9 de fevereiro de 2019

Capharnaüm e The Favourite.


   Dois filmes bastante bons, com destaque para o primeiro, Capharnaüm, que é um drama pungente. Ambientado no Líbano, acompanhamos o dia a dia de uma criança profundamente infeliz e maltratada, que não vai à escola e que é abusada física e emocionalmente por dois pais da pior índole. Nem tudo encontra justificação na cultura e na extrema pobreza. Há gente pobre que, ainda assim, têm muito amor para dar aos filhos.

   Este filme tem uma componente curiosa, tristemente curiosa: o actor principal, que faz de Zain, e cujo nome na vida real é também Zain, foi um refugiado sírio. Só aos 12 anos, idade da sua personagem, é que aprendeu a ler e a escrever, ou seja, há um acréscimo de veracidade naquela estória. E é lamentável que Hollywood não o tenha considerado assim e não tenha nomeado Capharnaüm também para Melhor Filme, e não apenas para Melhor Filme Estrangeiro.

   Não acreditamos ser possível ver tanta miséria, tanto desapego, tamanha indiferença pelo sofrimento de uma criança que se arrasta, sem ninguém, nas ruas. Que tem uma vida que a maior parte, e felizmente, dos adultos não tem, a quem a infância é roubada. Bem a propósito, e agora afastando-me um pouco da crónica, é curioso ter visto este filme num dia em que se fala da libertação de uma mulher, em Portugal, que há quinze anos matou a filha, e de um pai, há dias, ter matado a sua bebé de dois anos. Como escrevi numa rede social, os lares continuam a ser os locais mais perigosos para as nossas crianças. Quem as deveria proteger é, geralmente, quando há indícios de abusos, quem mais mal lhes inflige.

  Tornando a Capharnaüm, há um plano, que o realizador nos dá, que gostaria de destacar: a determinado momento, vemos aquele bairro de lata gigante, que envergonharia os do Brasil, desde cima, do alto. Os tectos improvisados, de chapa, estão seguros por pneus velhos. À medida em que a câmara sobe, os pneus parecem azeitonas salpicando uma imensa pizza de miséria e exclusão social.

   Zain é um adulto num corpo malnutrido. Um menino de extraordinário carácter e destreza mental. Infelizmente, nunca chegamos a saber o que aconteceu àqueles pais e à petição do pequeno, mas nem tudo corre mal, felizmente, para Yonas e Rahil. É um aviso, de facto, para que saibamos o que ocorre com milhões de crianças pelo mundo, no ano em que assinalamos o 60º aniversário sobre a Declaração Universal dos Direitos da Criança, aprovada pela Assembleia-Geral das Nações Unidas no já longínquo ano de 1959.

   Capharnaum, na Bíblia, é uma cidade com uma dinâmica mercantil acentuada, onde Jesus operou diversos milagres. Não sei até que ponto o realizador quis fazer o paralelismo. De facto, a vida não pára na cidade de Zain, e nós mesmos, no final, somos quase que convidados a assistir a um milagre, a um milagre de profunda alegria no meio de toda aquela desgraça.

   É um grande filme, bem narrado, bem enquadrado, que todos precisamos ver, por mais que nos custe.




   The Favourite deixou-me com sentimentos mistos. Não que não seja um bom filme, que o é, o que justifica todas as nomeações, e são dez, competindo com o Roma, mas porque eu o dividiria em duas partes: uma primeira sobejamente interessante. Vamo-nos deixando seduzir por aquela corte inglesa do século XVIII, pelo guarda-roupa, pela fotografia, pelos cenários, pelo toque sempre presente de humor polvilhado com alguma obscenidade, para, numa segunda parte, parecer-nos que o realizador se vê às voltas para dar um fim digno a um bom filme. É tudo bom, sejamos sinceros, mas há ali dinâmicas que seriam, a meu ver, desnecessárias.

   Abigail, de boa, quase que passa a má. Somos levados a apoiá-la, a torcer para que consiga cair nas boas graças da Rainha Ana; no fim, passamos quase a odiá-la. Afinal, não passa de uma mulher má e completamente inescrupulosa, capaz de tudo. Acreditamos, assim, nas palavras de Sarah à Rainha, antes do exílio forçado, que, embora a manipulasse, parecia mais sincera quando lhe dizia que parecia um texugo.



  O filme também não é inovador na fórmula: filmes de época puxam sempre para as intrigas palacianas, cenas de sexo, alguma fantasia. Uma vez mais, os pecados mortais estão lá: o luxo, a ganância, a cobiça, a luxúria, a lascívia. Não falta nada, nem, claro está, três inenarráveis interpretações, sim, logo três, completando o festim: Emma Stone, no papel de ambiciosa criada; Rachel Weisz, como favorita implacável, e Olivia Colman, como Ana de Inglaterra, uma mulher profundamente infeliz e influenciável, que se deixa manobrar sem muita dificuldade.

  The Favourite é igualmente bom porque não nos confunde. Não é pretensioso. Diverte com contenção. Não se cai na palhaçada fácil. De forma mais ou menos cómica e fantasiosa, mostra-nos aquilo de que somos capazes para subir na vida, nem que para tal tenhamos de amedrontar - com tiros, empurrões, venenos - ou dissimular sentimentos, sujeitando-nos a tudo. É uma análise social, em contexto oitocentista, que se manteria totalmente válida nos nossos dias.

6 comentários:

  1. tenho de ir ver o primeiro filme, o outro já ;)

    abraço

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  2. Fiquei com vontade de ver o primeiro filme, mas ao mesmo tempo com algum "receio" porque sei que é capaz de mexer comigo. Mas vou pelo menos tentar :-).

    Quanto ao outro, parece que também é um bom filme e será certamente para ver também.

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    1. Sim, é provável que mexa. Comigo, mexeu. :)

      O outro também vale a pena.

      Bem-vindo ao meu espaço!

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  3. Vou ver os filmes e depois poderei passar aqui e dizer o que achei.

    Embora o meu canto ande relativamente desactualizado ou pouco dinâmico, está disponível para ser visitado se houver interesse. Quem lá passa é sempre Benvindo (a).

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    1. Claro que sim. Fico à espera, expectante, pelo que me tiver a dizer sobre os filmes.

      Irei passar por lá, amanhã, que já se faz tarde!

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