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4 de setembro de 2019

A II Guerra Mundial vista de cá, nos seus oitenta anos.


   Há oitenta anos, por estes dias de início de Setembro, a França e o Reino Unido, na sequência da invasão da Polónia, declaravam guerra à Alemanha. Tinha início o maior conflito de sempre da história da humanidade, aquele que mais vítimas civis e militares provocou, e provavelmente o que mais impacto teve na geopolítica do planeta. As suas causas, desenvolvimentos e consequências já foram sobejamente alvo da atenção de analistas e politólogos. Fala-se pouco, isso sim, do papel que Portugal desempenhou, se é que desempenhou algum, ao longo dos seis anos de guerra.

  Portugal manteve a sua neutralidade. Por forma a não beliscar as relações com o Reino Unido, e honrando o secular compromisso com os britânicos, permitiu-se que os súbditos de Jorge VI abastecessem por cá. Do Eixo, soube-se que a Alemanha chegou a ponderar invadir o território continental do Estado mais ocidental da Europa, mormente para evitar que os britânicos se servissem dele como satélite. Também os Açores escaparam por um triz. A importância estratégica do arquipélago é-lhe anterior, à II Grande Guerra. Remonta ao século XVI e à crise de 1580. Em meados do século XX, percebeu-se que a sua localização aproveitaria às nações beligerantes.

  Timor-Leste, possessão portuguesa na ilha de Timor, foi invadido pelos japoneses. Houve escaramuças entre portugueses e japoneses, o que não foi suficiente para provocar uma adesão de Portugal pelos Aliados. Não interessava a Salazar entrar numa guerra. Como grande estratega, soube dela nos livrar, "mas não da fome", em palavras que lhe são atribuídas. Apocrifamente? Não se sabe. Sabe-se, sim, que se movimentou diplomaticamente para impedir que a Espanha do Generalíssimo Franco se decidisse pela participação ao lado do Eixo. Como se adivinha, a personalidade discreta de Oliveira Salazar é um obstáculo a que o seu nome seja mencionado entre os manuais europeus de História. Tão-pouco os espanhóis conhecem a influência que Salazar teve sobre Franco, neste capítulo específico da II Guerra Mundial.

  Finda a guerra, o Estado Novo entra na sua segunda fase. Nada será como dantes. Há uma nova ordem mundial, e sobretudo uma nova realidade emanada do conflito, que colidirá com a nossa visão sobre o papel que ao longo de séculos desempenháramos entre os povos. O regime desdobra-se em justificações, algumas até de carácter científico, das quais nos dá conta o luso-tropicalismo, rejeitado primeiramente. Era uma engrenagem demasiado forte para que a pudéssemos suster.

  Como sempre, não fomos alheios àquilo que se passou na Europa e no mundo. Houve racionamentos, houve fome, mas contornou-se uma destruição sem precedentes, seguida de uma submissão humilhante e desmesurada. Portugal manteve-se, uno e íntegro. De cabeça erguida. O mérito é de Oliveira Salazar, o maior patriota que este país conheceu no século XX.

25 de maio de 2019

As Europeias.


   A um dia das eleições, a publicação peca por tardia. Descansem que não venho fazer o tradicional apelo ao voto (útil), pelo contrário, que o mais certo será votar nulo. Não voto em branco porque o voto em branco é um perigo, e eu não confio em ninguém. Não vi qualquer debate, mas, a julgar pelos partidos e pelas pessoas, não é difícil imaginar o que defendem. Começando nos bastas e acabando nos blocos, temos tudo para todos os gostos, para alimentar o filão de Bruxelas e de Estrasburgo.

   Já sabem o que penso sobre a UE. É um grilhão de povos. Um invento franco-alemão, que surgiu com dignos propósitos de se evitar a guerra na Europa, é certo, e que décadas depois virou um instrumento de domínio. As desigualdades continuam a existir, e talvez, digo eu, seja bom para muitos que elas existam. Aqui, claro, não isento de responsabilidade os dirigentes que tivemos nos últimos trintas e tal anos, que se aproveitaram dos fundos estruturais, e não só, em proveito próprio. 

   Tão-pouco acredito que o voto para o parlamento europeu modifique seja o que for. As decisões são tomadas mais ao lado, em Berlim. A Europa, hoje, para estes senhores que nos representam, é mais um lugar seguro, fonte abundante de privilégios e prestígio. Se preciso for, em nome de uma qualquer vantagem para o país, deixa-se o barco e ruma-se a Bruxelas. Já nos aconteceu. A vantagem foi pessoal. Ninguém lucrou nada a não ser o próprio.

   Tenho ainda conhecimento das restrições que o direito europeu comporta para o nosso ordenamento jurídico. Os regulamentos, nomeadamente, vigoram automaticamente, sem necessidade de transposição. O direito europeu tem primazia sobre nacional. A nossa soberania, e não será excessivo dizer-se, está sequestrada por senhoras e senhores que representam interesses suspeitos. Longe vão os tempos do sonho europeu, que Portugal acalentou por anos, quando, despojados à força do império, nos disseram, em uníssono, Europa, Europa, Europa. E, por aqueles tempos, em nada mais acreditávamos. Julgávamos que iríamos ser recebidos de braços abertos numa Europa de comunhão e partilha. Ilusões.  Exceptuando-se Espanha, com quem mantemos, malgrado todo o passado de conflitos, uma história em comum, somos ilustres desconhecidos na Europa. Na Europa das instituições. Não na Europa das pessoas. Portugal, pelo tanto que tem a oferecer, seja na sua qualidade de vida - que não se afere apenas pelo dinamismo da economia e pela justiça social, mas também - na amabilidade do nosso povo ou no clima. 

  Há dias, assinalámos o 840º aniversário sobre o reconhecimento papal da nossa soberania. As comunidades europeias estão ainda longe dos cem anos, e a UE, como a conhecemos, nem tem trinta. Decerto que os mais atentos se perguntarão acerca da necessidade de se entregar o fundamento último da nossa existência nas mãos de terceiros, que desconhecem a nossa realidade e a nossa história. Lutámos tanto por algo que, de momento, trocamos por umas moedas. É tudo o que resta de nove séculos? A resignação? 

  Não, não acredito que os eurocépticos de hoje continuem, bem refastelados no parlamento europeu, desconfiados da UE. Não, não acredito que o voto, nestas eleições, faça a diferença. Não, não defendo o isolamento, o orgulhosamente sós do passado. Mas sim, não prescindo da nossa soberania, das nossas fronteiras, da nossa capacidade de fazer acordos comerciais com outros estados, sem intermediários.

   O voto nulo, que não acarreta o peso do desleixo, vislumbra-se-me a única opção possível. Um rotundo não à Europa. O branco, o voto, tem a mensagem política do descontentamento, e o nulo, a que eu lhe quiser pôr.

6 de maio de 2019

Politiquices.


   Uma vez mais, assistimos a um fim-de-semana verdadeiramente ridículo da vida político-partidária nacional. E não sei se o digo mais pela eventual aliança do PSD e do CDS com o PCP e com o BE, que afinal não terá lugar, ou pela manobra estratégica do PS, na pessoa de António Costa. O que resulta disto tudo é mais uma descredibilização dos partidos e dos seus dirigentes junto do eleitorado, em ano fecundo em eleições. Um madeirense, por exemplo, terá três, entre as europeias, as legislativas e as regionais.

   António Costa conseguiu dar xeque-mate a Rio e a Cristas, que saem totalmente desmoralizados. Quer o Governo caísse, quer não, e não cairá, ao que parece, a direita - que até me custa chamar direita àquilo - perderá votos. Em ano de eleições, as pessoas não perdoariam uma crise política inesperada, com antecipação de legislativas para o Verão, quando estamos na recta final do término da legislatura. Poderia comprometer uma solução governativa que vem de 2015, e que agora, por birrice, deitaria a perder o esforço na recuperação da economia e do bem-estar das famílias. Não havendo demissão do Governo, tão-pouco perdoarão a manobra cínica do PSD e do CDS, e acredito que já se ressentirão nas europeias deste mês.

   No fundo, o PSD e o CDS defendem e reconhecem que não estão criadas as condições para repor aos professores o que lhes foi tirado nestes nove anos. E atiram a bola, passo a expressão, para o Governo. É um recuo, um recuo travestido de compenetração e seriedade, e o povo, que é o grande julgador destas coisas, retirará as suas ilações. Eu já tirei as minhas, e o voto nulo assemelha-se-me uma opção mui razoável em todos os actos eleitorais, ao menos nos seguintes. Esta política baixa, oportunista, rasteira, irrita-me. O PS, e eu recordo que apoiei esta solução governativa quando surgiu, porque o neoliberalismo de 2011 a 2015 deixou-me farto, até soube governar para as pessoas, mas o escândalo familygate, outra vergonha, deixou-o desnorteado. Costa quer salvar as europeias, que sabia em perigo pelo familygate, navegando a todo o vapor rumo à maioria absoluta de Outubro, a ver se se livra daqueles dois pesos pouco mortos que são o PCP e o BE.

   Estas manobras de uns e de outros deixam-me perplexo. De Cristas, devo dizer, não esperava muito mais, que, embora não pareça, ainda anda a apalpar terreno na política; Rio, depois de ter andado pela Câmara do Porto, de ter enfrentado a fúria de portuenses e de portistas (era persona non grata para o Futebol Clube do Porto), ainda se permite a ser completamente nocauteado, pegando numa expressão brasileira, por Costa. Costa que, aqui, manteve a coerência, diga-se: efectivamente, todos os portugueses sofreram cortes, e repor tudo o que os professores reivindicam, e que até lhes é devido, seria economicamente intolerável. Trata-se de uma ideia pura e crua de equidade. Aliás, é duvidoso que o PSD e o CDS se importassem tanto com os direitos dos professores se estivessem no poder. Há, ainda, como se verifica, uma dose enormíssima de hipocrisia que, juntada ao oportunismo, só torna tudo ainda mais lastimável. São muitos actos eleitorais, desde logo as europeias, que já sabemos que, com as autárquicas, servem sempre de cartão amarelo, ou não, ao governo, e depois as legislativas. Sente-se esse nervoso entre eles, expectável: há cabeças em jogo. A de Rio será a primeira a rolar. O ataque à liderança do PSD dar-se-á no início do próximo ano, não duvido, se o PS ganhar as eleições, o que, à distância de cinco meses, a menos que haja uma hecatombe, não me parece contornável - com esta direita, ainda menos.

    E a procissão nem saiu do adro.

25 de abril de 2019

25 de Abril.


   Com o passar dos anos, a minha posição em relação ao 25 de Abril foi mudando, ao cambiante do amadurecimento, também das novas leituras, já escolhidas por mim, que me afastaram da retórica que nos impingem desde pequenos. Quando julgamos que o revisionismo histórico é algo que só acontece lá fora - e há dias, na publicação sobre o fascismo e o nacional-socialismo, alertei para isso -, esquecemo-nos de que nós também fomos envolvidos na lavagem cerebral.

   É indesmentível que o Estado Novo era um regime atávico, que já ninguém queria defender, que terá caído por si próprio. Os capitães limitaram-se a dar um empurrão. Creio mesmo que até o Presidente do Conselho, o Prof. Caetano, não acreditava naquilo. O homem era um académico, não um político talhado para resistir a tanta pressão. Queria uma verdadeira evolução, que não lha permitiram. O Spínola também fantasiou um Portugal diferente, federal.

