11 de janeiro de 2019

Escape Room & Moartea Domnului Lazarescu.


   Na terça-feira, tive a minha primeiríssima antestreia. Quando vou ao cinema, compro e pago os meus bilhetes. Esta antestreia, contudo, a par de ser a primeira, foi especialmente importante: levou-me a não gastar dinheiro, porque, uma vez que adoro terror, provavelmente iria ver o Escape Room de qualquer jeito.




   Escape Room conta-nos a estória de um grupo de pessoas em que cada uma, nas suas vidas, sobreviveu a um evento catastrófico qualquer. Receberam misteriosamente um artefacto, um cubo, com um convite para participar num jogo, que se revelaria fatal. Este conceito das escape rooms parece existir efectivamente, tendo levado a que alguns países adoptassem medidas para minorar os seus efeitos. 
   O filme não tem grande interesse. O único sentimento possível de suscitar é alguma inquietação, porque, de resto, já sabemos que quase todos irão morrer naquele jogo sádico.
    Tão-pouco valeu pelo brinde que me deram.


    Bem mais interessante foi o filme de ontem, Moartea Domnului Lazarescus, na Cinemateca. Uma longa de 2005, aclamada mundialmente, e que foi, aliás, a candidata da Roménia aos Oscars do ano seguinte, 2006. E do que trata esta estória? De um homem, que nem é assim tão velho, um sexagenário, que vive sozinho, num prédio de Bucareste, com os seus gatos. A filha está emigrada no Canadá. A mulher morreu há dez anos. Os vizinhos não gostam de animais. Em algumas das cenas iniciais, vemos como a vida prossegue, indiferente às necessidades dos outros. É particularmente notório quando Lazarescu se dirige à casa dos vizinhos da frente, para que lhe possam dar um determinado medicamento. 

    É uma tragicomédia sobre o desinteresse que a saúde de um velho homem, desgastado pelos vícios, tem entre os seus pares e a própria comunidade local, no caso os serviços que prestam cuidados de saúde em Bucareste. Falam-nos de incúria, negligência, burocracia,  insensibilidade, arrogância e vaidades. Lazarescu representa cada vez mais pessoas de meia-idade das nossas cidades.




   Importa ressaltar que é um filme-documentário, passado em ambiente hospitalar. A narrativa centra-se naquele homem, que à medida em que a madrugada avança nas horas vai perdendo os sentidos, vai morrendo, a bem dizer, vítima da incompetência e do descaso. É curioso salientar alguns pormenores que demonstram o cunho que o realizador que imprimir à narrativa. A determinado momento, um médico diz a Lazarescu: "Levanta-te e anda!" Repare-se no nome da personagem, Lazarescu, Lázaro, em Português, e na analogia com a Ressurreição Bíblica de Lázaro. Também um dos seus outros nomes - que o nome completo é repetido exaustivamente durante o filme, nos processos de triagem em cada hospital - é Dante, o que nos reporta à Divina Comédia, como se, aqui, pretendessem que nós tivéssemos a noção dos sofrimentos daquele homem, que acabara de descer aos infernos da precaridade dos cuidados de saúde na Roménia, quadro só mitigado pela aparente preocupação (caridade?) de uma paramédica, ou enfermeira, que o acompanhava desde que havia sido solicitada uma ambulância. Acredito que o filme, pelo impacto que teve, tenha causado bastante desconforto no governo romeno. Falta-me salientar isto: a imagem com que ficamos da Roménia, e sobretudo dos seus profissionais de saúde, não é, de longe, a melhor.

   Moartea Domnului Lazarescus é um filme muito prosaísta, cru. Assistimos, literalmente, ao lento definhar de um homem, numa noite chuvosa e fria. A cena final é subtilmente desconcertante: prepara-se um doente para uma cirurgia, quando, na verdade, aqueles procedimentos mais se assemelham a práticas de tanatopraxia.

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