22 de fevereiro de 2019

Cultural Sunday (take 29).


   Este domingo, o último antes de recomeçarem as aulas, levou-me à Casa-Museu Amália Rodrigues, na Rua de São Bento, próxima ao Rato. Por curiosidade, nunca antes a casa da Amália me havia merecido atenção, talvez por não me recordar dela.

   Fiquei com sentimentos mistos em relação à visita, e digo-lhes o porquê. O bilhete é caro, a meu ver, para o que se vê. Tenho ido a outras casas-museus, e até com mais interesse, e não pago tanto. Lembro-me, por ora, do Palácio Azurara e da Casa-Museu Medeiros e Almeida. Depois, parece-me que são demasiado intransigentes com as regras. Nada de fotografias e nem sequer se pode atender uma chamada. O lado bom é que todas as visitas são guiadas. No meu caso, era o único. Uma senhora, a Dona Estrela Carvas, guiou-me então pela casa que albergou Amália de 1955 até à data da sua morte, em 1999. Temos, à entrada, de colocar uns plásticos nos sapatos, o que se compreende porque andamos literalmente a pisar os tapetes da Diva do Fado.

   A casa, segundo me disse, está intacta, tal qual Amália a deixou. Pode-se visitar quase todos os cómodos, incluindo a copa e a cozinha. Cozinha modestíssima, diga-se, para alguém como a Amália, o que vem atestar, de certo modo, a simplicidade da artista. Para terem uma ideia, alguns azulejos da cozinha têm daqueles autocolantes. Uma cozinha velha, nada remodelada.

   No andar de cima, encontramos a sala de poesia da artista, o quarto da dama de companhia, a sala de costura e a suite onde Amália passou os seus últimos momentos de vida. Segundo consta, ela ter-se-á sentido mal ainda na cama. Caminhou até à casa de banho privativa, e por lá ficou, caída no chão, até darem com ela.

  Encontramos arte-sacra por todas as divisões. Amália era mui religiosa. Autodidacta também, segundo me contou a Dona Estrela, porque, por todos os países aonde ia, tinha de trazer um livro. Amália dizia que representava Portugal, e que uma pessoa que representa Portugal não pode ser ignorante. Falava cinco idiomas perfeitamente, não tendo frequentado qualquer curso. Era uma mulher culta. Aliás, Amália escrevia poesia. E cantou muito do que escreveu.


  De novo cá em baixo, há uma salinha adjacente repleta de fotografias da diva com inúmeras personalidades internacionais. Amália conviveu com a fina-flor do showbiz. Anthony Quinn foi seu amigo pessoal, por exemplo. Convidou-a para adaptarem, para o cinema, as Bodas de Sangue de Lorca, que Amália declinou, pois sempre se sentiu mui tímida. A sua personalidade introvertida não lhe permitiu construir uma carreira lá fora. Em todo o caso, encheu palcos pelo mundo, esgotando salas. Vendeu trinta milhões de discos.

   Foi uma visita agradável, mas esperava um pouco mais, sou sincero. A menos que a consideremos como uma passagem pela intimidade da artista, pela casa que estará perto da que deixou, em Outubro de 1999, gerando forte comoção nacional.

A foto, única permitida, foi captada por mim antes de proceder à visita.

6 comentários:

  1. Mesmo frustrando expectativas é sempre bom conhecer.

    Beijão

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  2. Confesso-lhe que Amália nunca foi o meu forte, nem tão pouco acho grande interesse ao fado (vão chamar-me, como habitual, de anti-nacional e um traidor à Pátria, já sei, mas não posso escamotear o facto).
    Reconheço-lhe, no entanto, uma voz única e, entre todos os fadistas que tive de ouvir ao longo da minha vida (e garanto que foram muitos, infelizmente), a voz desta senhora sobressaiu como a melhor.
    Assisti a um concerto dado pela senhora nos finais dos anos sessenta, e devo asseverar que conseguiu eletrizar toda uma assistência, a qual era bastante eclética. Não é fácil agradar a "gregos e a troianos", mas, aparentemente, ela conseguiu-o.
    Quanto à vida privada da senhora, nunca tive grande curiosidade sobre ela.
    Ouvi-la falar sobre assuntos que não fossem relativos ao fado que cantava, e quando entrevistada, era um pouco confrangedor. Mas eu sou suspeito, por isso menciono o facto com reticências.
    Nunca visitei a sua casa, apesar de passar à frente dela vezes sem conta. Possivelmente qualquer dia ...
    Uma boa semana e oxalá se encontre bem
    Manel

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    1. A Amália era uma mulher simples. Cresceu como vendedora da laranjas. Tinha poucos estudos. Mesmo assim, pelo pouco que a ouvi falar em entrevistas, não me parece que deixasse ninguém mal. Era uma senhora. Movimentou-se nos círculos mais abastecidos. Isso, de certa forma, permitiu-lhe saber-se mover, ter alguns conhecimentos. Era uma autodidacta.

      Depois, como artista, já se sabe: tinha uma grande voz. Cantava realmente bem. Creio que demorou muito a retirar-se. Nos anos finais, era doloroso ouvi-la, e triste, de certo modo. As pessoas têm de saber quando sair do palco. Mas ela, coitada, adorava as palmas. E as pessoas, a páginas tantas, já não aplaudiam a qualidade dos concertos, mas a artista, pelo seu legado e pelo que representava para o país.

      Uma boa semana, Manel, e obrigado. Estou a recuperar.

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