpe. O primeiro foi-lhe dado justamente por Portugal, em 1911. Não sou um purista; todavia, não posso compactuar com este atentado ao idioma. Uniformização ortográfica, sim; AO de 1990, não.

     Também mudou a minha percepção política. Portugal viu-se quase que compulsivamente obrigado a ceder. Propôs-se, em 1945, que o Brasil reintroduzisse as consoante ditas mudas. O Brasil rejeitou. Quarenta e cinco anos depois, foi Portugal que se comprometeu em eliminá-las. Houve uma pressão desmedida sobre Portugal, que ainda é, muito embora geográfica e demograficamente menor, o país que viu nascer a Língua Portuguesa, com a Galiza - o idioma surgiu justamente na actual Galiza e no norte de Portugal, na Gallaecia. Outrossim, o Acordo serve propósitos duvidosos de uma parte da esquerda brasileira: simplificar, custe o que custar, porque, segundo defendem, " o português é difícil " (soube de um plano que preconizava, sem mais, a abolição de toda a acentuação gráfica). Seria a lógica de um inglês simples aplicada a um idioma romance. Talvez num futuro acordo, não? Pois não. Jamais. O mercado lusófono em África e na Ásia, em Timor, foi bastante sedutor às editoras do país irmão. O Acordo Ortográfico, sendo adoptado pelos PALOP e por Timor, derrubaria todos os entraves à comercialização de livros brasileiros na África Lusófona. É uma especulação válida, um tanto ou quanto demagógica, aceito, mas não é, de longe, o que me fez recuar. É apenas um exemplo dos interesses que se movimentam à retaguarda de um acordo aparentemente desprovido de qualquer outra intenção que não a defesa do idioma uno e coeso.

     O Acordo Ortográfico aproveita ao Brasil. Aproximou-se a ortografia da norma brasileira e simplificou-se. As mudanças no Brasil foram mínimas. Aboliu-se o trema e pouco mais. Não houve uniformização harmoniosa e razoável; houve, sim, um país que se soube impor sobre os seus parceiros. Mérito do Brasil. Inteiramente. Ora, não me é permitido transigir com um cenário que em nada dignifica as nossas relações no seio da CPLP e, menos ainda, a Língua Portuguesa, que considero um património imaterial de todos os lusófonos, não só dos brasileiros e dos portugueses, verdadeira pátria para mim, citando Pessoa.

     Serei sensível a todos os projectos equitativos de uniformização que não comportem lacunas e casos omissos como este (des)acordo (saberão, certamente, que o Acordo não uniformizou vocábulos como Humidade, em Portugal, Umidade, no Brasil, ou, citando outro exemplo, Beringela, em Portugal, Berinjela, no Brasil). Prevê duplas grafias, cá e lá. Surreal. Em breve, nem saberemos como escrever. O caminho para a arbitrariedade linguística está a descoberto. Há casos em que a consoante é ou não articulada. Aspeto e Aspecto, nomeadamente. Em Portugal, há quem a pronuncie, há quem não a pronuncie. O que dizer de Recepção, que no Brasil assim se escreve, e que em Portugal passou a Receção? Paradoxalmente, em razão do critério fonético, eis um vocábulo em que o Acordo veio desarmonizar. Receção que, diga-se, corre o risco de ser confundida com Recessão, de valor semântico totalmente distinto. Não sairia daqui.

     Não se brinca com uma língua comum a povos, com o idioma que aprendemos desde o berço, que utilizamos para exprimir os nossos sentimentos, medos, estados de espírito. O idioma faz a nossa identidade, liga-nos a uma sociedade, a uma nação. No limite, distingue-nos de croatas e de mongóis. É um elemento para ser encarado com toda a seriedade, e não pode ficar à mercê de conveniências e de politiquices baratas.

31 de agosto de 2017

Diana de Gales.


   Diana morreu há vinte anos. O mês de Agosto de 1997 foi complicado. Dias antes falecera a minha bisavó, e ainda estávamos a recuperar da sua partida, em luto, quando se deu o fatídico acidente em Paris. A morte de Diana, a Princesa de Gales, apanhou a todos de surpresa. Diana estava feliz e saudável, no auge dos seus trinta e poucos anos. Conhecera a felicidade há relativamente pouco tempo, ao lado de um insuspeito milionário de origem árabe. Sabíamos-lhe a vida através das revistas do social e dos paparazzi, que tanto transtorno lhe causaram.

   A princesa foi uma vítima do assédio, do protagonismo, que ela soube aproveitar quando lhe interessou. Não digo que tenha sido oportunista; pelo contrário, Diana teve de aprender a lidar com o facto de ser a mulher mais fotografada do mundo. Se não os podes vencer, junta-te a eles. Aprendeu a lição.

    O divórcio de Carlos foi conturbado. Eu saberia, nove anos depois, do que isso se tratava... Muito se especulou. As figuras da monarquia são pessoas como as demais. Apaixonam-se, traem, choram, gritam. Seguem estritamente as regras do protocolo, mas nem a austera realidade os consegue afastar da condição de pessoas. Quer-me parecer que Diana queria ser feliz, um desejo muito legítimo numa mulher bonita, jovial, que havia passado por um casamento de fachada. Diana tentou, quando estava com os filhos, proporcionar-lhes momentos tão normais quanto possível. Ela conhecia, melhor do que ninguém, o preço a pagar por se estar sob os holofotes da imprensa, do povo, da rainha, também.


    Diana teve um fim trágico. A sua memória, entretanto, perdura. Temos presente o seu sorriso algo tímido, belíssimo, a classe no trato, a elegância nas atitudes, nas indumentárias. Era uma senhora. A única que fez frente à rainha no coração dos britânicos. O povo amava-a mais do que à soberana, mais do que ao príncipe herdeiro. Admirava-lhe a coragem, a simpatia, a índole.

    Diana de Gales figurará na história entre as mulheres que se tornaram mitos. A imprensa, que a perseguiu, transformou-a num, quando, muito provavelmente, não terá sido mais do que uma menina infeliz e encantadora.

29 de agosto de 2017

O Brasil, uma vez mais.


   Talvez seja cedo para antecipar as eleições presidenciais no Brasil. A bem dizer, esta publicação vem ao encontro de um desejo meu, antigo, de explicar o que me passou a mover contra alguns políticos brasileiros, nomeadamente de esquerda. Dilma Rousseff e Lula da Silva não são uma novidade no blogue. Durante todo o processo de destituição da anterior Presidente, e não Presidenta, dei ampla cobertura a estes dois ex-dirigentes e à realidade que se vivia no Brasil.

    A Comunicação Social é um verdadeiro quarto, ou quinto, poder, dependendo das formulações. Eu coloco-a em quinto porque, à tradicional divisão tripartida, acrescento o poder moderador. É outro assunto. Quando os ecos da destituição de Dilma chegaram a Portugal, iniciou-se o movimento de solidariedade com a, à época, Chefe de Estado e de Governo.  Sabemos em como a esquerda é prodigiosa em adulterar dados e factos; em promover-se, sendo directo. E aqui falo da esquerda radical. Esta mesma esquerda é aquela que ombreia uma eventual candidatura de Lula às presidenciais do ano vindouro. Temer substituiu Dilma, as hashtags populistas inundaram as redes sociais e chamou-se de golpe a um processo que cumpriu todos os trâmites e formalidades constitucionais e legais.

    Os portugueses, claro está, observam à distância de um Atlântico. É mais fácil, e cómodo, perfilhar do óbvio sem procurar aprofundar, ver além do que buscam impingir. Eu também, assumo, pela minha adolescência, nutri alguma simpatia por Lula. Vi-me embalado na propaganda de um país mais justo, menos pobre, mais solidário e igualitário. Cedo percebi que a idoneidade da classe política brasileira é discutível da esquerda à direita, e apoiar por apoiar, apoio quem demonstra respeito, ao menos respeito, por Portugal. E encontrei esse respeito na direita brasileira, eventualmente em Temer.

    Lula e Dilma não gostam de Portugal. Odeiam a herança portuguesa. Odeiam a norma culta do idioma. A esquerda brasileira encetou uma política clara de aniquilamento da herança portuguesa no Brasil e de exaltação das componentes africana e indígena. Marcos Bagno, linguista (já entenderão o porquê do itálico), afecto à ex-Presidente, defende que o português falado no Brasil é outro idioma, que já se afastou o suficiente da norma portuguesa-africana-asiática para assim ser considerado. Defende, nesse sentido, a institucionalização de um português mal escrito e mal falado que desrespeita todas as regras gramaticais. O motivo é simples: o ressentimento visceral face a Portugal, uma negação do legado linguístico, cultural, histórico, social e étnico português no Brasil. Parecer-vos-á um absurdo, certamente, como a mim, porque não há paralelo de algo semelhante na América de línguas castelhana ou inglesa. Também Lula, há não muito tempo, culpou Portugal dos males que afligem o Brasil, esquecendo-se dos duzentos anos de independência daquele território e do desinvestimento da república brasileira na educação do seu povo. Reconheço os erros de Portugal, mas não falamos dos PALOP, independentes há quarenta anos. Portugal é o bode expiatório de políticas posteriores à independência que levaram o Brasil ao estado caótico em que se encontra, em inúmeras áreas.