   Ninguém de bom senso põe em causa que ganhámos nas liberdades individuais. De facto, em nome da autoridade, que nem sempre se compagina com a livre opinião, livre imprensa, por aí, o indicador liberdade é aquele que mais frequentemente é invocado pelas pessoas. A partir daí, as mais instruídas saberão que os alicerces do estado social, da previdência, e até do serviço nacional de saúde, bem assim como o sufrágio feminino, vieram já no consulado de Marcello Caetano. Quer dizer, parece claro que a mudança estava iminente. Entraríamos, certamente, num período de transição que nos levaria à democracia. Não tenho dúvida alguma. A Ala Liberal é mais uma demonstração de que, politicamente, na Assembleia Nacional, se admitia um vislumbre de pluralismo político.

    O radicalismo que se lhe seguiu nada veio permitir. Aqui, claro está, entra a guerra colonial, um enorme disparate - e determinante para a ocorrência do golpe -, quando a solução sempre foi política e não militar. É um chavão que partilha lugar com a verdade absoluta. O que se fez em 1971, com a Lei Orgânica do Ultramar, elevando-se Angola e Moçambique ao estatuto de Estados, devia ter sido feito antes, décadas atrás, ou seja, falhou uma visão de futuro. Em rigor, Salazar tinha-a, porque revogou o Acto Colonial e procurou, tanto quanto possível, agilizar o processo de identificação, que prefiro ao de assimilação, que acarreta um tom pejorativo que me desagrada. O tempo foi-lhe escasso. A partir de 1945, com a bipolarização, tudo se foi sucedendo de forma extraordinariamente rápida, e o regime não foi capaz de acompanhar as novas percepções, os novos valores. Seguiu-se o isolamento e, mais tarde, pouco mais, os cuidados paliativos de Caetano.

   No meio de tudo, sobra a ideia de que o corte de 25 de Abril de 1974 não trouxe nada de bom. A democracia viria muito mais tarde, em 1982, finda a tutela militar, e porque os partidos se entenderam quanto ao destino a dar ao país. O período que medeia 1974 - 1982/3 foi trágico para os portugueses, para os africanos, para os asiáticos (Timor), para a economia portuguesa. Imagino que tivéssemos conseguido o mesmo em liberdade, lá vem a liberdade, e em desenvolvimento, se, sabiamente, o que não fomos, tivéssemos conseguido contornar aqueles terríveis anos de caos social e institucional. E provavelmente teríamos saído, todos, numa posição bastante mais vantajosa. Sim, eu acredito que tinha sido possível um Portugal pluricontinental, talvez com menos do que aqueles territórios, só com alguns, não se sabe. Sim, eu acredito que podíamos ter evitado a deriva à extrema-esquerda, com nacionalizações, perseguições pessoais, saneamentos, etc. E sei que estávamos no caminho para mudar. Torno ao bom senso. Ninguém, ninguém, admitiria uma conjuntura pensada para 1933 - 1945 em 2019. Os regimes, as leis, as ideias, os homens têm a sua época. Contudo, há diversos caminhos para se chegar ao mesmo resultado, e o caminho que seguimos foi, no meu entendimento, profundamente errado, e sentimo-lo todos os dias: somos um grande nada num mundo cada vez mais global - curioso, tão curioso, quando nós inventámos a globalização. Somos, convém lembrá-lo ciclicamente, uma marioneta nas mãos de interesses superiores. Não somos soberanos. Não vale a pena insistir nessa ideia de soberania. Abril conduziu-nos tragicamente para a dependência, para o sacrifício, para as crises cíclicas, para a pequenez (territorial e não só), para a subserviência. Obrigou-nos a entrar numa espiral da qual não sairemos, ou dificilmente sairemos. O que resultou daquele quadro precipitado pelos revoltosos foi isto. Hoje em dia, efectivamente, não temos um partido único, mas temos uma multiplicidade de partidos que fazem refém a nossa democracia. Não há democracia sem a ditadura dos partidos, que, como tão bem sabemos, depois servem fins vergonhosos, como o proveito pessoal e o favorecimento familiar.

    Nada mais haverá a fazer quanto ao passado. Ele está lá. Estático. Mas podemos, até para tocar na ferida, procurar mostrar como teria sido. A pessoas têm o direito a saber o que também lhes foi negado. A multiplicidade de vantagens que teríamos tirado de uma evolução, ou transição, mais gradual, que escapou ao poder de Caetano, claro, mas que decerto não à sua vontade. E, se há algo a comemorar, será a certeza do que poderia ter sido e não foi.

17 de abril de 2019

O fascismo e o nacional-socialismo serão movimentos de esquerda?


   Recentemente, sobretudo pelas redes sociais, que têm este dom de propagar todo o tipo de teorias ao sabor de partilhas, surgiu uma corrente que afirma que o fascismo e o nazismo, vulgo nacional-socialismo alemão, são de esquerda. Não haverá apenas aqui ingenuidade dos utilizadores das redes sociais. Bolsonaro, nomeadamente, também o afirmou, assim, levianamente, como leviano é tudo em si, desde a escrita às ideias. Não tardou a que meia dúzia de sujeitos com as mãos calejadas de tanto onanismo adoptassem os dislates do presidente brasileiro como dogmas de fé. A estes juntam-se os filósofos de redes sociais, os sociólogos de divã, enfim, hoje em dia cada um diz o que bem entende, e que bom que assim é, vivemos em liberdade. O lado mau é este péssimo revisionismo.

   Desde logo, o grande pecado dos liberais é limitarem o conceito de direita ao domínio económico. Se defende o Estado mínimo, direita; se olha para a nação e para o seu engrandecimento, esquerda. Para Mussolini, o centro de tudo era a nação, e nada podia atentar contra ela. Já Hitler, por sua vez, opunha-se a programas políticos, quando Mussolini já havia entendido que precisava de uma doutrina.

  O nacional-socialismo e o fascismo são um produto da guerra, da I Guerra Mundial. Foram uma reacção imediata à derrota e à destruição. O fascismo e o nacional-socialismo são, em suma, um nacionalismo de vencidos e de humilhados, reaccionário. Surgiram em meio da carência, do desemprego e da angústia. Opunham-se ao liberalismo e às promessas de modernização e desenvolvimento. O liberalismo e a quebra de regras quanto aos grandes interesses económicos apenas conduz à ruína. O nacional-socialismo surge, assim, como uma nova leitura do socialismo, é certo, porém profundamente anti-marxista, e é aqui que surgem as confusões: não se admite que possa haver um socialismo não-marxista, por um lado, e, pelo outro, restringe-se a direita apenas ao maior ou menor intervencionismo estatal na economia.

   Goebbels rejeitou peremptoriamente qualquer luta de classes. Pelo contrário, pretendia que elas se unissem sob a égide de uma grande comunidade nacional. Goebbels não acordou inspirado, certo dia. Esta sua concepção do nacional-socialismo e das suas bases dogmáticas vem na esteira de autores como Fichte, List, Rodbertus, Lassale, Dühring e ainda dos grandes doutrinadores da revolução alemã, Oswald Spengler e Arthur Moeller Van den Bruck. Spengler foi essencial na construção do nacional-socialismo alemão. Em Preussentum Sozialismus, Spengler disserta sobre o papel a atribuir à Alemanha: impedir que as raças não europeias perigassem a cultura do Velho Continente. Urgia, nesse sentido, expurgar o marxismo do socialismo, que conduzia ao internacionalismo e à luta de classes. Pelo contrário, e imbuído na tradição prussiana, deveria adoptar uma concepção de autoridade e disciplina. Van den Bruck, em Das Dritte Reich, defendeu que o socialismo existia em cada povo, e que Marx, uma vez que era judeu, não compreendia o sentimento nacional, e que luta de classes deveria ser substituída por uma ideia de solidariedade nacional.

  Para Mussolini, o fascismo era uma filosofia de certo modo espiritualista. E, tal como sucedeu com os teóricos do nacional-socialismo, também ele condenava a luta de classes. Ia mais longe: postulava que o fascismo se opunha ao socialismo. Para o carismático duce, o socialismo rejeitava a unidade do Estado e sobrevalorizava a luta de classes. Claro que esta pretensão de restaurar o « verdadeiro socialismo » não mais era do que farsa. Ambos os movimentos mantiveram as oligarquias intactas, bem assim como o grande capital. Maurice Duverger apelidou mesmo o fascismo e o nacional-socialismo de "ditaduras conservadoras", pela base social que os apoiava, composta por terratenentes e os grandes industriais do Rur e da Lombardia.
  Seria falso desconsiderar-se que ambos os movimentos atraíram sobretudo as classes médias industriais e mercantis, amedrontadas com o desenvolvimento tecnológico e a proletarização. Também elas eram as principais vítimas das crises e das guerras. Em todo o caso, não é certo concluir-se que o fascismo era um movimento composto pela classe média. Ainda que os quadros especializados sejam oriundos dela, também entre os operários se encontravam simpatizantes. O fascismo não foi apenas, ou não foi, de resto, um movimento da pequena burguesia. Houve, sim, participação popular. Pelo que podemos observar, dos mais ricos ou mais carenciados, foram movimentos aglutinadores.

   Robert Brasillach, que viria a ser executado pela sua proximidade ideológica sobretudo ao nazismo, chegou a afirmar que o fascismo era "a poesia do século XX". Com efeito, o fascismo era um movimento das massas, dos aglomerados, dos cânticos. Era uma amizade, um «fascismo universal da juventude». Era ainda uma poesia da disciplina e da ordem. Uma poesia do corpo, quase recuperando os ideais de beleza clássicos. Da vida ao ar livre, do desporto, da virilidade, do corpo sadio. O homem tinha de se afirmar como capaz concorrente à modernização e à maquinaria. Por fim, era uma poesia da guerra, da revolução. A guerra permitiria um reconciliação universal, da qual resultaria uma "fraternidade dos combatentes ».


   Tal como com o cultuar do corpo, o fascismo, por ser um movimento do espectáculo, da encenação, da teatralidade, vive de um grande líder carismático, que se afirme e que seja capaz de galvanizar as massas. Hitler era um mestre da oratória. Soube, aliás, como ninguém, subjugar o romantismo alemão a uma ideologia, a um programa. Nesse sentido, estabeleceu-se uma ligação nunca antes vista pelo chefe e o povo. E é uma ligação tão forte, tão intensa, que roça o histerismo e o êxtase colectivo. O chefe representa a alma do povo, reúne os elementos que lhe são comuns. Em todo o caso, o Führer deveria ser quase omnipresente; alimentar uma aura de mistério sobre si. Surgir nos momentos decisivos. Ser curto e conciso. Imponente. Há, aqui, quase uma comparação ao Criador.

   Para o nacional-socialismo e o fascismo, não havia qualquer ideia de igualdade. Como Hitler viria a proferir, num discurso, « só interessa acreditar, obedecer e combater ». Mussolini, em 1922, exaltaria a nação: « Nós criámos o nosso mito. O nosso mito é a nação, a grandeza da nação. » Estavam criadas as condições para, aliada a oratória ao chefe que tudo sabe e vê, surgir o mito, numa concepção quase soreliana. Hitler e Mussolini rejeitavam a igualdade - o que os afasta da esquerda definitivamente. Rejeitavam, ainda, a democracia igualitária ou o sufrágio universal. Ambos eram profunda e visceralmente contra qualquer ideia de democracia representativa, e não raras vezes, nos seus discursos, zombavam da ideia de se eleger alguém de valor pelo sufrágio.

   Mussolini e Hitler ainda partilhavam concepções muito particulares sobre o papel a desempenhar pelos predestinados. Ocupou-lhes algum tempo. Ambos rejeitavam  os fracos. No caso de Hitler, com desenvolvimentos particularmente dramáticos, como sabemos. Mussolini, mais comedido, fazia pender sobre os governantes o destino da sua cara nação. É o culto da irracionalidade e do utilitarismo.


