28 de agosto de 2019

Variações.


   Variações é mais um dos inúmeros filmes recentes da cinematografia portuguesa que nos podem orgulhar. É um filme tão bom, tão bem conseguido, que poderia figurar nas salas de cinema de qualquer país do mundo. É isso que me apetece dizer às pessoas, sejam lá de onde forem: se puderem, assistam ao Variações. Aprendemos, finalmente, a fazer filmes sem aborrecer as pessoas com voltas e voltinhas que, por mais que nos digam que pertencem a um determinado estilo culto, não têm potencial de encher salas de cinema e ainda menos de nos projectar lá fora.

   João Maia conseguiu fazer um filme sobre António Variações, o que já pecava por tardio, sem politizar a imagem do icónico intérprete, termo que lhe faz mais jus do que o de cantor, afinal, António Variações era também compositor, e um compositor de excelência, que sem qualquer formação musical criava magia através de um simples gravador, aproveitando o eco que a sua casa de banho lhe proporcionava e sempre inspirado na diva Amália. Acredito que tenha sido tentador banalizar Variações, a sua vida e carreira com uma atenção desmesurada na faceta pessoal do artista. O filme contorna-a. Bom, não é possível falar-se de Variações sem aludir à sua sexualidade. Foi um ex-amante seu, ou ex-namorado, Fernando Ataíde, que lhe estendeu a mão e lhe permitiu inaugurar a impactante discoteca Trumps logo na primeira noite. António apresentou temas rejeitados pela Valentim de Carvalho, que evidentemente fizeram furor, ficando logo no ouvido e nos lábios de todos os presentes naquela madrugada de 1981.




   Não se pense que o seu percurso foi fácil. Luís Vitta, da Rádio Renascença, falecido em 2015, foi um dos mais acreditaram no seu potencial. Um homem como António Variações dificilmente obteria a confiança de qualquer editora, acostumadas que estavam a outro tipo de sonoridade. Portugal saíra poucos anos antes do Estado Novo. A falta de formação musical fazia com que António fugisse ao tempo das canções. Era complicado para os restantes músicos, e António cantou em bandas, acompanhá-lo. As canções viviam dentro de si. Ele era a prova viva de que a música nasce com as pessoas. O talento não se compra nem se ensina: ou se tem ou não se tem. Mais importante do que conhecer os homens com quem António Variações se deitou, João Maia trouxe-nos o artista e a sua saga para vingar numa indústria corporativista e antiquada.

   A interpretação de Sérgio Praia é inenarrável. Há factores que ninguém controla, como as semelhanças físicas entre Variações e o actor. E é um factor que ajuda a que, inconscientemente, acreditemos na história que nos está a ser narrada. Pesa mais do que possamos à partida pensar. Depois, claro, vem a qualidade da interpretação, da caracterização, dos cenários, enfim, do contexto em que todas as personagens são inseridas. Houve esmero e brio. Sérgio Praia arrebatou o direito a vestir a pele de Variações. Passou, com nota francamente positiva, no teste de nos trazer, trinta e tal anos depois da sua morte, o homem que escandalizava a moralista sociedade portuguesa com os seus brincos exóticos e roupagens andróginas, que oscilava entre a moralidade e a religiosidade de Amares e a excentricidade de uma Amesterdão que o modificou para sempre. Este filme vem fazer justiça ao homem, ao artista, que - diz quem conheceu - era de uma simplicidade e timidez únicas. Fazia falta falar-se de Variações no grande ecrã.

27 de agosto de 2019

Chernobyl.


   De volta a Lisboa. Antes de ter partido para férias, andei a acompanhar uma série no canal de streaming HBO, que subscrevera dias antes. Chernobyl. Devem ter ouvido falar. Pois então, é uma mini-série de cinco episódios que relata os trágicos acontecimentos do dia 26 de Abril de 1986 na central nuclear de Chernobyl, naquele que ficou conhecido como o pior acidente nuclear da História. A zona de exclusão, que hoje ascende a várias centenas de quilómetros, segundo os especialistas, só será habitável dentro de 900 anos, quando a radioactividade permitir a ocupação humana. No seguimento do desastre, morreram dezenas de pessoas expostas a níveis elevadíssimos de radiação, sucumbindo à síndrome aguda. Pelos anos, vários milhares pereceram de cancro devido à acção prolongada e letal de doses de radiação no organismo. Milhares de crianças nasceram com malformações. Mais tarde, veio-se a descobrir que o acidente se deu por erro humano, numa conjugação de falhas na segurança dos reactores com testes mal efectuados.

   Deixam-nos com vontade de a devorar num serão. A caracterização está excelente. Vemos os terríveis efeitos da radiação no corpo humano, o sofrimento daqueles homens, não só dos trabalhadores da central como também dos bombeiros que acudiram ao incêndio que se seguiu à explosão. Provavelmente, nem eles teriam noção do perigo a que se expunham, tal o voluntarismo em fazer cessar tudo aquilo, todo aquele cenário dantesco. A radioactividade produzia um halo luminoso no céu de Pripyat. Uma matéria incolor e inodora é tão destruidora.




   Embora o foco incida sobre o acidente, os trabalhadores e os funcionários soviéticos e os quadros do regime, nas suas horas, dias e meses seguintes, há um núcleo amoroso, numa tentativa de humanizar a tragédia. O que ela representou para as pessoas comuns, que lidaram, num momento inicial, até às evacuações, com absoluta naturalidade. A radiação não era perceptível. Há uma cena na qual vários habitantes se juntam para assistir aos vapores emanados pela central engolida nas labaredas e aos halos luminosos desde uma pequena ponte, ponte essa que ficaria conhecida por ponte da morte. Nenhum sobreviveu.

   A sonorização complementa um quadro de horror. Os medidores de radiação produzem um zunido que nos faz sentir isolados no meio de um veneno que não se sente. O mérito da série é exactamente esse: a recriação, o mais fidedigna possível, do que terá sido Chernobyl para os seus intervenientes. É uma quase ficção científica sem o ser. Aconteceu realmente, ainda que nos pareça ter sido impossível. A luta contra um inimigo que não se vê e nem se cheira, e que previamente já levou a melhor.

  A URSS começou por negar o acidente. Mais tarde, assumi-lo-ia. Há historiadores que aventam Chernobyl como um dos factores que levaram ao colapso do estado soviético, em finais de 1991. Chernobyl, e Chernobyl, em itálico, revelaram ao mundo fragilidades de uma superpotência que já não o era tanto, que se esforçava ingloriamente para competir com os americanos. Que dispunha de material ultrapassado e inoperante. Entre personagens reais e algumas fictícias, e a fronteira entre a ficção e a realidade não é clara, o HBO tem, aqui, uma grande aposta, que certamente reúne as condições para atrair novos subscritores. A mim, foi precisamente Chernobyl que me levou a aderir. Veremos se as séries seguintes lograrão fazer-me ficar.

17 de agosto de 2019

Holidays.


   A blogosfera já não existe e eu também ando a perder o gás, mas, ainda assim, gosto de vos dar conta dos meus passos (alguns). Vou até ao Algarve, por uns dias, fazer e praia e piscina, que gosto tanto e que tão bem me faz. No regresso, conto-vos como foi. 

   Boas férias, se for caso disso!

16 de agosto de 2019

O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo.


   Inauguro, aqui no blogue, a primeira crítica literária. É a primeira vez, julgo eu, que me debruço sobre um livro. A minha relação com os livros é caricata. Adoro ler. Nem sempre tenho paciência para tal. Antes de entrar na faculdade, lia imenso. Depois, perdi a vontade. Fui esmorecendo. Voltei em força com este O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, de Haruki Murakami. É, também, o meu primeiro livro deste autor.

  Andei meses para o terminar. Pelo meio meteu-se a faculdade, e lá o deixava de novo na prateleira, à minha espera, e esperou muito.

   A obra é de 1985, e arrecadou o equivalente japonês ao nosso Prémio Camões, o Tanizaki. Através de uma linguagem simples, ligeira, Murakami vai-nos relatando cenas do quotidiano, triviais, como viagens curtas de carro, ao som de Bob Dylan, ou molhos de tomate na cozinha. O livro tem poucas personagens que intervêm decisivamente. Está dividido em dois núcleos. As duas principais de cada núcleo parecem estar sempre no limite da esperança e da apatia. Deixam-se levar no embalo das consequências das decisões que vêm tomando. Há um pesar, latente, lamentos constantes do que ficou para trás ou eventualmente por viver. 