    A direita brasileira, que não padece, quanto a Portugal, de um mal chamado xenofobia, reconhece o inestimável contributo português na formação e consolidação de um país de proporções continentais como o é o Brasil. Portugal é o obreiro do Brasil. Para tal, analise-se o mapa daquele país aquando da independência. O império, nomeadamente com Dom Pedro II, concretizou o que Portugal iniciara séculos antes, que houve movimentos secessionistas após 1822, prontamente sufocados. Há, da parte desses brasileiros, interesse em manter acesa a chama do nosso vínculo cultural e linguístico. Exorta-se a história que nos une. Ora, enquanto português, não conseguiria ser indiferente a tamanho apreço e até, em alguns casos, dedicação. Procura-se repor a verdade, adulterada por um fenómeno conhecido como marxismo cultural, ou seja, pura campanha demagógica e populista de uma esquerda radical, intolerante e ignorante.

    Simpatizo com Michel Temer, sim, e não tenho de me sentir mal por isso - alguma esquerda também lida mal com a livre expressão e com a livre opção política. Além de me parecer um homem informado, tenho-o como minimamente educado: sabe estar, conversar, os seus discursos são lógicos e coerentes. E tem políticas que - e repare-se que a minha análise é e pretende ser a de um português tradicionalista quanto à História - são fundadas e equilibradas no que concerne a Portugal e à Lusofonia. Procurou reverter a abominável Lei do Espanhol, de Lula da Silva, que vendia o Brasil aos países parceiros e vizinhos, consagrando-se o ensino daquele idioma sem se averiguar da reciprocidade desses países no ensino do português. Em suma, Temer e a direita brasileira vêm adoptando medidas que manifestamente protegem o legado português e a identidade brasileira, que é muito portuguesa - e o tanto que isto incomoda a essa esquerda.

    A seu tempo, acompanharei a par e passo as eleições presidenciais no Brasil, um país irmão que estimo e que procuro ver próximo a Portugal tanto quanto possível.

24 de agosto de 2017

Angola.


   Angola vive dias de indefinição. Depara-se com a continuidade, apregoada pelo MPLA, e a mudança, no momento em que José Eduardo dos Santos se despede da vida política activa.
    Não sou um conhecedor profundo, nem perto disso, da realidade angolana ou do seu panorama político. Sei o que um português interessado procura saber, o que no meu caso equivale a inteirar-me do quotidiano dos angolanos.
    Angola esteve ligada a Portugal até 1975. O corte foi abrupto e provocou mágoas e ressentimentos em ambas as partes. E se Angola é um dos principais parceiros na lusofonia, também é verdade que, de entre os oito, é aquele com o qual Portugal mantém relações tensas. As culpas são, uma vez mais, de portugueses e de angolanos. Quanto a nós, porque temos, assumidamente, dificuldade em entender Angola como um país independente, que se relaciona com Portugal por igual. Temos certo ascendente histórico, a independência é recente, o que nos leva a alguma ingerência nos seus assuntos internos, ao passo que os angolanos, muitos, olham com desconfiança para Portugal, a velha potência opressora. Atitudes mesquinhas também se dão quer por cá, quer por lá. Recentemente, órgãos de comunicação social portugueses deixaram de ser emitidos pelas empresas de telecomunicações de Angola.

     O regime que actualmente vigora em Angola assenta numa oligarquia autocrática. Um partido e uma família que tudo superintendem. Eu, bem como alguns angolanos com quem tenho falado, não acredito que José Eduardo dos Santos prescinda de manter, nos bastidores, a sua posição altamente privilegiada. Talvez a doença que o acometeu seja o principal obstáculo, e quem sabe ela possa explicar este afastamento voluntário.
      O acto eleitoral de ontem, dia 23, é o quarto em precisamente quatro décadas de independência. O MPLA tem ganhado todos. Perpetua-se no poder, negando o verdadeiro multipartidarismo e a coabitação democrática aos angolanos. As eleições, pelo que pude apurar, sem prejuízo de alguns rumores de perturbações, decorreram dentro da normalidade. Indica-se que o MPLA, claro favorito, está bem posicionado. Reclama ampla maioria.
      Confio no labor dos observadores internacionais, mas não poderei depositar fé caso o MPLA saia vitorioso. Pressinto esse desejo de mudança nos angolanos, pelo menos nos que conheço, e imagino os tentáculos que um partido que governa há tantos e tantos anos deve ter em todos os sectores da sociedade angolana. Naturalmente, será de esperar que algum dos partidos que concorreram queira impugnar este acto eleitoral. Já sucedeu o mesmo no passado, com a UNITA, mergulhando o país numa fratricida guerra civil até 2002.

      Não sei, não sabemos, se será desta que Angola encontrará o caminho das liberdades cívicas. Este acto eleitoral encheu-me de esperança, pelos angolanos. Uma representação partidária parlamentar mais abrangente e equilibrada refrearia o ímpeto despótico do MPLA, que, vendo-se sem o seu líder carismático, poderia aceitar proceder a uma progressiva maior abertura do regime. Seria bom para nós, para os cerca de cem mil portugueses a residir em Angola, e excelente para os angolanos, que o coração do progresso não passa sem uma democracia, ainda que a despontar.

21 de agosto de 2017

O terrorismo jihadista.


    Somos persistentemente assombrados por atentados terroristas. Como previ, sucedem-se diariamente. Nos últimos dias, houve dois na Catalunha, um na Alemanha, outro na Finlândia e um em França, muito embora, pela informação que tenho, só o da Catalunha, que provocou treze vítimas mortais, entre as quais duas portuguesas, foi reivindicado pelo grupo islâmico Daesh.

     Demorei a entender, mas apercebi-me dos iníquos planos. Sou, regra geral, tolerante, e desde sempre soube fazer a distinção entre islâmicos moderados e extremistas, que os há em qualquer religião. Lidei, inclusive, pela adolescência, com uma colega muçulmana, com a qual ainda mantenho o contacto. Conversamos com alguma regularidade. Todavia, o extremismo tem recrudescido, não descartando eu a nossa responsabilidade, enquanto ocidentais, no fomento dos conflitos no Médio Oriente.

      A coabitação entre cristãos e muçulmanos nunca foi pacífica, e os confrontos sucederam-se pela história. Na península, quando a ocuparam, sendo derrotados em Poitiers, por Charles Martel, em território francês, vendo-se obrigados a recuar nos seus intentos expansionistas pelo Velho Continente. Os reinos cristãos peninsulares viram-se, assim, em mãos com a necessidade de proceder à reconquista, que foi terminada, na parte portuguesa, no século XIII. Definitivamente derrotados em Granada, já em finais do século XV, acalentam, ainda hoje, o desejo de recuperar a Al-Andalus.


     A Europa atravessa um período de inversão demográfica, de envelhecimento da sua população, que vem sendo substituída por levas de pessoas oriundas do Médio Oriente, sobretudo. Há, da parte dos jihadistas, um plano claro de aniquilamento da nossa religião e cultura, de domínio do continente europeu. Estes sucessivos atentados visam semear o pânico e a desordem nas sociedades ocidentais, alicerçadas em valores como os da paz e da liberdade. O assédio às nossas estruturas reporta-me às progressivas investidas dos bárbaros no Império Romano, até que o tomaram por assalto com a queda da Roma, nos finais do século V.

     No passado, entendíamos o perigo. Batíamo-nos pelo que acreditávamos ser a fé verdadeira, não nos acobardávamos à ameaça. Dom Afonso Henriques, em Ourique, no século XII, deu um decisivo passo no processo de expansão do Reino a sul; na Batalha do Lepanto, em finais do século XVI, a Liga Santa conseguiu suster os planos dos otomanos de se expandirem, uma união que também se dera, mais de duzentos anos antes, entre portugueses e castelhanos, na península, quando, juntos, derrotaram as forças dos merínidas, na Batalha do Salado. Mais recentemente, D. João V, em 1717, há exactamente trezentos anos, auxiliou os Estados Pontifícios contra os otomanos, na Batalha de Matapão.