  O papel que o Estado desempenhou para os dois governantes é que tem suscitado grande controvérsia, sobretudo por parte de quem vê no Estado a única característica que nos atribui o rótulo da esquerda ou da direita - e houve quem julgasse que a dicotomia estava morta! Viva, tão viva.
   Para o fascismo, o Estado era tudo, que tinha um primado absoluto. O indivíduo não existe fora do Estado e é um meio ao serviço deste. O Estado é totalitário e avesso à separação de poderes. É uno, é um todo. Mussolini, em 1925, definiu claramente o que Estado era para si e para o fascismo naquela que é, talvez, a sua fórmula mais intemporal: « Tudo no Estado, nada fora do Estado ».
   Ambos, quer Hitler, quer Mussolini, subordinaram o domínio económico à política e aos interesses do Estado. Hitler chegou a afirmar que a economia era um assunto de somenos importância. Para si, o Estado não era uma "organização económica", mas sim "racial".

   Marcel Prélot definiu bem o regime de Mussolini: uma estatocracia, ou seja, uma mistura de monocracia e autocracia. Mussolini levou a exaltação do Estado a um paralelo nunca antes visto. Mussolini quase que antropomorfiza o Estado, como se de um ser pensante se tratasse: o Estado, para o Duce, "é a consciência imanente da nação", nas palavras de Prélot. É um facto espiritual e ainda moral. Um Estado ético. E no confronto entre o Estado e a Nação, Mussolini parecia rejeitar que a última originasse o Estado, senão o contrário, desde uma óptica anti-naturalista. É o Estado que leva o primado sobre a nação. E é o Estado, nesta linha de entendimento, que consciencializa o povo da sua unidade moral e, consequentemente, de uma existência plena.
    A concepção hitleriana era díspar. Para Hitler, o Estado era um mecanismo. A essência estava no povo. Povo esse que abrangia uma realidade histórica e étnica - muito importante - que ia muito além do século XX. Embora tardiamente reunificados, a Alemanha de Hitler era uma entidade que, graças ao labor dos filósofos e historiadores alemães, bem assim como pela força das suas tradições, dispunha de uma coerência social que Mussolini se viu, em certa medida, obrigado a forjar.

    O corporativismo e racismo foram outras das características primordiais do fascismo e do nacional-socialismo alemão. A primeira, do fascismo. As corporações, várias, estavam ao serviço do Estado italiano. No fundo, foi uma engenhosa forma de Mussolini pôr em prática a sujeição da economia ao Estado. Já no que respeita ao racismo, Hitler não foi precursor. Antecederam-lhe outros, como Gobineau (este último com uma ligação notável ao Brasil), Vacher de Lapouge ou Chamberlain, mas foi em Mein Kampf  que o racialismo encontrou maior expressão, sobretudo no capítulo XI da obra que há relativamente pouco tempo (dois anos) entrou em domínio público. E foi talvez aqui que Hitler e Mussolini mais divergiram. O fascismo estava ligado a uma ideia de imperialismo sobre outros territórios, numa perspectiva de grandeza do Estado; já o nacional-socialismo, entretanto, pugnava pelo mesmo, mas sob a égide de uma raça e de um povo superiores. O darwinismo ao serviço de interesses duvidosos. O Espaço Vital. A GrossDeutschland, que não se deve confundir com o pangermanismo alemão do século XIX, surgido numa era de concorrência entre os mercados. O dito pangermanismo hitleriano era bem mais político do que económico. Em 1932, Hitler deixaria evidente que é através do Estado que a Alemanha se expandiria. Um vez mais, como referido acima, o nacional-socialismo era místico, militar e político. Hitler assumia que todo o alemão podia fazer parte do Terceiro Reich, contanto que a ele pertencesse. Importa o número sobre a riqueza. O poder sobre tudo.

   Deixaria de parte o franquismo e o salazarismo, que não importam explorar aqui dado que, embora partilhassem elementos comuns com o fascismo, não foram fascismos. Parece indiscutível para a historiografia mais imparcial e esclarecida.

   Observando tudo o que foi explanado, e retomando, anos depois, as grandes análises políticas, em suma constatamos que o fascismo e o nacional-socialismo foram tudo menos movimentos de esquerda. Pelo contrário. Opunham-se à ideia de igualdade. À luta de classes. Engrandeceram o Estado que para Marx seria abolido, na última fase do comunismo. Eram nacionalistas. Profundamente anti-marxistas. Capitalistas, favorecendo os grandes interesses.  E se podemos vislumbrar, na sua génese, pretensões de se restaurar o verdadeiro socialismo, foram, na verdade, uma extrema-direita no aspecto ideológico e dogmático, oposto ao liberalismo.

7 de abril de 2019

A revolução nos transportes públicos.


   Pelo que consta, desde o 25 de Abril que não se via algo tão surpreendente nos transportes públicos de Lisboa e do Porto. A medida já havia sido anunciada há uns bons meses, e resulta do acordo entre o Governo e os municípios. Entrou em vigor no dia 1 do presente mês. Por, no máximo, 40 euros mensais, podemos viajar nos 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa. A mim, que desde 2015 moro no concelho de Vila Franca de Xira, deu-me imenso jeito. Eu não ando de carro. Tenho a carta há uns bons anos, contudo não me ajeito a conduzir. Mal de família. A minha mãe nunca conduziu bem, o meu pai idem, e o meu finado avô também não. Enfim. 

   A minha poupança mensal é de 60 euros. O anterior passe, que na verdade eram dois, custava em torno de 100. Poucos cêntimos faltavam. Leram bem, dois passes: um para o comboio e o metro, e outro, porque não havia combinado, apenas para o autocarro, porque da estação da cidade onde moro até ao edifício ainda distam quase dois quilómetros. Além do mais, o passe não me dava para ir a Belém, por exemplo, ou a Benfica, ou à Ajuda, and so on. Estava circunscrito ao percurso normal e às carreiras de uma determinada empresa de transportes. Com este passe, tenho liberdade total dentro da Área Metropolitana. Posso ir ao Carregado, a Mafra, a Setúbal, Sintra, Cascais, enfim. Em todas as empresas de transportes. Sair onde quiser.

  Parece que descobri a pólvora, não? Faz-me diferença no orçamento anual, e a milhares de famílias. A ideia vai ser estendida a todo o país, pelo que li. Embora acredite que isto terá um preço mal o PS ganhe as eleições - porque é uma verdadeira bomba eleitoral em ano de legislativas e europeias -, não deixa de ser uma excelente medida que ajudará à mobilidade, à qualidade do ar na cidade (tirando carros das ruas) e à poupança. Era cansativo depender de bilhetes e carregamentos para ir a qualquer lugar não abrangido pelos respectivos títulos mensais. Perdia-se tempo e vontade.

   Hoje mesmo, fui a Belém, de comboio, e voltei de autocarro. Fui já ao final da tarde, só mesmo para caminhar um pouco. Será uma zona mais explorada por mim a partir de agora, claro está. Entrarei de férias no dia 12, e tenho em vista, talvez, se o tempo e a disposição ajudarem, umas visitas pela área metropolitana.

   Se as pessoas forem sensatas, não darão a maioria ao PS. As maiorias obstam aos consensos e quase esvaziam o conteúdo útil do parlamento: um governo, com maioria, instrumentaliza o parlamento. Sabe que tudo o que sujeitar à Assembleia da República será aprovado. E sabe, por sua vez, que poderá inviabilizar tudo o que venha da oposição. Tem a faca e o queijo na mão, em rigor. Isto supondo que o PS irá ganhar as legislativas. Com o esbatimento do PSD e a dificuldade do CDS em se afirmar definitivamente como força política governativa, creio não restarem grandes dúvidas. Os passes ajudaram.


28 de março de 2019

Moçambique.


   O meu pai nasceu em Moçambique, no final dos anos quarenta do século passado, na colónia de Moçambique, ainda antes da revisão constitucional de 1951 que tornou aquele território numa província ultramarina. A visão estratégica de Oliveira Salazar havia mudado. Com a nova ordem mundial estabelecida após o término da Segunda Grande Guerra, as duas superpotências que emergiram do conflito, EUA e URSS, bem assim como a recém-criada ONU, com objectivos diferentes, passaram a ver com maus olhos o colonialismo europeu. Salazar não cedeu um milímetro, alterando apenas o estatuto e promovendo uma rápida assimilação, tanto quanto possível.

  Foi já no início do período convulso que o meu pai veio ao mundo, ainda longe dos horrores da guerra, que nunca veria, na sua Lourenço Marques. O conflito, sobretudo a norte de Moçambique, em Cabo Delgado, começou em 1964. Dois anos depois, já adolescente, em 1966, e temendo os horrores da guerra, os meus avós e o meu pai regressaram, deixando quase tudo o que tinham para trás. Enfim, uma história igual à de tantos portugueses. Não foram retornados, é certo, e terá pesado mais o medo da minha avó, hipocondríaca, de morrer sem assistência médica adequada naqueles confins do que o  conflito armado. A minha avó ainda é viva. Completará 91 anos em Junho.


  O meu pai perdeu o contacto directo com aquela terra. Anos depois, por portas e travessas, conseguiu a nacionalidade. Foi uma conquista para si. Como forma de reclamar algo de que se viu expropriado. Quando falamos em independência e em direito à autodeterminação, esquecemo-nos dos moçambicanos brancos que perderam a ligação efectiva com a terra. Efectiva que se tornou afectiva, em muitos casos. No caso do meu pai, não foi assim. As memórias mantêm-se vivas. Foram dezassete anos. Dezassete anos iniciais, que abarcam a infância e a adolescência. Nada de despiciendo, portanto.

  O ciclone que devastou a Beira teve um efeito extremamente negativo no meu pai, como o vêm tendo todas as tragédias que assolam Moçambique. À independência, seguiu-se a guerra civil, a fome, a epidemia de HIV e de outras enfermidades pelo meio… Os moçambicanos são sofridos. Um povo que não tem sido bafejado pela sorte. Um povo quase esquecido por Deus. Figura, e continuará a figurar, infelizmente, como um dos mais pobres do mundo. E por se falar em pobreza, há atitudes de um altruísmo comovente: a Guiné-Bissau, há dias, anunciou que iria ajudar Moçambique com noventa mil euros. Um país também com inúmeros problemas estruturais. Uma ajuda verdadeiramente desinteressada, fundada apenas nos laços históricos que unem os dois países. A Guiné deu uma lição ao mundo dito civilizado. Portugal, claro está, disponibilizou-se a ajudar, enviando militares. Fora estes dois casos lógicos, vindos do seio da CPLP, nada se ouve. O mundo vira a cara para o lado. Faz como se nada fosse.

   Na minha faculdade, há uma recolha de mantimentos para os moçambicanos. No átrio principal, pede-se que cada um, dentro das suas possibilidades, colabore com produtos básicos de alimentação e higiene e algumas roupas. Nada de dinheiro. Alguém tratará de fazer chegar o que resultar da angariação aos moçambicanos. Mui meritório da parte de quem propôs a ideia. Portugal, aqui, e os portugueses, em geral, têm de ocupar lugar cimeiro e dianteiro na ajuda. Sem querer entrar em juízos de mérito sobre a independência, e ainda menos na política, os nossos povos estarão perpetuamente ligados. Um vínculo indefectível, que em momentos como este mostra o seu fulgor.

16 de março de 2019

Magalhães.