   Murakami foi bastante descritivo. As descrições tomam-lhe tempo. Não se esgota nelas, contudo. Temos de atender ao ano em que foi escrito - 1985. O autor levanta questões éticas e sociais. Naquele tempo, a ficção científica ocupava-nos o imaginário. Estavam a começar os loucos anos da era tecnológica, que tantas coisas boas (e más) nos trouxeram. Como em Tóquio, numa enorme metrópole, um jovem adulto, praticamente abandonado e sem família, se sujeita a experiências científicas. Por baixo dos pés de milhões de seres humanos, havia um submundo subterrâneo que se movimentava na penumbra e que só esperava pelo momento oportuno para atacar.

   Fiquei com imensa pena da Sombra. Acompanhei o seu definhamento com tristeza, o que me compelia a querer avançar. No fundo, o seu enfraquecimento estava directamente ligado ao desligamento deste mundo, ao desprender.

  Murakami é o mestre da alegoria. Discorre sobre as tragédias do tempo contemporâneo. Eu diria que Murakami é um escritor dos aforismos, das metáforas. E da solidão. E do desalento. E do fatalismo.

   « A verdade é que o meu corpo existe, pensei, tratando de me convencer a mim próprio. Se tivesse desaparecido, deixando para trás apenas a alma, de certeza que me sentiria melhor. Porque se a alma tivesse de suportar eternamente feridas na barriga, úlceras gástricas e hemorroidas, onde diabo estaria a salvação? E se a alma não se separasse do corpo, onde diabo encontraria a sua razão de existir? » p. 298

11 de agosto de 2019

The Professor (Richard Says Goodbye).


   Pela primeira vez, estive no Oeiras Parque. Fui com um amigo, que me convidou para assistirmos ao The Professor, com Johnny Depp no papel principal.

  The Professor é uma tragicomédia, repleta de mensagens subliminares. Johnny Depp tem, a meu ver, um desempenho fora de série. O modo como ele conjuga, em Richard, o desespero e a aparente alienação face ao seu estado de saúde é notável. Quer-se dizer, o desespero e a conformação, paradoxalmente misturadas, que acompanham aquele homem em dias terrivelmente difíceis. Richard, contextualizando, é um professor que vem a saber, através de uma consulta, ter um cancro do pulmão em estágio 4, terminal. Vive um casamento curioso, atribulado, meio relação aberta, em que ambos têm conhecimento dos casos do outro, ou Richard dos casos da mulher.

   O que mais nos conquista, neste filme, é a aparente leveza e descontracção com que os assuntos são explorados, com raros momentos em que a seriedade toma definitivamente conta das personagens. A fotografia é requintada, e o mesmo se diga dos cenários e dos figurinos. O filme respira a classe, a mesma classe média-alta daqueles docentes de um instituto de ensino norte-americano.


   O que faríamos se soubéssemos que teríamos de seis meses a ano e meio de vida? Levaríamos o resto dos dias a chorar ou, pelo contrário, procuraríamos aproveitar ao máximo, jogando para trás das costas o politicamente correcto, sem medo do que os outros pudessem pensar? Estou em crer que o grande mérito do filme é o de deixar a questão a pairar sobre nós: como seria? 

   No que se prende às relações, outra questão se retira da longa: importaria mais a fidelidade do leito ou a lealdade da vida em comum, da partilha? Porque o amor não precisa do sexo, e nem devemos reduzir uma relação à cama e ao cumprimento dos deveres conjugais (que não o são). O companheirismo, que existia no caso de Richard e da esposa, prevaleceu até ao final, com mútuas declarações de amor na hora da derradeira despedida.

   É provável que saiam da sala meio desconfortáveis, até pelos sintomas da doença de Richard, que se vai agravando à medida em que os capítulos - o filme está dividido em capítulos - se sucedem, mas na certeza de que aquele homem escolheu morrer à sua maneira.

31 de julho de 2019

O Culpado.


   Há suspense até ao último minuto, de facto. Thriller que nos faz sentir o desconforto desde a cadeira da sala. Os planos fechados, estáticos, a claustrofobia daquele gabinete - a acção desenrola-se toda na esquadra - e os segundos intermináveis de silêncio, entre grunhidos e ruídos, levam-nos a exasperar. Foi interessante, de certo modo, terem realizado um filme sobre os assistentes da linha europeia de emergência 112, que, no caso dinamarquês, parece ser operada pela polícia.

   Asger é um homem com problemas pessoais e no emprego, completamente dedicado, de corpo e alma, às funções que executa, não temendo em se comprometer, ao ponto de, a meu ver, violar alguma da ética profissional que o devia acompanhar.


   As coisas nem sempre são o que parecem, e embora o realizador tenha querido que nós participássemos naquela tentativa de resgate, um telefone, por si só, não funciona. É um filme de forte comprometimento com uma causa, salvar vidas, talvez também porque Asger esteve implicado na destruição de uma, o que o corrói e preocupa. O esmero em solucionar aquele verdadeiro bico de obra poderá estar relacionado com essa procura por uma redenção qualquer, naquilo que terá sido um acidente que o deixou marcado. Asger é um homem perturbado. Percebemo-lo pelo seus descontrolo pessoal, que desvenda alguma violência, porque a acção do filme não vai além de um caso despoletado por uma chamada de emergência.

28 de julho de 2019

The Lion King.


   O Rei Leão nunca foi o meu filme favorito da Disney. Vi-o, como todos da minha geração, em pequeno. Acredito que seja o filme de animação de eleição da maioria. A mim, contudo, nunca fascinou, nem convenceu.

   Tenho um amigo que me disse não querer ver este live-action com medo de sair completamente defraudado nas suas expectativas. Teme, em suma, que o remake lhe estrague as memórias de infância.

    Inversamente àquilo que sucedeu com o Aladdin, esta recriação d' O Rei Leão ficou, quanto a mim, perfeita. Foram absolutamente fiéis ao original (aperceber-se-ão disso nos pormenores), o que é bom. Não inovaram. Não se puseram com invenções que, no mais das vezes, só nos levam a sair completamente decepcionados - o que no meu caso seria impossível, só podendo sair a ganhar, e saí. Os efeitos computorizados atribuem ao filme uma percepção de realidade e uma minúcia que o desenho-animado dos anos 90 não tinha, porque nem podia ter. A banda-sonora, que, sim, sofreu alterações, ficou interessante. Não tem o impacto das canções épicas da versão original, mas a escolha de Beyoncé Knowles foi acertada.




    O facto de o remake ser maior do que a versão original ajuda a explorar melhor as personagens. Nala, a mãe de Simba, as hienas e o próprio Scar, o icónico vilão, que continua malignamente cínico, são-nos dados a conhecer com mais profundidade. Claro que encontramos todos os personagens, como o divertido Zazu, o feiticeiro Rafiki ou os destrambelhados Timon e Pumba, que nos sacam risadas a bandeiras despregadas com a sua sagacidade e que continuam divertidíssimos. O contexto da convivência difícil entre hienas e leões, que se verifica realmente nas savanas africanas, ganhou outra dimensão, inclusive nas cenas de luta entre os animais, ultra-realísticas. Eu vejo, aqui, a computorização como um acrescento à fantasia.

   A cena da morte de Mufasa, uma das mais emocionantes da história da Disney e até, direi eu, da cinematografia em geral, continuará a comover. Os efeitos conseguiram extrair da cena o que ali se jogava: toda a maldade de Scar, o desespero de Mufasa e o profundo pesar e sentimento de culpa que se abatem sobre Simba. É o apogeu do filme em realismo e drama.

   Acredito que alguns esperassem mais, talvez algumas diferenças face ao original. Sendo O Rei Leão um símbolo da cultura pop e um filme quase de culto, intergeracional, o realizador temeu que quaisquer mudanças pudessem causar um efeito de afastamento das pessoas das salas de cinema. Fez muitíssimo bem em seguir o guião original. A falta de expressão no rosto dos animais é um ponto que poderia ter sido melhor trabalhado, é verdade, contudo é importante que as pessoas percebam que a tecnologia não faz milagres. O resultado final da antropomorfização nunca é perfeito. O desenho-animado, e já o disse aqui noutras publicações, permite uma liberdade que a procura pela perfeição ainda não atingiu. Os bonecos, em itálico, ficaram pouco expressivos? É provável que sim. Julgue-se, porém, o filme no seu todo. Eu nunca vi uma savana tão natural, tão real, tão viva e criativa numa animação por computador.