     Presentemente, não podemos condescender com os ataques reiterados à civilização ocidental e à matriz cristã. Temos de responder em consonância, e eficazmente, para que a nossa ordem de valores não vergue. O que sinto, sim, é que agimos à defesa, posteriormente, porque ainda temos dificuldade em aceitar que estamos, todos, em guerra. Deparamo-nos, talvez pela primeira vez, com o pior dos terrorismos, o cobarde, o que sacrifica qualquer um da forma mais vil. Já lograram em intimidar-nos.

17 de agosto de 2017

Madre Paula.


   A RTP decidiu-se a apresentar uma série histórica baseada em obra homónima. Madre Paula vem colmatar uma sentida lacuna. Por um lado, estimula o interesse dos portugueses pela sua história, tão subestimada, sobretudo numa era em que as ciências exactas dominam; pelo outro, é mais uma aposta na ficção nacional de qualidade.

    Tomei conhecimento da série com enorme entusiasmo, ou não fosse aquele período - inícios e meados do século XVIII - um dos meus favoritos, junto a D. João V, o meu monarca de eleição. A vida íntima do monarca é conhecida; a sua predilecção por monjas, as suas visitas recorrentes ao Mosteiro de Odivelas, onde se entregava ao pecado. D. João V foi o que poderíamos designar de imoral. A devassidão, a corrupção e os excessos de todo o tipo pautaram o seu longevo reinado. As remessas de ouro brasileiro permitiram-lhe levar uma vida de fausto e ostentação, havendo a registar que os cofres do reino estavam depauperados aquando da sua morte, em 1750.

     Madre Paula, ou Paula Teresa da Silva e Almeida, foi uma das noviças que caíram nas boas graças do Rei. Soube insinuar-se, soube afastar os rivais do seu caminho e depressa chegou a favorita de D. João V. Na série, interpretada por Joana Ribeiro, é uma rapariga ambiciosa, pouco clemente, que não hesita em interceder junto d'El-Rei para obter benefícios pessoais. A actriz, quanto a mim uma ilustre desconhecida, vem tendo um desempenho acima da média, bastante convincente. Não tinha a Madre Soror Paula por tão franzina, sendo bem verdade que jamais li qualquer descrição física a seu respeito. Paulo Pires, esse sim consagrado, dá corpo ao Magnânimo, e consegue fazê-lo com maestria. No tocante às interpretações, a série é uma mais-valia. Uma palavra também para Sandra Faleiro, esplêndida enquanto a austríaca D. Maria Ana, a Rainha inconformada com as infidelidades conjugais do marido.

      D. Francisco de Bragança é outra das personagens de Madre Paula. Acreditando eu que o grande público o desconhecesse, eu conhecia-o de leituras que fiz. Era um homem de péssima índole, e acalentava o sonho de destronar o irmão, tal qual o pai, D. Pedro II, o mui alto e mui poderoso, fez com o irmão, seu tio, o incapaz D. Afonso VI. Este enredo alternativo, se tanto até ao momento, sétimo episódio, aguçou-me a vontade de não perder um único episódio.

     A RTP foi audaz em incluir a relação homoafectiva entre um clérigo, o confessor do monarca, e um nobre. A série em si é uma prova de coragem para aquele horário. Contém cenas de forte teor sexual, bem explícitas. Será tudo menos um programa familiar das noites de quarta-feira.

     A par da valorização da nossa história e de se tratar de uma produção nacional, a série contribui decisivamente para um melhor conhecimento do século XVIII português, quais os seus rostos e superstições, o que pensavam, o que faziam, a que vícios se entregavam. A caracterização, os cenários e os figurinos ajudam-nos a que nos ambientemos à sociedade portuguesa de há trezentos anos. O que ressalta da série, no imediato, como referi de início, é a degeneração das instituições, quer políticas, quer religiosas, a promiscuidade entre elas, normalíssimo no auge do absolutismo régio. A Corte era, com efeito, um antro de perdição e de crendice, e D. João V até foi, não obstante a sua esmeradíssima devoção, um monarca sensível a avanços científicos, parcos naqueles tempos. A imagem de fanático religioso deve ser contrabalançada com a de monarca prudente. Se pecou, pecou na companhia do povo, instituindo, não raras vezes, dias de folga para que todos pudessem assistir ao aparato das suas cerimónias.

     Temos uma história riquíssima. A RTP e outras emissoras podem e devem apostar em ficção semelhante. Poderia elencar um sem-número de factos, dos nossos perto de novecentos anos, que dariam séries de inegável interesse. Deixo-o à sensibilidade de quem de direito. Agradeço, agradecemos, mais Madres Paulas.

4 de agosto de 2017

Venezuela.


   A Venezuela vive tempos conturbados. Desde que Chávez faleceu, o mentor da Revolução Bolivariana, e de que Maduro assumiu o poder, que a situação no país se deteriorou. O último episódio da interminável novela prende-se à eleição para uma Assembleia Constituinte que terá poderes para elaborar uma nova Lei Fundamental. Esse acto eleitoral não foi reconhecido pela comunidade internacional, não só, mas também, por suspeitas de fraude. O que Maduro pretende, em verdade, é perpetuar-se e à sua ideologia, limitar os poderes do Ministério Público venezuelano e silenciar a oposição. Tem havido uma campanha suja, difamatória, para se equiparar a oposição a Maduro, por parte de apoiantes do presidente venezuelano, quando não fazê-la passar por uma quadrilha. Maduro conta com o suporte de vários esquerdistas radicais, designadamente, em Portugal, do PCP.

    A posição de Portugal tem sido a de se procurar um consenso com os parceiros europeus sem, contudo, lesar os interesses dos cerca de quinhentos mil portugueses e luso-descendentes que residem naquele país do continente sul-americano. Compreendo as reservas do Governo. Acautelar a segurança dos cidadãos nacionais é uma prioridade. Portugal não pode entregar nas mãos de Bruxelas toda a sua política externa. Somos um país de emigrantes. Temos de contar com represálias aos portugueses se o Governo se manifestar contundentemente contra Maduro. Demos, todavia, um passo acertado, no meu entendimento, ao nos termos posicionado contra a eleição para a Constituinte.

    Temo que o país siga um caminho dramático de guerra civil. Para lá se encaminha. Nesta matéria muito sensível, temos de ter a sensibilidade de pôr de parte as diferenças políticas. O regime de Maduro é atroz, é tirânico. As simpatias ou antipatias com os EUA não devem condicionar o nosso humanismo. Falamos de uma ditadura. Falamos de um homem que pretende subverter a Constituição e a democracia aos seus ditames. O povo venezuelano merece-nos o respeito e a solidariedade nestes momentos particularmente delicados. Também lutámos pelo estabelecimento de uma ordem democrática e respeitadora dos direitos humanos, muito embora vivamos há décadas em democracia e esses nos pareçam ser valores seguros, adquiridos.

     Não sei até que ponto o eventual embargo económico / petrolífero possa prejudicar Maduro. Vejo as sanções como mais um castigo sobre o povo venezuelano. Uma intervenção armada também seria um acto hostil desmedido e precipitado - e imprudente - na medida em que o intervencionismo externo, máxime no Médio Oriente, produziu o caos social, superlativo ao que se viverá, direi eu, na Venezuela. O que me é garantido, sim, é que não podemos encarar esta eleição como um acto de soberania legítimo, reagindo apática e indiferentemente à agonia dos venezuelanos, correndo ainda o risco de ver Maduro exportar o seu modelo para os vizinhos. O Brasil terá eleições em 2018. Lula espreita o poder.

1 de agosto de 2017

Dias Difíceis.


    Desde que o Governo assumiu funções que não se havia deparado com tamanhas polémicas desestabilizadoras da solução governativa alcançada. O mais caricato é que há maior demérito do Governo do que mérito da oposição. Antes de começar, quero deixar claro que tenho sido, e continuo a sê-lo, um apoiante do Governo e da aliança à esquerda; todavia, sou independente e fiel apenas à minha consciência.

    O PS não soube lidar com a tragédia de Pedrógão e com o furto de Tancos. Houve desautorizações, falta de liderança. Os ministros com as respectivas tutelas disfarçaram mal o desnorte, e ficou evidente que, quer num e quer noutro caso, houve indolência do Governo, para ser simpático. Falharam as redes de informação interna, falhou a segurança nos paióis. Reuniões, que por lei são obrigatórias, deixaram de ter lugar... Em ambas as situações, o Governo viu-se fragilizado. António Costa, até então tão seguro, procurou contornar as polémicas, mas parece-nos evidente que este governo não é o governo do início do mês de Junho.