   Não, não é o computador do governo socialista. A bem ver, nunca se falou tanto em Magalhães como nos idos anos de 2007 / 2008, no tempo das vacas socialistas, gordas, que em breve ficariam magras. Hoje, fala-se mesmo do navegador, que está rigorosamente na ordem do dia, pelo menos aqui ao lado, em Espanha, onde se esgatanham para ser os primeiros a chegar à América, a construir o  império onde o sol nunca se punha e, claro está, a dar a volta ao mundo. O assunto já chegou à política, e por lá até a academia de história a faz, à política, claro está. Seria tudo ridículo, ou hilariante, se não houvesse aqui algumas considerações a fazer. A primeira delas diz respeito a Portugal, que começou por apresentar uma candidatura unilateral na UNESCO, ao que parece, para assinalar os quinhentos anos da circum-navegação, quando devia ter chamado Espanha. É que Portugal anda há 900 anos, primeiro com os castelhanos e nos últimos séculos com os espanhóis, a lidar com eles. Já deveríamos contar com uma reacção extremada vinda daqueles lados. É que por lá, ao contrário do que sucede por cá, levam isto da História muito a sério. Têm orgulho e brio no que foram, talvez porque o que são actualmente também não seja nada de deslumbrante.

   Em segundo, não fica nada bem aos espanhóis, que são igualmente interessados em manter boas relações com o seu vizinho, afrontar assim Portugal, fazendo-nos quase apagar da empresa de Magalhães, concluída por Elcano. Tudo bem que Magalhães não estava ao serviço da coroa portuguesa, mas é falacioso dizer-se, como o jornal ABC veio dizer, sustentado pela dita academia de história, que "la expedición fue exclusivamente espanõla". Bom, o navegador era português. O conhecimento náutico também. A polémica já ultrapassou Magalhães: há, da parte da imprensa espanhola, sucessivas tentativas de se procurar diminuir Portugal na sua globalidade, de subestimar os nossos feitos, o nosso contributo para o conhecimento da Terra e dos continentes que a compõem. É um nacionalismo exacerbado, que não direi que não haja por cá, sentindo, ainda assim, bastante mais contenção deste lado. Simultaneamente, estou em crer que este parecer da academia espanhola, que vinculará entidades espanholas e que terá o seu valor apenas lá, é extemporâneo, surgindo numa altura em que Espanha e Portugal resolveram, conjuntamente, avançar com uma candidatura da viagem de Magalhães e Elcano a Património da Humanidade. Tudo evitável, no fundo.

   Da parte portuguesa, houve bom senso, em contraposição ao histerismo suscitado em Espanha. Como venho defendendo, nem precisaríamos de Magalhães. Temos plena consciência de como as nossas façanhas ajudaram a desmistificar as lendas criadas em torno de um mundo totalmente desconhecido nos séculos XV e XVI, e cito só alguns nomes: Gil Eanes, Diogo Cão, Bartolomeu Dias. Magalhães foi um entre tantos. Navegámos na costa e fora dela. Chegámos ao Brasil, a Timor, ao Japão, à Terra Nova. São factos. Há provas documentais. Iria mais longe: quando nos reportamos aos nossos feitos antigos, Magalhães tão-pouco será o primeiro nome que nos ocorre, e sim Vasco da Gama ou até Cabral. O que os espanhóis conseguiram foi fazer barulho, e sabemos em como conseguem ser estridentes. Omitem ou procuram abafar os factos que lhes sejam desfavoráveis: havia tripulação de vários países; Carlos I limitou-se a financiar a viagem; Dom Manuel I apenas recusou os préstimos de Magalhães porque tal equivaleria a uma violação do acordado em Tordesilhas; Sebastián Elcano era, na realidade, basco. Será até discutível se já haveria Espanha, muito embora Carlos I assim se intitulasse, como Rei das Espanhas, no plural, mantendo, oficialmente, os títulos em cada reino. É que se quisermos esmiuçar a História, ela dá-nos bons argumentos para vários lados, do que resulta que a campanha foi internacional, e não espanhola. Algo, todavia, é indesmentível: sem Magalhães, português, muito português, nada teria sido possível. E não há pareceres que o contornem.


12 de março de 2019

"Neto de Moura, processa-me!".


  Em Outubro de 2017, dediquei algumas palavras ao caso Neto de Moura e seus acórdãos infames. As coisas ficaram por ali. Nunca mais soubemos nada. Há dias, soubemos, sim, que o senhor doutor juiz resolveu agir judicialmente contra umas vinte figuras públicas que, em seu entendimento, o injuriaram e difamaram nas redes sociais. Eu remeto para a minha crónica todas as considerações de teor jurídico. Encontrarão lá o que penso. Vou falar mais de Neto de Moura, que, à época do acórdão, não era assim tão conhecido. Melhor dizendo, chocou mais o acórdão do que a pessoa. De momento, choca tanto a pessoa quanto o acórdão.

  Eu, no lugar de Neto de Moura, teria ficado quieto, sossegado, esperando a poeira assentar de vez, ao contrário de tornar a público ameaçando A e B com processos-crimes. Qualquer pessoa razoável, ao ler as fundamentações dos seus acórdãos, e já anda por aí outro polémico, pergunta-se: quem é a pessoa por detrás de decisões tão vexatórias da justiça e desrespeitadoras da dignidade humana?  Quando o sabemos, é natural que nos façamos algumas perguntas, também, sobre o carácter do senhor doutor juiz. Pois, é evidente. Os juízes formam as suas convicções livremente. São independentes. Seguem a lei, têm de a cumprir escrupulosamente, mas a convicção sobre determinado caso fica à consciência do magistrado. Ora, naqueles acórdãos eu vejo muita opinião pessoal e pouco direito. Vejo convicções pessoais, religiosas, sociais e pouco direito. Pegando nas palavras de Rui Zink, que tem uma saída brilhante, a meu ver, até parece que " poucas foram as que caíram ao chão ". A mulher, pouco importa se a adúltera ou não, é ali retratada como um ser da pior espécie, merecedora do pior que lhe possam fazer. Isto sim, a meu ver, são decisões criminosas, porque são decisões que comprometem a vida de uma pessoa, a sua crença na justiça e nas instituições. Alias, é a negação da justiça. Mulheres que são vítimas de violência doméstica e que, depois, são vítimas da violência deste senhor doutor juiz. Pegando num conceito sobejamente utilizado em direito, o do homem-médio, bom, o homem-médio fica horrorizado quando lê aqueles acórdãos e tem conhecimento das decisões.

  Só acrescentar algo que, creio, não disse no primeiro artigo sobre esta polémica: os juízes administram a justiça em nome do povo. Está lá, na Constituição. E fazem-no com base na lei. A lei, por sua vez, reflecte a percepção que cada sociedade tem do justo e do não justo, do lícito e do não lícito, do correcto e do incorrecto. Nos países islâmicos sujeitos à Sharia, um homem pode repudiar a mulher repetindo certa palavra três vezes. Uma solução destas atentaria contra os nossos valores, aplicada cá. Isto para lhes dizer que o direito varia de país para país porque cada sociedade humana tem os seus valores. O senhor doutor juiz Neto de Moura não decide de acordo com os sentimentos profundos do povo português. Os acórdãos nos quais foi relator ficariam bem num país confessional ou num no qual o povo, que é aquele em nome de quem se faz justiça, partilhasse das mesmas valorações quanto ao correctivo a aplicar à mulher adúltera. Para nosso bem, estamos, enquanto povo, um passo à frente de magistrados como Neto de Moura. É pena que o Conselho Superior da Magistratura se tenha contentado com uma mera advertência. A classe protege-se, claro. E é igualmente lamentável que o Supremo Tribunal de Justiça não tenha podido, por manifesta impossibilidade legal, afastar definitivamente Neto de Moura de quaisquer casos de violência doméstica, indo, aliás, ao encontro do pedido elaborado pelo último. O lado positivo é que as decisões deste magistrado, e bem, continuarão a ser escrutinadas pela opinião pública, como já o foram, de resto. Poderá queixar-se de falta de liberdade para formular os seus juízos. Eu, pelo contrário, e consciente de que os magistrados não têm legitimidade directa e não estão acima da lei, bem como dos assomos de uns de quase se quererem substituir ao legislativo, acho muitíssimo bem que se sujeitem à crítica do povo, dos jornalistas, dos humoristas, e por aí fora. E só temos a agradecer a quem trouxe estes acórdãos à ordem do dia. É preciso continuar a falar-se da violência doméstica. Só até este mês, em 2019, morreram onze mulheres, em Portugal, às mãos de maridos e namorados. Neto de Moura precisa conhecer os números.

24 de fevereiro de 2019

Venezuela (II).


   Em Agosto de 2017, abordei a situação da Venezuela aqui no blogue, que já na altura era dramática. Nestes últimos dois anos, nada acalmou. Pelo contrário. Maduro insiste em levar o país para o limite de uma intervenção externa, porque na bancarrota já está. Milhares de venezuelanos arriscam as suas vidas para alcançar a fronteira com o Brasil, escapando à fome crónica, à escassez de medicamentos, de serviços básicos de saúde. A Venezuela, hoje, é o espelho do fracasso do socialismo. É a prova viva de que os regimes de esquerda não trazem quaisquer benefícios para o povo. Visam, tão-só, enriquecer uma classe política corrupta e sedenta por poder, que se perpetua e que coloca os seus nos sectores-chaves da economia, da indústria, como um polvo cujos tentáculos se fazem sentir em todo o lugar.

   Há um princípio básico, no direito internacional, de não-ingerência nos assuntos internos de outro país. No caso do país da América do Sul, já ultrapassámos esse limite, a partir do momento em que não há um poder reconhecido internacionalmente. A comunidade internacional divide-se entre Guaidó e Maduro, o último que só consegue vislumbrar reconhecimento entre regimes iguais, ditatoriais e desrespeitadores da dignidade humana. O mundo civilizado reconhece Guaidó por ora, sabendo de antemão que a solução para a Venezuela, no imediato, passa pela convocação de eleições livres e democráticas, para que o povo venezuelano, legítimo detentor da soberania, se possa expressar nas urnas e decidir o seu futuro. O futuro dos venezuelanos não pode ser sequestrado por Maduro, o último dos tiranos na América Latina. Maduro não encontra problemas éticos, morais, em mandar abater cidadãos inocentes. Os confrontos dos últimos dias na fronteira com o Brasil atestam a sua falta de escrúpulos, a sua desumanidade.

   Há casos de militares que conseguiram cruzar a fronteira e desertar. Entendem, e com motivos, que a solução para a Venezuela não é militar, e sim política. Maduro continua a procurar instrumentalizar as forças armadas para que o apoiem, sabendo que deixou de ter reconhecimento. A sua situação é profundamente ambígua. O que temo é que haja, efectivamente, uma intervenção externa em território venezuelano, conduzindo a milhares de mortes civis. Ele não desistirá tão facilmente. Acredito que prefira ser quase um mártir a renunciar livremente e permitir que a Venezuela possa enterrar este passado recente de miséria e sofrimento.

   No caso de Portugal, e tendo em consideração a comunidade enormíssima de emigrantes na Venezuela, temos de adoptar uma postura contida. Guaidó tem-se desdobrado em agradecimentos ao governo português. Guaidó não é um impostor, não é um usurpador. Como presidente da Assembleia Nacional Venezuelana, encabeça um dos órgãos de soberania daquele país. Não reconhecendo, como nenhum organismo internacional fidedigno reconhece, a legitimidade de Maduro, que se fez eleger num processo eleitoral pouco claro e com vícios, Guaidó, para que o poder não caísse nas ruas, encontrou, na sua autoproclamação, uma decisão temporária, até que se realizem eleições livres e representativas. É isto que se espera. Guiadó é presidente interino. É uma solução que até em Portugal encontra consagração constitucional. O Presidente da Assembleia da República pode, interinamente, ocupar o cargo presidencial, até à realização de novas eleições.