   Sob pena de ser torturado - estou a brincar convosco - superou o original. Eu aprendi verdadeiramente a gostar d' O Rei Leão com esta versão. Antes tarde do que nunca. Um trauma de infância que superei, afinal, como não gostar deste filme?

20 de julho de 2019

That's one small step for man, one giant leap for mankind.


   Há exactos 50 anos, Neil Armstrong protagonizava a chegada da humanidade à Lua com uma frase que jamais esqueceremos, os que assistiam pela televisão e os que a conheceram a posteriori, ou muito a posteriori, como eu, que estava a largos anos de vir a nascer. Os EUA pisavam no único satélite natural do planeta, levando a dianteira sobre os seus rivais, os soviéticos, que em 1961 haviam posto o homem no espaço. Terá sido uma vitória para os americanos, ainda que eu a veja como uma vitória colectiva. Demos um passo decisivo. Armstrong teve consciência da importância de ter sido o primeiro, ele que tinha tido um percurso pessoal e profissional relativamente discreto e apagado.

   Por cá, vivíamos nos anos da primavera marcelista. Salazar agoniava a olhos vistos. As imagens chegavam-nos a preto e branco, durante toda a madrugada, através do sinal da RTP, claro está. É provável que alguns se tenham lembrado do que fizemos séculos antes, no século XV, quando, com menos conhecimentos do que aqueles de que os americanos dispunham, nos lançámos num mar de incertezas. A nossa façanha, não querendo com isto tirar os louros aos americanos, foi porventura mais surpreendente. Tecnologia, se é que lhe podemos chamar assim, tínhamos pouca. Muita, herdada dos sarracenos. Os meios, também eram escassos. Os homens, enfezados e malnutridos, sobretudo quando comparados aos neerlandeses e outros. Ora, diga-se lá se não fomos mais corajosos? Encarar o oceano, sem a certeza de encontrar terra firme, assemelha-se-me mais heróico do que ir à Lua, afinal, a Lua estava lá. Já sabiam que a encontrariam, na melhor das hipóteses. Os nossos homens, na melhor ou na pior das hipóteses, não sabiam nada. Sabiam, quando muito, que tinham Deus consigo. Levavam a fé e a esperança de regressar. 



    Não deixa de ser curioso que conheçamos mais dos planetas e asteróide que compõem o sistema solar do que do fundo dos nossos oceanos, das suas fossas abissais. Embora já tenha havido explorações, mantêm-se amplamente desconhecidas. Demos primazia ao espaço em detrimento dos oceanos. Acredito que tal se deva à conquista do ar. A aviação e a exploração espacial, pela inovação, desviaram-nos a atenção. A guerra tecnológica com os soviéticos ajudou a incrementar uma vantagem que já vinha de trás.

   Uma das décadas mais apoteóticas e conturbadas do século XX terminava com um feito extraordinário. Após Armstrong e Aldrin, vários outros astronautas tiveram a honra de pisar o solo lunar, até 1972, data da última missão ao satélite, pela Apolo 17. De lá para cá, a Lua passou para segundo plano. Fala-se em enviar o homem a Marte na década de 2030. Se assim for, e se lá chegar, certamente serei um dos que ficarão agarrados ao ecrã noite fora, como os nossos pais e avós, na emocionante madrugada de 20 de Julho de 1969.

15 de julho de 2019

Veliero Amerigo Vespuccio.


   Na quarta-feira, o navio-escola da Marinha Italiana, o Amerigo Vespucci, em homenagem ao célebre cartógrafo de Florença, Américo Vespúcio, atracou em Lisboa. É uma embarcação lindíssima, imponente, que se via ao longe, desde a estação de Santa Apolónia, por um lado, ou do Terreiro do Paço, pelo outro. Os seus mastros, longos e esguios, elevavam-se no céu. Isso despertou-me a curiosidade. Nós, portugueses, temos o navio-escola Sagres, que cumpre as mesmas funções, viajando por esse mundo fora e acolhendo jovens cadetes em formação.


   Só na sexta-feira, já fora de horas, é que descobri que se podia visitar o veleiro por dentro. Por sorte, sábado, ou seja, anteontem, era o último dia. Decidi passar por lá, à tarde.

    Bom, não há muito para apreciar, verdade seja dita. Só nos deixam andar pelo convés e espreitar pela cabine de controlo. Visto por fora, julguei  que a visita interessaria mais. O que é interessante, sim, é observar o mapa da viagem que o veleiro efectuará pela Europa. Neste momento, já vão a caminho da Irlanda. Passarão pela Noruega, Alemanha, Espanha…
   Achamo-lo num excelente estado de conservação. Extremamente bem cuidado. Passou por uma remodelação recente. Com 88 anos, parece estar longe da reforma. Lisboa, curiosamente, foi uma das suas primeiras passagens, quando, em 1931, foi lançado aos mares.


   O Amerigo Vespucci é, de certo modo, um símbolo de Itália, país reunificado tardiamente, já no século XIX, mas terra, também, de homens ligados ao mar. Desde logo, Cristóvão Colombo, um dos maiores. Poderia ainda mencionar Giovanni da Verrazano ou o seu homónimo Caboto, dois dos primeiros navegadores a explorar o continente norte-americano.
   Une-nos, a portugueses e italianos, não só uma origem comum, a Lacio, com tudo o que isso implica - língua, direito, arquitectura (clássica) -, mas também as façanhas em alto-mar, e os feitos italianos são vulgarmente esquecidos. Quando se pensa no descobrimento da América, lembramo-nos dos Reis Católicos, de Espanha e de Colombo. Colombo que era genovês - ainda que subsistam várias teorias, díspares, sobre a sua proveniência. Do que ninguém duvida é de que Itália, reunificada ou não, imprimiu o seu nome na história dos descobrimentos. E merece figurar lá.



   Deixo-lhes algumas fotos, por mim tiradas.

9 de julho de 2019

O fim... do ano lectivo, com c.


   Com o início do título, até se assustaram, não? O fim. Será que é agora que ele vai encerrar de vez o blogue? Não, ainda não é desta, embora ande ligeiramente afastado destas lides. 

  O que é que tenho feito, perguntar-se-ão. Algumas coisas; umas que gosto mais, outras que gosto menos. Na última semana, fiz uma oral de Contencioso Administrativo, na quarta. Uma oral de passagem. Gosh, o raio da cadeira deu-me imenso trabalho a fazer. A regente pôs a mão na massa, como um assistente disse, e corrigiu alguns testes e exames. Como sou um tipo cheio de sorte, foi ela quem corrigiu o meu teste e o meu exame. Não será difícil imaginar que a nota não foi um espanto, obrigando-me a ir à oral. Sim, uma oral, com um júri. Eu, de fatinho e gravata, perante dois professores até acessíveis e simpáticos - rezei para que não fosse a regente. Passei. A algum custo, mas passei. Fiz todas as cadeiras a que me comprometi, seis. Parabéns a mim.

  Antes disso, na segunda-feira, fui a Lisboa com a minha mãe. Ela teve de tratar de uns assuntos e pediu-me para que a acompanhasse. E eu lá fui, claro. Adoro andar com a minha mãe. Da parte da tarde, passámos pela baixa, onde almoçámos numa hamburgueria de decoração retro-chic, comprei um polo na Springfield e um livro na Bertrand. O polo é muito giro, vermelho, e é para estrear quando o tempo melhorar, ou eventualmente no Algarve, se for para lá neste Verão, que ainda não sei. O livro, pois, não era  para o ter comprado, porque, como bem se lembram, comprei imensos livros na edição deste ano da Feira do Livro. Acontece que tinha um montante a caducar no meu cartão da Bertrand. Um montante não desprezível, por assim dizer. Com o remanescente, trouxe um clássico, outro que ainda me faltava. Deixo-lhes as fotos.