    Entretanto, do lado da oposição deparamo-nos com o seu maior partido, o PSD, sem rumo e orientação política, refém das autárquicas, direi eu, para substituir o presidente. O acólito CDS, através da sua líder, tem-se saído melhor. Pedro Passos Coelho deu um tiro no pé ao levantar suspeitas sobre o número de mortos, os alegados suicídios. A imprudência veio-se a confirmar. E a actuação do Governo tem sido profícua em casos: as viagens de Secretários de Estado, as máfias das matrículas escolares em Lisboa (o Ministério da Educação tem algo a dizer), a CGD, o SIRESP... Só a desorientação da oposição justifica que, entre tanto caso problemático, nada tenha resultado daqui, nenhuma consequência política ao Governo - falo-vos de uma moção de censura. Provavelmente tê-la-ão guardado para um momento (ainda mais) oportuno.


    Da parte do outro agente político, o Presidente da República, deu-se um afastamento face ao Governo, uma dissonância ainda tímida. Enquanto Comandante Supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa, e compreensivelmente, sentiu um certo desconforto. Visitou os paióis, foi ao « limite dos poderes ». Na altura, e quando escrevi sobre o assunto (uma das minhas últimas crónicas), critiquei-o pela apatia. Ora bem, a sintonia já não é total. Sucedem-se os recados políticos - e um Presidente deve-os à nação - e pairou, pelo menos na entrevista concedida ao Diário de Notícias, a hipótese da "bomba atómica". Falou-se nela. Falar-se nela já indicia algo. O Presidente da República foi claríssimo, no meu entender, quando aludiu à demora dos seus antecessores em dissolver a Assembleia, procurando evitá-la, vendo-se obrigados a fazê-lo, ou seja, Marcelo não hesitará em dar uso aos poderes que a Constituição lhe confere quando sentir que o actual consenso governativo se esgotou.

      Se tanto na política, o Verão tem sido bem quente. Não tivemos ainda semanas mortas. Em Setembro ouviremos falar muito nas autárquicas, que têm, em Portugal, uma interpretação política clara: há partidos vencedores e vencidos. Todos estão à espera do resultado das autárquicas para definir o futuro.
      O Governo atravessa o turbilhão. Está sob a tempestade, esperando que ela passe provocando os menores danos possíveis à credibilidade e à reputação do executivo. Os próximos tempos ditarão o nosso futuro a médio prazo.

26 de julho de 2017

A discriminação sexual nos tribunais nacionais.


   Uma cidadã portuguesa viu o seu pleito decidido favoravelmente pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Estava em causa uma decisão judicial do Supremo Tribunal Administrativo, que havia reduzido a indemnização fixada anteriormente num caso de negligência médica. A fundamentação provocou enorme alarido, pois aquela instância judicial arrogou-se o direito de dispor sobre as idades da sexualidade humana, considerando que, aos cinquenta anos, o sexo não desempenha o mesmo papel.

    Desde logo, pareceu-nos mais um caso de sexismo nos tribunais portugueses, um entre tantos. Assim entendeu o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. A discriminação em função do género tem um longo historial na jurisprudência portuguesa; é particularmente notória nos casos de abuso sexual, numa tendência que vem diminuindo, sim, acompanhando a evolução natural que se efectivou na sociedade portuguesa, todavia ainda presente.

    Há uma tendência quase irresistível nos magistrados portugueses para, em tom paternalista, distinguir entre o homem e a mulher, as necessidades de uns e de outros. Não raras vezes o homem é representado como aquele que age por instinto, por natural avidez sexual, e a mulher, a vítima, como o agente sedutor que despoletou, por assim dizer, uma reacção incontrolável no macho latino.

    No seio do matrimónio, o sexo é entendido, pelos tribunais portugueses, como um dos deveres conjugais, que não o é (ou não o devia ser). A recusa de um cônjuge em manter relações sexuais está na esfera do seu direito a fruir livremente da sexualidade, e isso contempla ter ou não ter relações sexuais. Casar não nos vincula, per se, ao dever de ter sexo para suprir as necessidades do esposo ou da esposa. O sexo faz parte, mas não é uma obrigação e nem nos pode ser exigido.

    Os magistrados são homens e mulheres. A sociedade em que estão inseridos não lhes é indiferente. Fazem a sua interpretação da lei, que assenta, queiramos ou não, nos seus preconceitos. Transportam-nos para o tribunal, causando-nos maior perplexidade ao termos conhecimento de magistradas que, pela imparcialidade, se esquecem da sua condição de mulheres quando se vêem em mãos com casos que envolvem vítimas do sexo feminino.

     O que se pretende é que o homem e a mulher, para efeitos de apreciação judicial, sejam iguais. A cidadã que viu o Supremo Tribunal Administrativo considerar que, por ser mãe e ter aquela idade, o sexo não lhe seria tão importante, pode estar segura, porque eu estou, de que outro entendimento teria aquele órgão judicial se as lesões infligidas tivessem ocorrido num homem. O tribunal entendeu que a mulher, deixando de ser fértil ou porque já gozou das maravilhas da maternidade, deixa de atribuir ao sexo a importância que este assume, entendendo-se, então, que a relação sexual visa a procriação somente. Para os tribunais portugueses, mui sucintamente, o sexo é um dever conjugal e tem como objectivo a perpetuação da espécie. É assim que estamos.

     O TEDH condenou o Estado português, numa decisão que louvo. Não podemos continuar a tolerar e a condescender com estes preconceitos enraizados, inclusive entre os magistrados. Os tribunais não devem substituir-se à nossa consciência do justo e do injusto, e tudo isto, a qualquer cidadão minimamente razoável, assemelha-se a um rol de aberrações jurídicas.

12 de julho de 2017

Tom of Finland.


    Interrompi as minhas terças dedicadas ao cinema porque nenhum filme em cartaz me entusiasmou, até que soube da estreia de Tom of Finland, no dia 6. Não conhecia o artista, sendo um filme biográfico, mas gostei da sinopse, e decidi-me logo a reservar o dia de ontem.

    Por curioso que seja, jamais ouvira falar de Touko Laaksonen. Não posso afirmar que nunca me tenha deparado com quaisquer dos seus desenhos. São conhecidos. Entretanto, e talvez por não se tratar de uma arte que me merecesse mais aprofundamento, atribuí-os à cultura massificada da pop art. Julguei-os um tanto ou quanto kitsch. Estava enganado, na medida em que o trabalho de Touko despontou logo após a sua participação nas fileiras da Finlândia na II Guerra Mundial, a julgar pelo filme biográfico. A residir com a irmã, Touko expressou no papel o desejo que o consumia, mas que não se esforçava por reprimir. As suas incursões em jardins públicos nocturnos e em bares alternativos revelam um homem aventureiro, já bastante seguro da sua condição de homossexual, e com uma libido que o levava a arriscar-se à condenação social e à forte repressão policial.

    Não foi na Europa que se tornou conhecido. Também na Alemanha, país no qual passou uma temporada, Touko passou por peripécias e por alguns constrangimentos só resolvidos através dos contactos que fizera enquanto militar. As experiências homossexuais vinham desde as trincheiras. Oficiais envolviam-se em momentos de êxtase pela noite, protegidos por árvores e arbustos. Um deles, seu superior, haveria de encontrar em Berlim como cônsul da Finlândia. De regresso ao país-natal, participou em festas homossexuais na casa desse diplomata, sob o olhar complacente da mulher deste último. Uma delas terminou abruptamente com uma denúncia feita à polícia e com várias detenções. O diplomata, afastado da carreira, foi compulsivamente internado numa clínica de reabilitação para curar-se do mal que o afligia, diga-se, da sua preferência por homens.

    Como referi, foi nos EUA que a obra de Touko, já enquanto Tom, pseudónimo que escolheu para se proteger, que viria a ter o acréscimo de of Finland dado por um correspondente americano, se popularizou, principalmente entre a emergente comunidade homossexual de Los Angeles e de São Francisco. Os seus desenhos tornaram-se tão conhecidos que todos queriam vê-los, queriam saber quem estava por detrás daquelas representações homoeróticas controversas. A fama levou-o a várias viagens à Califórnia. O companheiro, que havia conhecido décadas antes, e cujo amor disputou com a irmã, morreu de cancro da garganta no meio deste zénite de reconhecimento. Para Tom, a década de 70 trouxe-lhe as exposições, o dinheiro, mas a década de 80, com o surgimento da misteriosa epidemia que atingia os homossexuais, conduzi-lo-ia de novo à ostracização e aos ambientes segregacionistas. A sociedade culpava os seus desenhos de serem um estímulo às práticas nocivas que propagavam o vírus. Viu morrer amigos, conhecidos. Dez anos depois, em 1991, um enfisema provocou-lhe a morte. Os desenhos sobreviveram-lhe.