   O mais lamentável é que não se deixe a ajuda humanitária chegar àquelas população. Não quero imaginar o que será não poder dispor do mais básico para se acudir a uma emergência médica, ou pior: não ter que comer. Temo que qualquer provocação, do lado brasileiro, possa ser entendida como uma declaração de guerra. Morrendo um civil brasileiro às mãos de um militar venezuelano, Bolsonaro não hesitará. Esperam-se dias mui conturbados naquela região do globo.

25 de janeiro de 2019

Violência ou terrorismo?


   Não haverá, presumo eu, português que não tenha ficado com um semblante de estupefacção no rosto ao se dar conta dos acontecimentos dos últimos dias na Grande Lisboa. Habituámo-nos a conhecer o nosso país como um espaço plural, harmonioso, onde diversas raças e origens confluem pacificamente, meio que imunes aos ventos agrestes que nos sopram um pouco dos dois lados, da Europa e das Américas. Talvez devêssemos repensar a ideia que temos dele.

   Lisboa mergulhou numa onda de terror. Forcas de segurança e imigrantes envolveram-se em confrontos - a Avenida da Liberdade, há dias, parecia uma rua do Médio Oriente. De um lado, acusações de racismo e xenofobia; do outro, a certeza de que a PSP desenvolve um trabalho notável em bairros problemáticos, enfrentando grandes dificuldades e com os seus agentes correndo inúmeros riscos  - ontem mesmo soubemos de dois colhidos por um comboio, quando estavam no encalço de um suspeito.

   A polícia deve ser respeitada. Quando a sua actuação transcende as competências, temos o direito de resistir. A nossa experiência poderá ajudar-nos a entender o que por ali se passou. Falamos do Bairro da Jamaica. Para quem não sabe, e há gente boa e má em todo o lado, é um bairro conhecido por albergar delinquentes, zona ligada ao tráfico de droga e a outros delitos. Não falamos exactamente de pessoas ordeiras, honestas, inseridas naquilo que será uma vivência saudável em sociedade. Quando chamada ao local, presumo que os agentes sejam recebidos com desconfiança, com atitudes hostis. Nós sabemos como as coisas se passam nesses bairros, sabemos quem lá mora e conhecemos a sua índole. As acusações de racismo e excesso de força por parte da polícia não me merecem credibilidade alguma. Em todo o caso, o uso da força está justificado em determinadas situações. Repito, a polícia deve ser respeitada e deve fazer-se respeitar.

  Custa-me que uns e outros, sobretudo à esquerda, ponham em causa a integridade ética das nossas forças de segurança, contribuindo para o desrespeito e desautorização dos nossos agentes e para a descredibilização das nossas instituições. Li declarações, de gente ligada ao Bloco de Esquerda, que me deixaram indignado. De uma leviandade inadmissível em quem tem responsabilidades políticas. O que seria das nossas ruas e das nossas cidades se não houvesse agentes a patrulhá-las com afinco, conscientes do papel que desempenham. Incitar ao desrespeito pela PSP é uma conduta merecedora da mais veemente reprovação, e aqui exigia-se mais, nomeadamente do Presidente da República, que, entre telefonemas para programas de televisão e viagens com camionistas, poderia mostrar mais alguma firmeza, afinal, ele é o garante do Estado de Direito Democrático, segundo a Constituição, e estes incidentes são claramente actos que o põem em causa, bem como à nossa segurança e tranquilidade. Não senti que a classe política lhes tenha dado a atenção devida, que o assunto é sério e da maior gravidade. Arriscamo-nos a ter uma conturbada Paris, multiétnica, qual barril de pólvora, aqui mesmo, na capital.

  Quando a bandeira do multiculturalismo só é hasteada na Europa - dizem que há cem mil portugueses em Angola, mas, à data de hoje, não parece que tenhamos provocado distúrbios lá - não nos admiremos que partidos mais conservadores aumentem a representatividade no parlamento. Portugal não tem uma verdadeira direita que defenda o país e os nossos interesses. É preciso que o digamos: Portugal é dos portugueses, e a estas pessoas, que não se acostumam com os nossos modos, resta sair. Não acredito que tenhamos falhado na sua inclusão, porque elas mesmas se excluem, reunindo-se em nichos, segregando-se e segregando-nos, que em grande parte das vezes nos tratam com imenso desdém - a esquerda reaccionária dirá que é a outra face da moeda, sendo certo que lutaram pela independência, e conseguiram-na, não se percebendo o porquê de não contribuírem mais para o bem-estar dos seus. Que o façam logo, que estamos perante o gérmen de algo que só terá tendência a se avolumar, para mal dos nossos pecados, que muitos de nós não os cometeram: nunca pisei em África.

5 de janeiro de 2019

Precisaremos de um novo Salazar?


   Eu considero normal que se discutam estes assuntos. E louvo a TVI por isso. O problema do nosso país é que ainda não ultrapassámos o complexo de esquerda, que nos persegue há mais de quarenta anos. Podemos ponderar se levar um indivíduo à televisão como Mário Machado será adequado. À partida, um sujeito que cumpre a pena que foi submetido salda a sua dívida com a sociedade. Se lá estava, presume-se que já não tem contas a ajustar com o povo e o estado portugueses. Nesse sentido, não há nada que o impeça de expor as suas opiniões através de qualquer meio de comunicação. Só acredita nelas quem quer. Só as perfilha quem quer. Vivemos num país livre, e é engraçado que é em nome da liberdade que se quer censurar uma pessoa. Ponto número um.

  Salazar foi um monstro, um tirano? Salazar foi um homem do seu tempo. Não o culpemos pelo atraso de Portugal, que lhe é mui anterior. Salazar não era um democrata. Não era. Era um patriota, um nacionalista. Era um homem que, entre inúmeros defeitos, como todos, qualidades também as tinha. É inegável que defendia os nossos interesses como nenhum outro o fez pela história. Livrou-nos dos horrores da II Guerra Mundial, e não nos poupou da Guerra Colonial, como muitos dizem, porque considerava aqueles territórios como nossos. Podemos também ponderar se houve culpas do regime no processo. Sim, de certo modo. A solução não era militar, e sim política. Em todo o caso, o conflito não foi desencadeado por nós, e a guerra estava ganha em Angola e em Moçambique.
  Economicamente, conhecemos um superávide, único na nossa história recente, durante o Estado Novo. Terá sido tudo mau durante aqueles quarenta anos tão ressentidos? Não. Indiscutivelmente que não. Como Caetano profetizou, com a perda das províncias ultramarinas deixámos de ter qualquer voz na comunidade internacional, passando a depender de outros países para tudo. Razão ninguém lha pode negar. Assistimo-lo diariamente. As crises vão e vêm. Portugal dificilmente sairá do marasmo, e porquê? Porque é um país ínfimo, que subsistiu às marés da História pelo Atlântico e graças ao Atlântico. Perder o oceano implicou anularmo-nos. A nossa vocação é universal. Não fomos talhados para viver neste pequeno rectângulo do ocidente europeu, não. A nossa alma extravasa as nossas fronteiras. Sempre foi assim. Ponto número dois.

   Precisaremos de um novo Salazar? Em patriotismo, em coragem, em ponderação, em determinação, não tenho muitas dúvidas quanto à resposta. Não se falava de direitos humanos quando Salazar chegou ao poder. Menos ainda de estado social. Salazar nasceu num Portugal já convulso, cresceu no fim de um regime e no início de outro. Viveu os tempos da I República. Nós somos - venho-o dizendo de sempre - o produto das nossas circunstâncias. 
   Não precisamos de um Salazar. Precisamos, isso sim, de alguém que reúna o melhor de Salazar no contexto em que vivemos, de democracia, com todas as liberdades que conhecemos e das quais, evidentemente, não estamos dispostos a abdicar. Eu vivo da palavra, da palavra escrita, sobretudo, e prezo-a muito.

2 de janeiro de 2019

A tomada de posse de Bolsonaro.


  Ontem, dia 1, Jair Bolsonaro tomou posse como chefe de estado da nação amiga e irmã brasileira. Portugal fez-se representar ao mais alto nível, através do nosso presidente, o que demonstra a importância que atribuímos às relações bilaterais entre os dois estados. O Brasil não é um país qualquer. Pertence, como Marcelo Rebelo de Sousa afirmou, ao grupo selecto de amigos e parceiros de Portugal. Não negarei todo o paternalismo. A Portugal é importante ver um Brasil forte e pujante, ainda que as relações comerciais entre ambos os países sejam residuais. É algo sentimental, efectivamente. Um Brasil próspero conforta-nos o ego, como o pai que gosta de ver o seu filho bem e saudável.

   Em primeiro lugar, e eu acompanhei toda a cerimónia, gostei do aparato, da sumptuosidade. Investir-se alguém na mais alta magistratura da nação não é um acto qualquer. Merece toda a pompa. Creio que o Brasil tem sobejos motivos para comemorar esta viragem, este abandono do socialismo, nas palavras de Bolsonaro, que tantos prejuízos acarretou. E indo aos discursos do já presidente em exercício, há a salientar a coerência: Bolsonaro disse, já presidente, o que veio dizendo ao longo da campanha que o elegeu: mais segurança, luta contra a ideologia de género, luta contra a criminalidade, medidas para enfrentar a crise económica, luta contra o desemprego (que atinge 13 milhões de brasileiros), liberalização do porte de armas e defesa da família tradicional. É um momento de viragem, que se reflecte na percentagem (porcentagem, no Brasil) de brasileiros que estão, agora, confiantes no futuro, e são mais de sessenta por cento.

   Só no ano passado morreram mais de 60 mil pessoas, no Brasil, vítimas da criminalidade violenta. Na lista das cidades mais perigosas do mundo, metade são brasileiras. Divirjo de Bolsonaro quando defende que facilitar o porte de armas ajudaria a diminuir os índices alarmantes da criminalidade no Brasil. Eu creio que não. Poderá ser mera manobra de maquilhagem, e poderá, no limite, levar a que um criminoso pense duas vezes antes de atacar alguém; poderá, psicologicamente, confortar os que sabem que o Estado não se faz sentir nos seus bairros, mas a origem do problema é bem mais profunda: a desigualdade social e a quebra nos valores. O Brasil precisa, e nisso também Bolsonaro se comprometeu, de lutar contra a evasão fiscal e a corrupção, apostando, ainda, em medidas exequíveis, e que se cumpram, de justiça social. Não há paz social onde há tamanhas desigualdades. Urge, igualmente, valorizar quem defende os cidadãos, a polícia, frente aos criminosos, que gozaram, nos tempos de Lula e de Dilma, de uma quase impunidade. Reeducar a sociedade brasileira para os valores do respeito e da ordem é uma hercúlea tarefa que caberá a Bolsonaro e à sua equipa. O Brasil é um país de estrutura político-constitucional complexa. A experiência de Bolsonaro como parlamentar poderá ajudá-lo no diálogo com os seus parceiros, com a câmara dos deputados. O Brasil precisa de um compromisso que vise o crescimento sustentável e o ataque direccionado à criminalidade e à violência.