    Tem sido assim, um começo de Verão tímido. Tão tímido quanto a temperatura, que ainda não é de Verão, mas que agradeço: continue. Ah, acompanhei a Copa América e a Gold Cup, competições que terminaram ontem. Parabéns aos vencedores, o Brasil e o México, respectivamente.

2 de julho de 2019

2ª mostra de cinema do Brasil em Lisboa / Aos Teus Olhos e O Beijo no Asfalto.


   Subscrever newsletters tem um lado bom. O mau, já conhecemos: a nossa caixa de e-mails a abarrotar; o bom, é este: ter conhecimento de eventos, de festivais. Assim foi. Soube que o Cinema São Jorge estava a exibir a 2ª mostra de cinema brasileiro. Já o soube a dias do final, mas a tempo de ver os filmes que me interessavam. Anteontem, domingo, vi estes dois: Aos teus olhos e O Beijo no Asfalto. Em rigor, era para ter visto um no sábado e outro no domingo; acontece que adiaram o de sábado, Aos teus olhos, para domingo às 18h, que se juntou ao O Beijo no Asfalto, às 21h. Foi uma maratona, maravilhosa maratona, que não me é inédita, nem em festivais (aconteceu no Queer, no ano passado), nem em cinema comercial (já vi dois também, seguidos).


   Começando pelo Aos teus olhos, é um filme dramático, que nos conta a história de um professor de natação que, de um momento para o outro, é acusado pela mãe de um dos seus alunos, um miúdo menor, pequenito, de o ter beijado inapropriadamente. A mãe, ao ter conhecimento do sucedido através do próprio filho, divulga o caso nas redes sociais, primeiro no grupo da escola de natação, que depois, com as partilhas, que os brasileiros chamam compartilhamentos, chega a várias outras pessoas. 

   O realizador nunca nos conta o que verdadeiramente aconteceu. Em momento algum. Somos levados, cada um de nós, por indícios que nos são deixados, a acreditar numa ou noutra versão, e também somos confrontados com os nossos preconceitos. Chegamos a saber que o beijo terá sido no rosto da criança. Será que ficamos igualmente preocupados se uma professora beijar um aluno no rosto? E sendo um homem? Porque é que a nossa tolerância muda? Não serão ambos professores? É aqui que entra a homofobia, que por diversas vezes surge no filme. Aliás, a confusão entre pedofilia e homofobia é uma constante. O pai do menino teme que chamem o filho de viadinho. O professor é vítima de insultos homofóbicos. A directora da escola de natação, que primeiramente apoia o seu funcionário, também o questiona sobre a sua orientação sexual, sabendo que não o pode fazer, porque as leis laborais, também no Brasil, protegem os trabalhadores quanto a questões que se prendam à sua intimidade.



   É evidente que há indícios que nos levam a pôr em causa a sinceridade de Rubens. Por que motivo leva o menino para o vestiário, a única parte da escola sem sistema de videovigilância? Por que motivo guardou a sunga do menino no cacifo, não a devolvendo logo? Alegou que os meninos perdem pertences diariamente, e que lhes compete guardá-los. Será correcto um professor guardar pertences dos alunos no seu cacifo? São perguntas retóricas. Algumas terão resposta. E contundente.

   Rubens parece só encontrar apoio real na namorada. Uma namorada que, a meu ver, também serve aqui apenas para nos confundir. Uma namorada de 19 anos. Ele tem 33. Ou seja, e concluindo o raciocínio e aonde os quero levar a chegar, o realizador, propositadamente, quis-nos deixar cheio de interrogações. Explorou, ainda, olhares cúmplices entre a criança e o professor. Olhares que nunca chegamos a desvendar se de apoio e carinho ou se de algo terrível. Há, ainda, um aluno mais velho, que surge sempre com diálogos indecifráveis com Rubens. Parece que o rapaz é gay e que Rubens o terá ajudado em algo que, tal como com o pretenso crime, nunca fica claro.

   O filme, como se vê, trata de questões actualíssimas, como o julgamento sumário nas redes sociais, verdadeiros barris de pólvora, o preconceito, a desinformação. Não o enquadraria no selo LGBT, porque lhe falta essência e vontade para isso. Gostei das interpretações, dos planos, da simplicidade das actuações, que torna os filmes verosímeis. Quando um actor dá o que tem, isso sobressai. Daniel Oliveira deu.

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   O Beijo no Asfalto foi o segundo do dia (da noite?). É, na verdade, uma peca de teatro televisionada, porque assim nasceu, em 1960, já tendo conhecido três adaptações para o cinema. Esta última, especialíssima, porque vemos os cenários, que são de teatro, a aparecer no filme. É quase como uma peça dentro de um filme. Conta com nomes de peso, como Stênio Garcia, que se sai muitíssimo bem, e Fernanda Montenegro. Sucintamente, um homem vai ao penhores para deixar uma jóia e, no regresso a casa, assiste a um atropelamento, indo ao encontro do acidentado para o socorrer. A vítima, a exalar os últimos suspiros, pede-lhe um beijo. E ele dá. Claro que tudo viria a suscitar uma enorme polémica, desde logo porque o seu sogro está presente e assiste a tudo. Sogro esse interpretado por Stênio Garcia.

   O beijo, na púdica e fechada sociedade brasileira, gerou uma onda enorme de revolta e homofobia. Nisso, ambas as longas comungam. Nisso e no clima de suspeição: no Aos teus olhos, ficamos na dúvida se o professor era um predador sexual; neste, Arandir é, ele mesmo, alvo de suspeições durante todo o filme / peça.

   O preto e branco, o filme foi rodado a preto e branco, representa uma vantagem. Como se houvesse uma enorme solidão entre aquelas personagens. Uma sensação de vazio, de abandono.



   A ideia de colocarem os actores numa mesa redonda, ensaiando, sendo que, depois, os ensaios se misturam com as gravações, foi bem conseguida. Os ensaios servem quase como uma introdução / explicação àquilo que vemos, um acrescento, que serve para tornar aquele argumento mais real, mais palpável. Às tantas, o preto e branco leva-nos a crer estar num sonho.

   Notei que o filme conjuga duas posturas antagónicas: desde logo, a pureza de Arandir, um homem bom, que atende a um último pedido de um estranho, motivado apenas pelo desejo de fazer o bem; do outro, Aprígio e Amado Ribeiro, o sogro e o jornalista de índole ruim. Um, motivado por uma angústia com a qual não consegue lidar (ficarão surpresos); o outro, incorporando o que de pior tem o jornalismo, querendo, seja por que meios for, atingir vendas astronómicas, nem que para isso se valha da difamação. Aqui, de certo modo, também encontro semelhanças com o Aos teus olhos: através da imprensa, nos anos 60, ou das redes sociais, presentemente, deparamo-nos com meios de informação que podem ser potencialmente lesivos.

   O Beijo no Asfalto é ousado, e acredito que o tenha sido muito para a época. De sentimentos reprimidos, pelo menos em duas personagens, a uma pretensa homossexualidade, o encenador / realizador apresenta-nos a morte, no início e no fim; a morte que nos faz espiar velhos desejos, e que descobre outros. À medida em que as cenas vão aumentando em intensidade, a nossa alienação também: não sabemos onde estamos, onde eles estão, e estamos longe de imaginar o final imprevisível.

    Um festival que soube a pouco, se bem que, em Setembro, o São Jorge traz sempre novidades.

27 de junho de 2019

The White Crow.


  Rudolf Nureyev é um nome sobejamente conhecido entre todos, sobretudo na Europa. O célebre bailarino russo, que em 1961 protagonizou um momento inusitado, ao pedir asilo político em França, já no aeroporto, de partida para Moscovo. Este The White Crow não deixou escapar a repressão do regime soviético e os constrangimentos na vida dos seus cidadãos, que eram completamente, como é apanágio nos totalitarismos, manietados. Nureyev não foi excepção. Estava proibido, como todos os colegas dançarinos, de sequer falar com ocidentais. Em Paris, quase que se erguia um muro invisível entre os bailarinos russos e os franceses. Nureyev, destemido, abordou-os e encetou conversa com alguns, tornando-se amigo deles. Na sua companhia, descobriu um mundo novo, que não mais iria largar.