     O filme tem interesse. Julgo que lhe terá faltado um pouco de emotividade na parte final, que é tristíssima. De igual modo, senti alguma ausência de carisma por parte dos actores. Se há filmes que são salvos pelas interpretações, eu creio que neste caso foi a história que encobriu alguma desatenção dos actores. Há cenas mais sensíveis, muito cabedal, troncos desnudos, homoerotismo do primeiro ao último momento. Torna-se interessante constatar que o filme começa com um ambiente de profunda repressão para terminar nos loucos anos 80, que vieram permitir dar azo a todo o tipo de fantasias. A comunidade homossexual entregou-se a excessos, e Tom, aí, foi igualmente precursor, pois a última fase da sua obra evidenciava um cuidado em retratar aqueles motoqueiros viris com preservativos, numa mensagem clara para que a comunidade se protegesse da epidemia.

      Aconselho a quem se interessa por estes meandros, muito embora haja pouco de inédito; só as vivências do protagonista, por se tratar de uma biografia. Muitos filmes abordam o submundo dos encontros fortuitos entre homens, os anos iniciais da epidemia de HIV, logo, aí terão quase que uma repetição do que já foi sobejamente explorado pela indústria cinematográfica. Mas não perdem nada se resolverem vê-lo.

4 de julho de 2017

O furto de Tancos.


    Após os terríveis acontecimentos em Pedrógão e lugarejos vizinhos, o país acordou para outra polémica, distinta, mas com consequências potencialmente mais danosas numa perspectiva a longo prazo. Falo-vos do desaparecimento de arsenal bélico de dois paióis de Tancos. Um caso envolto em mistério, que a Comunicação Social vem tratando como um roubo. Ora, eu presumo que já uma vez terei feito menção à necessidade que os jornalistas têm de algum aprofundamento jurídico. O Direito e a Política andam de mãos dadas. Só por aí valeria a pena. Meus senhores, não houve nenhum roubo. Que se saiba, o material foi furtado. Não houve coacção sobre qualquer militar para que se desse a subtracção daqueles artefactos. Chamem-lhe preciosismo, mas o rigor nunca fez mal a ninguém.

     Este episódio deixa o Exército numa situação de falência junto da opinião pública, de profundo descrédito. Os portugueses não confiam nas instituições. O Exército, sendo um dos ramos das Forças Armadas, é um dos garantes da independência nacional, da manutenção do Estado de Direito. A idoneidade dos militares deve ser total. Suspeita-se que houve colaboração de alguém do Exército, ou seja, é a própria instituição que está em causa. Há bem pouco tempo, tivemos o caso dos comandos que morreram em exercícios. A páginas tantas, perguntamo-nos, legitimamente, acerca do que se passa no seio do Exército. O Presidente da República, como Comandante Supremo das Forças Armadas, deve aqui adoptar uma postura firme e deixar-se de palavras vãs. Ainda não ouvi, da parte do Senhor Presidente, um comunicado sério ao país. Passando ao Governo, a indiferença tem sido de uma infâmia com os cidadãos. Está em causa a imagem de Portugal no exterior e a própria segurança interna. Não sabemos qual será o destino daquele material, se o mercado negro, se um conflito armado qualquer, se um acto terrorista, inclusive por cá. A responsabilidade deve ser apurada, desde quem  tem a tutela até aos militares. Não simpatizo com Assunção Cristas, todavia devo dizer que cumpriu com o seu papel enquanto líder de um partido da oposição: questionou o Governo, reuniu-se com o Presidente da República e expôs ao país a sua apreensão. Fez o que lhe competia. Exigiu a demissão do ministro que detém a pasta da Defesa. Bom, eu não veria com maus olhos a sua substituição. Não tem, no meu entender, condições para se manter no Governo, e já tivemos casos de ministros que foram afastados por muito menos.

      De igual modo, incomoda-me o destaque que a imprensa espanhola tem dado ao caso. Compreendo que seja do interesse do Estado vizinho inteirar-se da situação, e segundo consta o Governo terá enviado aos seus parceiros um inventário do arsenal desaparecido, mas a publicação detalhada de cada artefacto, a pormenorização, não é própria quando se trata de um assunto que diz respeito a um outro Estado soberano. Com os incêndios, também houve o que na altura me pareceu uma ingerência mal dissimulada, em tentativas de descredibilizar o Governo, que é de esquerda, procurando-se evitar um arranjo semelhante por lá.

       É um assunto que está na ordem do dia, que me inquieta. A Comunicação Social é de modas, e não tarda dará lugar a outro e a outro. Eu não me esquecerei dele. Creio que ainda não entendemos a gravidade desta ocorrência, o desprestígio e a perigosidade que acarreta. É a primeira verdadeira crise que poderá abalar o Governo, que sempre apoiei, junto à catástrofe de Pedrógão. Está muito por explicar, há inúmeras perguntas sem resposta e exige-se, exige-se, uma decisão muito contundente do Primeiro-Ministro após a investigação levada a cabo pela Polícia Judiciária e pela Polícia Judiciária Militar.

30 de junho de 2017

Portugal na Taça das Confederações.


    Quem me conhece e me acompanha, sabe que presto toda a atenção aos torneios da UEFA e da FIFA, primordialmente, muito embora tenha assistido aos jogos da Copa América Centenário, no ano passado. Bom, tudo pertence à FIFA, em última instância, que é o organismo internacional que regula o futebol em todas as suas modalidades - e tem mais membros do que a ONU, o que não deixa de ser uma curiosidade.

    Pois bem, assim foi com esta competição, mirim, talvez, pelo número de selecções participantes. A Taça das Confederações reúne os campeões de cada confederação de futebol, e são vários: da América, da Ásia, de África, da Oceânia, da Europa, mais o país-sede, o campeão do mundo e quiçá outro. Portugal, pela primeira vez na sua história, por se ter sagrado campeão da Europa, participou nesta edição da taça, representando-se não apenas a si mas também ao seu continente.

    Como todos os portugueses que acompanham a selecção, eu depositei fortes expectativas neste conjunto que bateu a França em Paris. Pelo menos chegar à final. Não seria tarefa fácil. Defrontaríamos os campeões de cada confederação. Tivemos uma exibição muito à Portugal, a que apresentámos no Euro: vitórias esforçadas, à tangente, múltiplos empates. Parece que ganhamos e passamos sempre com um bocadinho de sorte. Sorte que desta vez não tivemos, pois desengane-se quem crê que fomos diferentes. É provável que tenhamos jogado com menos garra, e eu fui levado a julgá-los, ao grupo, modificados; entretanto, reflectindo melhor e desenterrando as memórias da prova europeia do ano passado, verifico que o jogo foi semelhante. A sorte, como referi acima, não nos bafejou. Eu já conhecia as equipas mexicana e chilena pela Copa América. Sabia que ambas, particularmente o Chile, dariam luta até ao fim. O México reage bem aos desaires, e o Chile, bom, tem um ataque fortíssimo. É um futebol muito sul-americano, não necessariamente melhor ou pior. Diverge do nosso.

      Não conseguimos marcar no tempo regulamentar, nem sofremos qualquer golo. Vimo-nos arrastados para o prolongamento e para os pontapés da marca de grande penalidade, que são uma lotaria. O Chile tem um histórico favorável de vencer jogos em grandes penalidades, e decisivos: na Copa América e na Copa América Centenário, em 2015 e em 2016, respectivamente, diante da Argentina pelas duas vezes, que perdeu. O que não explica, claro está, a nossa incapacidade em marcar um golo. Falhámos nas três vezes que tentámos furar a baliza de Claudio Bravo. Mérito dele, demérito nosso? Um pouco dos dois, é provável. Não se compreende, aí sim, que Ronaldo não tenha tentado inaugurar o marcador, quando é o nosso melhor jogador. Talvez tivesse acertado e dado outro alento aos colegas, talvez. A futurologia é sempre um exercício interessante, e inútil.

       A Taça das Confederações não é um torneio menor. Não tem o peso de um Europeu, muito menos de um Mundial, todavia tem o seu lugar entre as provas internacionais de selecções. Seria um título que poderíamos ter arrecadado. Envolve, ainda, somas avultadas e prestígio. Resta-nos disputar um não-honroso terceiro lugar com o México, atropelado quase impiedosamente pela Alemanha por quatro bolas a uma.