  Os EUA serão, expectavelmente, a grande referência de Bolsonaro. No mesmo dia, Bolsonaro e Trump trocaram cumprimentos no Twitter, rede social que, aliás, aproximará o presidente do povo brasileiro. É toda uma outra forma de se fazer política, à qual ainda não estamos habituados aqui na Europa. Eu espero que Bolsonaro seja sensível aos problemas da CPLP, que se empenhe no aprofundamento dos laços com Portugal e a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, praticamente ignorada nos anos de Dilma Rousseff, que não tinha, ela mesma, grande apreço por Portugal, porque Portugal representa a tradição, a tradição que Bolsonaro defende e que a esquerda brasileira sempre negou.

   Portugal, claro, não alinhando ideologicamente com Bolsonaro - no discurso de Ano Novo, Marcelo alertou para os perigos do populismo -, continuará a manter a sua postura de país de pontes e de diálogos, cooperante, honrando a sua tradição de agregador de povos. Marcelo foi o único chefe de estado europeu na tomada de posse de Jair Bolsonaro, único chefe de estado de um país membro da União Europeia. De certo modo, Marcelo representou-nos no acto solene e representou a União Europeia. Portugal, a par de toda a ligação histórica, cultural, social e linguística, representa, para o Brasil, um parceiro especialíssimo no diálogo com a organização supraestadual europeia.

   Israel será outro dos parceiros especialíssimos do Brasil. Bolsonaro já avisou que mudará a embaixada do Brasil para Jerusalém. Interesses geoestratégicos e de alinhamento com os EUA subjazem à decisão. Bolsonaro quer introduzir o Brasil entre as grandes potências, entre os países que figuram nas decisões que afectam todo o planeta. Um papel que, diga-se, é mais do que devido ao quinto maior e mais populoso país do mundo, nona economia mundial. Sempre fui um crítico da postura indolente do Brasil, qual gigante adormecido, na cúpula da comunidade internacional.

   
   Tempos de grandes desafios esperam o Brasil. Se não for agora, direi eu, não será tão cedo. O Brasil tem todas as condições, neste momento, de construir um futuro melhor para as gerações vindouras, de recuperar a credibilidade que perdeu, perante os brasileiros e aqueles que, como eu, de fora, olham para a sua realidade.

29 de outubro de 2018

Bolsonaro, Presidente eleito da República Federativa do Brasil.


   Nada mais natural do que começar a publicação com esta evidência: Bolsonaro, o candidato que começou por ser uma piada, que chegou a perder um debate com, veja-se!, Marina Silva, fez-se eleger Presidente do Brasil. Mérito seu, muito, e o PT também lhe deu um valente empurrão. Desgastado por tantos escândalos de corrupção e favorecimentos, o PT, através de Haddad, pensou que colar-se a Lula teria um efeito positivo. Esqueceu-se de que o povo brasileiro está farto de instabilidade, de estagnação económica, de violência, de ver e sentir os seus direitos diariamente atacados e restringidos. Os opositores temem pela sua liberdade, estando longe de perceber que já não a têm: não há liberdade sem paz social, sem segurança, sem tranquilidade.

   Bolsonaro, com os votos apurados, ganhou por quase 55 %, ao passo que Haddad se terá ficado por pouco menos de 45 %. Não venceu à tangente, não. Teve uma vitória significativa, ainda que considerando que a sociedade brasileira está totalmente dividida. O que quero dizer é que não foi uma disputa renhida. Bolsonaro ganhou e Haddad perdeu. Uma machadada no PT, sem hecatombe. Haddad, no seu discurso de derrota, não pronunciou nem por uma única vez o nome de Lula. Um momento de viragem no partido, quem sabe.

  Agora que a vitória está consumada, começaram os desafios de Bolsonaro. Eu apontaria três imediatos, a concretizar nos seus dois primeiros anos de mandato: primeiro, pacificar a sociedade brasileira, totalmente fragmentada com esta campanha. Houve casais que se separaram, amigos de longas décadas que se deixaram de falar. Este acto eleitoral foi fracturante. A sociedade brasileira está como que dividida em duas partes. Em segundo lugar, Bolsonaro terá de assegurar a governabilidade. Na Câmara dos Deputados, o presidente eleito tem 52 deputados. Muito pouco. Terá de conseguir gerar consensos. Num parlamento com dezenas de partidos, é difícil conseguir-se chegar a um pacto de salvação nacional, a um compromisso. Em terceiro, Bolsonaro terá de mostrar resultados nomeadamente na diminuição da criminalidade, talvez um dos pontos nevrálgicos, com os costumes, destas eleições.


  Ouvi os discursos dos dois candidatos. Da parte de Haddad, desde logo tenho a lamentar que não tenha, democraticamente, dado os parabéns ao oponente. Não lhe ficaria mal, muito antes pelo contrário. Os brasileiros votaram em liberdade, repito, em liberdade. Elegeram o seu presidente para os próximos quatro anos, e fizeram-no por uma maioria expressiva de 55 milhões de eleitores. É bom que a esquerda e simpatizantes o interiorizem. Depois, não reconheceu a derrota. Referiu-se a quem o apoiou apenas, como se os demais brasileiros não lhe interessassem, e prosseguiu no discurso de terror que caracterizou o PT e a esquerda brasileira (e internacional) durante a campanha. Já Bolsonaro, por seu lado, e pese embora tenha achado aquele momento de oração meio circense, teve um discurso inteligente e equilibrado, diferente do Bolsonaro que conhecemos. Frisou que quer aproximar o Brasil dos países desenvolvidos. Claramente um piscar d'olho para Donald Trump, que será o seu aliado. Lamento não ter ouvido nenhuma menção a Portugal e aos países de língua portuguesa. Espero que esta ausência / esquecimento não se traduza numa efectiva indiferença com respeito ao povo português, antepassado do brasileiro.

  Bolsonaro conseguiu o apoio de 15 entre os 27 governadores eleitos. Nas comunidades estrangeiras, em quase todos os núcleos onde os brasileiros puderam votar, Bolsonaro saiu vencedor. A mensagem do povo irmão é inequívoca: quer uma mudança urgente. Acredito que muitos tenham votado em Bolsonaro sem simpatizar com o militar na reserva. Rejeitam eleger mais do mesmo. O povo brasileiro está cansado de promessas vãs, de políticos que se sucedem no tempo sem que o país melhore efectivamente. Para o presidente eleito, chegou o momento, após tomar posse, em Janeiro, de mostrar trabalho. Os anos de congressista terminaram. O povo cobrar-lhe-á medidas efectivas.

  No discurso, Bolsonaro enunciou as linhas mestras, em traços muito gerais, do que será o seu mandato. Foi bem mais conciliador, pacificador. Está já a trabalhar no primeiro dos desafios que lhe apontei acima. Comprometeu-se a respeitar a democracia, e referiu inúmeras vezes a palavra liberdade. Alinhar-se com a esquerda está fora de questão, e bem, a meu ver. O viés ideológico, para o presidente eleito, terminou. Um bom sinal para o Brasil, que se afastará assim, definitivamente, de Cuba e da Venezuela, do socialismo internacional. As bancadas religiosas serão o seu grande suporte. Antes de discursar, quem o acompanhava mencionou os cristãos, evangélicos e católicos, que estiveram sempre na linha da frente de apoio ao então candidato.


  O Governo e a Presidência da República já enviaram as felicitações a Jair Bolsonaro. As relações entre Portugal e o Brasil continuarão estáveis. Com a geringonça no poder, não auspicio grandes aproximações. Muito os separa de Bolsonaro. Espero que o impulso, então, parta do presidente brasileiro. Urge aproximar Portugal e o Brasil. Não me contento com as meras relações bilaterais, formais. Essas, estabelecemo-las com qualquer país. O Brasil representa-nos bem mais. Que Bolsonaro seja sensível aos estragos que a esquerda brasileira operou nas nossas relações, através dos discursos de ódio de Lula, e que procure a conciliação. Portugal pode ajudar o Brasil nessa busca pela sua identidade: lusófona, cristã, tradicional.

  Para terminar, também eu felicito o presidente brasileiro. Num mundo global, nunca sabemos por quem somos lidos. Estou confiante. Que Bolsonaro seja sensível ao capital de esperanças que milhões, no Brasil e não só, depositam em si.

8 de outubro de 2018

Dos julgamentos sumários e das eleições brasileiras.


   Vinha trazer-vos apenas um assunto, mas impõe-se, por uma questão de celeridade e de economia de tempo e de espaço, que o trate, com outro, num único post, até porque estamos perante temas actualíssimos, o último com escassos minutos e com reflexos e desenvolvimentos pelas próximas semanas.

   Começando pelo primeiro. Soubemos, há dias, de mais um escândalo a envolver Cristiano Ronaldo. Só que desta vez não houve o tradicional assédio à sua vida amorosa, luxos, carreira e família. Houve, isso sim, uma acusação, nos EUA, por parte de uma moça, uma moça que lhe imputa factos graves, muito graves, envolvendo um alegado abuso sexual. Li que o acusam de mais crimes, não sabendo ao certo de quantos e de quais. Este, pelo visto, é o mais impactante, o que tem suscitado mais reacções, sobretudo na imprensa.

  Ronaldo está a ser vítima do mesmo mal que aflige Sócrates - e atenção que não simpatizo com nenhum dos dois: os julgamentos sumários e as condenações em praça pública. Antes mesmo de os inquéritos chegarem ao fim - e, quanto a Ronaldo, teremos trâmites diferentes, da justiça norte-americana - e antes mesmo de haver qualquer acusação formal e julgamento, já há uma condenação com sentença lida: culpados. A colectividade não se preocupa em saber se os pressupostos de uma defesa justa e equitativa estão assegurados. Ainda menos lhe importa respeitar o princípio da presunção de inocência, pedra basilar de qualquer Estado de Direito. Os jornais e as redes sociais, aos quais há a acrescer as estações de televisão sensacionalistas, apuram, decidem e condenam. É esta a justiça que temos, uma justiça de alcoviteiros e juízes de bancada, que se escudam no anonimato e que destroem vidas e carreiras.

   No caso de Ronaldo, em concreto, o jogador teve duplo azar: está a ser acusado de abuso sexual de uma mulher. Isto significa, nos dias que correm, ser-se culpado. Surgiu logo um movimento, com hashtags, amparado no feminismo mais inconsequente, a apoiar a pobre coitada que terá sido abusada há nove anos e que só agora veio falar.
   Não, parece que não será a senhora a ter de provar a culpa de Ronaldo; é Ronaldo quem terá de provar a sua inocência. Inverteu-se o ónus da prova, numa claríssima subversão do sistema de garantias processuais. A justiça deixou de ser um monopólio do Estado, a ter lugar nos órgãos judiciários competentes. Aplicá-la passou a ser da competência da Comunicação Social e das redes sociais, que definem vítimas e culpados.