   O filme chega-nos em sucessivas parcelas intercaladas. Vemos Nureyev em pequeno, com a mãe e as irmãs. De seguida, vemo-lo em escolas de bailado russas e já em Paris, onde a sua companhia de bailado actuou por cinco semanas. As fases não são sequenciais; pelo contrário, são-nos mostradas ao longo de todo o filme, como pedaços que se cortam e se colam naquele momento em particular, o que confere um resultado interessante.

  Nureyev tinha uma personalidade extremamente difícil. O realizador não o esqueceu. Frequentemente, pela sua irascibilidade, feria pessoas que lhe eram próximas, e outras que até o mereciam. Não sei até que ponto se tratava de uma defesa. As cenas em família não nos dão margem para interpretações seguras, mas antevemos alguma carência afectiva, porque a económica é manifesta, e até dedutível.



   A vida íntima do bailarino não é explorada em excesso. Há pequenas referências, umas mais explícitas do que outras. Nureyev experienciou, ao menos, relações ocasionais ou relacionamentos com homens e mulheres. Presumo que fosse bissexual. A bem dizer, o filme quis incidir o seu foco mais no artista do que no homem. Como o artista é feito pelo homem, há detalhes que não podem escapar à mira do realizador mais competente. Contudo, vê-se que o objectivo nunca foi esse.

  Não queria deixar de falar da fotografia, que tem interesse. Os símbolos soviéticos, a foice e o martelo nos edifícios, e a sigla CCCP (URSS em russo) cravado a letra amarelas no passaporte. A rigidez do regime, em suma, e das pessoas. 

   No geral, é um bom filme. Há um rigor estético, na narrativa, e nos movimentos de Nureyev, e uma preocupação com a beleza, nas personagens, nos seus figurinos, na sua forma de estar e agir.
    O fim de Nureyev já conhecemos, e não é retratado no filme. Sendo, segundo consta, altamente promíscuo, terá contraído o HIV nos anos 80, sucumbindo no dealbar de 90, com 54 anos. Após a deserção, só lhe foi permitido regressar à URSS em 1987, para acompanhar a mãe no leito de morte. Nureyver e o regime soviético caíram com breves dois anos a separá-los.

25 de junho de 2019

Copa América 2019.


   Têm conhecimento de que esta competição está a decorrer, certo? Acredito que sim. E, sabendo, acredito que tenham estranhado ainda nada ter dito. Bom, se julgaram que não a estava a acompanhar, falharam rotundamente no prognóstico, que estou, e, por se falar em prognóstico, o Uruguai bateu, há minutos, o Chile por uma bola, ficando no 1º lugar do seu grupo, C, indo, assim, defrontar um dos terceiros melhores classificados, neste caso o Peru, do grupo A. Relembro que os dois melhores terceiros lugares desta competição passam aos quartos-de-final. O Peru é um deles e o outro é o Paraguai, que ficou em terceiro no seu grupo, B, e que vai jogar com o Brasil nos quartos. Brasil que terminou em primeiro no seu grupo, o A. Teremos, ainda, um Venezuela, segundo do grupo A, que irá apanhar a Argentina, que ficou em segundo no grupo B, e a Colômbia, primeira classificada do grupo B, que jogará os quartos com o Chile, segundo classificado do grupo C. São estas as contas para a segunda fase da Copa América. De fora, já estão a Bolívia, o Qatar, o Japão e o Equador.

   A Colômbia, antes de mais, é a minha selecção neste torneio, e acredito que seja a selecção de muitos portugueses, pese embora haja o Brasil, não é, que tradicionalmente é a selecção pela qual os portugueses se habituaram a torcer, isto nos anos em que nunca chegávamos às fases finais de qualquer competição. Por ser um país de língua portuguesa, muitos portugueses torciam pelo Brasil. Neste caso, a Colômbia tem jogadores que passaram pela liga portuguesa, desde logo James Rodriguéz e Falcao, e, sobretudo, um treinador português, Carlos Queiroz, que completa uma equipa técnica onde está Oceano, nomeadamente. Há motivos de peso para apoiar esta Colômbia, que tem sido uma das selecções que melhor tem jogado na Copa América. Foi a primeira a apurar-se para os quartos-de-final, e fez o pleno: ganhou as três partidas e terminou com nove pontos.

   Já o Brasil, que desde 2014 e da goleada com a Alemanha por 7 - 1, histórica, se vê em sucessivos apuros, conseguiu, após entrar bem na Copa e, no segundo jogo, não ir além de um empate morno com a Venezuela, terminar em primeiro lugar. É a grande favorita, por jogar em casa, a par do Uruguai e da Colômbia. O Uruguai goleou o Equador por 4 bolas e conseguiu inverter o resultado com o Japão e terminar a empatar a partida (2-2). Hoje, levou a melhor ao Chile. Tem uma linha avançada de excelência, com Suárez e Cavani, que resolvem quase sempre que a bola lhes chega aos pés. Com o Brasil e a Colômbia, será a selecção com mais talento individual. Eu colocaria estas três como as grandes favoritas.



   Chile e Peru. É certo que o Chile ganhou a Copa América de 2015 e a do ano seguinte, da edição Centenário, em 2016, mas já não tem o vigor desses anos. É uma selecção mais envelhecida, e não discute a bola com a mesma determinação. Isso foi visível no jogo com o Uruguai. O Chile jogou bem e dominou a bola em diversos momentos da partida, contudo, a recuperação de bola perante o contra-ataque do adversário não se deu com a premência de 2015 / 2016. Nota-se, sobressai, que não é a mesma. O Peru empatou com a Venezuela, goleou a Bolívia e foi goleado pelo Brasil, por 5-0, naquela que é a maior goleada até agora nesta Copa América.

   Falta-me falar, propositadamente, da Argentina e da Venezuela. Não direi nada sobre o Paraguai, que me parece ser a mais fraca das oito selecções ainda em jogo. Empatou com o Qatar, já de fora, e com a Argentina, o que não é nada de excepcional se tivermos em consideração que esta Argentina anda à deriva há muitos anos. Começando pela Argentina, eu diria que a selecção comandada por Lionel Scaloni atravessa o seu pior momento. Desde que assumiu o comando da selecção, a Argentina já conheceu quarenta jogadores. É realmente um número impressionante. Messi, como sabemos, é a grande referência, e por vezes, na Copa América, percebemos que o extremo-direito do Barcelona joga desconectado dos seus companheiros. A Argentina viu-se em risco de não seguir na competição. Perdeu com a Colômbia e empatou com o Paraguai, veja-se. A selecção com mais troféus desde que a Copa América foi instituída, e é a mais velha competição de selecções do mundo, desde 1916, só no último jogo frente ao Qatar é que logrou uma vitória folgada por duas bolas, animando-se. É uma Argentina longe das glórias dos Campeonatos do Mundo de 1978 e de 1986, com Mario Kempes e Maradona.
    A Venezuela tem sido uma surpresa, uma boa surpresa. Se não deixa de ser verdade que empatou os dois primeiros jogos, temos de ter em conta os oponentes: Brasil e Peru, teoricamente os mais fortes. No início da competição, ninguém diria que a Venezuela, que nunca ganhou uma Copa América, terminaria a fase de grupos em segundo lugar. Veremos até onde os viño tinto (em alusão à cor de vinho do seu equipamento) conseguirão chegar.

    Tenho acompanhado quase todos os jogos. Quase todos. Isto de se conjugar o estudo com o visionamento de jogos não é fácil, mas venho-o conseguindo, com maiores ou menores dificuldades. 
     Os quartos-de-final começam no dia 27, com um Brasil x Paraguai, como disse logo no início da publicação. Seguem-se, no dia 28, Venezuela x Argentina e Colômbia x Chile. No dia 29, jogam o Uruguai x Peru. Atente-se: ganhando o Brasil e a Argentina nos respectivos jogos, ambos encontrar-se-ão na primeira meia-final, no dia 2 de Julho, no Mineirão de Belo Horizonte. Confirmando-se, será uma partida monumental. Sem prejuízo do jogo do terceiro e quarto lugares, que ninguém quer disputar, a grande final é no dia 7 do mês que vem, no épico Maracanã do Rio de Janeiro. E é provável que ainda fale mais desta Copa América 2019 aqui. Até lá!