       Na medida em que acredito na sensatez de Fernando Santos, há que repensar o nosso jogo. Digamos que ele tem trabalhinho de casa, e não serei eu que lho vou ensinar. Esta selecção, que tem o seu valor, que é a campeã da Europa - não vamos agora esquecer os louros de um passado que nem é distante e diabolizá-la - precisa de todo um estímulo, de segurança no modo como actua. A nossa prova de fogo será em 2018, no Mundial que se realizará na Rússia. É aí que residem, no momento, os pensamentos e as preocupações de Fernando Santos. É que Portugal já não se apresenta como aquela selecção tímida à qual o acesso aos quartos-de-final era um luxo. Exige-se mais, tudo, de campeões.

24 de junho de 2017

O patamar.


   Na semana passada, para ser rigoroso no sábado, uns amigos convidaram-me para marchar pela cidade. Uma marcha de orgulho lgbt. Não, não marchei. Entretanto, dei com o final do evento na Ribeira das Naus, junto ao Tejo. Ouvi uns discursos e umas palavras de ordem, vi muita bandeira ondulando, balões multicores. Dezenas de jovens em pé e sentados na relva, confraternizando.

    O activismo por causas nunca despertou em mim o interesse, nem pela afamada causa lgbt. Falar de sexualidade não é tabu, nunca o foi, mas faz parte da minha e da intimidade de cada um, pelo que sempre procurei manter certo recato quanto a esse assunto. No que diz respeito às marchas e às manifestações, estive numa em frente à embaixada da Rússia. Creio que aí há o que fazer. Temos pessoas em campos de trabalhos forçados, tidas como criminosas quando o único delito foi o de amar um ser do mesmo género. É absurdo, transtorna qualquer um. Associei-me por um imperativo de consciência. Já as marchas, não fazem sentido num país cujo ordenamento jurídico prevê leis iguais para hétero e homossexuais, proibindo toda a discriminação em função da orientação sexual. Os transexuais também podem sujeitar-se à operação de redesignação sexual e usufruem de protecção legal. Nessa matéria, estamos evoluidíssimos. Figuramos entre os mais avançados da Europa. As marchas, se tanto aqui, perderam o fulgor. E não se lida com o preconceito assim, no meu entender, mas educando as pessoas. Tão-pouco peço para que se escondam, é evidente, até porque a visibilidade da dita comunidade lgbt é manifesta. Há pessoas lgbt na televisão, na rádio, na imprensa escrita. Não se vêem na política e no desporto, é verdade.

    Amanhã será o dia do arraial. Estarei presente, à partida. Passei por um há uns anos. Estive pouco tempo. Não custa ir e ver. Da mesma forma como não ligo a activismos, não os diabolizo. Encaro como mais uma noite quente de Verão, agradável, num ambiente descontraído, sem imposições ou horas de entrada e saída. Se não gostar, venho para casa, naturalmente. O conhecimento só enriquece.


     Posto isto, eu faria tudo diferente. A opinião é livre e responsável: a sexualidade não deve ser uma bandeira, seja ela qual for, e nem deve ser motivo de orgulho ou de vergonha. Não devemos dar tanta importância àquilo que os outros pensam que fazemos na cama. Já passámos esse patamar de afirmação. A sociedade está cansada de saber que há homossexuais, transexuais (e perdoem-me os mais ais que há, que são muitos; não os conheço a todos). Não será promovendo marchas que lutaremos devidamente contra os obstáculos que se erguem diariamente a quem é homossexual e transexual, quer seja no local de trabalho, na escola ou na família.

      Na lei, tudo está feito. Como referi acima, precisamos educar as pessoas para a diferença na igualdade, para a imperiosa necessidade de respeitar para colher o respeito. Esse trabalho faz-se desde tenra idade. A alguém formatado, e embora acredite que as pessoas possam mudar, o processo será mais difícil, mas igual. Educar, educar e educar. Leva o seu tempo. Portugal avançou substancialmente. Se compararmos à realidade do Estado Novo e mesmo à das duas primeiras décadas após Abril, facilmente verificamos o salto qualitativo.

       Não me alongo mais. Um bom São João, sendo caso disso.

18 de junho de 2017

Pedrógão Grande.


    Nunca fui a Pedrógão Grande. Nunca, felizmente, vivi um incêndio. Todavia, torna-se recorrente, a cada ano, escrever sobre estes flagelos que se abatem sobre o país, e sobre a Europa, sazonalmente. Não estamos em período de rescaldo. As chamas ainda deflagram pelo centro do país, consumindo hectares, ceifando vidas, provocando o caos e a dor. Estamos, todos, perturbados, perplexos, consternados, sobretudo pelo número avassalador de vítimas mortais. Sessenta e duas até ao momento, em dados que são permanentemente actualizados.

    Já sabemos o que pode e deve ser feito. A ladainha repete-se. Ordenamento florestal, pequenos coutos de mais fácil vigilância, cuidados acrescidos com a cultura do eucalipto, limitar a desertificação do interior, numa enumeração não exaustiva. Há estudos, há opiniões. Há, às vezes, culpados que nos transcendem. Fatalidades. Parece ter sido o caso. Temperaturas descomunais, incomuns, superiores a quarenta graus centígrados, uma humidade próxima do zero, ventos fortes, propícios a incrementar os fogos. Fenómenos naturais que não podemos prever.

    Só podemos minorar os danos e chorar as vítimas. Tentar aprender com os erros. Os incêndios repetir-se-ão - o Verão nem começou. Insisto na ideia: ainda que tenhamos sido negligentes com as florestas e que haja muito por mudar na nossa atitude, haverá imprevistos, sempre estaremos sujeitos a condições climáticas desfavoráveis. A busca por culpados é uma tendência irresistível, e compreendo a indignação. Somos muito severos connosco.

    Queria deixar uma palavra de apreço e de profunda gratidão às corporações de bombeiros, àquelas dezenas de homens e mulheres que arriscam as suas vidas pelas nossas. São os verdadeiros heróis, mesmo numa história que talvez, desta vez, tenha como único vilão o tempo. E a nós como cúmplices.

31 de maio de 2017

The Circle.


   Abri uma excepção àquilo que havia dito, ou seja, que iria reduzir os artigos respeitantes às minhas idas ao cinema. Não deixei de ir; pelo contrário, tenho ido mais do que nunca. Não quero, até porque não levaria jeito, passar a ideia de que pretendo tornar-me num crítico de cinema. Falta-me bagagem cinematográfica (eu bem digo que serei um gajo interessante aos cinquenta anos).

   Este The Circle merece, então, a excepção. Desde o Lion, algures por Fevereiro, presumo, que um filme não me suscitava tanto o interesse. Não li qualquer sinopse. Sabia que tinha assistido a um trailer, mas tão-pouco me recordava de nada.

    A empresa / rede social Circle é um eufemismo de outra empresa que tão bem conhecemos. Com planos que deixariam Orwell corado, Bailey, protagonizado por Tom Hanks, acredita ser possível conectar o mundo na sua rede, deixando a descoberto a vida de biliões de pessoas. Mae Holland consegue uma entrevista para trabalhar na empresa, ficando com o lugar e apercebendo-se desde cedo que pouca ou nenhuma privacidade era permitida aos funcionários da Circle. Desde as actividades nos dias de folga até aos batimentos cardíacos, tudo era monitorizado por funcionários.

     Mae torna-se pioneira num projecto-piloto, quando passa a estar 24h por dia a ser seguida por milhares de pessoas através de câmaras devidamente instaladas no seu quarto e na sua casa. Umas microcâmaras, camufladas, inclusive, eram o último grito em tecnologia, que permitiria colocar o mundo online, encontrar qualquer pessoa em milésimos de segundo, votar em actos eleitorais, tornando cidadãos e governantes, países, a bem ver, reféns da Circle.

      O filme, como se adivinha, levanta problemas éticos. Até que ponto a tecnologia pode comprimir a nossa privacidade, expondo a nossa intimidade a estranhos. Um tema actual e nada fictício. Não haverá legislação alguma que consiga proteger-nos dos avanços tecnológicos. A tendência é para que progressivamente sejamos controlados. Recordo-me, em miúdo, isto em 2001, de instalarem duas enormes câmaras no recreio do colégio. Sentia-me permanentemente vigiado. Ainda que os tribunais se decidam por inconstitucionalidades várias, os benefícios sobrepor-se-ão. Governantes e governados, na deriva securitária, exigirão bases de dados, visionamentos permanentes. As microcâmaras farão com que nem saibamos que estamos a ser observados. Conscientemente, já partilhamos várias das nossas actividades online, onde estamos, o que fazemos e com quem. Eu mesmo.