   As eleições brasileiras ocuparão o que resta da publicação. Como sabem, há uns meses declarei o meu apoio a Bolsonaro. Encaro-o, como venho dizendo, como um mal menor. Olhando para o leque de candidatos, para o que apresentam e para a esquerda brasileira, no geral, que é odiosa, Bolsonaro parece-me o menos mau. Compartilho de muitas das suas opiniões: também eu defendo certa moralização da sociedade, uma polícia mais forte e mais presente, o fim da doutrinação nas escolas, uma maior abertura da economia, livre das amarras do Estado, que é um péssimo gestor, accionista e empresário. Encontrarão, se quiserem, mais desenvolvimentos aqui. Para não me repetir, digo-vos só que fiquei agradavelmente surpreso com os 46 % que o candidato do PSL obteve. Tiramos, daqui, algumas ilações. Os brasileiros estão cansados do PT, por um lado, e da esquerda brasileira, no seu conjunto. Fernando Haddad, principal opositor de Bolsonaro e correligionário de Lula da Silva, não conseguiu inverter a tendência. Bolsonaro roubou votos aos descontentes. Os desaires do PT nos anos recentes, os escândalos com Lula e as decepções com Dilma semearam, no povo brasileiro, um desejo inequívoco de mudança. Bolsonaro, inteligente, soube capitalizar o descontentamento em proveito próprio. A radicalização é-lhe favorável. Não ganhou com maioria absoluta por mui pouco, e disputará, no próximo dia 28, a segunda volta, que no Brasil chamam de turno. Atendendo ao que se verifica e ao percentual que afasta Bolsonaro de Haddad, eu diria que a vitória de Bolsonaro é quase certa. A campanha ad terrorem também surtiu um efeito contrário: apelidar Bolsonaro de fascista é desconsiderar uma doutrina política que tem características próprias. Essa tendência da esquerda, de rotular de fascista tudo o que lhe é contrário, vai ao limite do complexo. Bolsonaro não é fascista. É um militar, algo autoritário, com um sentido de justiça apurado e com uma vontade de pôr cobro àquilo que considera, e no qual eu o acompanho, uma crise de valores. Assistimo-la no Brasil e também pela Europa. Depois, tem propostas interessantes na área da educação. Gostei de ler, entre elas, o fim da politização da História - o que a nós, portugueses, seria favorável - e uma maior aposta no Português e nas ciências exactas. Quanto ao Português, sobretudo, agradece-se: dizer-se que os brasileiros escrevem e falam mal chega a ser uma simpatia.

   Em jeito de curiosidade, os brasileiros residentes em Lisboa votaram na minha faculdade, hoje, que estava cheia de cidadãos do país irmão. Ouvi gritos de ordem por parte de alguns manifestantes, estando na sala de estudo. Posso, então, dizer que vivi de perto o acto eleitoral, que não terminou. Haddad e Bolsonaro medirão forças para o confronto final. Um dos dois liderará o Brasil, e terá muito trabalho pela frente.

3 de agosto de 2018

Bolsonaro, sim, e porquê?


   A política brasileira, como bem sabemos, encontra um eco especial em Portugal, principalmente pelos laços históricos. Não haverá português que não tenha um amigo, um conhecido, brasileiro. Falamos numa proporção de 209 milhões de habitantes para 10 milhões e meio. O Brasil tem influenciado Portugal a nível cultural, o que se verifica na hegemonia nas produções fictícias durante décadas, na música e inclusive na onomástica nacional. Nos últimos quarenta anos, os portugueses absorveram expressões brasileiras, cantaram Gal imaginando-se no Leblon, baptizaram os filhos de Amanda e Bruno.

   Há um carinho, que nem sempre se reveste de palavras amorosas, pelo Brasil. Como em todas as famílias, às vezes chateamo-nos, ficamos magoados. Quando a dor passa, voltamos a brincar uns com os outros, a achar caricata a forma de falar de uns, a criticar os erros de outros. Portugal, e o mesmo se passará com qualquer antiga potência colonizadora, tem certo ascendente histórico sobre o Brasil. Culturalmente, nem tanto, que cedo o antigo domínio se afastou dessa influência. No que respeita à Língua Portuguesa, por exemplo, os brasileiros não buscam em Portugal qualquer referência. Têm a sua norma, orgulham-se dela (mesmo que nem sempre a saibam usar) e até a souberam impor, não vale a pena disfarçá-lo, a Portugal, que abrasileirou a sua escrita, ao contrário do que fizeram alguns dos países africanos. De duas grafias, passámos a três (ou mais), pois desengane-se quem pensa que o Acordo veio uniformizar seja o que for. Outro assunto.

  E assim ficaríamos, Portugal e o Brasil, vivendo nesta inconstância, alternando entre o amor e o ódio. Há milhões de brasileiros que nos adoram, outros tantos que nos detestam. E há, claro está, políticos que se aproveitam disto para ganhar votos, quer à esquerda, quer à direita. À esquerda, já me cansei de ler e ouvir que matámos, abusámos, roubámos o ouro, invadimos, por aí fora. Um sem-número de chorradas demagógicas e populistas, revestidas de pouca exactidão e coerência históricas. À direita, há políticos que se insurgem e que dizem umas quantas verdades, incómodas, claro, que vivemos na era do politicamente correcto (ou pelo menos exige-se a uns que sejam politicamente correctos, que outros podem dizer todo o tipo de alarvidades).

  Numa era global, uns dirão que as declarações de Bolsonaro são perigosas, quando afirma que os portugueses « não pisaram na África », aludindo ao facto de adquirirmos escravos a outros africanos, que os vendiam. Não é nenhuma mentira. É verdade. E se isto melindra alguns, também me melindra que digam, como Lula da Silva disse, em Espanha, à frente do monarca espanhol, que o Brasil é atrasado por culpa de Portugal. Sinceramente, há alguém com dois dedos de testa que veja nesta retórica algo de benéfico para as sãs relações entre dois países umbilicalmente unidos? Eu não.

   Enquanto português, apoiar Lula da Silva ou Ciro Gomes seria quase como pegar num chicote e flagelar-me, depois de ser açoitado por milhões de brasileiros e ainda por outros tantos portugueses, idiotas, que apoiam quem não demonstra pudor algum em demonizá-los além-oceano. É isso que eles fazem. Lula vinha cá, esbanjava sorrisos e proferia cínicas palavras simpáticas. Chegado ao Brasil, pintava os portugueses como verdadeiros monstros. E há quem os defenda, aqui, em Portugal. O ódio internalizado é o pior, de facto. Os portugueses são prodigiosos em odiar-se. Se houver quem os ajude nessa tarefa, ainda agradecem e pagam, se preciso for.

   A par de tudo isto, a situação do Brasil não me é indiferente. Eu vejo um país mergulhado no caos social, com índices de violência alarmantes, com uma insegurança que se pressente em cada linha que um brasileiro nos dirija em desabafos. Viver-se no Brasil, é o que sinto, com muita pena, não é agradável. Os brasileiros estão desiludidos. Naquelas escalas de felicidade, a segurança compreende um perímetro vasto. Não há felicidade alguma sem paz social. Os brasileiros não têm essa paz, ao contrário de nós, por exemplo, que podemos ter dificuldades, que as temos, mas moramos num país seguro e tranquilo. Ainda que custe a ler ou a ouvir, o Brasil precisa de ordem, e a ordem impõe-se. Não através da pena de morte, desumana, mas de medidas concretas, que poderão restringir direitos, liberdades e garantias, sim, se tal se justificar em nome da paz social. Não há justiça onde não há paz social, onde os cidadãos não vêem os seus direitos acautelados, onde impera o terror nas ruas. Por vezes, perguntam-me se fosse em Portugal, o que eu pensaria. Se Portugal vivesse estes tenebrosos dias que o Brasil vive, defenderia exactamente o mesmo. Haveria de preferir prescindir de uma parcela da minha liberdade em nome da segurança. Não seria livre se a minha liberdade fosse permanentemente ameaçada pelo medo de uma arma. Bolsonaro não é um salvador da pátria, porém propõe-se a lutar contra o flagelo da criminalidade no Brasil, seguramente o maior entre os problemas daquele país, o que mais o obscurece aos olhos da comunidade internacional e dos próprios brasileiros.

   Bolsonaro peca pela sua falta de eloquência. Altera o tom de voz, consegue ser rude. É um homem com ideias num país difícil. É evidente que há muito nele que não concordo. Sou contra a pena de morte, oponho-me ao uso da tortura. A pena de morte é degradante, a tortura idem. É um método incompatível com qualquer estado que respeite a dignidade humana. Entretanto, Bolsonoro tem razão quando se opõe à discriminação positiva que favorece os afro-brasileiros. Não há qualquer dívida histórica. As pessoas devem atingir os seus patamares através do mérito, e isso consegue-se facilmente numa sociedade onde todos sejam iguais, independentemente da cor da pele. Em relação à comunidade homossexual, é muito coerente também. Nada tem contra homossexuais, mas não quer, como eu não haveria de querer, que o lobby gay entre nas escolas, com programas e currículos. Ensinar-se que a homofobia é errada, sim; mais do que isso, não. E não há ponta de racismo ou de homofobia neste discurso de Bolsonaro. O que há, sim, da parte dos seus opositores é incapacidade em lidar com a sua determinação, principalmente com o contraditório. Custa-me a aceitar a visão que têm da democracia: a democracia só existe no limite da convergência. E ai de quem ouse ter ideias próprias que atentem contra o establishment.

   Não sei realmente o que é os que brasileiros preferirão. Da minha parte, começo a habituar-me ao desdém pelos portugueses. O ensino está totalmente dominado pela esquerda política, que desde Paulo Freire se dedica a manipular a informação segundo lhe convém. Eu, por exclusão de partes e por tudo o que mencionei, já fiz a minha escolha, no que me é dado a permitir escolher.

30 de julho de 2018

Da esquerda e da incoerência.


    Há muito que me afastei da esquerda política. Não há tanto quanto gostaria e deveria. Hoje, compreendo o processo que se dá em variadíssimas personalidades do nosso panorama político, e que criticava: crescer e perceber o absurdo que é perfilhar-se dos entendimentos da esquerda. De certo modo, esta escandaleira com o vereador do BE em Lisboa, Robles, veio precipitar um desabafo que presumo ainda não ter dito - perdoar-me-ão, mas são mais de mil textos no blogue - e que adiei persistentemente.

   Como nacionalista histórico, vi-me confrontado com a visão totalmente incompatível com a minha, de demonização dos europeus e do legado histórico que deixámos pelo mundo. Se se derem ao trabalho de ler o que a esquerda política pensa a respeito, verão que não minto. Começou por aí. Às tantas, já não me identificava com os preceitos económicos, pela sua inexequibilidade e incoerência, e já nada me prendia à esquerda. Foi um processo gradual, que terá levado dois anos. Sim, se quiserem pô-lo assim: eu, militante de esquerda arrependido, me confesso. Nunca fui militante por nenhum partido, vá lá. Poupei-me a esses vergonhosos papéis.

   Até considero natural ser-se de esquerda na adolescência, pela tendência a olhar-se para a igualdade como bem supremo. No meu caso, acresciam certas bandeiras tradicionais de esquerda, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção, que hoje ponho em causa, sobretudo a última. A razão era a da idade. Não dava para mais. O ensino não ajuda, completamente adulterado. Sim, a História é escrita pelos vencedores. Por último, o amadurecimento pessoal, que se consubstancia num mais refinado juízo crítico: a esquerda destruiu Portugal, desbaratou o império, endividou o país, encaminhou-nos para uma sociedade sem quaisquer valores morais ou éticos, onde tudo é consentido e permitido, e onde qualquer crítica legítima e democrática é atacada. Se há verdadeira intolerância, há-a na esquerda e nos seus partidos e militantes. Este processo, gradual, como disse, levou-me a perder amigos e a tornar-me mais próximo de outros, isto é, admitindo que percamos amigos. Se os podemos perder, é porque nunca o foram.

   À direita, ainda ando à procura do meu lugar. Continuo, e deve ser o último resquício que há em mim de esquerda, a defender um Estado mínimo, mas mínimo, em determinados sectores, para que o arbítrio não nos conduza a uma impiedosa desumanidade. O Estado é, por natureza, dado a vícios e a corrupções. Defendo uma sociedade liberal em termos económicos, com as leis do mercado na regulação da actividade económica. As melhores sociedades têm uma economia verdadeiramente livre de amarras estatais. O Estado é péssimo enquanto gestor dos dinheiros públicos. Portugal, no índice de liberdade económica, está sempre mal posicionado. Menos Estado, mais iniciativa privada.