20 de junho de 2019

Feira do Livro - Lisboa 2019


   Ir à Feira do Livro já é, quanto a mim, um ritual. Faço-o não apenas pelos descontos - mas também -, bem como pela atmosfera envolvente. A Feira é, realmente, um evento que ajuda a promover a boa imagem da cidade, e torna aquela quinzena mais divertida. Há mais um spot para visitar e passar um bocado agravável. É assim que encaro uma ideia que surgiu há quase 90 anos.

   Este ano, e em virtude de andar assoberbado em avaliações, houve várias idas curtas à Feira do Livro, sempre à noite, ou quase sempre, quando saía da faculdade, exausto de tanto ler o manual de Contencioso Administrativo. Ainda conseguia arranjar um tempinho para a Hora H ou para o Livro do Dia.

   Bati o meu recorde de livros comprados: 9 (+ 1 de oferta) = 10. Há quem compre mais, muitos mais, todavia, em relação ao recorde do ano passado (6) e aos volumes adquiridos noutras edições, excedi-me, e não penso sequer em se demoro muito ou não a lê-los. Um livro é sempre um bom investimento, e não caduca, não passa de moda. Não é como uma roupa. Tarde ou cedo, irei pegar neles. Depois, os descontos em sede de feira são bastante apelativos. Vale realmente a pena. Podendo comprar mais barato, ninguém escolhe fazê-lo mais caro.


   O meu primeiro dia coincidiu com o segundo de feira, dia 30. Fui com um amigo brasileiro, que esteve cá em turismo, e que teve a simpatia de me oferecer esta pequena obra, que desconhecia, assim como o autor: Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.


   Só lá tornaria no dia 6, porque entretanto interpôs-se um exame pelo meio, no dia 5. Comprei três clássicos - eu e a fúria pelos clássicos - que ainda não tinha, e todos já adaptados para o cinema (filmes que ainda não vi, a propósito): O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde A Morte em Veneza, de Thomas Mann, e Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway.


   No dia 11, teve lugar o meu terceiro dia de feira. Afastei-me dos clássicos para me dedicar aos Nobel: Crónica de uma morte anunciada, do enorme Gabriel García Marquez; Já então a raposa era o caçador, de Herta Muller e Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa.


   No dia seguinte, 12, voltei à Feira para adquirir Terra Sonâmbula, de Mia Couto, e A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. No dia 13, último para mim, A Jangada de Pedra, de José Saramago.







   Três autores de língua portuguesa, sendo que um português, um moçambicano e um brasileiro. Clássicos e laureados com o maior galardão da literatura. Não se fala em números, mas compensou-me bastante. Gastei, ainda assim, umas dezenas de euros.

   Finalizando o período de exames, que se revela caótico, tenciono começar a desbastar os livros que comprei, não sem antes terminar alguns que deixei a meio, ao ter (re)começado os estudos. Deixo-lhes as fotos.

   E vocês, foram à Feira?

16 de junho de 2019

Rocketman.


   Continuo embrenhado no estudo, acreditem, mas, a par da Feira do Livro 2019, cujas visitas lhes darei conta em publicação ulterior, ontem fui ao cinema ver o mais recente filme biográfico sobre Elton John.

   Filmes biográficos sobre cantores e actores estão na moda. Recordem-se do recente Bohemian Rhapsody, sobre Freddie Mercury, e teremos, já em Agosto, Variações, sobre o nosso portuguesíssimo António Variações, precocemente falecido. Entretanto, ontem soube que, brevemente, irá estrear um filme sobre July Garland. Hollywood e a indústria nacional apostando em peso em biográficos, que geralmente não são grandes arrasos nas bilheteiras, ou não eram, que o filme sobre Freddie vendeu como ginjas. 

   Elton John, Sir excêntrico Elton John, nasceu no seio de uma família tradicional inglesa de classe média. Como muitas destas estrelas que, mais tarde, despontam em toda a sua excentricidade, a sua infância não foi fácil. A mãe, mal amada pelo marido, dedicava-se a escapadelas fortuitas, e o pai era de uma frieza e distanciamento emocional doentios. Negava um abraço ao próprio filho. Essa falta de afeição imprimiu as suas marcas em Elton John, a ponto de este manifestar certa fúria quando ouvia referências ao seu verdadeiro nome, Reginald Kenneth Dwight, porque provavelmente o faziam recordar a dura infância, mitigada apenas pela existência de uma avó que o apoiava e incentivava nas primeiras incursões pelo mundo da música. Mais tarde, Elton, pese embora a mãe o tivesse avisado de que não encontraria o amor levando uma vida de homossexual, pensou que seria num determinado produtor que encontraria a paz e o equilíbrios necessários, apercebendo-se, a tempo, que não passava de números para o calculista homem que dele se aproximou.

  Tentativas de suicídio depois, a Elton, à revelia do que se passava a nível pessoal, profissionalmente nada podia correr melhor. De canção em canção, ia pondo o mundo rendido aos seus pés, incluindo a difícil América. Com o sucesso, vieram a riqueza e os excessos. Droga, álcool, amantes. Sabemos que, hoje, Elton vive um relacionamento feliz, antigo, tendo constituído família e manifestando intenções de, em breve, deixar os palcos para se dedicar mais aos seus.




   Contrariamente a Bohemian Rhapsody, de argumento duvidoso e só salvo pelo desempenho de Rami Malek, Rocketman tem uma prestação fenomenal do actor principal na pele de Elton John, Taron Egerton, e um argumento bom, dinâmico, o que ajuda a tornar o resultado final positivo, para mais sendo um musical.

  O filme tem algo de surrealista e mágico, pela postura de Elton, pelas sua caracterização e roupagens, com cenas bem idealizadas, dramáticas o suficiente e bem interpretadas. Destaco uma, e agora com poucos spoilers, em que Elton, em criança, se vê a dirigir uma orquestra. Há uma perspectiva de sonho que o motivou, que o levou a correr atrás da sua projecção e reconhecimento. 

  É uma excursão pela vida do artista, e a sexualidade, a sua sexualidade, é explorada sem grandes moralismos. Elton não se aceitava bem de início, porque, a partir do momento em que passa a fazer sucesso no mundo da música, descobre-se. E o sucesso vai sendo desflorado com passagens pelos seus maiores hits. Senti a falta de alguns clássicos, contudo, como Nikita. Ponto alto também para a abordagem à sua amizade e colaboração de cinquenta anos com Bernie Taupin, que se mantém até aos nossos dias. Ainda em comparação com Bohemian Rhapsody, senti algo de profundamente íntimo e real, sem o hedonismo de Freddie Mercury, ou que quiseram imprimir à personagem de Malek no grande biográfico que antecedeu Rocketman. Elton John parece mover-se por circunstancialismos da sua infância traumática, ao passo que Freddie Mercury busca apenas a satisfação pessoal, o que é mais do que válido, evidentemente. Ambos terão sofrido, direi eu, com a falsidade e o imediatismo da indústria, onde ninguém se demora.

  Rocketman é como uma paleta de cores. Elton, um poderoso pincel, de concretização imprevisível, mas sempre fantástica.

10 de junho de 2019

Salazar e a Restauração da Monarquia.


   Olá! Agora que posso respirar de alívio, após mais de uma semana complicada, entre fazer um teste, um exame, receber três, receber notas finais e passar tardes e noites na sala de estudo, sendo que se prolongarão até pelo menos ao final do mês, lembrei-me de que já não dava notícias há algum tempo. Não há realmente muito para contar, também, que não tenho feito nada. Só o trajecto costumeiro: casa - faculdade / faculdade - casa. Na quinta-feira, sim, fui a uma conferência subordinada ao tema que consta no título da publicação. Teve lugar na Casa da Comarca da Sertã, na Rua da Madalena, e contou com a presença de Paulo Drumond Braga, historiador, e de Dom Miguel de Bragança, irmão de Dom Duarte Pio.

   Foi extremamente interessante, porque muito se diz sobre o relacionamento de Salazar com os monárquicos, e até, num exercício de direito comparado, comparamos com a solução da vizinha Espanha, em que Franco, nos anos 40, restaura a monarquia, deixando, porém, o nome do seu sucessor em aberto. Havia, à época, várias linhagens candidatas que não apenas os Borbón, na pessoa de Juan Carlos. O que parecia claro é que seria Juan Carlos, e não o pai, o sucessor de Franco.