      O interesse do filme reside aí. Faz, pelo menos foi esse o efeito que teve em mim, com que coloquemos questões básicas. Um acto tão comum como pegar no telemóvel e publicar que estamos no cinema X à hora Y pode ter consequências nefastas, por-nos em perigo, desde logo, e permitir que dados referentes à nossa vida sejam monitorizados sabe-se lá em que parte. As sedes pouco contam num mundo virtual. Clara Ferreira Alves, jornalista, tem-se pronunciado, e com ela concordo, sobre estas matérias. Convém que saibamos quando desligar. E, uma vez mais, aplico-me o conselho.

      Uma palavra para os actores: o Tom Hanks, as usual, fenomenal; a Emma Watson continua com aquele ar da miúda do Harry Potter, não cresce, decididamente, e não me pareceu ter uma actuação fora de série. Foi boazinha no que fez, esforçou-se. O filme vale pela inquietação que provoca.

29 de maio de 2017

Mil.


   Pensei em se deveria assinalar o feito. Nada de extraordinário. Trata-se de um patamar sem qualquer importância. Eu atribuo à estética do número. 1000. É redondinho. Acresceu um dígito. Esta é, então, a milésima publicação do blogue, que terá, seguramente, mais textos do que fotos ou vídeos. Orgulho-me disso. São centenas de artigos, crónicas e alguns ensaios (os possíveis num blogue) originais. Será interessante, daqui a uns aninhos, compilá-los numa obra qualquer. Lá para os quarenta, cinquenta, que é quando dizem que atingimos a maturidade. Como presumo que estamos sempre em constante aprendizagem, acredito que serei um tipo interessante daqui a vinte anos.

    Uma tarde molhada, que inviabilizou por completo poder assistir a um concerto dos Clã, que adoro ( « devia ser como no cinema, a língua inglesa fica sempre bem, e nunca atraiçoa ninguém » ). Com o percalço da chuva, não deixou por isso de ser agradável. Visitei a exposição de Almada Negreiros, patente na Gulbenkian até dia quatro do mês que vem, uma visita que andei a protelar. Como referi numa outra plataforma, vale bem a pena. São dois pisos de telas e esboços, bem divididos e devidamente identificados com as legendas. É um espólio numeroso. Exige calma e paciência, até pelo aglomerado que se gera. Foi das visitas de que mais gostei. O amigo que me acompanhou despachou-se prontamente, enquanto que eu me demorei o tempo suficiente. Vi tudo com atenção.

    Almada Negreiros foi um artista extraordinário, multifacetado até na pintura. A determinado momento, a sua versatilidade enquanto pintor reportou-me aos heterónimos de Fernando Pessoa, com quem, aliás, privou de perto. Enquadrando-o no Modernismo português, Almada Negreiros inspirou-se nas correntes europeias e em nomes maiores das artes plásticas espanholas. Morou em Madrid, tendo essa estadia se reflectido numa parte considerável do seu legado.

    Deixo-vos algumas fotos, o que não é menos caricato por constarem numa publicação em que destaco outras novecentas e noventa e nove praticamente sem elas.




           


25 de maio de 2017

Portugal está na moda.


   Já li esta frase algures, esta semana, e achei curiosa. Não sei até que ponto estaremos na moda, mas estamos a viver momentos de optimismo, sem euforia. O Presidente da República disse, há um dia ou dois, que temia que a manifesta recuperação económica levasse os portugueses a um estado de alienação. Até ao momento, não o sinto. Estamos, é certo, a sentir emoções inéditas. No desporto e na música, jogamos cartas; temos um alto dignitário no cargo de maior relevo entre as organizações internacionais; após décadas de marasmo e de anos de pesados sacríficos, vislumbramos a saída da crise, constatamos o crescimento económico e até no turismo, a diminuição do desemprego, o aumento dos salários e das pensões. A última boa notícia prende-se à recomendação da Comissão Europeia para que o Conselho da União Europeia retire o país do Procedimento por Défice Excessivo, o que acarretaria, ao menos na psique nacional, um alívio. A decisão está para breve.

   Creio que, enquanto colectividade, estamos a recuperar algum do amor próprio perdido. O português médio subvaloriza-se. Temos uma alma maior do que o corpo. Demonstrámos, pela história, feitos heróicos, soberbas façanhas. Nos últimos anos, convenceram-nos de que não éramos bem europeus, e que não poderíamos mais viver como tal. Aliás, a Europa sempre nos foi meio estranha. Só começámos a olhá-la quando nos afastámos do mundo. Jamais foi a nossa prioridade. Estarmos na periferia ajudou-nos a manter as fronteiras praticamente intactas desde Alcanizes, há setecentos e muitos anos, e a contornar os principais conflitos estalados no continente. Deu-nos fôlego para as aventuras d'além-mar, onde provámos, sem grande esforço, ser os melhores. Desengane-se quem crê que ser português não nos custou suor. Conquistámos o direito a sê-lo. Os nossos novecentos anos comprovam a luta, nem sempre justa, para escapar às forças centrípetas da península.

    Encaro os tempos que se avizinham com confiança, todavia com prudência. Provou-se que a austeridade não era o caminho certo, e que devolver às pessoas o que lhes era devido teve um efeito positivo na economia. Porque os números falam por si. A matemática é uma ciência exacta. Longe de querer agradar com populismos, o Governo acreditou ser possível contrariar uma corrente ideológica que via, em medidas que devem ser excepcionais, uma orientação política definida, como se não mais nos restasse do que viver em infinita contenção e sob permanentes ameaças de descalabro das contas públicas e de bancarrota.

    Espero que a moda seja um indicador de mudança, também na nossa atitude, mais obstinada, chauvinista, que em dose certa pode produzir pequenos milagres.

19 de maio de 2017

O Ornitólogo.


   Desconcertante filme a que assisti, ontem, no canal TVCine 2. As obras que ostentam a chancela João Pedro Rodrigues são quase sempre polémicas, oníricas. O Ornitólogo não foge à regra. Conheci este realizador em pequeno, com o épico O Fantasma. A um miúdo, o filme perturba, sobretudo porque foca um submundo duvidoso de fantasias insondáveis e fetiches. Odete surpreendeu menos. Morrer Como Um Homem, o pior dos três, teve direito a que fosse ao cinema com o pai, que é extremamente à-vontade com a temática LGBT. É esta, aliás, a característica comum aos filmes de João Pedro Rodrigues.

   O Ornitólogo começa com um homem solitário, que trabalha justamente como ornitólogo, que parte numa expedição para estudar o processo de acasalamento e de nidificação de uma determinada espécie de aves. Durante uma travessia de caiaque, sofre um acidente provocado pela ondulação, sendo posteriormente resgatado, inconsciente, por duas turistas chinesas que fazem o caminho de Santiago. Após tomar conhecimento da fé de ambas, toma um chá tradicional chinês e acorda amarrado por cordas, com uma pujante erecção nas suas ceroulas brancas. Procura desamarrar-se. As cordas que envolvem o seu corpo acentuam-lhe as formas masculinas. A temática sadomasoquista, já explorada em O Fantasma, surge aqui, revigorada e adaptada, em meio com a fé cristã. Fernando não é apenas o ornitólogo; é o mártir. As turistas querem castrá-lo ao terem tomado conhecimento da sua apostasia.

    Consegue fugir, levando alguns dos seus objectos. Assiste à festa dos rapazes, numa madrugada, no meio de uma floresta do interior transmontano, e ao sacrífico de um animal. O folclore e as seitas pagãs misturam-se com o desejo. Um dos rapazes vislumbra-o ao longe e desculpa-se aos seus pares, em mirandês, com a necessidade de se afastar. Fernando, protegido pela penumbra e abrigado sob uma pedra, recebe a providencial urina do careto, pelo rosto e pelos lábios, vinda de cima.

    Pela manhã, observa a arte pastorícia de um rapaz surdo, a quem indaga pelo desaparecimento dos seus pertences. Nadam juntos. Deitam-se na areia, escrevem os seus nomes com um pequeno caniço. Jesus, é este o nome do rapaz. Fernando empresta os seus binóculos para que Jesus possa ver uma ave com maior precisão. O rapaz encosta-se no seu peito. Beijam-se avidamente, rebolando pela areia. A paixão assolapada é bruscamente interrompida quando, à partida, o rapaz tira uma camisola com capuz do seu saco, que Fernando identifica como sua. Ao ser confrontado, Jesus puxa de uma navalha. Envolvem-se numa luta corporal e Fernando consegue desferir-lhe um golpe certeiro no coração, que mata o pastor.