   Nos costumes, estou totalmente conservador, e aí é onde o declive se verifica mais. Sabe-se que sou contra a eutanásia, a interrupção voluntária da gravidez (já escrevi rios de tinta acerca), mas também me oponho, a priori, à adopção por casais compostos por membros do mesmo sexo e, quanto ao casamento, coloco as minhas reservas. Defendo, claro está, que os casais gozem de protecção legal, causando-me alguma estupefacção, devo dizer, que uma comunidade - com a qual não me identifico minimamente - pugne pelo direito à diferença durante décadas e, depois, queira imitar o modelo heteronormativo em todos os seus moldes, incluindo no direito ao casamento, sublinho, ao casamento. Na adopção, quanto a mim, num mundo ideal, uma criança deve crescer com o seu pai e a sua mãe. Há outros modelos de família, sabemos que sim, e é preferível entregar-se uma criança a dois homens ou a duas mulheres do que sujeitá-la durante anos aos trâmites burocráticos do Estado; no limite, será melhor entregá-la a casais homossexuais do que ao Estado, que, além de falhar na tarefa que a Constituição que lhe incumbe, propicia a crimes que todos conhecemos. Não há um direito à adopção; há, pelo contrário, um direito a ser-se adoptado. Um modelo masculino e um modelo feminino são imprescindíveis para o são desenvolvimento da personalidade de uma criança. Sabemos que nem sempre tal é possível.
   A defesa da família tradicional não é imune à minha experiência pessoal: defendo a família porque conheço as consequências da falta dela: a família deve ser um valor absoluto, e não haverá gente equilibrada que não tenha uma família equilibrada.


   Quando temos conhecimento de casos como o de Robles, a podridão da esquerda caviar invade-nos o nariz. O caviar estragou-se, e o povo ficou a conhecer quem é a esquerda que o diz defender. Antes ser de direita e coerente do que desta esquerda e profundamente infeliz nas condutas, que até estarão dentro dos limites legais, mas que revelam toda a hipocrisia e cinismo. Não há defesa possível para o indefensável. Há que assumir o erro e lidar com as contrapartidas pessoais e políticas.

12 de julho de 2018

Do Vale dos Caídos.


   Há muito a esta parte que se fala na exumação e posterior trasladação dos restos mortais de Francisco Franco do Vale dos Caídos, monumento erigido pelo franquismo, que honra a memória dos nacionalistas que tombaram na Guerra Civil Espanhola. Ganharam os nacionalistas, como sabemos, ganhou Francisco Franco sobre os republicanos comunistas, que ansiavam implantar em Espanha um regime pró-União Soviética. O monumento, hoje, é encarado em duas perspectivas: numa, como um memorial franquista, local de culto a Franco; noutra, como compromisso com a História. Franco, não tendo deixado disposto onde queria ser sepultado, foi-o, logicamente, no Vale dos Caídos, como principal protagonista do conflito no país vizinho. Em Espanha, sabemo-lo, não houve uma ruptura com a antiga ordem, à semelhança do ocorrido em Portugal. A transição à democracia não teve o alvoroço do corte abrupto português, que varreu, por assim dizer, quase todos os vestígios do fascismo, se considerarmos que o Estado Novo foi um regime fascista. Já abordei o assunto anteriormente, não sendo oportuno, para não me perder, fazê-lo de novo agora. Por conseguinte, e embora Franco não goze de nenhuma consensualidade em Espanha, da mesma forma que Salazar não a tem em Portugal, contornaram-se, por lá, todos aqueles excessos pós-revolucionários. Para termos uma ideia, Espanha prepara-se para legislar contra o fascismo, o que Portugal fez no período entre 1974 e 1976. É bem elucidativo.

   Perfilho certo princípio: não devemos brincar com os mortos. Os mortos estão acima do bem e do mal. Francisco Franco será, sempre, objecto de culto e epicentro de revivalismos, esteja ou não sepultado no Vale. O túmulo de Salazar, por cá, discreto e na sua terra, também conhece romarias. Elas são frequentes. Direi mais: é um direito das pessoas. O nosso ordenamento herdou a reacção extremada revolucionária, mas se o comunismo não é proibido, e matou tanto ou mais do que o fascismo, não se entende o porquê de tamanhos trejeitos autoritários - ó paradoxo - em relação ao fascismo. Numa sociedade democrática, a menos que estejam em causa atentados à dignidade humana, cada um deve ter a liberdade de aderir à ideologia que melhor estiver em conformidade com a sua consciência. Demonstram não estar confortáveis com o passado, quarenta anos depois. Demonstram, aliás, um medo irracional de umas quantas ossadas. O caminho, se querem evitar ímpetos extremistas semelhantes aos da Europa central, não é este. Correm o risco de colher o efeito contrário. A deriva é tão ou mais evidente quando pretendem retirar os despojos não apenas de Franco, mas também de Primo de Rivera, ditador espanhol de 1923 a 1930.

   Sem intenção de me imiscuir num assunto que não me diz respeito, porém no exercício da minha liberdade, e bem como referi acima, esperava-se uma atitude mais racional e conciliadora. Se Franco, sobretudo Franco, ainda não era um mito, sê-lo-á em breve. Agradar a uma parcela da sociedade espanhola, gerando-se divisões noutra, acicatará os ânimos e a ira de muitos. Podem reformar o monumento, como querem, erguendo o tal espaço de « reconciliação » e « reconhecimento das vítimas da ditadura », sem alterar o percurso histórico e sem profanar a História e um corpo. É que estas reacções, nomeadamente de Sánchez, recentemente chegado ao poder, surgem num momento muito oportuno, quando uma certa ala da esquerda política olha para a geringonça portuguesa enquanto exemplo a seguir e a aplicar.

13 de maio de 2018

Eurovision Song Contest Lisbon 2018.


   Não sou fã do certame. Vi, salvo erro, umas quatro edições na minha vida: uma em pequeno, outra no ano em que os meus pais se separaram (porque distraía a cabeça...), a do ano passado (em que ganhámos, pela primeira vez desde 1964) e esta. A deste ano porque a organizámos. Foi, de certa forma, ainda no seguimento da vitória do Salvador.

   Falou-se, na altura, na incapacidade de Portugal em sediar um evento de tamanha projecção e grandiosidade. O país é pequeno, relativamente pobre e anda em constante contenção financeira. A verdade é que a RTP aceitou o desafio e arregaçou as mangas. Resultado: uma edição fantástica, com elogios velados e unânimes. A Europa rendeu-se à nossa capacidade de receber, de bem receber. Os turistas sentem-se em casa. Desfrutam do nosso sol e da nossa paz social. A par do espectáculo em si, na Altice Arena, a Eurovision Village, no Terreiro do Paço, com um forte dispositivo de segurança, cumpriu com o que faltava: por alguns dias, Lisboa mergulhou na magia do maior evento musical da Europa e do mundo. A Eurovisão, que, repito, não me seduz, tem um magnetismo próprio, atrai milhares de pessoas às cidades que a organizam e outros tantos milhões prende através da caixinha mágica. É aquele momento do ano, goste-se ou não.

   Passarei à margem das canções. Não é isso que me traz aqui, que me leva a escrever sobre a Eurovisão. Há-as melhores e piores. Uns gostam mais de umas, outros de outras. Provámos, em 2017, que era possível conquistar a Europa com um poema simples, sem aparatos, luzes e fogos. Hoje, ou melhor, ontem, que já passa da meia-noite, não o conseguimos. E o poema e a música eram, quanto a mim, substancialmente melhores, mais tocantes. A Europa é de modas. Ainda assim, geralmente querem-se músicas alegres, divertidas, que não sejam particularmente complexas. O chamado bubblegum pop, não obstante haver casos de metal - a Hungria levou este estilo musical nesta edição. Recordo-me, em 2006, justamente no ano da separação dos meus pais, de os Lordi terem ganhado com uma canção de hard rock, o que demonstra em como a Eurovisão também é uma vitrine de tendências e de riscos que se assumem. Há depois, mas não entrarei por aí, o lado dos compadrios, que, parece-me, se tem vindo a mitigar. Temos mais países ocidentais a conseguirem conquistar os lugares cimeiros. A votação do júri pode equilibrar. E depois, naturalmente, as afinidades e as relações de proximidade influenciam as escolhas do público. Portugal deu os doze pontos a Espanha, referindo este exemplo, quando poderia citar outros.

   Creio que estamos de parabéns, sobretudo a estação pública e as suas apresentadoras. Catarina Furtado, Daniela Ruah, Sílvia Alberto e Filomena Cautela. Estiveram as quatro muitíssimo bem, umas mais do que outras. A vida é mesmo assim. O tempo já acusa certo desgaste em Catarina Furtado. Daniela Ruah surpreendeu enquanto apresentadora, ela, que é actriz, e Filomena Cautela superou-se, afirmando-se definitivamente como uma das nossas melhores apresentadoras de televisão da actualidade.

    Últimos na tabela, para não desabituar, primeiros no esforço e no reconhecimento do mérito.

11 de maio de 2018

A queda de José Sócrates.


   O ex-Primeiro-Ministro caiu, definitivamente, em desgraça. As investigações judiciais de que é alvo vieram demonstrar, se tanto, que sobre ele impendem fortes suspeitas da prática de ilícitos, e são muitos. Cova da Beira, Freeport, BES, licenciatura e currículos fraudulentos, enfim, um sem-número. O caso paralelo, mas que se toca, de Manuel Pinho, ministro de Sócrates, foi o rastilho, o que faltava ao PS para se demarcar do seu ex-dirigente, que prontamente entregou o cartão de militante, num divórcio abrupto após longo casamento. Há manifesto oportunismo do partido. As eleições legislativas terão lugar no próximo ano.

   Manuela Moura Guedes, que em tempos foi das poucas a denunciar os casos ligados a Sócrates, deu uma bofetada de luva branca à sociedade portuguesa e às vozes que contra ela se erguiam, acusando-a de encetar uma perseguição, movida pelo ódio, a José Sócrates. Demonstrou que o Jornal Nacional, populista, sem dúvida, se pautava pela investigação, em simultâneo com as tentativas do então Primeiro-Ministro de calar a Comunicação Social, ou pelo menos de domá-la. Conseguiu-o, efectivamente, com a TVI, pressionando o grupo Prisa para que este emprateleirasse Moura Guedes. Já se falava, na altura, do quão mal Sócrates lidava com o contraditório. Aliás, a irascibilidade de Sócrates era visível nas sessões parlamentares. Aceitava mal o jogo democrático. Nunca, como naqueles anos, a democracia esteve tão em perigo. A justiça estava manietada. A teia de interesses montada. Os procuradores-gerais faziam vista morta aos indícios. E nós, o povo, reelegemo-lo, a Sócrates. Fomos tão fáceis de enganar.

    Eu fui enganado também, e não, não conheci Sócrates. Não tive qualquer tipo de relação pessoal com o anterior Primeiro-Ministro, e tão-pouco defendo, ou acho moralmente correcto, que se ataque alguém já enfraquecido. Em todo o caso, estimava-o. Julguei-o um homem determinado, de personalidade vincada, forte, que granjeara inimigos. Era mais do que isso. Os casos sucediam-se vertiginosamente.

    Não me deixarei levar pelo populismo fácil. Não julgarei Sócrates antes de os tribunais, quem de direito, o fazerem. Mas não mais me verão a tomar o seu partido. Fui, enquanto português, uma vítima da sua personalidade manipuladora. Eu, como tantos, que agora só pedimos que se faça justiça. Exemplarmente.