   Por cá, Salazar, pelo simples facto de não ser chefe de estado, não nomeou sucessor, e, qual malabarista, na senda daquilo que foi o Estado Novo, um regime de consensos, procurou sempre encontrar a harmonia entre os militares, os veteranos da I República, os monárquicos, os proprietários, os trabalhadores. Enigmático como sempre, Salazar foi deixando claro que a questão da restauração ou não da monarquia, sobretudo após a morte do General Carmona, em 1951, no mesmíssimo ano do congresso da União Nacional, era uma não-questão. E terá sido em torno desse ano que os monárquicos, cuja maioria era salazarista, se convenceram de que, por ora, a monarquia não tornaria ao país. Em 1950, a lei do banimento, mais concretamente a Lei da Proscrição, que afastava os Bragança do país para todo o sempre, foi revogada, permitindo que Dom Duarte Nuno, os filhos, os irmãos e demais família pudessem regressar àquela que consideraram sempre ser a sua terra, e que não lhes era desconhecida, porquanto, sem alarido, mas com o conhecimento de Salazar, já cá tinham estado por diversas vezes em visitas à margem do que a lei estabelecia.

Sou a "oitava cabeça"

   Salazar nunca privou com Dom Duarte Nuno, mas manteve uma relação de grande proximidade com uma das suas irmãs, Dona Filipa, com quem trocou correspondência por anos. Dona Filipa de Bragança, na verdade, teve uma paixão quase platónica por Salazar, admirando-o, respeitando-o e rejeitando qualquer crítica ao estadista. Dom Duarte Nuno, igualmente, sempre manifestou apoio a Salazar. Como em tudo, o regime português foi muitíssimo diferente do espanhol, desde logo nas pessoas de Salazar e Franco, com estilos de governação distintos e personalidades também elas distintas.

   Quando se deu a morte política de Salazar, em 1968, há muito que não se falava em restauração monárquica. Marcello Caetano, republicano, havia sido, décadas atrás, um crítico acérrimo dessa ideia de retorno à monarquia. Já quanto a Salazar, embora haja monárquicos que gostem de alimentar alguma simpatia do professor de Finanças pela monarquia, a verdade e tudo quanto se sabe é que Salazar, independentemente de regimes, apenas se importava com a sua manutenção no poder. O regime que mais lhe convinha era a república, uma vez que um chefe de estado que só o era porque gozava da sua confiança, e foi assim com os três que o Estado Novo conheceu (quando Craveiro Lopes a perdeu, sabemos que já não se recandidatou…), podia ser completamente manietado. Era, efectivamente, uma mera figura protocolar. Numa monarquia, não seria assim. Um rei, desde logo pela sua legitimidade, não está sujeito ao escrutínio popular ou de parte alguma. Em Itália, Vítor Emanuel III participou da demissão de Mussolini, não nos esqueçamos.

    A conferência durou duas horas, e eu expus uma pergunta: se se conheciam cartas de Dona Filipa a Ramalho Eanes ou a Mário Soares. Pelo que parece, não. Com a morte de Salazar, Dona Filipa ter-se-á desinteressado da vida pública, recolhendo-se na sua moradia do Algarve, refúgio habitual à azáfama de Lisboa, que detestava.
   Dona Filipa não é uma figura conhecida em Portugal. Eu iria mais longe e diria que nem o pai de Dom Duarte Pio é conhecido pela generalidade das pessoas. O sentimento monárquico esfumou-se entre os portugueses. A actual família real, pretendente ao trono, goza de respeito, é certo, mas sobretudo de uma enorme indiferença. Os portugueses não sentem apego à monarquia ou aos Bragança. Eu, que me assumo como conservador, rejeito a monarquia. Da esquerda à direita, a república é consensual. Há ideia de paridade, de igualdade, que nos é cara. Gostamos muito de eleger os nossos representantes, incluindo o chefe de estado.

   Foi muitíssimo útil para mim aprofundar conhecimentos nesta relação específica entre o homem que governou o país por quarenta anos e os Bragança. Uma relação de desconfiança e de algum aproveitamento mútuo.

29 de maio de 2019

Aladdin & Brightburn.


   Sexta e sábado regressei ao cinema. Esta fase de frequências é arrasadora. Aulas e avaliações ao mesmo tempo dão cabo de qualquer um.


   Vibrei quando soube que o remake versão real do Aladdin havia estreado. É que eu, contrariamente a muitos, não tive O Rei Leão como clássico de infância - que vai estrear brevemente também. O Aladdin é o segundo dos meus favoritos do selo Disney, logo a seguir ao A Pequena Sereia

   Os desenhos-animados dos anos 90, antes do advento da realidade tridimensional, eram muitíssimo melhores. O desenho-animado, ainda que com todos os efeitos, permite-nos uma liberdade que a opção por actores de carne e osso, mesmo com todos os efeitos, não.  A versão de 1992 é incomensuravelmente melhor. Chamem-me purista.



   O Jafar é extremamente frouxo. De grande antagonista, um dos melhores do universo Disney, passou para um vizir meio idiota, inseguro, sem aquele cinismo e aquela maldade inabaláveis. Ponto fraco do filme. Aliás, um grão-vizir novo e sensual não combina absolutamente em nada com a exigência e responsabilidade do cargo de grande conselheiro do sultão. É quase o homicídio do Jafar animado. O Génio não desapontou. Will Smith manteve aquela graça do bonacheirão azul. Era um ponto extremamente sensível. Sabemos que a figura do Génio está intimamente ligada ao falecido Robin Williams. Quanto aos protagonistas, Aladdin e Jasmine, retrataram-nos mais próximos ao fenótipo do Médio Oriente, escolhendo actores para o efeito. Na versão animada, ambos são branquíssimos, como europeus, e só os cabelos negros denotam alguma ligação àquela zona do globo. Aqui, souberam ultrapassar esses preconceitos e arranjar actores à altura. Em 1992, presumivelmente, terão temido escurecer a pele aos bonecos. O Sultão, nesta versão real do Aladdin, passou de velhinho pachorrento e ingénuo para um homem amargurado, desapontado. Não combinou bem aquele Jafar fraco com um Sultão de personalidade forte. Nessa parte, o filme falhou categoricamente. Aliás, não há serpente gigante no final e nem o Iago está tão antropomorfizado. 

   Will Smith carregou o filme às costas, literalmente, porque Naomi Scott (Jasmine) e Mena Massoud (Aladdin) convencem pouco enquanto casal. A Naomi falta-lhe a sensualidade da princesa, embora a força e a determinação da personagem animada estejam presentes aqui. Guy Ritchie também deixou escapar alguns detalhes: a princesa podia ou não sair do palácio? Saía escondida? Houve cortes no filme que nos fazem perder pormenores que não são assim tão irrelevantes.

   Juntaram-se músicas novas, algumas descontextualizadas, mas os clássicos estão lá. Os efeitos ficaram ligeiramente aquém do esperado. Já sabemos das limitações do live-action  comparativamente ao desenho-animado; assim mesmo, o filme pedia mais arrojo, mais brilho. Peca por contenção. É uma versão menor, talvez a possível, onde a magia se dilui. Não nos faz brilhar os olhos.

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    O terror actual faz-me bocejar, como sabem. Sou um crítico constante de tudo o que se faz no catálogo terror actualmente. Este filme fez-me querer dar, de hoje em diante, uma oportunidade ao terror recente. Prendeu-me ao ecrã. Desde logo, o argumento é original. Depois, não imaginamos ser possível ver actos tão cruéis e calculistas num ser aparentemente tão indefeso.

    A estória faz-nos ainda repensar a resistência de alguns laços que julgamos indestrutíveis, e no final perceberão àquilo a que me refiro. Será, até, no limite, a parte mais perturbadora, mais do que o maxilar completamente à banda do tio Noah, que impressiona pelo realismo, e tão-só.