     Persiste a caminhada de Fernando na floresta, em busca de uma saída que o leve ao carro. Pontualmente, recebe SMS no telemóvel, um dos objectos que havia recuperado, de alguém que está preocupado com a sua saúde. Fernando toma comprimidos. Ao longo do filme, não conseguimos identificar para quê. Consegue albergar-se numa tenda improvisada. Cuida de uma pomba branca, símbolo da paz e da castidade, que recupera misteriosamente de um trauma na asa. Encontra o seu documento de identificação com a fotografia picada e as impressões digitais borradas, o que evidencia que foi usado num ritual. Os instintos vocacionais de Fernando são testados no sermão aos peixes.


     Não é difícil perdermo-nos no decurso do filme. Há um encontro fortuito com três amazonas que falam latim e um milagre, quando Fernando assume as vestes de Santo António e traz o irmão gémeo de Jesus, Tomé, ou o próprio Jesus, à vida. A trama termina com Fernando enquanto Santo António, incorporado pelo próprio realizador, passeando-se numa rua da Galiza, pelo que me pareceu, com o jovem careto.

      A longa-metragem é uma história de sobrevivência, de cruzamento entre o sagrado e o profano, de um homem, com a sua libido, que passa por uma experiência transcendental que o modifica para sempre. O homoerotismo, desde logo pelos planos minuciosos, é uma constante. O actor principal, Paul Hamy, foi escolhido a rigor. Em cada detalhe do filme verificamos o desfiar dos estereótipos associados, e muito justamente, aos homossexuais.

      Gostei particularmente do filme, pese embora todo o meu preconceito com o cinema português, demasiado monótono para a minha busca constante por estímulo.

14 de maio de 2017

Amar por todos.


    Uma noite inesquecível para Portugal, semelhante àquela que vivemos nem há um ano, com a vitória no Europeu de futebol. Porque estes eventos, ainda aos que não lhes atribuem qualquer significado, colocam-nos sob a mira de milhões, dão-nos alento, são quase que o grito que damos ao mundo. Existimos. Conseguimos ser os melhores.

     Eu, particularmente, não aprecio a Eurovisão, mas deixei-me embalar no bonito poema que Luísa Sobral escreveu para que o irmão o cantasse. Há aquele coração dela que pode amar pelos dois, sobretudo pelo dele, por todos os problemas que vieram a público. É um poema que, cantado, acompanhado pelos violinos, ganha uma dimensão que não parece resultar das suas palavras aparentemente tão simples.

     A língua portuguesa brilhou em Kiev. Pôs estrangeiros a chorar ao som da voz de Salvador, muitos dos quais não compreendendo nada. É a linguagem universal da música, a capacidade de nos comover. Amália teve a experiência pela União Soviética e pelo Japão, quando entoou grandes poetas portugueses.

      Amar Pelos Dois conseguiu, ainda, transportar para a Europa toda a alma portuguesa, nostálgica, melancólica. É o triunfo do Portugal português, sem adornos, sem danças histriónicas e maquilhagens pesadas. Um homem e um microfone. A voz e a sua expressão corporal tão peculiar comunicaram com a Europa de lés a lés. Não precisámos de mais. Limitámo-nos a ser o que verdadeiramente somos: simples.

      A nossa língua e o Salvador estão de parabéns. E a irmã do Salvador. A vitória é-lhes inteiramente merecida. Obrigado por levarem a portugalidade até à Hungria, à Lituânia, à Geórgia e a tantos outros. Imprimimos o nosso nome na história do maior evento musical anual europeu.

10 de maio de 2017

Fátima.


   Fátima tem sido, pelos tempos, um assunto tabu para mim, a ponto de, presumo, nunca o ter abordado aqui. Na família, tenho de tudo: crentes, menos crentes, a mãe é crente. E eu nem sei como me hei-de posicionar. Por temor reverencial, assumo, provavelmente tenho evitado debruçar-me sobre as aparições. Evito pronunciar-me, não vá ser verdade. É cobardia, é, mas também é respeito. Tive uma fase mais esquerdista na minha adolescência, antes de me ter posicionado, e em definitivo, assim espero!, ao centro. Ainda assim, jamais afrontei a religiosidade alheia. É disparatado. Podemos discordar, sim - devemos, aliás, se é o que a nossa consciência dita - mas, em matérias tão sensíveis como a religião, devemos ter um cuidado redobrado. A fé não se explica. É tão forte que chega a curar, a melhorar sintomas de doenças. Até pelos seus aspectos positivos, deve ser respeitada e reconhecida como potencialmente importante. Dos seus efeitos perversos está a História cheia, e bem os conhecemos.

    Sou católico. Deixo-o aqui de forma clara. No tal período de indefinição, típico da adolescência, passei a agnóstico, quase ateu. Estava mesmo chateado com Deus. Quando os pais se separaram, aumentou essa desconfiança sobre uma figura qualquer que nos vendiam desde pequenos, sobretudo procurando atemorizar-nos com castigos. Crescer fez-me bem, até na religiosidade, porque percebi que não havia mal algum em acreditar em Deus e em até ser católico, podendo expurgar o que considerava estar errado na Igreja. Ser católico, pelo menos quanto a mim, não implica perfilhar de todas as orientações doutrinárias da Igreja. Oponho-me a algumas, concordo com outras tantas. E identifico-me como católico porque acredito na pedra angular, se me permitem, do catolicismo, que me reservo a não explorar aqui porque não é pertinente. Noutro momento, se se proporcionar, não terei problema algum em fazê-lo.

     Fátima é um dos enigmas que não dou por garantido. Ponho em causa a sua veracidade desde que me conheço. Não que desconfie da palavra dos pastorinhos, mas tento explicar Fátima contextualizando-a no tempo. As aparições foram oportunas. A anticlerical I República havia arrastado Portugal para a I Guerra Mundial - o erro que ditaria ao seu fim. O país precisava recuperar a crença, então perseguida pelos republicanos. E Fátima sustentaria o golpe de 1926 e, sobretudo, o Estado Novo de Oliveira Salazar, fortemente inspirado na doutrina social da Igreja. Fátima, pelas décadas, configurou um dos pilares do regime. Cresceu em importância e em volume de negócios. Hoje, é um fenómeno que gera milhões. Lembra-me, às vezes, os vendilhões que Jesus expulsou do templo. Quando olho para o santuário, vejo muita fé verdadeira de milhares de pessoas que para lá se deslocam, e que isso lhes faça bem; em contrapartida, há ganância, oportunismo e visível cinismo, arriscar-me-ia a dizer, por parte das entidades que gerem, e é este o vocábulo apropriado, aquele manancial de dinheiro.

     Não quero entrar muito pelas questões que se prendem mais à fé: a senhora mais brilhante do que o sol, o dito milagre - que a ciência tem procurado esclarecer, com argumentos muito lúcidos - os segredos. Tudo é possível nas efabulações. As pessoas precisam de acreditar em alguma coisa. Em religiões da palavra, como o são as religiões abraâmicas, não há, tendencialmente, símbolos e imagens. E os crentes precisam disso, precisam de orar defronte a uma imagem, de acender uma velinha, de ostentar uma cruz que os proteja. É tudo compreensível. Faz tudo parte desse grande mistério da fé. E Portugal precisava de ter um importante local de culto, como Lourdes. Um país tão católico, tão absorto na sua religiosidade e na sua tradição, não poderia passar sem.

     Simultaneamente, as manifestações de crendice e os exageros que as rodeiam não deveriam surpreender. Em mim, entretanto, continuam a provocar certa consternação. Não me sinto confortável quanto vejo o meu Chefe de Estado a beijar a mão ao Papa, um líder religioso, da religião maioritária em Portugal, seguramente que sim, mas que representa determinada instituição, sendo que o Chefe de Estado, investido como tal, representa o Estado português, laico. Incomoda-me, ainda, ver um militar, no exercício das suas funções, referir-se a um líder religioso com deferência excessiva, demonstrativa da sua crença pessoal, quando pertence às forças armadas do Estado português, laico, repito, bem como me incomoda que se suspendam acordos internacionais, que vinculam o Estado português, na recepção a um líder religioso. Se a ameaça terrorista o exige, pois ela existe para todos os cidadãos, não apenas para alguns, lá que sejam sucessores de Pedro. Se os acordos que prevêem a liberdade de circulação não protegem os direitos constitucionalmente previstos, termine-se com eles. E, aqui, de nada releva estarmos perante um Chefe de Estado estrangeiro. Vários Chefes de Estado estrangeiros têm vindo a Portugal e, que me conste, não se repôs o controlo fronteiriço.

     Fátima continuará a suscitar opiniões díspares, umas mais racionais, outras espirituais. Encontrar-se-á o equilíbrio ao manter o Estado equidistante o suficiente. Deixar com Deus o que é Deus, e limitar-se a ficar com o que é de César.