   Todo o filme tem uma realidade obscura profundamente angustiante. O celeiro abandonado, enorme, nos limites da propriedade, que guarda um enorme segredo, e aquela criança, que volta e meia se empoleira nas janelas e se suspende no ar, qual figura sinistra e aterrorizante, a antítese do Superhomem. Gostei do desempenho dos pais, interpretados por Elizabeth Banks e David Denman. Foram extremamente convincentes e essenciais no desenrolar da narrativa. É evidente que mãe não é só aquela que pare, e Tori recusou-se a acreditar, quase até ao fim, que a criatura que acolhera em sua casa, no seu lar, era o responsável pelos estranhos homicídios. São características comuns aos progenitores: amor incondicional, devoção

   No mais, temos os típicos momentos de suspense e aqueles grafismos já previsíveis, mas impressionáveis, de violência e morte. Não sendo um filme maravilhoso, consegue ser melhor e mais competente do que muito do que se tem feito recentemente na categoria.

25 de maio de 2019

As Europeias.


   A um dia das eleições, a publicação peca por tardia. Descansem que não venho fazer o tradicional apelo ao voto (útil), pelo contrário, que o mais certo será votar nulo. Não voto em branco porque o voto em branco é um perigo, e eu não confio em ninguém. Não vi qualquer debate, mas, a julgar pelos partidos e pelas pessoas, não é difícil imaginar o que defendem. Começando nos bastas e acabando nos blocos, temos tudo para todos os gostos, para alimentar o filão de Bruxelas e de Estrasburgo.

   Já sabem o que penso sobre a UE. É um grilhão de povos. Um invento franco-alemão, que surgiu com dignos propósitos de se evitar a guerra na Europa, é certo, e que décadas depois virou um instrumento de domínio. As desigualdades continuam a existir, e talvez, digo eu, seja bom para muitos que elas existam. Aqui, claro, não isento de responsabilidade os dirigentes que tivemos nos últimos trintas e tal anos, que se aproveitaram dos fundos estruturais, e não só, em proveito próprio. 

   Tão-pouco acredito que o voto para o parlamento europeu modifique seja o que for. As decisões são tomadas mais ao lado, em Berlim. A Europa, hoje, para estes senhores que nos representam, é mais um lugar seguro, fonte abundante de privilégios e prestígio. Se preciso for, em nome de uma qualquer vantagem para o país, deixa-se o barco e ruma-se a Bruxelas. Já nos aconteceu. A vantagem foi pessoal. Ninguém lucrou nada a não ser o próprio.

   Tenho ainda conhecimento das restrições que o direito europeu comporta para o nosso ordenamento jurídico. Os regulamentos, nomeadamente, vigoram automaticamente, sem necessidade de transposição. O direito europeu tem primazia sobre nacional. A nossa soberania, e não será excessivo dizer-se, está sequestrada por senhoras e senhores que representam interesses suspeitos. Longe vão os tempos do sonho europeu, que Portugal acalentou por anos, quando, despojados à força do império, nos disseram, em uníssono, Europa, Europa, Europa. E, por aqueles tempos, em nada mais acreditávamos. Julgávamos que iríamos ser recebidos de braços abertos numa Europa de comunhão e partilha. Ilusões.  Exceptuando-se Espanha, com quem mantemos, malgrado todo o passado de conflitos, uma história em comum, somos ilustres desconhecidos na Europa. Na Europa das instituições. Não na Europa das pessoas. Portugal, pelo tanto que tem a oferecer, seja na sua qualidade de vida - que não se afere apenas pelo dinamismo da economia e pela justiça social, mas também - na amabilidade do nosso povo ou no clima. 

  Há dias, assinalámos o 840º aniversário sobre o reconhecimento papal da nossa soberania. As comunidades europeias estão ainda longe dos cem anos, e a UE, como a conhecemos, nem tem trinta. Decerto que os mais atentos se perguntarão acerca da necessidade de se entregar o fundamento último da nossa existência nas mãos de terceiros, que desconhecem a nossa realidade e a nossa história. Lutámos tanto por algo que, de momento, trocamos por umas moedas. É tudo o que resta de nove séculos? A resignação? 

  Não, não acredito que os eurocépticos de hoje continuem, bem refastelados no parlamento europeu, desconfiados da UE. Não, não acredito que o voto, nestas eleições, faça a diferença. Não, não defendo o isolamento, o orgulhosamente sós do passado. Mas sim, não prescindo da nossa soberania, das nossas fronteiras, da nossa capacidade de fazer acordos comerciais com outros estados, sem intermediários.

   O voto nulo, que não acarreta o peso do desleixo, vislumbra-se-me a única opção possível. Um rotundo não à Europa. O branco, o voto, tem a mensagem política do descontentamento, e o nulo, a que eu lhe quiser pôr.

24 de maio de 2019

Um Ato de Fé.


   Estava com expectativas algo elevadas em relação a este filme. Numa altura em que tanto se fala em religião, e em que se ser cristão é quase crime lesa-majestade, estórias destas vêm ao encontro da nossa fé. Agora, não esperava tamanho bad acting e um argumento tão desinspirado. Quase tudo correu mal. O facto de se basear num acontecimento real é do pouco que se aproveita, porque é inspiracional, e faz-nos duvidar das certezas da ciência. Afinal, como a determinado momento se diz, estamos num terreno desconhecido.

  Há tempos, li um estudo que indicava que a fé pode curar. Eu acredito. Temos forças de que nem nós sabemos, sem querer, claro, diminuir o mérito de Deus - sou crente, como é público.


   O filme, sendo cristão, não é católico. Apostasias à parte, de certa forma gostei de ver a proximidade do pastor com as famílias, o que já vai acontecendo menos e menos no catolicismo, com excepção das terras mais pequenas. Todavia, e com o perdão da palavra, que todas as religiões me merecem igual respeito, não senti a verdade naquilo. Nos EUA, e não só, pululam igrejas protestantes. Pergunto-me como é que alguém pode pôr em causa a autoridade moral, religiosa e dogmática da instituição humana mais antiga que ainda resiste, a Igreja Católica. Também a sequência de factos que conduziram ao grande milagre final não escapou à banalidade. Trataram um tema potencialmente interessante de forma… rasca. É mais um dramazinho de classe média norte-americana, com um bombeiro afro que redescobre a fé, como o selvagem que Deus resgata. Ainda assim, diria que o ponto alto se dá quando, à porta do hospital, vemos um coro cantando pela cura do rapaz. É bonito de se ver toda a comunidade em torno de um propósito: fazer com que as preces sejam mais facilmente atendidas por Deus.

   A propósito, hoje vou o Aladdin, a adaptação do clássico de 1994 da Disney. Estou ansioso!

18 de maio de 2019

Extremely wicked, shockingly evil and vile.


   Não tenho boas recordações dos filmes com o Zac Efron. Vi um, uma vez, do qual não me recordo o título, e aquilo não (lhe) correu nada bem - sim, eu sei que podia ir ao Google pesquisar, mas não me apetece. Claro que o moço me despertou a atenção, na altura, e pouco mais.

   "Extremely wicked, shockingly evil and vile". Foi com esta afirmação que o juiz presidente de um tribunal da Florida se referiu a Ted Bundy, o serial killer americano, um dos mais conhecidos e sanguinários de sempre, que ceifou a vida a dezenas de raparigas. Tudo se passou nos anos 70, e Bundy, após uma série de interposições de recursos, acabou na cadeira eléctrica, em 1989, quase uma década depois do julgamento. Julgamento esse que se tornou famoso porque o assassino em série acabou por repudiar o advogado, assumindo ele o comando da sua própria defesa. Nas alegações finais, o juiz chegou ao ponto de assumir que gostaria de o ter conhecido noutras circunstâncias, e que Bundy, que acabou por se formar em Direito na cadeia, teria dado um excelente advogado. Um psicopata.

   Zac Efron esteve bem na pele de Bundy. O mesmo já não poderei dizer da sua parceira de cena. Lily Collins, que quis tanto representar a parceira sofrida que mais pareceu uma múmia. Seguramente que faria bem de múmia.




   Gostaria de salientar que o realizador contornou as cenas macabras, excepto no final. Quis mostrar a faceta mais humana de Ted, com a companheira, com a filha da companheira, e as suas inusitadas fugas dos presídios. Foi um retrato humanizado do criminoso, pérfido criminoso, que a todos enganava com o seu comportamento ordeiro e cortês, aliás, algo muito habitual em pessoas com estes transtornos.

   « Few people have the imagination for reality », como disse Goethe. Efectivamente, casos destes escapam à nossa capacidade fantasiosa. Conseguimos sempre, enquanto pessoas, ir além daquilo que o imaginário pode conceber.